Nos bares de Júpiter
1 Dedos e marcas
Notas iniciais
Essa oneshot é na vdd um ensaio ~ou teste~, então ficou curtinha, sucinta e espero que fofa.
Não está marcada como terminada ainda porque TALVEZ saia outro capítulo, mas será independente desse primeiro, então leiam sem medo. Se não sair daqui pra terça, marco como terminada pra que vocês a possam concluir no acompanhamento.
Boa leitura!
BLOCOS HABITACIONAIS DE JÚPITER
2096
O som alto se misturava às batidas dos copos sobre o metal das mesas, entre bêbados sujos e uniformes espaciais, enquanto a escuridão disputava espaço com luzes azuis. Os bares clandestinos de Júpiter fervilhavam, àquela hora, nos blocos habitacionais da periferia.
Vahir procurou a mesa mais afastada e escura que encontrou, longe das brigas e mesas de jogos, ocultando o máximo que podia seu uniforme de Coletor sob um casaco comprido. Pressionou um dos botões no painel do canto e esperou pacientemente pelo garçom que viria, ansiando pelos passos leves que atravessariam o salão sem problemas, carregando um sorriso gentil no meio da sujeira daquele lugar. Em vez disso, um baixinho barrigudo veio atendê-lo, que prontamente o reconheceu.
— O que você faz aqui, Vahir? — Dener, dono do bar, perguntou de braços cruzados.
— Vim tomar uma cerveja — respondeu disfarçando o rosto nas sombras do ambiente.
— Você não é bem-vindo.
— Basta servir a porra da cerveja, tá certo?
Com um suspiro, Dener se afastou e o deixou sozinho no escuro. Seu nome queimava na língua do proprietário.
O Coletor observou atento os homens ao redor, a maioria bêbada demais para percebê-lo ali, falando alto e cuspindo, os hálitos misturando-se ao suor que impregnava seus corpos sujos. Vahir tinha vontade de vomitar todas as vezes em que os imaginava, como porcos cheirando a merda, observando o corpo pequeno do outro rapaz com olhares repugnantes.
Quando sua cerveja surgiu à frente, Vahir segurou a manga de Dener antes que ele pudesse sumir entre as mesas.
— Onde está Dom? — perguntou baixinho, como se o nome dele fosse um segredo que nenhum daqueles porcos pudesse ouvir.
— De que te interessa?
— Ele não está aqui hoje? — insistiu sem conseguir conter a ansiedade em sua voz.
— Está na cozinha — Dener puxou o braço bruscamente e virou as costas, mas Vahir se pôs de pé e o segurou pelo ombro.
O Coletor podia ser uns trinta anos mais jovem, mas tinha bons trinta centímetros a mais que o barman. Discretamente, deslizou um modesto maço de cédulas pro bolso dele e sussurrou às suas costas.
— Mande-o aqui por alguns minutos — pediu quase numa súplica. Sabia que o homem não rejeitaria aquela quantidade de dinheiro, mas o ato fazia com que sentisse uma culpa angustiante, quase como se cometesse um crime. O que Dom pensaria se soubesse que ele pagava seu pai pelo tempo que passavam juntos?
Dener pôs a mão no bolso antes de seguir, mas quando confirmou as cédulas, prosseguiu sem respondê-lo. Vahir sentou-se de volta à cadeira ansioso, bebericando a cerveja entre suas mãos com os olhos fixos na porta da cozinha.
Demorou mais que o habitual, mas quando as portas duplas se abriram, pôde ver o corpo pequeno envolto num avental sujo deixando a cozinha. Suavemente, sob os olhares atentos dos carniceiros à volta, Dom deslizou por entre as mesas em sua direção. Seus pequenos lábios bem desenhados esticaram-se num sorriso quando trocaram olhares, e os calafrios tomaram a espinha de Vahir.
— Meu pai disse que estava aqui — puxou uma cadeira e sentou-se no outro extremo da pequena mesa quadrada. O cabelo castanho curto estava despenteado e o rosto cansado, mas tudo o que Vahir via nele era adorável. — Quando chegou de Saturno?
Vahir puxou o casaco discretamente para mostrar que ainda estava de uniforme, o que fez Dom rir.
— Você sequer foi em casa? Por isso está com essa cara de velho. Vou buscar alguma coisa pra você comer — o rapaz levantou-se, mas foi impedido pela mão de Vahir.
— Não precisa. Volte a sentar.
Dom sentou-se e o observou calado bebericando a cerveja sintética quente no copo plástico. De vez em quando, notava Vahir lançando olhares ao redor, certificando-se de que ninguém ali estava reparando neles. O silêncio que se estendia quando estava na presença dele era, de certa forma, acolhedor. Dom não precisava ser ninguém para Vahir, e Vahir não queria que Dom fosse alguém. Eles só precisavam de alguns minutos.
— Você pode fazer aquilo? — Vahir enfim perguntou, lançando um olhar desconfiado em volta, para depois pousar os olhos sobre a expressão hesitante do outro.
Dom desviou o olhar envergonhado e não respondeu, mas sua mão atravessou a superfície gelada da mesa com cautela e alcançou os dedos frios do homem à sua frente. Sem pressa, as mãos se entrelaçaram, os pequenos dedos delicados do garçom dentro da mão esguia do Coletor.
— Feche os olhos — pediu baixo demais para que Vahir pudesse ouvir, mesmo assim, ele sabia o que deveria fazer e obedeceu.
Os dedos nervosos subiram até o queixo de Vahir, deslizando pela mandíbula até a orelha, depois subindo até sua bochecha. Desenhou com as pontas todas as marcas salientes do rosto do Coletor, demorando-se o quanto quisesse em cada cicatriz deixada pelos metais que cobriam a maior parte da face. Dom sentia a respiração pesada dele em sua palma e via a agitação em seus olhos semicerrados, reação que o incentivava ainda mais.
Vahir tremia sob aquele toque terno que deixava um formigamento estranho em seu rosto, e tornara-se viciado em Dom. O cheiro da pele tão próxima enchia suba boca de saliva e era uma batalha conter o impulso de colocar aqueles dedos em sua boca. Fechou os olhos quando a mão terminou de contornar suas bochechas e alcançou de volta a sua orelha, agora muito mais ágil.
O lóbulo de Vahir foi esfregado com ternura entre os dedos de Dom, que estava se tornando cada vez mais hábil. Com pouca força, ele puxou a orelha e observou o Coletor conter um gemido, ciente do quanto era sensível naquele lugar.
Sua mão recuou com leves arranhões no pescoço dele, caminho que deixou um intenso arrepio no corpo inteiro. Quando o contato entre os dois cessou, a mão de Dom voltou ao seu lugar e Vahir abriu os olhos — o mundo retornou ao que era antes. O som, as luzes, os bêbados. O mundo que permanecia em segundo plano quando eles se tocavam era cruelmente real quando estavam separados.
Em uma das raras ocasiões, Vahir deu a Dom um sorriso, tomou o último gole da cerveja amarga e levantou da mesa.
Dom observou enquanto o Coletor alto e curvado atravessava as brigas nas mesas de jogos, o rosto desfigurado azul sob a luz momentânea, e desaparecia na escuridão do salão, deixando o bar de volta às ruas frias dos blocos habitacionais de Júpiter.
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