Nos Dê Uma Chance - Concluída
23 Confissões dolorosas
Notas iniciais
P.O.V Da Melanie
— Lamento por sua irmã. Ela sofre algum tipo de transtorno? — Ed tirou o blazer.
Sentei na cama, eu estava muito abalada e confusa. Minha irmã havia surtado e passado mal. Assim que recobrou a consciência, foi levada pelo namorado que por uma coincidência era o irmão gêmeo do Ed. Aquilo foi um grande susto para mim. Meu namorado ficou bastante constrangido.
Nunca tinha visto a Sam entrar em tamanho desespero, gritando coisas horríveis para o meu namorado. Ela sequer conhecia o Ed. O que havia dado nela? Que tipo de surto era aquele?
— Transtorno? Não que eu saiba. Ela é um pouco temperamental, agitada e complicada, mas nunca apresentou nenhum quadro de estado mental anormal ou algo do tipo. — Sentei na cama e retirei minhas sandálias de salto.
— Hum... Mais tarde eu ligo para o meu irmão e a gente fica sabendo como ela está, ok? — Sugeriu.
— Okay. — Assenti. Me levantei e fiquei de costas para ele. — Me ajuda com o zíper. — Pedi.
Meu moreno abaixou o zíper e me ajudou a tirar o vestido. Tirei a tiara e o sutiã, coloquei uma camisola branca com a barra rendada, me sentei em frente à penteadeira e retirei toda a maquiagem.
Nossas noites nunca eram tranquilas. Ed sempre tinha pesadelos, ele costumava acordar gritando, o peito coberto de suor...
Aquela noite não foi diferente. Ele acordou agitado como sempre, às vezes ele até chorava. Acendi o abajur, com cautela, envolvi seu corpo trêmulo e suado. Meu moreno encostou a cabeça em meu peito, chorando como uma criancinha assustada...
Afaguei suas costas e beijei sua cabeça repetidamente. Fiquei em silêncio, esperando o choro tão sentido cessar.
— Eu preciso te contar... — Apertou minha cintura, sua voz estava bastante rouca.
— Estou ouvindo, pode desabafar... — Acariciei suas costas.
— Eu tinha apenas 10 anos quando minha inocência foi roubada... A tiraram de mim da pior forma possível... — Soluçou e eu senti meus olhos marejarem.
— Você foi abusado? — Segurei o choro.
— Sim. Ele era alguém de confiança, frequentava a minha casa, me tratava bem... Era amigo dos meus pais, eu o chamava de tio... Eu tinha 10 anos... Ele me levou para passear, fomos à uma loja de brinquedos... Ele era casado, mas não tinha filhos... Ele me levou para a casa dele...
— Oh, Ed, não precisa continuar... — Comecei a chorar.
— A esposa dele não estava em casa... Ele me molestou pela primeira vez naquele dia... Eu era criança e não entendia... Ele disse que eu não poderia contar a ninguém... E sempre que ele ia lá em casa, quando não tinha ninguém por perto... Ele me tocava... Abaixava minhas calças e... Às vezes... Ele tentava enfiar o dedo em mim... Eu ficava com medo. Entendi que era errado, ele dizia que eu não deveria contar a ninguém. Se eu ficasse quietinho, ele não faria a mesma coisa com o meu irmão... Eu não queria que ele também tocasse no Freddie. Em troca do meu silêncio, ele não abusava do meu irmão... Fui molestado até os 12 anos. É por isso que tenho esses malditos pesadelos. — Desabafou.
— Sinto muito, meu amor... — O abracei com força.
— Não sinta. Não quero que me olhe com pena... Não preciso disso. — Se livrou dos meus braços e saiu da cama. — Isso fica entre nós. — Enxugou as lágrimas.
— Eu não vou dizer a ninguém. Juro! — Prometi.
— Tá. Agora pare de chorar. E pare de me olhar assim... — Apontou para mim.
— Assim como? — Sequei as lágrimas.
— Você sabe. Não preciso dessa porra. — Disse, irritado.
— Me desculpa, eu só...
— Vou até a cozinha. — Me interrompeu. — Quando eu voltar para o quarto, espero que esteja nua e pronta para mim, tudo que eu preciso é relaxar, me perder em você... — Disse me encarando.
— Sexo não resolve tudo. Você sempre quer se acalmar fazendo sexo e eu não estou com vontade... — Falei.
— Diz a verdade. Está com nojo de mim agora? Não me quer mais, é isso? — Se aproximou e eu me encolhi.
— Não é nada disso, eu só...
— Só não quer mais se entregar para um cara fodido como eu. Muito bem. Já entendi, Melanie. Pode ir embora! — Se afastou tremendo.
— Não, Ed, eu...
— Vai embora. Pode ir. E quando sair por aquela porta nem ouse olhar para trás. Quando me deixar, saiba que estará me estraçalhando... Eu não vou suportar a dor, vou morrer assim que você me deixar... Porque eu sei que você vai partir e eu não terei motivos para viver. Eu sou tão fodido. Já fiz tantas merdas. — Ele dizia com pesar.
— Você... — Balbuciei. O surto da minha irmã não saia da minha cabeça. Foi horrível. Seus gritos. Seu choro... Seu olhar de ódio e repulsa direcionado a Edward. — Você já conhecia a minha irmã? — Perguntei. Ele piscou. Moveu a boca, nenhum som saiu. — Nunca vi a Sam daquele jeito. E ela te olhava tão... Aterrorizada. — Falei. Ed continuou calado. — Seu irmão estava incomodado, nervoso. — Continuei. — E ela te acusou de destruir a vida dela... — Levantei da cama. — V-você... — Senti meus olhos marejarem de novo.
— Não sei. Não tenho certeza. Mas não quero esconder algo terrível, outra coisa que me atormenta... Meus amigos e eu estávamos vindo de uma festa à fantasia, todos bêbados, abordamos uma garota na rua, pegamos ela e a colocamos no meu carro... Eu a violentei. Não lembro com detalhes. Mas ela era loira. — Confessou.
Desabei sentada na cama, tremendo, deixando escapar alguns soluços.
Meu namorado era um monstro. O homem que eu amava havia estuprado uma garota.
— Melanie... — Se aproximou, cauteloso.
— A Sam não surtou sem motivos. Ela era a garota. Você a estuprou... VOCÊ DESTRUIU A MINHA IRMÃ! A MACHUCOU DA PIOR FORMA POSSÍVEL! — Levantei
— E-eu...
— Você é um monstro! — Eu nunca senti tanta dor.
— Por favor, não me deixe... — Suplicou caindo de joelhos.
— Você é um monstro... — Senti vontade de vomitar. — Monstro... — Tapei a boca, abafando os soluços.
— Eu te amo, Melanie. — Me olhou, o rosto banhado em lágrimas.
— Você não é capaz de amar. Monstros não tem sentimentos! — Cuspi as palavras. — Suas lágrimas não me comovem mais... Não consigo mais nem olhar para a sua cara. Você é um desgraçado. Um maldito! Um ser desprezível... Não merece ser amado. Estou com ódio e nojo... Espero que vá para o inferno! — Desejei.
— Se eu pudesse... Se um dia você me...
— Eu nunca vou te perdoar. Nunca! — Deixei bem claro. — Nunca mais chegue perto de mim e nem da minha irmã! — Avisei.
— Por favor, Mel...
— Eu vou embora. — Levantei, chorando, tremendo e fui até o guarda-roupa. Precisava fazer as malas.
Ele chorava. Nós dois chorávamos. Seu choro se tornou mais intenso. Doía... Doía demais. Arrumei minhas coisas depressa e troquei de roupa.
Caminhei para a porta, já com minhas malas em mãos.
— Não vá, não me deixe... Você é a única coisa que amo nessa vida. — Sua voz soou arrastada.
— Eu vou... Era apenas atração. Eu nunca te amei. A atração que eu sentia se transformou em puro nojo. Nojo e ódio... — Minha voz saiu quase falha.
Falei aquilo evitando olhar em seus olhos. Abri a porta do quarto. Ele gritou como se estivesse sendo dilacerado. Bati a porta e me encostei ali... Respirei fundo.
Parti me sentindo em pedaços. Deixei o prédio. Peguei um táxi. Abri minha bolsa e peguei o celular. Liguei para a minha mãe quando me acalmei um pouco. Após termos uma breve conversa. Encerrei a ligação. Eu já tinha um lugar para ficar.
O celular acendeu e vibrou. Havia chegado uma mensagem. O papel de parede era uma foto nossa em Manhattan. Abri a mensagem.
"Agora não me resta mais nada, você levou o meu coração... Não há mais cores. Só há escuridão e dor. Você se foi. Me deixou. Mel, você era tudo que eu tinha..."
Apaguei a mensagem.
— Ah, Deus... — Fechei os olhos. — Isso dói demais... — Sussurrei.
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