Nos dias chuvosos brota uma amizade

1 Um fusquinha, um término, um cãozinho - Carol


ALGUMAS PALAVRAS DITAS POR MIM:

Você não se torna popular por ter um fusca. Eu tenho um fusca verde com detalhes rosa e nesse momento, estou dirigindo ele.

Você acha que já viu de tudo? Se respondeu sim, você está enganado. Você não viu uma garota de quinze anos dirigindo um fusquinha ano 83 verde com detalhes rosa ultrapassando um carro da polícia rodoviária federal, que estava bem lento, com um pai enlouquecido ao lado, gritando para ir mais rápido. Papai está com o pé quebrado, e não consegue dirigir. Ele queria chegar rápido em casa para assistir ao jogo do Internacional. Eu também queria assistir o jogo, por isso eu obedecia. Sim, sim, eu sei que é proibido menores de idade dirigindo, mas fazer o quê? Quando chegamos em casa, mamãe ficou louca.

–Como você deixa uma garota de quinze anos dirigir? — mamãe berrava — Se vocês batessem, capotassem, caíssem no córrego ou se o carro explodisse, a culpa ia ser toda sua Carlos!

–Não mamãe — interrompi — a culpa seria das estrelas.

Papai e eu começamos a rir feito loucos, mas paramos quando vi que mamãe estava olhando feio pra gente. Por fim, não podemos assistir o jogo, como castigo por papai deixar eu dirigir. Então, peguei um tanto de minha mesada e fui para uma lancheria que ficava perto de casa. Comprei um sanduíche natural e uma coca e sentei lá mesmo. Meu celular começou a tocar. Era o Rafael. O Rafa era meu namorado fazia algum tempo já. Atendi.

–Oi

–Carol, precisamos conversar — ele disse.

–Pode falar por celular mesmo.

–Tá. Precisamos terminar

–O quê? E você termina comigo por telefone? — berro. A raiva toma conta do meu corpo.

–Você disse que eu podia falar por telefone.

–Vá a merda então! — grito, e desligo na cara. Quando olho em volta estão todos me olhando. Dou um berro para que todos ouçam – Nunca mandaram ninguém ir a merda não?

Meu dia está ruim, não pode piorar mais. Ou pode.

Recebo outra ligação. Desta vez, é da minha mãe.

–Carol, você tá bem? Senta em algum lugar.

Mamãe sabe que faço escândalo, por isso manda eu sentar quando tem uma notícia triste, ou que me deixa nervosa.

–O Tommy morreu.

–O quê? Como assim o Tommy morreu? – Tommy era meu cãozinho de estimação. Tinha 1 aninho – Quem matou ele? – Por incrível que pareça eu estou com raiva em vez de tristeza.

–Ele foi pro meio da rua e passou um carro. Atropelado

Desliguei o telefone sem nem dar tchau. Corri para casa. Meu pai estava parado no portão com um cãozinho deitado sem vida aos seus pés. Agora sim comecei a chorar. Abri uma covinha no fundo do quintal, o que deixou mamãe furiosa. Coloquei aquele corpinho dentro e tapei com terra. Fiz uma plaquinha que dizia: Aqui jaz Tommy. Coloquei umas flores e olhei para trás. Meu pai observara tudo. Me abraçou e disse:

–Amanhã a gente adota outro.

Ah, a capacidade das pessoas de substituir os outros...