Nossa Família
8 Capítulo Sete — Visão
Notas iniciais
— Capítulo Sete —
— Visão —
Isabella Cullen
Quando cheguei ao nosso apartamento naquela segunda-feira, faltava pouco para meia-noite. Tinha sido um dia estressante no hotel com um congresso farmacêutico que estava ocorrendo lá, fora lidar com todos os outros hospedes e uma reunião longa com Edward. Eu estava exausta, para completar ainda tinha toda a história de Matthew permeando minha cabeça.
Edward e eu o visitaríamos no dia seguinte, eu ainda me encontrava preocupada sobre o estado de Matthew. Principalmente depois de sermos avisados que em breve ele sairia do abrigo para a casa de uma tia, eu duvidava muito que a tal mulher fosse alguém ideal para cuidar dele, mas estava implorando que estivesse errada e ele encontrasse um pouco de calma e paz em sua vida.
Eu estava caminhando em direção a sala de estar, acionando os alarmes em meu celular para a manhã seguinte, quando me deparei com Edward dormindo no sofá com Renesmee. Ele tinha um braço pendendo para fora do móvel, segurando o Kindle dela, enquanto a rodeava com o outro, mantendo-a segura de não cair no chão.
Sorri para a cena, aquilo recompensando o dia estressante que tinha tido. Era sempre bom tê-los por perto.
Aproximei-me do sofá, tirando o Kindle da mão de Edward, colocando o aparelho sobre a mesinha de centro, junto com minha bolsa e celular. Então, voltei-me para as duas pessoas ruivas no sofá.
— Edward, amor, vocês tem de subir. — Afaguei os cabelos dele gentilmente. — Nessie, pequena, vamos para sua cama.
Ela coçou os olhos, os abrindo devagar, Edward ainda parecia desmaiado, seria mais complicado tirá-lo de lá.
— Mãe? — perguntou confusa.
— Sim, vamos para seu quarto, filha. — A peguei no colo, ela não era mais tão fácil de se carregar, mas eu ainda dava conta.
Edward apenas se remexeu no sofá, cobrindo os olhos com um braço, continuando a dormir.
Renesmee se acomodou em meus braços, deixando com que eu a carregasse até o segundo andar do duplex. Ela já estava em seus pijamas, então os dois deviam ter perdido a noção do tempo no sofá.
— Mamãe, eu senti sua falta no jantar hoje — Renesmee murmurou, enquanto eu a colocava na cama, a cobrindo dos pés aos ombros, mesmo com o aquecedor ainda parecia frio demais.
— Desculpe-me, filha. — Beijei sua testa, afagando seus cabelos. — Eu estarei no jantar amanhã.
— Tudo bem. — Assentiu, agarrando-se no ursinho de pelúcia que tinha ganhado de Jasper quando nasceu. — Amo você, mamãe.
— Amo você também, princesa. — Sorri, voltando a beijar sua testa. — Durma agora, amanhã vai acordar cedo.
Eu desliguei o abajur que estava ligado, sabendo que Renesmee odiava dormir com qualquer luz acessa que fosse, então deixei o quarto dela.
De volta a sala, encontrei Edward na mesma posição. Eu tentei chamá-lo, mas ele parecia nocauteado, desisti quando percebi aquilo. Procurei por uma manta na lavanderia, levando-a até ele quando encontrei, o cobrindo para que não ficasse congelado ali durante a madrugada.
— Boa noite, querido! — Beijei sua bochecha.
Eu tinha comido algo no hotel por volta da hora do jantar, sendo assim apenas tomei um banho, vesti uma samba canção de Edward e um moletom dele de Harvard, indo para a cama. Era absurdamente estranho deitar sem meu marido, com mais de dez anos de relacionamento, eu tinha uma grande dependência dele a noite. Sempre foi um tormento quando Edward estava viajando a trabalho, eu detestava quando ele tinha de sair da cidade.
Estava rolando de um lado para o outro na cama, com a insônia dominando, enquanto pensava em Matthew, quando ouvi a porta do quarto se abrindo. Logo depois, o peso ao meu lado na cama e um braço me envolvendo.
— Desculpe ter apagado no sofá — Edward murmurou com a voz rouca de sono, seu rosto repousando na curva do meu pescoço. — Renesmee e eu estávamos lendo, nós dormimos no meio do livro chato que a escola mandou que ela lesse.
Eu ri, aquilo era típico de Edward e Renesmee, remexi-me em seus braços virando de frente para ele, escondendo meu rosto em seu peito. Ele usava uma camiseta junto com sua calça moletom, fazendo com que sentisse o cheiro de sabão de roupa, o que era horrível, eu queria sentir o cheiro de Edward.
— Tire isso — pedi, puxando a barra de sua camiseta para cima.
— Querida, eu odeio negar sexo, isto não é da minha natureza, mas não estou acordado suficiente para. Você pode se aproveitar do meu corpo se quiser, mas eu duvido que reaja como você espera.
— Oh Deus, você sempre leva tudo para sexo. — Sentei na cama, ele abriu os olhos, ainda porre de sono. — Vamos, tire isso. — Puxei sua camisa outra vez, fazendo com que ele terminasse de tirá-la. — Apenas quero sentir o seu cheiro, não de sabão em pó. — Joguei a peça de roupa aos pés da cama.
Voltei a me afundar na cama, colocando meus lábios sobre o peito de Edward, beijando na direção de seu coração. Ele me aconchegou em seus braços, seu cheiro, respiração e toque conduzindo-me para o sono tão logo foi possível.
***
Eu ajudava Nelly a preparar o café da manhã no dia seguinte, quando Renesmee entrou na cozinha. Meus olhos pairaram sobre ela por um mísero segundo e eu já sabia que tinha algo de errado.
— Filha, o que foi? — perguntei, colocando um copo de suco diante a ela na mesa.
— Eu estou com dor, posso ficar em casa hoje? — ela reclamou.
— Ei, onde dói? — Sentei a cadeira ao lado dela, tocando em seu pescoço e testa, mas ela não tinha febre.
— Minha cabeça.
— Oh Deus! — Nelly exclamou alarmada, colocando um prato cheio de panquecas no centro da mesa. — Será que ela tem aquela doença? Dengue, não? — questionou-me preocupada.
— Ela não tem febre ou manchas pelo corpo. — Chequei os braços de Renesmee. — Querida, você tem sentido essa dor por quanto tempo?
— Vem e vai — admitiu.
Levantei da cadeira, afastando-me até o calendário que tínhamos ali, o colocando diante Ness, próximo ao seu rosto.
— Consegue ler?
— Sim, dia 21 de fevereiro.
Mudei algumas folhas no calendário, dando uma grande distância entre Renesmee e eu.
— E agora?
Ela forçou os olhos, tentando enxergar.
— Dia 5 de julho?
— Nem perto disso, filha. 9 de junho. — Devolvi o calendário para o local.
— Alguém terá de usar óculos. — Nelly brincou.
— Quem? — Edward entrou pela porta da cozinha, voltando da academia.
— Ness, aparentemente ela herdou a miopia de Carlisle e Rosalie.
Ele fez uma careta.
— É uma loteria genética terrível. — Suspirou. — Sinto muito, querida, usar óculos deve ser um saco. — Ele foi até ela, beijando a cabeça de Renesmee.
— Não quero usar óculos — Renesmee murmurou.
— Vamos deixar o médico ver isso, mas ao que tudo indica terá de usar sim. — Todos sentaram ao redor da mesa para comer, eu pude ver Edward e Renesmee estremecendo a palavra médico.
Eles tinham algum grande problema com médicos, devia ser genético também. Mas, dentistas ainda eram piores, eles simplesmente morriam de medo, Renesmee até mordeu um uma vez, teve sangue envolvido.
— Eu marco a consulta, não se preocupe com isso — Nelly falou. — Então, é hoje que irão visitar o garotinho? — perguntou.
— Sim — Edward e eu respondemos juntos.
— Que garotinho? — Ness perguntou curiosa, mas ainda abatida sobre os óculos.
— Lembra-se do garotinho que vimos no restaurante? No dia dos namorados — Edward falou.
— Ah claro! — Renesmee assentiu. — O que estava com fome e frio, ele está melhor, papai?
— Sua mãe e eu vamos checar isso hoje.
— Eu posso ir junto? — ela perguntou, ficando empolgada. — Eu tenho uma porção de cobertores, mamãe. — Se voltou para mim. — Posso dar alguns para ele não sentir mais frio. E, tem muitos biscoitos aqui, vocês podem levar para ele não ficar com fome.
Meu coração se encheu de orgulho ali, eu podia não ser uma grande mãe, mas estava criando uma filha que era melhor do que muitos adultos.
— Infelizmente você não pode ir conosco, filha — Edward disse. — Eles não permitiriam sua entrada no abrigo. — A voz dele vacilou ao dizer a última palavra. — Mas nós iremos levar algumas coisas para Matthew sim, obrigada por sua generosidade, continue assim. — Afagou os cabelos dela.
— Nelly, pode separar alguns cobertores e lanches para que levemos? Mande por Félix esta tarde. Eu vou tentar alguma hora de folga para comprar roupas — falei para ela, que concordou com um aceno de cabeça.
— Ele gosta de ler, mamãe? — Ness me perguntou. — Eu tenho alguns livros que estávamos separando para doar para a biblioteca municipal, lembra? Você e papai podem levar alguns para ele. Tipo, aquele dos Três Porquinhos, eu tenho medo do lobo, não quero mais ler aquela história.
— Nós levaremos alguns livros— murmurei, eu suspeitava que Matthew não sabia ler, mas ele podia se divertir com as gravuras.
Renesmee pareceu engolir uma panqueca em duas mordidas, então pulou de sua cadeira.
— Eu posso subir e separar os livros antes de ir para a aula, papai?
— Pode. — Edward terminou seu café rapidamente também. — Vamos subir, eu tenho de me arrumar.
— Sim, você está todo suado! — Nessie proclamou, segurando na mão dele, o puxando para fora da cozinha.
— Ela é uma garotinha maravilhosa — Nelly falou cheia de adoração, sorri para ela, concordando com um aceno de cabeça. — Você e Edward parecem bem preocupados sobre Matthew.
— Não há como não ficar. — Remexi a panqueca em meu prato. — Já faz uma semana desde que vimos aquela cena, mas ela ainda está muito forte em minha mente. Tanya nos disse ontem que em alguns dias ele irá ter sua guarda destinada a uma tia.
Nelly franziu a testa.
— Você não parece gostar disso.
— Eu sei que ele não tem mais ninguém, com o pai preso como te dissemos e tudo mais, mas sei lá, eu não acredito que essa tia seja alguém bom. — Renesmee entrou na cozinha, carregando uma pilha de livros.
— Aqui, mamãe! — Os colocou na cadeira ao meu lado. — Eu separei todos os livros que não quero mais, você acha que Matthew vai gostar?
— Eu tenho certeza de que vai, filha. — Toquei o rosto dela, vendo seus olhos verdes se iluminarem. — Seu pai e eu diremos a Matthew que foi um presente seu.
— Okay, mãe! — Ela sorriu. — Eu ainda estou com dor de cabeça — falou, voltando a ficar amuada.
— Você ainda tem de ir para a aula — afirmei, mas sai da mesa, indo procurar por algum remédio leve que amenizasse a dor. — Vai ficar uma graça de óculos, filha — declarei.
— Eu fico uma graça de qualquer jeito, mãe — afirmou, fazendo com que eu risse. Ela, sem duvida alguma, tinha herdado a autoestima de Edward.
***
Consegui uma hora de folga do trabalho durante a manhã para seguir até uma das lojas do hotel e comprar roupas que julguei que caberiam em Matthew, com minha primeira missão do dia realizada com sucesso, eu tinha o horário do almoço livre. Edward me ligou e avisou que Rosalie estava vindo almoçar com a gente no restaurante do hotel, assim como Jasper que viria com ele da torre ao lado.
— Emmett, saindo para almoçar? — perguntei quando deixei minha sala, vendo-o sair da sua também.
— Sim, eu estava prestes a comer a quinta barra de cereal do dia, não aguento mais, preciso de carne. — Riu.
— Venha comigo, nós estamos almoçando em grupo hoje.
— Tem certeza? Não quero atrapalhar.
Ele era estritamente profissional, foi um dos grandes motivos que me levaram a contratá-lo.
— Vamos, eu prometo não falar de trabalho.
— Você sempre fala de trabalho.
Okay, era uma verdade.
Jasper e Edward já estavam no restaurante quando chegamos ali, sentados lado a lado, rindo de algo.
— Mova-se para longe do meu marido, Whitlock! — Balancei a cadeira que Jasper estava, ganhando um revirar de olhos dele, que ocupou uma das cabeceiras.
— Você sabe que eu vim primeiro, Isabella. Edward e você apenas são casados, podem se divorciar, ele e eu somos melhores amigos, isso é eterno.
— Cara, eu não perderia minha esposa e ficaria com você, é uma péssima troca. — Edward beijou minha mão, indicando que eu ocupasse o lugar que antes Jasper estava. — Olá Emmett, é bom vê-lo. — Cumprimentou o subgerente com um rápido aperto de mão, enquanto Emmett sentava diante de mim do outro lado da mesa.
Edward tinha tido uma grande crise de ciúmes quando contratei Emmett, algo em sua autoestima inabalável finalmente se abalando. Ele estava a todo tempo fazendo visitas no hotel, me beijando e abraçando diante Emmett, o que me irritou profundamente, até que eu o confrontasse.
Acabou que ele confessou que Emmett parecia uma ameaça, principalmente por olhar para mim com tanta admiração. Mas, Edward estava confundido aquilo. Tinha admiração, mas era no quesito profissional, já que Emmett tinha confessado um milhão de vezes que eu o inspirava profissionalmente. Ele nunca me desrespeitou de forma alguma.
Com o tempo o ciúme finalmente se dispersou.
— Edward, como vai?
— Morrendo de fome. — Edward riu. — Mas se pedirmos antes da minha irmã chegar ela arrancará nossos fígados.
— Ei, como assim você quer dizer que escolhe a Bella antes de mim? — Jasper retornou ao assunto anterior. — Eu pensei que éramos melhores amigos.
— Jazz, aceite, Edward é meu desde o Halloween de 2005. Você o perdeu. — Pisquei para o loiro, que bufou.
— Você não o teria se eu não estivesse precisando ir aquela festa, Edward estava todo cheio de receios em ir falar com você.
— Eu não estava. — Edward limpou a garganta, constrangido em ter sua confiança desmoralizada diante Emmett, pois eu já sabia há muito tempo sobre ele com medo de chegar em mim antes daquela festa de Halloween. — Ah finalmente ela chegou!
Eu vi Rosalie entrar no restaurante, vestida para matar, diferente da visão que tive dela no domingo. Usava uma blusa branca de mangas longas, mas com decote, calça jeans claras e botas com os canos para fora da calça, que chegavam até seus joelhos.
Aquela era Rosalie que conhecia, sempre pronta para causar enfartes em homens heterossexuais e mulheres homossexuais.
Notei os olhos de Emmett arregalarem-se ao vê-la se aproximando da nossa mesa, a última vez que Rose esteve em Chicago foi na época do Natal, ela não pisou no hotel durante aquele tempo, então não tinha como ele a conhecer. Isso é, eu estava levando em conta que ele não ficava vendo sites de fofocas, onde Rose ocupou algumas páginas nas últimas semanas.
— Olá! — Ela beijou a bochecha do irmão, então a minha. — Jasper, você ainda não voltou para o Texas? — brincou com ele, o abraçando por um instante.
— Deus me livre, eu sequer como churrasco por me lembrar de lá — falou.
— Rosalie, este é Emmett McCarty. — Os apresentei. — Trabalha comigo no hotel, é o subgerente.
— Olá! — Rosalie apertou a mão dele, ocupando o lugar ao lado de Emmett, sentando diante ao irmão.
— O-Oi — Emmett gaguejou, parecendo deslumbrado demais com Rosalie.
Olhei para Jasper, que acenou positivamente para mim com a cabeça, nós dois entendendo os olhares de Emmett para minha cunhada. Emmett e Rosalie poderiam funcionar? Isso poderia ser interessante.
— Então, onde estão as meninas? — perguntei a ela, enquanto Edward chamava um garçom.
— Com mamãe, ela praticamente me chutou para fora de casa, dizendo que eu precisava de um pouco de diversão. — Rolou os olhos, pegando o cardápio entregue pelo garçom, praticamente colando-o em seu rosto para poder ler.
— Minha filha tem miopia graças a você! — Edward a acusou.
— Foda-se, sim! — concordei. — Você e Carlisle disseminaram miopia nos genes Cullen, ele parou em minha garotinha.
— Eu não posso controlar isso. — Rosalie deu de ombros.
— Talvez você precise colocar seus óculos para enxergar o cardápio melhor? — Emmett perguntou a ela, ainda intimidado pela beleza de Rosalie, que se voltou para encará-lo.
— Eu não uso meus óculos em público, é constrangedor, fico horrenda com eles.
— E ela morre de medo de usar lentes, pois acredita que vai infeccionar e ficar cega — Edward bufou, dividindo um cardápio comigo.
— Eu não vou colocar nada nos meus olhos, é perigoso! — Rosalie exclamou.
— É tranquilo — Emmett disse. — Eu uso lentes.
— Sério? — Rose olhou bem para ele. — Lentes transparentes?
— Sim, eu usei azuis por um tempo na faculdade, mas aquilo realmente não combinava comigo. Eu tenho um médico incrível, se quiser posso te passar o número dele. Vai tirar todas suas duvidas sobre lentes, eu troquei de óculos para lentes, pois sempre acabava os perdendo por ai.
— Troco o meu praticamente a cada três meses. — Rosalie fez uma careta. — Minha filha mais nova sempre acaba quebrando-os sem querer.
— Você tem filhas?
— Duas. — Rosalie sorriu largamente. — Lucy e Anne, gostaria de ver uma foto delas?
— Claro! — Emmett concordou prontamente, enquanto Rosalie já pegava seu celular.
Edward se inclinou na minha direção, falando diretamente em meu ouvido.
— Emmett está interessado em Rosalie, ou eu preciso de óculos também?
— Sua visão é perfeita, querido — falei, Edward me olhou meio alarmado. — Não comece a bancar o protetor agora — ordenei.
Mesmo Rosalie sendo a mais velha, Edward sempre foi muito protetor sobre a irmã, aquilo só tinha aumentado depois da traição de Royce.
Edward resmungou algo, fechando a cara para Emmett que tecia elogios as nossas sobrinhas, ainda vendo as fotos com Rosalie.
— Então, você já se convenceu de que perdeu Edward? — perguntei a Jasper.
— Ele é todo seu, boa sorte quando ele quiser falar sobre golfe com você e detestar isso.
Mordi o lábio, aquilo era perigoso, eu detestava golfe, mas Edward era fascinado.
— Tudo bem, Jazz, nós podemos dividi-lo.
***
No meio daquela tarde, Edward e eu seguimos para o abrigo. Nossas mãos cheias de sacolas de mantimentos para Matthew.
O local tinha desde sua fachada um aspecto terrível. Acinzentado, com a pintura desbotando e com uma arquitetura que se assimilava muito a com as de filmes de terror, com estruturas antigas e sombrias.
— Olá, somos Edward e Isabella Cullen, nós viemos visitar Matthew Stevens — Edward informou a recepcionista do local.
— Só um instante — ela pediu, batendo nas teclas de seu computador antigo.
Ali dentro tudo parecia mais assustador, era silencioso e frio. Eu agarrei o braço de Edward, sentindo-me triste naquele lugar.
— Okay, identidades. — A mulher estendeu a mão em nossa direção.
Edward e eu entregamos nossa documentação a ela, que bateu em mais algumas teclas antes de devolver nossos documentos.
— Vocês tem comida ai? — Apontou para as sacolas em nossas mãos.
— Sim, nós...
— Vocês não podem entrar com comida, é proibido, terão de se livrar disso.
Ela contornou o balcão, parando diante a gente.
— Eu preciso vistoriar as sacolas.
— Nós não estamos traficando drogas, são apenas mantimentos, isso é ridículo! — exclamei exasperada.
— Bella, querida, acalme-se — Edward pediu, eu respirei fundo, tentando manter a calma, sabendo que criar um conflito ali podia nos custar não ver Matthew.
— As sacolas! — a recepcionista, baixinha e de cabelos que começavam a ficar brancos exigiu.
Edward e eu entregamos as sacolas para ela, seu nariz torcendo ao ver a comida, um lembrete de que aquilo não poderia entrar de forma alguma.
— A comida vai ter que sair. — Apontou para a porta do abrigo. — As roupas e cobertores tem de entrar para a doação geral do abrigo, não podem ser dadas diretamente a criança que vão visitar, a regulamentos sobre isso. Vocês podem entrar com os livros.
— Tudo bem, mas você pode fazer pelo menos metade das roupas chegarem a Matthew? Ele pode precisar quando...
— Vocês tem apenas meia hora de visita — a mulher interrompeu Edward. — Nem um minuto a mais. Livrem-se da comida se quiserem entrar. — Pegou as sacolas com roupas e cobertores, deixando apenas a de livros em minhas mãos e de comidas nas de Edward.
— Nós faremos isso — Edward disse entredentes, marchando para fora do abrigo, levando a sacola com comida até o carro onde Félix esperava por nós dois. — Podemos entrar agora e ir vê-lo?
— Me acompanhem.
Ela guardou as sacolas atrás do balcão, nos guiando por um corredor apertado, eu podia ver as marcações nas portas que passamos indicando os dormitórios femininos e masculinos, como as divisões por idade. Ali era tão silencioso que eu não podia acreditar que tinham crianças naquele local.
— Eles passam o dia inteiro nos quartos? — Edward perguntou quando chegamos em uma salinha branca, um carpete encardido cobria o chão, um jogo de cadeiras completava o local, com uma TV e um sofá desgastado.
— Eles estão em uma área comum lá em cima agora — a mulher falou desinteressada. — Eu vou chamar o garoto. — Saiu da sala, batendo a porta ao passar por ela.
— Esse lugar é horrível — Edward verbalizou meus pensamentos. — É pequeno, mofado e antigo.
— Estou tão revoltada, o que mal a comida faria? Nós somos pais, não iríamos dar a ele nada que cause alguma doença, eram lanches saudáveis. E o regulamento sobre roupas? Eu passei um longo tempo escolhendo-as para Matthew, agora é capaz de que ele sequer veja uma delas antes de sair daqui para ir morar com a tal tia.
Não muito depois a porta se abriu, uma mulher diferente apareceu com Matthew. Eu sequer consegui prestar atenção nela, focando no garotinho ali, ele usava roupas cinzas, como tudo naquele lugar e sandálias de dedo, mas ainda parecia muito magro como na semana passada.
Os olhos dele se arregalaram ao nos ver, tentando sair da sala.
— Eles estão aqui para vê-lo, Matt — a mulher falou suavemente, parecendo muito mais gentil do que a recepcionista. — Oi, sou Tia, trabalho aqui no abrigo — se apresentou para Edward e eu, ela tinha traços do oriente médio em suas feições.
— Olá Matthew, você se lembra da gente? — Eu me aproximei cautelosamente dele, que segurava com firmeza na mão de Tia. — Bella e Edward Cullen, nós estivemos com você na semana passada.
— Eu sei — sussurrou, parecendo assustado. — Vocês chamaram os policiais, meu pai diz que não podemos confiar neles — acusou.
Troquei um rápido olhar com Edward, sem saber o que fazer, mas ele parecia tão perdido como eu. Porém, Tia intercedeu por nós dois.
— Matt, o senhor e a senhora Cullen estão aqui por se importarem com você — falou, ajoelhando na frente dele. — Eles deixaram você sair com os policiais aquele dia por ser necessário.
— Matthew, se você quiser nós podemos ir — Edward disse, se aproximando de mim, eu quis mandar que ele calasse a boca, mas logo entendi o que ele estava fazendo. — Mas, antes, nós trouxemos alguns presentes, será que pode ao menos sentar com a gente por um minuto e recebê-los? — Apontou para a sacola com os livros em minha mão.
Matthew olhou confuso para a sacola, então para Tia, que sorriu para ele.
— Vá em frente, Matt — incentivou, erguendo-se do chão. — Eu vou buscar algo para beber, desejam café ou água?
— Café — Edward respondeu. — Querida? — perguntou para mim.
— Nada, obrigada. — Eu estava com o estômago embrulhado demais até mesmo para bebidas.
— Eu já volto, Matt. — Tia afagou o rostinho dele, saindo da sala.
— Então. — Edward pegou a sacola da minha mão, a colocando no chão, enquanto se agachava para mexer nela, um sorriso brincalhão em seu rosto. — Nós temos uma filha, Matt...Posso chamá-lo de Matt?
— Pode — Matthew murmurou, ainda olhando desconfiado para nós dois.
— Bom, como eu ia dizendo, Bella e eu temos uma filha e ela tem uma porção de livros e quando soube sobre você quis te mandar alguns de presente. — Tirou o primeiro da sacola, justamente Os Três Porquinhos, eu sorri, Renesmee realmente detestava o lobo. — Aqui, pegue, é seu agora. — Edward estendeu o livro a Matt, que o ignorou.
— Eu não sei ler — afirmou, como eu suspeitei.
— Eu posso ler para você — sugeri, atraindo sua atenção para mim. — Sou uma excelente leitora, não é mesmo, querido?
— A melhor! — Edward declarou, afagando minha perna nua graças a saia que eu usava.
— Venha, não fique tímido. — Tentei segurar na mão de Matthew, que rapidamente se afastou. — Que tal sentarmos no sofá? — propus, ele apenas se moveu até o estofado, Edward recolheu os livros então seguimos para lá.
Sentei ao lado de Matthew, enquanto Edward ocupava uma das cadeiras ali perto.
— O nome da história é Os Três Porquinhos. — Apontei para o título na capa, Matt tinha um olhar curioso sobre o livro, mas mantinha suas mãos presas debaixo de si. — Toque na capa, ela tem uma textura engraçada. — Percorri meu dedo pelo lobo na capa, que tinha pelo sintético na cauda. — Viu? — Arrepiei os pelos, sorrindo para Matt, que parecia espantado com aquilo.
Ele esticou uma mãozinha, tocando na cauda também.
Tia entrou na sala silenciosamente, entregando o café para Edward, então sentando-se na cadeira mais afastada de nós três.
O livro era curto, então em dez minutos eu já tinha o lido todo para Matthew, mas com toda a recusa dele inicial, já estávamos ali a mais tempo. Logo teríamos de ir embora, eu precisava de informações mais precisas sobre o estado dele, então tinha de agir antes de ser muito tarde.
— Matthew, que tal Edward ler outro livro para você agora? Enquanto isso eu converso um pouco com Tia — sugeri.
Edward logo assumiu meu lugar ao lado de Matthew, entendendo o que eu queria. Ele pegou algum dos livros da sacola, já iniciando a leitura, fazendo uma leitura dramática como fazia com Renesmee.
— Senhora Cullen. — Tia se levantou, nós caminhamos até a porta, nos afastando para que Matthew não ouvisse, mas eu podia notar Edward concentrado na gente.
— Você sabe me dizer se o médico já avaliou Matthew?
— Sim, ele tem um grau leve de anemia, mas já está sendo medicado para isso — informou. — Minha garganta fechou ao saber aquilo.
— E o que mais sabe sobre ele? Ou sobre o pai? Talvez algo sobre a mãe.
— Tudo que sei é que Matthew e o pai dele já estavam morando nas ruas por alguns meses. — Meu coração doeu ao ouvir aquilo, troquei um olhar com Edward, que entendeu que as informações não eram nada boas. — Aparentemente a mãe dele morreu quando Matt era mais novo, eu não sei a causa.
— Sobre a tia que irá ter a guarda dele?
— É irmã mais velha de Laurent, Matthew não lembra muito bem dela, mas me disse que ela tem filhos.
Eu suspirei aliviada com aquilo, ela era uma mãe, saberia como cuidar dele, pelo menos era o que esperava.
— Desculpe, eu acho que nunca perguntei a idade de Matthew.
— Sete — respondeu. — O aniversário dele é em abril, então quase oito.
Assenti, voltando meu olhar para o sofá, pude ouvir Edward recitar falas de João e o pé de Feijão. Matthew olhava atentamente para o livro, aquilo tudo parecendo muito novo para ele.
— Tia, será que podemos conversar lá fora por um minuto? — Segurei em seu braço, a arrastando para fora antes de obter uma resposta.
— Senhora Cullen, o que...
— Você sabe quem Edward e eu somos? Reconhece nosso sobrenome?
Ela riu baixinho.
— Acho que todos em Chicago e no resto do país conhecem os Cullen, senhora, mesmo que apenas saibam os nomes.
— Okay. — Remexi na bolsa em meu ombro. — Há câmeras neste corredor?
— Não.
— Excelente. — Tirei algumas notas de cem dali. — Eu quero que você aceite isso para dar um suporte necessário a Matthew até que ele saia e vá morar com a tia. — Ela olhou ao redor, parecendo preocupada, mas aceitou o dinheiro. Como pensei, as vezes era necessário suborno para fazer as coisas andarem. — Quero que tome conta dele enquanto ele permanecer aqui, se ele precisar de algo com muita urgência e o município recusar, ou protelar a dar, você irá me ligar e me informar. — Passei meu cartão para ela. — E, quando ele deixar o abrigo quero saber o endereço e nome completo da irmã do pai dele.
— Senhora, isso é sigiloso.
Remexi mais em minha bolsa, estendendo mais dinheiro a Tia.
— Acho que isso é suficiente para fazê-la falar, certo? — Lhe lancei um olhar duro, ela concordou com um aceno de cabeça. — Foi o que pensei, eu quero saber tudo que for possível sobre a tal mulher.
— Sim, senhora Cullen, eu cuidarei de informá-la.
— E de ficar de olho em Matthew — lembrei. — É importante que ele fique seguro, ligue-me todo dia para informar como ele está.
— Claro, eu mesma me responsabilizarei por ele até que saia do abrigo.
— Ótimo. — Olhei no relógio em meu pulso, só mais alguns minutos. — Vou me despedir dele com meu marido, acho que pode esperar pela gente aqui fora.
Não esperei por uma resposta, entrando na sala sozinha.
Eu assenti para Edward, deixando-o saber que tinha cuidado de nossa fonte de informações. Se estávamos cegos graças ao sistema burocrático, nós lidaríamos daquilo da nossa forma.
— Matt, Edward e eu temos de ir agora — falei, vendo-o levantar os olhos do livro. — Foi muito bom revê-lo. — Fui até eles, afagando seu rosto. — Nós tentaremos vir em breve, certo? — perguntei a Edward.
— Sim, ainda temos um monte de livros para ler para você. — Gesticulou para a sacola com os livros.
— Tanto faz — Matt disse desinteressado, mas seus olhos tinham um tom de chateação.
— Eu posso abraçar você? — perguntei, ainda afagando seu rosto, sentindo as lágrimas se acumularem em meus olhos.
Eu também não esperei uma resposta dele, envolvendo Matt em meus braços. Pude ouvir a porta se abrindo, então a voz da recepcionista avisar que tínhamos de ir naquele momento.
Edward tocou em meu ombro, fazendo com que eu me afastasse de Matt.
— Seja forte, Matt — Edward sussurrou, olhando nos olhos de Matthew. Eu podia me lembrar dele dizendo aquilo na noite que o conhecemos, enquanto deixávamos o garotinho na viatura policial.
— Vocês precisam ir!
— Vai ficar tudo bem. — Beijei a bochecha de Matt. — Vai ficar tudo bem — repeti, mais para mim do que para ele.
Fale com o autor