Nossa Família
5 Capítulo Quatro — Abrigo
Notas iniciais
— Capítulo Quatro —
— Abrigo —
Edward Cullen
Eu era branco, rico, hétero e cresci em um mundo que fome, situações de risco, ou preconceitos não me cercavam. Tudo de ruim parecia estar muito longe de mim, quando criança, minhas únicas preocupações eram esconder de meus pais minhas notas baixas, fugir das brincadeiras de Rosalie, ou evitar os legumes no meu prato.
Então, foi impactante ficar exposto aquela cena no restaurante. Eu não sabia o que fazer, ou se devia fazer algo. Nunca tinha presenciado uma cena daquelas, até aquele momento da minha vida estive preso em um mundinho perfeito que meu sobrenome — que bem antes do meu pai e do meu avô já era um sinônimo para dinheiro e prestigio — oferecia.
Cresci cercado por dinheiro, boas escolas, bons restaurantes, boas roupas. Tudo do padrão mais alto, já tinha propriedades em meu nome com apenas cinco anos de idade.
Enquanto isso, eu estava diante a uma cena agoniante, onde uma criança, que devia ser mais nova do que a minha filha, era humilhada. Uma criança negra, de aparência frágil, sem sapatos, de roupas desgastadas e sujas.
Não soube o que fazer, parte de mim queria dizer algo, falar algo, mas eu me sentia preso dentro de mim mesmo, incapacitado de qualquer coisa. Porém, ela sabia, era claro que ela sabia o que falar, ou que fazer.
Eu não sabia dizer se era por seu instinto materno, ou por ela ser ela. Desde o primeiro momento que coloquei meus olhos sobre Bella, naquela aula de cálculo tantos anos antes, toda confiante de si enquanto respondia os cálculos para o professor, sem sequer ser chamada para isso, soube que ela não era qualquer garota.
Ainda estava em um debate com minha mente sobre tudo aquilo, quando ela já estava de pé, caminhando até lá. Eu a chamei, não sei bem se para impedi-la, ou pedir que ela não se exaltasse. Mas, me surpreendi quando finalmente meu corpo encontrou alguma ação, passando a segui-la, levando comigo meu casaco, pois só conseguia imaginar o frio que aquele menino devia estar sentido em pleno mês de fevereiro em Chicago.
Eu estava prestes a me unir a Bella e ao garoto, quando a mulher de antes voltou a se manifestar.
— Eu quero esse moleque fora daqui, deve estar no restaurante para nos roubar...
— Cale a boca! — gritei com ela, pouco me importando se Esme fosse ficar furiosa sobre eu estar gritando com uma mulher, aquela merecia um tratamento a altura de suas palavras grosseiras.
— Não grite com minha mulher! — o homem exclamou.
— Senhor, sua mulher é preconceituosa e sem coração algum! — rebati. — Ele é apenas uma criança.
— Senhor... — Lionel começou a falar comigo, mas se calou quando o encarei.
A mulher e o homem continuavam a mandar Lionel tirar o garoto dali, mas os ignorei, me ajoelhando junto de Bella. Mesmo na iluminação fraca podia ver os olhos molhados da minha esposa, o que doeu em mim profundamente, odiava vê-la chorando.
— Edward — sussurrou. — Este é Matthew. — Sorriu para o menino, então pude vê-lo melhor, ele também chorava, mas o pior de tudo era o pavor em seu rosto.
— Você está com frio? — perguntei a ele, que se encolheu, assentindo. — Vamos aquecê-lo, certo? — Coloquei meu casaco sobre seus ombros. Ele era tão magro e pequeno, devia ter no máximo oito anos.
Antes que eu pudesse fazer qualquer outra coisa, Bella já tinha o embalado em seu colo, parecendo tão preocupada. Ele tentou se soltar, mas ela o firmou em seus braços. A ajudei a ficar de pé, segurando em seu braço para sustentá-lo também.
— Você devia estar na cadeia — Bella praticamente rosnou para a mulher. — Ele é uma criança perdida, assustada, com frio, provavelmente faminta. Enquanto você está ai, enchendo seu estômago de comida francesa cara, pensando que tudo que ele quer de você é roubá-la? Tenha um pouco mais de empatia pelo próximo. — A mulher e o homem se levantaram com a fala de Bella, mas em momento algum ela pareceu com medo deles, os encarando de cabeça erguida.
— Lionel, tire os daqui! — ordenei ao maître, que me olhou chocado.
— Se-Senhor Cullen, e-eu — gaguejou.
— Até onde eu sei o Cullen Hotels tem mandado hospedes e mais hospedes para cá ao longo dos anos, vocês não irão à falência por dois deles. Eu os quero longe daqui, agora! — afirmei, conduzindo Bella de volta a nossa mesa, sentindo os olhares de todos nos restaurante sobre nós dois e o garotinho em seus braços.
Bella sentou Matthew na cadeira que ocupava antes, o enrolando com mais cuidado em meu casaco para continuar mantendo-o aquecido. Sinalizei imediatamente para um garçom, imaginando a fome que ele devia estar sentindo.
— Senhor Cullen — falou polidamente.
— Traga água, sem gelo — pedi. — Pães e queijos, um suco doce, nada cítrico — comecei a falar, pensando em como o gelo podia afetar a garganta dele que já estava exposto ao frio, como uma comida mais pesada podia doer seu estômago, assim como uma fruta cítrica.
— Sim, senhor. — O homem se afastou.
— Senhor Cullen — Lionel apareceu, pude ver ao longe a mulher e seu marido sendo retirados dali por um segurança. — O gerente disse que vocês podiam se acomodar no escritório.
— Excelente — concordei, me voltando para Bella e o garotinho, ela limpava o rosto dele com um guardanapo, mas ele ainda tinha os olhos cheios de lágrimas. — Querida, deixe-me carregá-lo — pedi notando suas mãos trêmulas.
Ela concordou com um breve aceno de cabeça, pegando seu casaco e as passagens sobre a mesa.
Peguei Matthew em meu colo, só constatando o quão magro ele era, parecia desaparecer em meu casaco. O apertei em meus braços, podendo sentir um odor forte, mas isso não me repulsou, eu apenas segui Lionel até o escritório, querendo levá-lo para um lugar longe dos olhares das pessoas ali.
— Senhor Cullen, eu sinto muito por... — O gerente, Patrick, começou a falar.
— Não, sem papo furado — ordenei. — Nós apenas queremos cuidar dele.
— Claro, vocês podem fazer isso, eu irei resolver o assunto lá fora. — O gerente deixou o escritório, deixando a mim e Bella sozinhos no escritório com Matthew.
Sentei Matthew no sofá ali, o vendo se afastar de mim até a extremidade.
— Não precisa se preocupar, nós não iremos machucá-lo. — Bella se ajoelhou diante ao sofá. — Você pode confiar em nós dois, Edward é meu marido, nós não estamos aqui para machucá-lo.
Matthew não disse, nem fez nada, apenas continuou calado e imóvel. Logo a porta do escritório se abriu, então o garçom de antes voltou com o que eu tinha pedido.
— Obrigado — agradeci, tomando a bandeja de suas mãos, ele logo saiu. — Você quer um pouco de água? — perguntei a Matthew, apoiando a bandeja com cuidado no lugar vago ao seu lado no sofá, sem me importar em ir ao chão com Bella.
O garotinho assentiu.
Abri a garrafa de água, despejando um pouco no copo, entregando a ele. Suas mãos pequenas e, naquele momento sujas, pegaram o copo, o levando a sua boca.
— Matthew, onde está sua mãe? — Bella perguntou com a voz fraca.
Ele apenas deu de ombros.
— Seu pai? — perguntei, trocando um olhar preocupado com Bella.
— Eu não sei, ele me mandou ficar no beco e não voltou — ele respondeu por fim, em uma voz amedrontada.
— Quando? Quanto tempo tem isso?
— Ontem.
— Qual o nome dele? Você sabe seu sobrenome? — Bella pegou o copo vazio da mão dele, enquanto eu colocava o canudo na caixinha de suco, o preferido de Ness, entregando a Matthew, enquanto cortava o pão e colocava um pedaço de queijo ali, estendendo a ele.
— Laurent Stevens — murmurou.
Nós o deixamos comer, eu sentei no chão, me sentindo apavorado com tudo aquilo. Ele era tão pequeno, tão indefeso, não fazia ideia de onde seus pais estavam, tinha sido maltratado por aquela mulher, não merecia estar passando por nada daquilo.
Senti Bella afagar minhas costas, então a olhei, os olhos dela mais cheios de lágrimas do que antes. Trouxe sua mão das minhas costas, depositando um beijo ali.
Matthew comeu em silêncio, todos os pães ali, bebendo as duas caixinhas de suco sem hesitar. Ele tinha acabado, quando o gerente voltou ao escritório, acompanhado de dois policiais.
Levantei, ajudando Bella a ficar de pé também.
— Senhor Cullen, senhora Cullen — o policial a frente falou. — Vocês podem voltar a sua noite agora, nós cuidaremos do menino.
— Para onde vocês vão levá-lo? — a voz de Bella era tensa ao segurar minha mão.
— Ao abrigo municipal para menores, até que ele tenha a família localizada.
— Talvez ele devesse ir a um hospital — sugeri. — Pelo que entendemos esteve na rua desde ontem, precisa ser examinado.
— Os agentes do abrigo cuidarão disso — o policial garantiu, mas não me convenceu.
— Você tem certeza? — Bella indagou, sua voz assumindo o tom imperativo de sempre. — Ele realmente precisa de uma visita ao médico.
— Senhora, ele será bem cuidado no abrigo.
Pude ouvir Bella sussurrar uma discordância para aquilo.
— Vamos, garoto. — O policial pegou Matthew no colo, completamente desajeitado, provavelmente não tinha filhos, ou uma criança na família. Vi o garotinho se contrair de novo, olhando assustado para todos nós.
— Agasalhe-o. — Capturei meu casaco que tinha caído de Matthew quando ele o pegou. — Está muito frio, você não pode deixar uma criança exposta a esse frio sem esperar que ela adoeça. — Cobri Matthew.
— Vocês tem certeza de que ele ficará bem? — Bella perguntou, seguindo os policiais e Matthew para fora do escritório, parando um instante na porta para me esperar, entrelaçando sua mão na minha.
— Nós não podemos ir até o abrigo com vocês? — indaguei.
— Não, senhor, visitas não são permitidas a esse horário.
— A que horas elas são? — perguntei.
— Vocês não podem abrir uma exceção para a gente? — Bella questionou, praticamente tendo que correr em seus saltos para acompanhar as passadas largas dos policias para fora do restaurante, me puxando atrás dela. — Apenas queremos nos certificar de que ele estará bem.
— Ele estará, senhora — o policial que segurava Matthew afirmou, enquanto o outro abria a porta de trás da viatura.
— Não, não! — Matthew se debateu nos braços do policial quando foi colocá-lo ali.
— Ai, não me morda! — o policial gritou quando Matt mordeu seu braço.
— Edward! — Bella gemeu aflita.
— Aqui, deixe-me pegá-lo. — Soltei a mão Bella, indo até o policial.
Matthew hesitou, mas veio para meus braços.
— Matthew, os policiais precisam levá-lo para o lugar onde cuidarão de você. Eles não vão machucá-lo.
— Nós vamos ir vê-lo em breve, okay? — Bella estava ao meu lado, afagando o rosto dele. — Iremos nos certificar de que você está bem.
— Precisamos levá-lo, agora! — o policial exclamou.
— Por favor, seja mais gentil, ele está assustado — Bella pediu, me ajudando a colocar Matthew no banco. — Ele precisa de uma cadeirinha, vocês são policiais, não podem conduzir uma criança sem uma cadeirinha.
— Senhora, nós não vamos nos envolver em um acidente.
Afivelei o cinto ao redor de Matthew, tentando mantê-lo protegido de alguma forma.
— Seja forte, okay? — Afaguei sua cabeça, Matthew concordou com um aceno de cabeça, lancei um sorriso triste a ele, me afastando e fechando a porta. — Queremos saber o horário de visitas! — Me voltei para o policial.
— Não possuo essa informação, senhor. Pode ligar para o abrigo municipal pela manhã e se informar. — Ele entrou no banco do motorista, logo partindo.
O choro de Bella surgiu no momento que o carro se afastou.
— Calma, amor, está tudo bem. — A coloquei em meus braços, sentindo-a enterrar o rosto em meu peito.
— Ele é tão pequeno, Edward.
— Eu sei, eu sei.
— Senhor Cullen. — Suspirei fundo ao ouvir a voz de Lionel. Mantive Bella em meu peito, impedindo que ele a visse chorando, sabendo o quanto ela odiava que a vissem vulnerável. — Por favor, voltem ao restaurante e tenham seu jantar especial de dia dos namorados agora que tudo está acabado, será por conta da casa.
Bella e eu bufamos juntos, como se dinheiro fosse o x da questão.
— Como ele entrou no restaurante? Alguém estava com ele? — questionei Lionel.
— Não vimos, senhor, ele passou despercebido pela recepção.
— Edward, vamos embora, por favor — ouvi Bella pedir baixinho.
— Peça um táxi, Lionel — pedi.
— Mas, o jantar...
— Um táxi — frisei.
Ele assentiu, prontamente indo parar um táxi passando na rua.
De cabeça baixa, deixando os cabelos esconderem seu rosto, Bella me deixou guiá-la até dentro do carro. Eu disse o endereço ao motorista, logo a colocando em meus braços novamente. Foi uma viagem silenciosa, mas agoniante, eu não podia parar de pensar em Matthew e não precisava ser um gênio para saber que Bella também não.
— Senhor Cullen, tudo bem? — o porteiro de nosso prédio perguntou ao nos ver entrar ali, provavelmente se assustando com o rosto vermelho pelo choro recente de Bella.
— Sim, nós só precisamos descansar um pouco. Tenha uma boa noite.
Coloquei Bella no elevador, nosso apartamento estava silencioso quando chegamos lá, Nelly e Nessie certamente já tendo ido dormir.
— Você quer comer algo, querida? — perguntei a Bella.
— Não, eu só quero tomar um banho quente e dormir. — Ela se arrastou até o segundo andar.
Eu a deixei ir tomar seu banho, enquanto ia checar Renesmee.
Entrei com cuidado em seu quarto, ela tinha o pintado antes do último Natal, tinha uma parede roxa com um grande mural de fotos da família ali. Grande parte de seus brinquedos já tinham sido doados, então o quarto tinha mais espaço, o que nos fez dar a ela uma cama maior onde ela estava adormecida.
A observei dormindo, respirando com tranquilidade, a boca entreaberta, os cabelos uma bagunça sobre o travesseiro. Arrumei o coberto ao redor de seu corpo, mantendo-a aquecida, pensando em Matthew e o tanto de frio que ele tinha sentido durante o tempo que esteve na rua.
— Eu amo você, princesa — sussurrei, beijando a testa dela.
Quando fui para meu quarto e de Bella, ainda podia ouvi-la no banheiro. Entrei lá, a encontrada sentada no chão do box, abraçada, com a água quente percorrendo seu corpo.
— Querida, você precisa ir dormir — falei, abrindo a porta de vidro, fazendo com que ela me olhasse.
— Eu me sinto tão inútil, vê-lo daquela forma, ele é apenas uma criança.
— Eu sei, também me sinto assim. — Tirei minhas roupas, me unindo a ela debaixo da água.
— O jeito que aquela mulher desgraçada falou dele, era tão óbvio que ele só queria algo para comer.
Ela recomeçou a chorar, aninhando-se em meus braços.
Nós ficamos lá por alguns minutos, até que a água esfriou. Bella e eu nos vestimos em silêncio, então fomos para a cama, não demorou muito para que ela voltasse a chorar, daquela vez alto.
Eu a conhecia bem, sabia o tanto de dor que ela estava sentindo. Bella era uma das pessoas mais amorosas que já cruzaram meu caminho, mesmo em sua fachada durona, eu podia ver todo o amor e dedicação que ela tinha por aqueles que julgava serem merecedores de sua atenção. Matthew era apenas uma criança desprotegida, Bella nunca iria vê-lo de outra forma.
Ouvi as batidas na porta, então acomodei Bella na cama, indo até lá. Encontrei uma Renesmee assustada, agarrada em um de seus travesseiros.
— Papai, eu ouvi a mamãe chorando, ela está bem? — Seus olhos tentaram ver através de mim para localizar a mãe.
— Oi princesa! — A peguei no colo, dando um beijo demorado em sua bochecha. — Sua mãe...
— Edward, traga-a até aqui — Bella falou do interior do quarto, ainda com a voz embargada pelo choro.
— Vamos. — Levei Renesmee para dentro.
— Filha, é tão bom vê-la! — Bella exclamou, sentada na cama, abriu os braços para acomodar Renesmee. Coloquei nossa garota em seu colo, deixando-a abraçá-la.
— Mamãe, por que você está chorando? — Renesmee limpou as lágrimas no rosto de Bella, os olhos dela logo ficando marejados também.
— Seu pai e eu presenciamos uma cena muito triste no restaurante, filha — Bella falou contra os cabelos de Renesmee. — Um garotinho mais novo do que você estava perdido, com fome e frio, então uma mulher má o ofendeu.
Sentei junto delas, afagando as costas de Bella.
— Ele ainda está com fome e frio? — Renesmee perguntou apavorada, olhando para mim já que o rosto de Bella estava escondido.
— Nós demos algo para ele comer, os policiais o levaram para um abrigo, para que possam encontrar a família dele. — Limpei a lágrima que rolou pelo rosto de Renesmee.
— Está muito frio lá fora, papai — falou sabiamente.
— Vamos esperar que ele fique bem, princesa.
— Mamãe. — Renesmee se remexeu no colo de Bella, fazendo com que ela a olhasse. — Não chora, eu tenho certeza de que ele vai ficar bem, né pai? — Assenti, esperando que si.
— Você é uma garotinha muito especial, sabia? — Bella sorriu para Renesmee, acariciando o rosto dela. — Eu quero que você cresça sabendo de algo, filha.
— O que, mamãe?
— Não importa seu sobrenome, onde você mora, as pessoas que conhece, ou se você tem dinheiro. Nada disso te faz uma pessoa melhor do que as outras, o que te faz ser alguém bom é seu coração, seu caráter. Nunca, nunca mesmo, Renesmee, trate alguém mal por ser diferente de você.
— Tudo bem, mamãe. — Renesmee assentiu solenemente.
— Eu amo você, filha. — Bella beijou a testa dela. — Gostaria que o mundo fosse menos sombrio para você, mas infelizmente não posso controlar tudo. Só posso esperar que por onde passe leve amor, compaixão e respeito consigo.
Renesmee olhou de mim para Bella, voltando assentir em mais uma promessa de tentar fazer o certo, de tentar ser diferente das pessoas fúteis lá fora. E, eu sabia que ela conseguiria, era minha encrenqueira, nossa encrenqueira, mas tinha todo o senso de justiça da mãe.
— Dorme comigo e com seu pai hoje, ou já está grandinha demais para isso? Eu preciso ficar agarradinha em você. — Bella fez cócegas em Renesmee, fazendo-a rir.
— Eu durmo, eu durmo — Renesmee respondeu rindo.
— Vamos, as duas dormindo — mandei em um tom de voz divertido, levantando o cobertor para que elas pudessem se colocar debaixo dele.
Bella deitou puxando Renesmee para seus braços, a garotinha logo fechou os olhos, pronta para voltar a dormir, mas Bella e eu continuamos nos olhando por um bom tempo.
— Amo você — sussurrei.
— Amo você também. — Ela esticou uma mão para afagar meu rosto. — Obrigada por não ser como aquelas pessoas, Edward, obrigada.
— Obrigado por ser você.
Ela concordou com um aceno de cabeça, o rosto preso em uma expressão cansada. Logo fechou os olhos, abraçando mais Renesmee, já dormindo, então encontrando um pouco de descanso também.
Eu não consegui dormir, por mais exausto que estivesse, toda vez que fechava os olhos a imagem de Matthew voltava a minha mente.
***
Por mais exaustiva que nossa noite tenha sido, Bella e eu nos vimos obrigados a ir trabalhar na manhã seguinte, ela tinha uma reunião com sua equipe, eu uma pilha de trabalho a ser feito em minha mesa. Nós deixamos Renesmee na escola como de costume, então Félix nos conduziu para o trabalho.
O hotel, a sede do Grupo Cullen Hotels que meu avô tinha criado muitos anos antes, contava com duas torres. Uma destinada a hospedagem dos clientes, com mais de 300 quartos distribuídos em mais de 30 andares, outra para todo o corpo empresarial que cuidava do grupo, com hotéis espalhados ao redor do mundo.
Eu entrei naquela manhã com Bella na torre do hotel, certificando-me que ela estava bem, prometendo descobrir sobre o horário de visitas do abrigo para onde Matthew tinha sido levado, para que pudéssemos ter noticiais dele. Então, fiz meu caminho até minha sala na torre empresarial, aproveitando a viagem de elevador longa até o topo para começar a responder os e-mails mais urgentes em meu celular, como checando a minha agenda para o dia que minha assistente já tinha me enviado.
— Ei cara, você está bem? — Jasper perguntou quando entrei no andar financeiro, que eu comandava, ele era o vice diretor. Nós tínhamos a mesma graduação em Harvard, eu já tinha certeza do que iria me formar no momento que minha carta de admissão chegou, mas ele precisou de alguma ajuda, pois estava completamente perdido, acabei o convencendo a seguir meu caminho.
— Apenas foi uma longa noite — respondi, sabendo que ele se referia a minha expressão cansada.
Bella tinha tentado me convencer a tirar o dia de folga, já que estava óbvio que eu não tinha dormido, mas eu preferia me distrair um pouco com trabalho.
— Algemas? — Jasper deu um sorriso malicioso.
— Não, quem me dera. — Continuei andando com ele em meus calcanhares, acenando discretamente para uma ou outra pessoa no andar.
— Vocês estão partindo para outras...
— Não, nada disso que está pensando — o interrompi rapidamente. — Bella e eu apenas tivemos um problema no restaurante que nos levou a uma noite difícil.
— Vocês brigaram? — perguntou preocupado, em um tom de voz baixa quando nos aproximamos da mesa da minha assistente.
— Senhorita Stanley, bom dia, preciso que me mande os relatórios de gasto do hotel em São Francisco ainda hoje — pedi a ela, que assentiu prontamente, anotando freneticamente o que eu falava, eu suspeitava que ela tinha um pouco de medo de mim, mas nós não podíamos brincar naquele andar. — Ligue para Tyler Smith em Toronto, diga que quero uma reunião por vídeo com ele até o fim da semana, ou eu o farei entrar em um avião até mim, independente da perna dele estar quebrada por ter se machucado jogando hóquei estúpido. — Jasper riu baixinho ao meu lado. — Marque minha viagem para visitar o pai de Bella para o segundo fim de semana de março, cuide das passagens dela e da minha filha também. Nós iremos na sexta-feira de tarde, voltaremos no domingo de noite, eu não quero ser incomodado durante meu tempo lá. Diga ao senhor Whitlock que se ele continuar evitando meus e-mails, será demitido.
— Ei! — Jasper exclamou.
— Confirme minha reunião com Carlisle, isso está em aberto na minha agenda, eu odeio compromissos em aberto — falei para ela, ignorando Jasper. — Consiga o número do abrigo municipal para menores e descubra o horário de visitas. — Jessica por fim me olhou, seus olhos confusos.
— Apenas isso, senhor Cullen?
— Café, muito café! — Fui para minha sala, ainda com Jasper me seguindo.
— Abrigo municipal? — perguntou, fechando a porta atrás de si.
Joguei meu corpo na minha cadeira, podendo ter uma boa visão do andar pelas paredes de vidro.
— O que está acontecendo, Edward? — Jasper perguntou confuso, sentando a minha frente. — E por que você e Bella brigaram?
— Nós não brigamos — neguei, ligando meu computador. — Apenas presenciamos algo lamentável no restaurante ontem a noite. — Suspirei, percorrendo minha mão pelos cabelos, lhe dando uma versão resumida de toda história.
— Isso deve ter sido terrível mesmo.
— Muito, mas eu realmente preciso trabalhar agora e me desligar por algum tempo desse assunto. Mova-se até sua sala, Jasper — mandei.
— Claro! — Ele se levantou. — Vou responder os e-mails do meu chefe, ou ele irá me demitir — zombou.
— Que bom que você sabe.
Jasper estava saindo quando Jessica, senhorita Stanley, entrou com meu café.
— Senhor Cullen, eu falei com o abrigo, eles disseram que as visitas só podem acontecer mediante a agendamento prévio, com um pedido expedido por algum juiz.
— Isso é sério? — resmunguei, pegando o café.
— Sim, é para controle de acesso.
— Então, se eu ligar e pedir informação sobre alguma criança eles também não poderão me informar?
— Não, senhor.
— Ligue para Tanya — mandei. — Peça para vir até mim ainda hoje, eu preciso resolver isso.
— Claro, senhor Cullen.
— Senhorita Stanley, descubra sobre Laurent Stevens.
Ela franziu o cenho.
— Senhor, eu não sei a qual hotel ele está ligado.
— Nenhum, pelo menos eu duvido muito que esteja. Mas, sei que pode descobrir algo sobre ele, okay? Não se esqueça de pedir para Tanya vir até aqui, o quanto antes, quando ela chegar peça para minha esposa vir também.
Jessica anotou em sua agenda sempre a mãos, dando um olhar rápido para minha mão esquerda.
Sério, ela realmente pensava que eu estava chamando minha advogada para cuidar de um possível divórcio? Provavelmente imaginando que Laurent era amante de Bella, ou qualquer merda dessas.
— Senhorita Stanley, espero que seu trabalho permaneça imaculado, tudo bem? Se este andar, ou esta empresa estiverem comentando sobre qualquer um dos meus pedidos para você, eu terei de tomar medidas sérias sobre isso. — A olhei sério.
— Não, senhor Cullen, eu nunca faria fofoca!
— Bom, espero que cumpra sua palavra. Pode sair agora.
Ela praticamente correu para fora da minha sala.
Eu girei em minha cadeira, dando as costas para o andar e sendo agraciado pela vista de Chicago. Porém, tudo que eu podia pensar era se Matthew estava realmente bem no abrigo.
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