Nos Dê Uma Chance - Concluída
24 Quando o perdão bate à porta...
Notas iniciais
P.O.V Da Sam
"Não. Não. Não. Isso não pode ser possível. Não, isso não está acontecendo. Por quê, Deus? Por quê?"
— Sam, eu...
— Não, não fale nada. — O interrompi. — Eu só quero ficar sozinha no momento. — Eu não conseguia olhar para o Freddie.
— Tudo bem. — Ouvi ele suspirar.
E ele saiu do quarto, assim que ouvi o barulho da porta sendo fechada, eu me permiti chorar e eu odiava profundamente chorar, mas chorar era o que eu tinha mais feito naqueles últimos meses. E eu não queria cair em prantos de novo na frente do Freddie, eu nunca gostei de chorar na frente ninguém, eu só chorava na frente da Carly, mas aquilo costumava ser raridade...
Lágrimas banhavam meu rosto, jorrando como uma torneira ligada. Lágrimas de tristeza, dor, mágoa, raiva e nojo. Chorar me fazia sentir tudo, menos alívio, às vezes chorar fazia bem, mas naquele momento, chorar me deixava ainda mais fraca, vulnerável e derrotada.
Não sei quanto tempo fiquei ali no quarto, desabando, quase afundando em minhas próprias lágrimas, elas cessaram, mas a dor emocional continuava ali quase palpável.
Ver minha irmã com aquele desgraçado me fez passar até mal, me causou tanta raiva, puro nojo e o susto foi o que mais me abalou. Nunca imaginei que o irmão do Freddie fosse o namorado da Melanie.
Eu não podia julgar a Melanie, nem culpá-la por nada, ela não sabia o que aquele cara havia feito, e pelo visto ela o amava e minha irmã com certeza não se envolveria com o Edward se soubesse o que ele tinha feito comigo.
Edward agiu como se não me reconhecesse, tão cínico, maldito, desgraçado... Encenou direitinho, fingido, mas eu o desmascarei, gritei e joguei na cara dele todo o ódio e a repulsa que eu sentia por ele. Tudo isso na frente da Melanie, quando me dei conta, eu já tinha jogado aquelas coisas na cara dele.
Eu precisava conversar com minha irmã, contar tudo a ela. Melanie ia sofrer, eu sabia muito bem que seria doloroso ter que ouvir o que eu tinha para dizer, mas Mel precisava saber.
Levantei da cama, fui lavar meu rosto que estava inchado e avermelhado. Meus olhos também estavam avermelhados e ardiam um pouco, prendi o cabelo, lavei o rosto e troquei de roupa.
Saí do quarto, eu estava com um robe por cima da camisola, calçando pantufas, meus pés inchavam com sapatilhas e com sapatos, não só meus pés, eu me sentia toda inchada.
Cheguei à cozinha, ainda sentia meu estômago embrulhar, mas eu precisava me alimentar, já que nem eu e nem Freddie havíamos jantado. Coloquei água para ferver, vasculhei o armário procurando uma caixinha de chá, nunca gostei de chá, mas eu havia sido proibida de tomar café e leite estava fora de cogitação, iria me causar mais enjôos.
Hortelã, chá verde, chá preto, Camomila e chá de Erva Doce, olhei cada caixinha e peguei dois sachês de sabor Camomila. Separei uma caneca mediana, nada de xícara, apaguei o fogo, enchi a caneca pela metade e mergulhei os dois sachês na água quente.
Peguei o pote onde continha Cookies com gotas de chocolate, peguei alguns e coloquei num pratinho. Me sentei, fitei o relógio na parede, onde marcava 21h:23min.
Retirei os sachês e adocei o chá, esfriei um pouco e beberiquei sem vontade, mordisquei um dos Cookies e tomei mais um gole, fiquei ali sentada até tomar a última gota e terminar de comer os Cookies.
Recolhi a caneca vazia, o prato e a colher, levei até à pia, onde os lavei sem pressa. Coloquei no escorredor para secar e saí da cozinha após apagar a luz.
Chegando no corredor, parei em frente à porta do quarto do Freddie, hesitei um pouco antes de bater, por fim, bati duas vezes, logo a porta foi aberta, ele já estava vestido para dormir, usando camiseta e calça de moletom.
— Posso dormir com você? — Perguntei olhando em seus olhos castanhos que sempre me transmitiram carinho, confiança e compaixão.
— Pode sim, sempre que quiser. — Assentiu dando passagem para eu entrar.
Entrei e o abracei assim que ele fechou a porta, seus braços imediatamente me envolveram num abraço acolhedor, consolador e reconfortante. Eu me sentia segura ali, com ele, nos braços dele. Freddie estava sendo meu porto seguro.
Não chorei, apenas fechei os olhos e inalei seu perfume, apertando meus braços em volta dele, sentindo o seu cheiro, seu calor e suas mãos afagando minhas costas.
— Vai ficar tudo bem, ele nunca mais vai te machucar, estou aqui, não vou deixar ele tocar em você, você não está sozinha, Sam, nós estamos juntos nessa. — Disse aos sussurros e eu acreditei em suas palavras.
— Obrigada, Freddie... — Agradeci no mesmo tom.
[...]
Dias depois...
— Ah, amiga, sinto muito, eu queria poder ir com você, mas o meu avó está doente, eu pedi uns dias de folga para poder cuidar dele, mas se você quiser, podemos comprar o enxoval assim que eu voltar, o que você acha? — Carly estava arrumando as malas para ir pra Yakima.
— Vá, tranquila, Carls, sério, eu me viro! — Levantei e arrumei a bolsa no ombro.
— Por quê o Freddie não vai com você? Ele está trabalhando hoje? , Perguntou fechando a mala pequena.
— Ele está de folga, não quero entediar ele, o Freddie é homem e sair para comprar roupas para bebê já é chato para mim, imagina para ele, então... — Respondi.
— Deixa de bobagens, Sam, o Freddie não é como os outros homens, liga para ele, aposto que ele vai adorar ir com você comprar o enxoval da bebê. — Talvez ela tivesse razão.
— Tá, eu vou ligar para ele. — Assenti.
— O berço fica por minha conta, ok? Eu quero comprar o berço para a minha afilhada. — Avisou pela segunda vez.
— Okay, Carls. — Concordei de novo, ela não gostava de ser contrariada. — Mas nada de exagero, que seja um bem simples mesmo. — Falei mesmo sabendo que Carly iria comprar o berço mais bonito da loja.
Saí do quarto e fui para a sala, liguei para o Freddie que topou ir comigo comprar o enxoval, ele não tinha nada para fazer naquela manhã e até se animou quando liguei.
— Tchau, morena, desejo melhoras para o vovô Shay, espero que faça uma boa viagem. — Nos despedimos com um abraço.
— Obrigada, loira, vai lá e faça boas compras. — Ela disse quase chorando.
[...]
— Podem escolher à vontade, qualquer coisa me chamem, os preços estão nas etiquetas e aqui está a cestinha. — A bela e sorridente morena entregou uma cesta mediana para o Freddie segurar.
Era umas das atendentes da loja de enxoval de bebês. Ela sequer disfarçava os olhares, não era ciúme, mas aquilo me incomodava um pouco.
— Obrigado. — Agradeceu educado e simpático, já estávamos na seção de roupinhas femininas.
— Ela só faltou dar aquela piscadinha e colocar o papelzinho com o número dela no seu bolso. — Comentei enquanto olhava alguns macações com estampas bonitinhas.
— Hãn? O quê? Ela quêm? — Se fez de desentendido ou ele era mesmo muito tapado.
— A moça que nos recepcionou, a atendente que está agora mesmo te olhando... — Falei após ver a morena lançar várias olhadas de longe, cochichando com outra atendente.
— Ah, eu nem percebi. — Sorriu sem graça. — Ela ainda está olhando? — Ele estava ficando corado.
— Uhum, olhando e cochichando com uma amiga. — Continuei olhando para elas sem disfarçar até que elas me notaram e desviaram olhar rapidamente, uma foi para lado e outra foi para o outro voltando ao trabalho.
— Sabe, se ficou interessado, na boa, pode ir lá falar com ela. — Não éramos namorados mesmo e eu não podia prendê-lo a mim, o moreno era livre e desempedido.
— Sam, eu estou ficando com você, não quero te pressionar, mas quero que a gente dê certo, estou feliz com o nosso relacionamento do jeito que é, e se você não quiser mais ficar comigo, basta me falar e eu vou entender. — Percebi que ele estava sendo sincero.
— Eu quero...Também quero que dê certo entre nós, vamos continuar indo com calma, as coisas estão boas do jeito que estão... — Também fui sincera com ele, eu não levava jeito com palavras bonitas e nunca fui muito de expressar meus sentimentos com palavras.
Freddie sorriu, acariciou meu rosto e me deu um selinho. E voltamos às compras, não havia pressa, compramos o necessário, ele queria levar mais coisas, mas eu não deixei, ele adorou fazer a compra do enxoval comigo, e eu me distraí ocupando a cabeça escolhendo roupinhas, calçados e acessórios, Freddie estava ali comigo e aquilo me deixava feliz.
Ele havia feito questão de comprar o trocador e o bebê-conforto. Levou as caixas para o quartinho da bebê, eu escolhi a banheira e a maioria das roupas, acessórios como tiaras infantis, gorros/touquinhas, luvinhas e etc...
Carly com certeza iria querer comprar tudo cor de rosa, foi bom fazer as compras com o moreno que não se importava com cores assim como eu. Compramos de cores variadas como lilás, roxo, amarelo, vermelho, branco, verde e algumas peças rosas. O suficiente, a entrega das coisas maiores seria feita no dia seguinte, uma cômoda, o carpete, uma poltrona para dar conforto na hora de amamentar, um roupeiro infantil e as prateleiras que havíamos encomendado para acoplar nas paredes.
Guardei as sacolas ali no quartinho e fiquei admirando as paredes pintadas de lilás decoradas com adesivos de borboletas brancas e amarelas.
Acariciei minha barriga, eu já tinha aceitado aquele pequeno, indefeso e inocente ser que crescia dentro de mim. Era uma vida. Um bebê sem culpa de nada. Minha filha. Alguém que fazia parte de mim, carregando meu sangue nas veias e que iria precisar de carinho, amor e cuidados. Alguém que dependeria de mim.
Não era um fruto gerado de amor, mas era alguém que ia receber o meu amor, pois não pediu para nascer e não tinha culpa de nada... Eu era uma vítima, também não tive culpa, não pedi para aquilo acontecer comigo, e minha garotinha seria bem-vinda, pois eu já a amava e amor de mãe é incondicional, só uma mãe sabe como é, e eu não tinha palavras certas para explicar tal sentimento.
Mas eu já sentia aquele amor que apenas crescia à cada dia, assim como a ansiedade de tê-la em meus braços, ver seu rostinho, e dizer que eu a amava e que sempre iria proteger e cuidar dela.
[...]
Semanas depois...
Marquei um 'X' no calendário, contando cada semana. Eu já estava no quinto mês de gestação, me cuidando e indo sem falta para as consultas pré-natais. Continuava sendo paparicada por Carly e Freddie, continuava me alimentando bem e tomando os remédios e as vitaminas receitadas.
Melanie não me atendia, eu não sabia do paradeiro dela e ela sequer respondia minhas mensagens. Ela havia o deixado, eu não tinha certeza, mas lá no fundo eu sabia que minha irmã havia terminado o namoro e que ela estava sofrendo com tudo aquilo. Porque ela o amava, claro que o amava e havia o deixado, Melanie devia estar sofrendo muito... E eu só podia lamentar, pois ela era minha irmã e eu nunca desejei mal a ela, tínhamos as nossas diferenças, mas nos amávamos e muito.
Freddie estava trabalhando, a campainha começou a tocar. Ele tinha a chave e eu a cópia, Carly sempre ligava antes de ir nos visitar, e eu estava na cozinha preparando uma vitamina.
Desliguei o liquidificador e fui atender a porta. Eu não esperava ver aquela pessoa, não tão cedo.
A mulher alta, com postura relaxada, olhar confiante, roupas ousadas e maquiagem forte nem parecia a mesma.
Fiquei surpresa em vê-la e assustada por vê-la naquele estado. Em toda a minha vida, nunca tinha visto Pamella Puckett abatida, sem maquiagem, desarrumada e com o rosto inchado, os olhos transbordando em lágrimas.
— Mãe... — Minha voz saiu quase falha.
— Oh, Sam, minha filha, a sua irmã me contou... — Seu olhar cheio de culpa, sofrimento e pena desceu para a minha barriga avantajada, ressaltada pelo vestido.
Logo senti meus olhos arderem. Dei um passo para trás. Pam entrou caindo em prantos e me abraçou com cuidado, sem me apertar.
Eu não queria chorar, segurei ao máximo.
Não a afastei, eu precisava daquele abraço. Ela sabia a verdade. E estava arrependida por ter falado todas aquelas coisas horríveis para mim.
— Sinto muito... Sinto muito... Sinto muito... Filha, me perdoa, eu não sabia... — Seu corpo sacudia à cada soluço, seu choro era descontrolado, cheio de dor.
"Então, Melanie deve estar com ela, por quê ela não veio?"
Afaguei suas costas, ela quem estava precisando ser amparada e consolada. Só derrubei algumas lágrimas pela emoção de vê-la ali naquele estado, arrependida e se culpando.
Mas ela não tinha culpa. Só havia um culpado.
Pam nunca fora uma mãe presente ou exemplar. Nunca fora uma boa mãe, mas apesar de tudo, eu a amava. Eu amava aquela mulher, eu não tinha raiva ou mágoa, eu tinha pena dela.
Nada justificava tudo o que ela tinha feito comigo ao longo dos anos.
Pam me deixava passar fome, não me dava atenção, não me dava carinho. Ela sempre me batia, muitas vezes sem motivo por chegar bêbada em casa, ela também levava homens para dentro de casa e não se preocupava com o que eles poderiam fazer comigo.
Eu tinha pena dela, muita pena. Mas já cheguei a ter muita raiva. Tanta raiva...
Nunca esqueci das vezes que ela, na hora do desespero para arranjar dinheiro, chegava a me oferecer, me pedindo para subir com os homens que ela levava pra casa.
Mas aquilo era passado. Eu nunca obedeci. Eu era uma criança na época entrando na adolescência. E Pam só vivia bêbada, e naquele momento ela estava estava ali sóbria, devastada e arrependida me pedindo perdão.
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