As semanas seguintes se arrastaram lentamente até que o dia 31 de Janeiro de 2007 chegou, marcando exatamente um mês desde o confronto com os Volturi. O primeiro mês sem Irina foi um período de adaptação dolorosa para todos e cada um lidava com o luto à sua maneira. No entanto, o que ninguém teve coragem foi de abrir o quarto de Irina e encarar aquele ambiente carregado de sua presença, com as coisas dela, com o cheiro...

A porta permanecia fechada desde o dia que Irina saiu de casa, após eles voltarem do casamento de Bella e Edward, e tudo permanecia exatamente como ela deixou. Agora, a simples ideia de encarar aquele ambiente carregado de sua presença significava aceitar de vez que Irina jamais voltaria, o que nenhum deles estava pronto.

Certa vez, ao descer as escadas apressada a caminho de pegar seu carro na garagem, Carmen jurou ter visto Irina sentada no sofá, esmaltando as unhas da mão, assim como também jurou ter escutado a voz de Irina entoando a canção "La Mer", de Charles Trenet. Ao piscar rápido, Carmen encontrou apenas o lugar onde Irina costumava se sentar vazio, seguida da dolorosa constatação de que Irina não voltaria. Já para Eleazar, as manhãs de domingo nunca mais foram as mesmas sem ter Irina assistindo com ele a Fórmula 1, uma paixão compartilhada. Agora era Garrett quem o acompanhava e os dois estavam bem próximos. Eleazar estava ensinando tudo o que sabia sobre Fórmula 1 e futebol para Garrett, que estava se tornando fã dos dois esportes.

Como líder do clã, Tanya mantinha uma postura inabalável diante de todos, principalmente de Kate, mesmo que, por dentro, sentia-se dilacerada. Sozinha em seu quarto, Tanya se permitia sonhar com os dias antigos, em que ela, Kate e Irina eram felizes antes da perda da mãe. Podia sentir o vento brincando com seus cachos loiros enquanto corria pelos bosques da Eslováquia medieval, então pertencente ao Reino da Hungria, livres. Podia escutar o som característico do seu vestido medieval arrastando pelo chão e se prendendo as folhas secas do chão. Até mesmo ouvia as risadas das irmãs mais novas vindo atrás dela, misturadas ao estalar dos galhos sob seus pés e ao revoar dos pássaros. Cada memória era uma lembrança da liberdade única que só aquelas tardes, compartilhadas lado a lado com suas irmãs, podiam trazer.

Naquela manhã nublada, que marcava exatamente um mês desde a morte de Irina, Kate estava sentada diante da penteadeira e vestia apenas um hobby curto de cetim azul-marinho que mal escondia o conjunto delicado de lingerie preto rendado. O zumbido da escova secadora se misturava ao barulho constante da água caíndo do chuveiro, anunciando que Garrett ainda tomava o seu banho no banheiro que agora era deles e de onde ela havia saído alguns minutos antes.

Faíscas brancas escapavam da palma da mão direita de Kate, percorrendo o cabo do objeto e fazendo-o funcionar sem estar ligado à tomada, enquanto Kate deslizava suavemente a escova pelo comprimento de seus cabelos, que estendia à altura de seus seios. Seus olhos dourados se fixavam no seu próprio reflexo no espelho. A falta que Kate sentia de Irina era uma constante dolorosa que parecia que jamais atenuaria, mas naquela manhã em especial que se completava 1 mês da morte de Irina, Kate tinha a estranha sensação de que a qualquer momento escutaria a porta de seu quarto se abrir e que Irina surgiria atrás dela, como sempre fazia, com aquele jeito atrevido que a desarmava para pegar emprestada alguma roupa ou maquiagem. Uma risada anasalada escapou no mesmo instante que os olhos de Kate pousaram nos frascos alinhados, que pareciam incompletos sem a bagunça que Irina costumava fazer ao pegar um a um para sentir o cheiro antes de escolher qual perfume borrifaria.

O rangido da porta do banheiro se abrindo faz Kate desviar sua atenção do espelho e abaixar o braço direito. A corrente elétrica que saía de sua mão direita que fazia funcionar sua escova cessa ao olhar para a direção do banheiro, de onde Garrett surgia com uma toalha ao redor de sua cintura enquanto esfrega a mão direita nos cabelos castanhos molhados que caíam de modo desordenado sobre sua testa e a nuca. O silêncio reina após o desligamento da escova secadora e o vapor do banho quente se dissipa ao redor de Garrett, trazendo consigo o cheiro fresco do banho.

Os lábios de Kate se curvaram num sorriso suave ao lembrar que naquele exato dia também se completava um mês que Garrett tinha ido com eles para o Alasca e na verdade, ela não sabia o que faria sem ele. A perda de Irina, embora dolorosa, só ficava mais suportável porque tinha Garrett ao seu lado.

-Você ainda está ai... — com sorriso espontâneo se desenhando em seus lábios, Garrett comenta surpreso ao erguer o olhar e encontrar o olhar de Kate sobre ele. Com sua mão esquerda ainda na maçaneta da porta do banheiro, ele a fecha com um toque seco e se aproxima dela.

-E onde mais eu estaria? — Kate ria ao perguntar de brincadeira, apesar do aperto que sentia em seu peito pela saudade anormal que estava sentindo da irmã naquela manhã. Seus olhos seguem o movimento de Garrett em sua direção, vendo-o parar logo atrás dela antes de sentir o peso dos braços fortes passarem ao redor de sua cintura.

-Pensei que já tivesse se trocado — ele respondeu ao mesmo tempo que suas mãos se fecharam sobre a barriga dela. O nariz de Garrett roçou contra sua pele quando ele se inclinou, e logo os lábios tocaram de leve a bochecha esquerda dela, arrancando-lhe um sorriso espontâneo. Kate fechou os olhos e encolheu levemente os ombros, inclinando a cabeça contra o braço direito dele. Sua mão esquerda subiu instintivamente para o bíceps de Garrett, apertando-o de forma suave, enquanto a mão direita dela permanece segurando o cabo da escova secadora.

-Resolvi secar o cabelo antes porque você sabe como eu odeio como ele fica se deixo secar naturalmente — Kate ergueu lentamente a cabeça, abrindo os olhos para olhar para Garrett, que riu, balançando a cabeça em um movimento de negação. Quando seus olhares se encontraram, ela encontrou os olhos de Garrett fixos nela. O âmbar dos olhos dele estava mais fechado, profundo, e prenunciava o âmbar mais claro e puxado para o dourado que ainda viria antes do definitivo brilho dourado — e vou me maquiar ainda... então vou demorar...

-Você é maravilhosa, meu amor. Nem precisa de maquiagem... — ele murmurou e roubou um selinho dela, fazendo Kate rir, antes de tirar os braços ao redor dela e se endireitar. Garrett, no entanto, permanece em pé atrás dela, sem tirar os olhos de Kate, que deixa sua escova de cabelo desligada sobre a bancada — que foi que você está com essa carinha triste? Nem adianta falar que não é nada porque eu te conheço... — Garrett ergueu suas mãos até o rosto de Kate e o envolveu com uma ternura quase reverente. Seus polegares deslizavam pelas bochechas dela em carícias leves, arrancando-lhe um sorriso que suavizou a dor que ainda pesava em seu peito.

-Eu estava aqui pensando no quanto sinto falta da Irina vir invadindo o quarto e bagunçando minhas coisas.... — Kate confessa jogando a cabeça para trás e apoiando-a contra o abdômen de Garrett.

Quando os olhos dourados de Kate se ergueram, buscando o olhar âmbar de Garrett, ele sentiu o peito apertar, o peso sufocante da impotência por não conseguir apagar a dor que corroía Kate por dentro, mas ainda assim, movido pelo instinto de amá-la, estendeu a mão direita na direção dela, a palma virada para cima. Kate baixou os olhos para a mão dele, e um sorriso suave, quase tímido, desenhou-se em seus lábios antes que ela pousasse sua própria mão direita sobre a mão dele. No mesmo instante, os dedos de Garrett se fecharam ao redor da mão dela.

-Você me dá forças pra continuar, sabia? — Kate murmura, erguendo o olhar novamente para olhar para ele, e então se levanta e fica diante dele, mas sem soltar a mão direita que permanecia unida à mão dele.

Com suavidade, a mão esquerda de Kate buscou a mão esquerda de Garrett, que deixou escapar um sorriso, sem desviar os olhos dela nem por um instante, e, com um gesto que parecia natural, ergueu as mãos dela até a altura de sua clavícula, entrelaçando os dedos em um enlace firme e íntimo. Kate baixou os olhos para aquele emaranhado de mãos, sorrindo ao contemplar a união silenciosa que havia ali, antes de voltar a encarar o olhar dele, deixando transparecer nos seus olhos dourados o conforto que encontrava apenas em Garrett.

-Eu nunca te agradeci por você ter me segurando para que eu não fosse atacar os Volturi, sequer me desculpei por ter te dado tanto choque... Se não fosse você, eu agora estaria com a Irina naquela clareira — a voz de Kate começa a sair trêmula, tão frágil que pareceu se partir no ar, e a sensação atingiu Garrett como uma dor aguda no peito, uma fisgada silenciosa que lhe roubou o fôlego que ele nem precisava obter.

Sem pensar, Garrett fechou de vez a distância entre eles quando seus braços rodearam a cintura de Kate com firmeza, puxando-a contra si. Suas mãos pousavam no meio das costas dela sobre o cetim macio do hobby e seus olhos, fixos nos olhos dela, não vacilaram nem por um segundo, mesmo quando a tristeza estampada nos olhos dela brilhava. Lentamente, os braços de Kate se ergueram em direção aos ombros largos de Garrett, percorrendo-os com leveza até que suas mãos repousaram na nuca dele, onde os fios castanhos ainda molhados grudavam à pele dele.

-Eu faria tudo de novo se fosse preciso pra te proteger dos Volturi — Garrett murmura baixo e une suas testas, fechando os olhos em seguida. Kate também fechou os olhos — e o choque foi um detalhe. Não doeu muito — ele tenta brincar e Kate solta um riso analasado — doeria mais se eu te perdesse....



Kate afasta o rosto por um momento, apenas o suficiente para olhar para ele, surpresa pela sinceridade tranquila nas palavras de Garrett. Um sorriso suave se forma em seus lábios, carregado de ternura e emoção. Os olhos dourados dela, antes marcados pela melancolia ao lembrar-se daquele fatídico dia, suavizam-se, revelando um olhar intenso e apaixonado.



-Hoje se completa um mês daquele dia... desde que a Irina morreu... — o murmúrio desolado de Kate escapa quase como um suspiro e ela mergulha seus dedos nos cabelos molhados de Garrett, apertando-os entre seus dedos — e eu estou com tanta saudade da minha irmã que acho que se você não tivesse vindo com a gente, eu já teria ido pra Volterra e faria algo proposital para forçar os Volturi a me matarem também, porque não faria sentido continuar sem a Irina e sem você — as palavras de Kate bateram em cheio no peito de Garrett como um golpe invisível, profundo e devastador. O desespero de perdê-la o atravessou, tão intenso, que Garrett a puxou mais contra si de imediato, apertando-a levemente em seus braços, com sua mão esquerda se acomodando na lombar dela enquanto sua mão direita desliza para trás da cabeça de Kate, e os dedos se entrelaçaram nos fios loiros. Kate encosta o queixo no ombro de Garrett e ele afunda o rosto nos cabelos dela, numa tentativa desesperada de expulsar a cena de Kate diante dos Volturi, sendo engolida pelas chamas sob os olhares cruéis de Aro, Caius e Marcus que sua mente insistia em projetar.

-Shhhh não fala isso, meu amor — desesperado com a hipótese de perdê-la agora que a tinha encontrado, Garrett guiou a cabeça de Kate em direção ao seu ombro. Kate deitou a cabeça ali e afundou seu rosto no pescoço dele — não repita isso nunca mais... por favor — Garrett sussurra, massageando a parte de trás dos cabelos de Kate com a ponta de seus dedos. Com o rosto no pescoço dele, o nariz de Kate roçava no pescoço dele enquanto ela se prendia à Garrett ainda mais e seus dedos se fechavam nos cabelos dele em resposta às carícias, já que palavras não seriam suficientes para demonstrar o quanto ela precisava dele — Oque eu faria sem você? O que seria da Tanya se perdesse você também? Ou o que seriam da Carmen e do Eleazar? Eles precisam de você assim como eu também te preciso, meu amor...

Kate sorriu contra o ombro dele e espremeu os olhos que já estavam fechados. Assim foi como eles permaneceram e Kate se permitiu chorar por Irina nos braços de Garrett.

A mão direita de Garrett permaneceu pousada atrás da cabeça dela, com sua mão nos cabelos loiros acariciando-os, e continuou ali mesmo depois que Kate ergueu a cabeça para olhar para ele. Garrett abriu os olhos no mesmo instante, encontrando os lindos olhos dourados dela fixos nos olhos âmbar dele.

Garrett sorri e inclinou a cabeça em direção à ela, roçando a ponta de seu nariz no nariz de Kate, deixando suas bocas a milímetros de distância uma da outra. Kate se permite sorrir e Garrett deposita um selinho nos lábios dela antes de afundar o rosto na curva do pescoço dela e pressionar seus lábios ali, respirando o perfume doce de Kate.

-Me desculpa por isso... — Kate murmura, com os olhos fechados e totalmente entregue ao toque do beijo de Garrett em seu pescoço. Seu queixo apontava para cima e sua cabeça inclinava-se em direção à cabeça de Garrett, roçando o lado esquerdo de seu rosto contra o lado direito do rosto de Garrett, sentindo a textura áspera da barba dele arranhar sua pele com suavidade reconfortante. Sua mão esquerda pousada na nuca dele o trazia para perto dela.

-Não tenho nada que desculpar — Garrett diz antes de erguer a cabeça e abrir os olhos, encontrando os olhos de Kate, que reluziam sob a luz amarelada do closet. Sua mão direita permaneceu firme atrás da cabeça dela, mantendo-a junto de si, enquanto as mãos de Kate seguiam presas em sua nuca, os dedos deslizando lentamente pelos fios molhados de seu cabelo — Está tudo bem você chorar pela Irina... ela é sua irmã e pra sempre será... vocês viveram juntas por um milênio e eu não consigo nem mensurar a sua dor, meu amor — Garrett murmura baixo no momento que seus olhares se encontraram novamente — mas a partir de agora, viva pela memória da Irina. Ela ia querer que você e a Tanya fossem felizes... — Garrett sussurra, unindo suas testas mas mantendo os olhos abertos e fixos nos olhos de Kate, que permanecem abertos também, fixos nos olhos dele. O sorriso suave que escapou dos lábios de Kate fez o peito de Garrett se expandir em um turbilhão doce de desejo e ternura, como se naquele instante nada mais importasse além dela — E quanto a mim, eu sempre estarei aqui pra te abraçar bem forte — Garrett a aperta de leve pra demonstrar e Kate ri baixinho — e pra te beijar quando você sentir que a saudade apertou e quiser chorar, está bem?

-Eu não sei o que faria sem você — Kate murmurou, tentando brincar, e colocou as mãos no rosto dele, sem afastar suas testas e sem desviar o olhar dos olhos dele. Garrett não conseguiu conter seu riso, encantado com o jeito meigo dela — o que eu faço se te amo tanto?

-Se me ama tanto como diz, é só ficar comigo que eu vou cuidar de você... — ainda sorrindo, Garrett sussurrou, arrancando uma risada genuína de Kate, e então Garrett fechou os olhos ao inclinar-se para encontrar os lábios de Kate, que também fechou os olhos com a aproximação do rosto dele — me deixa cuidar de você pra sempre? — ele pede permissão. Seus lábios agora roçam contra os lábios de Kate, que sorria contra os lábios dele. Ela murmura um "uhum", fazendo Garrett sorrir. A mão esquerda de Garrett deixa a lombar de Kate e sobe até o meio de suas costas enquanto a mão direita de Garrett permaneceu nos cabelos de Kate, empurrando a cabeça dela contra a boca dele.

Seus lábios se entreabrem e suas línguas se encontram num roçar intenso e lento, que os faz se perderem um no outro. Um gemido baixo e involuntário escapou da garganta de Kate quando Garrett suga delicadamente seu lábio inferior dela, o qual ela respondeu com uma mordida leve e sensual no lábio de Garrett, arrancando dele um suspiro seguido por um gemido baixo.

Após alguns minutos, eles começaram a se afastar lentamente, trocando selinhos suaves, curtos e delicados, cada toque cuidadosamente prolongando a sensação de proximidade sem romper imediatamente a conexão que os unia. Só então se separaram de fato, mantendo as testas coladas e os olhos fechados, respirando quase em uníssono. Mesmo nesse afastamento delicado, a mão direita de Garrett continuou entrelaçada nos cabelos de Kate, firme, segurando-a com uma possessividade gentil, como se dissesse sem palavras que não queria, nem podia, deixá-la escapar de seus braços.

Seus lábios se curvaram em sorrisos mútuos e Kate inclinou a cabeça para o lado, erguendo o queixo suavemente em direção à Garrett e roçando seu nariz no nariz dele. Com suas mãos no rosto de Garrett, Kate acariciava suavemente a barba dele com a ponta dos dedos, em resposta a pressão que a mão esquerda dele exercia no meio das suas costas ao pressionar o corpo dela contra o corpo dele.

*********

Tanya estava sozinha na sala, sentada em um dos sofás com suas pernas dobradas para cima e seus pés descalços sobre o estofado. Seus braços envolviam os joelhos num gesto instintivo de autoproteção. A certa altura, Tanya levou sua mão direita à cabeça e a abaixou, apoiando o peso dela em seu cotovelo direito que pousava em um dos seus joelhos. O brilho amarelado do fogo na lareira tremulava sobre seu rosto e seus cachos loiros caem para a frente, fechando-se em seu rosto como uma cortina.

Os lábios de Tanya se curvaram em um sorriso triste quando seus pensamentos a arrastaram de volta ao passado, mais especificamente para a tarde que viu Irina pela primeira vez. Tanya se lembrava do olhar de Irina, que via beleza onde deveria haver medo. Agora, séculos depois, o mesmo sentimento que a fez sorrir naquele dia pesava como uma pedra dentro dela. O sorriso em seus lábios era doce e amargo, nascido do amor e da perda entrelaçados em um mesmo fio.

Flashback ON

Região da Bratislava, atual Eslováquia — Ano 907 depois de Cristo, século X da Era Cristã.

O sol da tarde banhava as colinas da região que um dia viria a ser capital da Eslováquia, um país da Europa Central que se tornaria independente apenas em 1993. O vento gélido daquela tarde de abril soprava forte, fazendo o mar de espigas se curvar e erguer em movimentos vivos, como se o próprio solo respirasse.

Três figuras femininas cruzavam o campo por entre as espigas, aproveitando que o campo de trigo aos arredores de uma pequena comunidade agrícola estava mergulhado na sombra. A mulher mais velha ia à frente. Sua postura era ereta e elegante. Seus cabelos loiros e cacheados dançavam ao sabor do vento, assim como seu vestido de veludo preto moldava-se ao seu corpo com naturalidade . Havia nela uma presença silenciosa, quase etérea, algo que transcendia a simplicidade daquele campo rural.

Com ela, vinham duas mulheres, aparentemente mais novas. A mais alta, que caminhava à direita da que as guiava, tinha cabelos lisos, dourados como o trigo ao redor, e o vento os fazia voar com leveza. Seu vestido de linho verde musgo envolvia seu corpo de forma simples, mas com uma elegância natural. A cintura marcada por um cinto de couro com pequenas bolsas e fivelas lhe dava um ar de prontidão, como se fosse tanto dama quanto guerreira. Cada passo fazia a barra do vestido roçar de leve nas espigas, produzindo um som quase melódico, um sussurro entre o tecido e o trigo. À esquerda da guia, vinha a mais baixa das três. Seus cabelos loiros eram cacheados como a mais velha e vestia um vestido azul e cinza, entrelaçado por fitas na frente, que realçava a feminilidade da jovem, enquanto algumas mechas soltas dançavam em torno do rosto.

Do outro lado do campo, uma menina camponesa interrompeu o seu trabalho de colher trigo e ergueu o olhar por entre as espigas douradas. Seus cabelos loiros lisos batiam em linha reta na altura dos ombros e misturavam-se entre o dourado das espigas enquanto seus olhos verdes escuros se fixaram nas três figuras cruzando o campo. A garota prendeu a respiração por um segundo. Aquelas mulheres não pareciam humanas. Eram anjos do Senhor, pensou, anjos que haviam caído à terra.

A menina, que era alta para a idade que tinha, deu alguns passos para trás e tratou de esconder-se entre as fileiras de trigo, ao perceber que os olhos da moça de cabelos cacheados pareciam estar procurando a presença que ela tinha sentido pelo campo. A garota, tentando não ser vista, tropeçou na própria cesta que repousava no chão.

O som seco do impacto ecoou, e os talos dourados se espalharam ao redor. A menina caiu de joelhos, soltando um gemido baixo. O atrito contra a terra arrancara a pele fina de seu joelho esquerdo e um filete de sangue começou a escorrer, misturando-se à terra úmida do campo. Assustada, a menina tentou se erguer, mas congelou quando percebeu que as três mulheres haviam parado e, agora, olhavam diretamente em sua direção. O coração da menina disparou.

As três, após se entreolharem, moveram-se até a menina com a mesma graça sobrenatural de antes, como se os pés mal tocassem o chão. Quando pararam diante dela, a mulher mais velha se abaixou lentamente, trazendo o rosto para a altura da menina e oferecendo um sorriso gentil. Os olhos das três eram vermelhos como sangue. A menina deixa escapar um som involuntário de sua garganta, algo entre um soluço e um suspiro de medo.

-Está tudo bem, querida? — perguntou a mulher, com uma voz tão suave que parecia se misturar ao vento. A menina assentiu, trêmula, sem conseguir tirar os olhos daqueles olhos vermelhos. As duas moças atrás da mãe sorriam para ela. Seus semblantes eram amáveis e serenos, quase angelicais, e a menina se viu dividida entre o medo e o encanto — Eu me chamo Sasha — disse a mulher, com um brilho de ternura no olhar — E você, meu bem, como se chama?

-I... Irina — respondeu a menina, hesitante.

-Um nome bonito para uma garota bonita- Sasha sorriu mais uma vez, inclinando a cabeça levemente. Irina apenas curvou seus lábios em um sorriso singelo — quantos anos tem, Irina?

-Doze...

-Como está o seu joelho, Irina? Posso ver?

Antes que a menina respondesse, Sasha segurou delicadamente a perna dela e Irina estremeceu ao sentir o toque da mão, que era fria como o gelo, mas estranhamente suave.

-Está bem... não dói — mentiu a menina, a voz trêmula. Sasha voltou-se então para a moça de cabelos lisos.

-Kate, querida, me dê um pedaço de pano.

A garota, que se chamava Kate, abriu uma das pequenas bolsas de couro presas ao seu cinto e retirou um pano branco dobrado, entregando-o à mãe sem dizer uma palavra. Sasha pressionou o tecido sobre o ferimento no joelho da garotinha com delicadeza. O toque era cuidadoso, quase reverente, e Irina observava, fascinada, sem entender se deveria fugir ou agradecer.

-Isso vai ajudar a fazer parar de sangrar — disse Sasha por fim, levantando o olhar e sorrindo outra vez. Irina olhava para seu joelho, onde Sasha pressionava o pano para estancar o sangue fresco — Estas são minhas filhas, Katrina — disse Sasha, erguendo o olhar para a moça de vestido verde. Irina olha para Kate, que sorri para ela — e Tanya — acrescentou Sasha, olhando agora para a de cabelos cacheados. Irina então olha para Tanya, que inclinou a cabeça em cumprimento. Seus olhos brilhavam com uma estranha doçura que parecia incompatível com aquele vermelho assustador. Irina, imóvel, olhava para as três mulheres de pele pálida, beleza impossível e olhos de fogo. Mesmo com o medo latejando no peito, só conseguia pensar numa coisa: talvez os anjos caídos fossem ainda mais belos do que ela imaginara.

Sasha se ergueu com a mesma elegância serena com a qual se agachou. Seu vestido de veludo se move em ondas suaves ao redor de suas pernas. O vento soprou mais forte, levantando alguns fios soltos de seu cabelo dourado. Ela olhou para Irina com um sorriso breve e maternal.

-Continue pressionando o pano por alguns minutos, meu bem. Vai parar de sangrar logo — disse com gentileza, antes de dar um passo atrás. Irina, ainda ajoelhada, observava as três figuras em silêncio, como se temesse que qualquer palavra pudesse desfazê-las em névoa. Mas algo dentro dela, uma curiosidade inocente e ansiosa, venceu o medo.

-De onde vocês são? — Irina ousou perguntar. Sua voz era leve, quase trêmula — nunca as vi por aqui

As três se entreolharam, trocando um olhar rápido e cúmplice. Foi então que a mais baixa, a de cabelos cacheados, deu o primeiro sorriso aberto, e abriu a boca pela primeira vez, a voz baixa, mas firme.

-Estamos vindo de Constantinopla — respondeu Tanya graciosamente. O coração de Irina acelerou e os olhos verdes da menina se arregalaram diante da menção da cidade quase mítica, capital do Império Romano do Oriente. Eram anjos viajantes, pensou Irina em sua inocência, e por um momento, desejou ser como elas. Kate, ao lado de Tanya, riu suavemente diante da expressão surpresa de Irina. Sasha olhou uma última vez para Irina, seus olhos vermelhos cintilando com uma ternura silenciosa, e então, voltando à postura ereta, retomou o passo à frente, guiando as duas filhas pelo campo de trigo dourado.

-Esperem! — Irina gritou, levantando-se apressada, e estendeu o pano branco, fazendo menção de devolvê-lo — O pano! A senhora esqueceu o pano!

Kate virou-se já a certa distância e sorriu para Irina. As duas mulheres, Tanya e Sasha, continuaram a andar e Kate então se apressa em alcançar a mãe e a irmã. Irina ficou no mesmo lugar, sentada por entre as espigas de trigo, observando enquanto as três figuras se afastavam até se fundirem à luz do entardecer. O vento movia as espigas, e por um instante pareceu que tudo não passara de um delírio. Quando Irina baixou o olhar, o pano de Kate ainda estava dobrado em suas mãos com seu sangue nele, prova de que o que ela viu foi real. Irina o abriu com cuidado, e no centro do tecido viu um brasão que parecia ser o emblema da realeza bordado em linha dourada, elegante e no meio do desenho, a letra K.

Flashback OFF

De volta ao presente — Fairbanks, Alasca, 2007

Imóvel, Tanya se deixou levar pelas lembranças de outro momento, mais especificamente de alguns anos depois daquela tarde de primavera no campo de trigo, quando o mundo se tornou cinzento, como se estivesse coberto por um véu de silêncio e sofrimento quando a epidemia de varíola assolou a Europa Central.

Ela se recordava perfeitamente do cheiro amargo da doença que se transmitia no ar, misturado ao aroma das ervas queimadas nas casas vizinhas numa tentativa inútil de afastar o contágio. Foi nesse cenário que voltaram a encontrar Irina, que agora era uma jovem moribunda e com a pele manchada pelas marcas da varíola.

Flashback ON

Região da Bratislava, atual Eslováquia — Ano 913 depois de Cristo, século X da Era Cristã.

A noite repousava espessa sobre a planície do Danúbio. A lua minguante, velada por nuvens rasgadas, iluminava a pequena comunidade agrícola que se erguia às margens do rio, onde o ar cheirava a madeira úmida, palha queimada e doença. Um amontoado de casas toscas cercadas por uma paliçada de troncos, tremia sob o flagelo da varíola. O som distante de tosses e lamentos pairava como uma reza fúnebre constante.

Na penumbra, três figuras femininas caminhavam com a leveza de espectros. Seus vestidos escuros ondulavam suavemente, sem o menor som, enquanto seus pés não pareciam sequer tocar o chão enlameado. Sasha, à frente, mantinha o semblante sereno, o olhar rubro varrendo as sombras entre as casas. Atrás dela, suas filhas, Tanya e Kate, seguiam em silêncio, tão etéreas quanto a névoa que envolvia os telhados de palha. A fraca luz das lamparinas refletia em seus rostos alvos e sem cor — tão belos quanto perturbadores.

Os camponeses que ainda se aventuravam pelas ruas estreitas paravam para observá-las com um misto de medo e fascínio. Sussurros se espalhavam pelas esquinas: "fantasmas...", "anjos da morte..." — ninguém se aproximava. Eles sabiam que a varíola não era a única coisa a temer naquela noite de inverno.

Mais adiante, o ranger pesado de uma carroça que passava com lentidão ecoava pelas vielas. Dois homens, cobertos dos pés a cabeça por mantos negros e máscaras assustadoras de bico longo e pontiagudo que cobriam seus rostos, arrastavam um corpo inerte e o depositavam sobre outros tantos empilhados. O cavalo bufava, inquieto com o cheiro de morte. Ao longe, o estalar de pás cavando a terra congelada denunciava o destino comum de todos: valas abertas fora das muralhas fortificadas.

Foi então que um som se ergueu no ar e invadiu os ouvidos das três imortais. Vinha de uma das casas próximas, uma estrutura simples de madeira trançada e barro seco, com janelas cobertas por panos. Sasha ergueu o rosto, os olhos brilhando num tom mais intenso.

-Ouviram isso? — Sasha parou por um instante e virou-se para olhar suas filhas, que a seguiam. Sua voz era baixa, mas imperiosa. Tanya assentiu. Kate também assentiu.

As três avançaram alguns metros e Sasha, a frente, empurrou a porta, que cedeu ao seu toque. As meninas entraram atrás dela. Dentro da casa, o ar era espesso, pesado, saturado pelo cheiro de febre e óleo queimado. O silêncio era cortado apenas por uma respiração trêmula, um som intermitente e irregular. A lamparina de ferro, pendurada num prego torto, lançava sombras dançantes nas paredes de barro rachado.

Tanya deixou-se ser guiada pelo som do coração que batia fraco e entrou em um pequeno quarto escuro, iluminado apenas por uma lamparina à óleo. O que viu fez o ar lhe escapar por um instante: Sobre uma cama de palha, uma jovem jazia entre cobertores rasgados. A pele dela ardia de febre, coberta por pústulas secas e suor. Mechas de cabelo loiro grudavam-lhe à testa e ao rosto pálido. A jovem era a única que ainda estava viva. Sua mãe, sua irmã mais velha e seu irmão mais novo haviam falecido dias antes e o corpo morto de seu pai acabara de ser tirado do interior da casa. Ela foi deixada para morrer sozinha e sentia que a morte estava mais próxima do que nunca. O som de passos silenciosos ecoaram sobre o chão de terra batida e chamaram a atenção da jovem na cama, que abriu lentamente os olhos.

-Você...? — murmurou a garota, a voz quase um sussurro quebrado. Tanya congelou. Um lampejo de lembrança atravessou sua mente: A menina entre as espigas no campo de trigo.

-Não pode ser... — Tanya sussurrou, sentando-se na beira da cama — Irina... é você?

Kate entrou no quarto nesse instante e tirou o capuz de sua capa vinho ao se aproximar da irmã mais velha, ficando em pé junto à cama. Seus olhos vermelhos fixam-se em Irina e seus lábios se curvam em um sorriso penoso pelo estado da garota.

-Ela cresceu... — Kate sussurra para Tanya, sem tirar os olhos de Irina

-É isso que os humanos fazem... eles nascem, crescem e envelhecem e morrem... — Tanya brinca, olhando para Kate por cima de seu ombro, e Kate solta uma risada anasalada — é o ciclo da vida

-E agora está morrendo pela doença — completou Sasha, fria, mas com uma suavidade quase maternal no timbre, ao adentrar o quarto. Tanya e Kate se viram para olhar para a mãe e a seguem com o olhar, observando como a mãe se aproxima de Irina, que faz esforço para virar a cabeça e olhar a origem da voz — morrerá tão nova...

-Vocês... — Irina tentou sorrir, mas estava sem força pra isso. Seus lábios tremiam, rachados, e seus olhos verdes quase não se mantinham abertos. A morte estava alcançando-a.

Sasha ajoelhou-se devagar ao lado da cama. Seus movimentos eram fluidos e silenciosos. Sasha estendeu a mão direita e tocou a testa febril da jovem, que agora olhava para ela. O rosto de Irina queimava como brasa sob o frio marmóreo dos dedos da vampira.

-Você cresceu e ficou tão linda... — murmurou Sasha, e por um breve instante, havia ternura em sua voz. Ela sorria e alisa a bochecha febril de Irina suavemente.

Tanya desviou o olhar e olhou para Kate, que observava a cena em silêncio, com os braços cruzados junto ao peito, esperando que Sasha desse o aval para elas se alimentarem. Sasha virou-se para as filhas.

-Não a toquem. — A ordem veio firme, sem hesitação. Kate arqueou a sobrancelha e Tanya franziu o cenho — Não nos alimentaremos dela.

-Mãe...? — Kate tentou dizer algo, mas Sasha a cortou rapidamente e voltou o olhar para Irina, que estava fraca demais para dizer algo. Os olhos da jovem lutavam para se manter abertos e pouco a pouco ela sucumbia e se entregava à morte que parecia iminente.

-Ela é diferente, Kate — Sasha voltou o olhar para Irina, que olhava para ela com seus olhos semicerrados — vai doer um pouco, mas prometo que depois passa

-Mãe, vai transformá-la? — Tanya pergunta alarmada e Kate olha para ela. Sasha apenas assentiu, com um olhar decidido para Irina. Seus olhos vermelhos faiscavam à luz fraca da lamparina.

-Sim.. Irina será sua nova irmã — Sasha responde baixo, agora deslizando sua mão pelos cabelos loios de Irina, que deixou escapar um último suspiro, fechando seus olhos — você vai ser minha nova filha e nós quatro seremos uma família feliz... — Sasha sussurrou no mesmo instante que o coração de Irina falhou uma vez e bateu fraco, somente para falhar pela segunda vez e então parar definitivamente. Foi nesse instante quando os dentes de Sasha atravessaram a pele febril do pescoço de Irina, que estava inerte. O quarto então mergulhou numa quietude quase sagrada, cheia de expectativa, e o fogo da lamparina oscilou com uma rajada de vento gélido que entrou através da porta que ficara entreaberta.

Esse foi o início de tudo. Naquela instante, Irina ganhou uma nova vida, uma segunda mãe e duas irmãs mais velhas que a amaram mais do que tudo.

Tanya deixou escapar uma risada em meio aos seus desvaneios ao lembrar-se do despertar de Irina como vampira e do susto que a caçula das irmãs levou ao ver seus olhos vermelhos no próprio reflexo nas águas do Danúbio. Lembrou-se pânico seguido de deslumbramento ao descobrir no que tinha se tornado.

Lembrou-se dos doces momentos que as três compartilharam ao lado da mãe. Foram cinco anos felizes vivendo como nômades, pulando de vila em vila se passando por uma mãe viúva vivendo uma vida pacífica com suas três filhas. A semelhança e a conexão entre as quatro era tanta que até elas mesmas passaram a acreditar que eram mãe e filhas biológicas.

Tanya, Kate e Irina significavam tudo para Sasha e era por umas as outras e por sua criadora, a quem as três tinham total devoção. Até que a fatídica noite de 918 depois de Cristo chegou e os Volturi mataram Sasha depois de descobrirem que ela havia criado uma criança imortal. O episódio marcou para sempre a vida das irmãs.

A dor da perda as fez procurar consolo nos braços de homens, o que as levou a originar o mito succubus. Tanya recordou-se das noites em que ela e suas irmãs iam juntas para as vilas por onde passavam durante suas viagens pela Europa como nômades, fingindo humanidade com seus melhores vestidos e sorrisos tentadores estampados em seus rostos.

Como anjos da noite, as três entravam nas tavernas tomadas pelo cheiro de cerveja e suor, onde a fumaça de tochas e cachimbos criava uma névoa quente e viva. Os homens as olhavam fascinados, incapazes de compreender o que exatamente os atraía, apenas sabiam que nada no mundo era mais belo do que aquelas três mulheres que pareciam feitas de luz e mistério.

Tanya podia até ver Kate recostada no balcão, com pigmentos vermelhos nos lábios carnudos que por si só eram sua marca registrada, e fingindo beber cerveja barata enquanto deixava o decote do vestido demarcar o contorno de seus seios e suas pernas à mostra "acidentalmente". Irina costumava sentar-se em alguma mesa com alguns caras e fingia rir de alguma piada contada por eles, com aquele jeito doce e curioso que marcava sua personalidade, enquanto se inclinava para a frente em um ângulo que propositalmente deixava seus seios em evidência, atraíndo para si olhares cheios de desejo. Já Tanya costumava desafiar os homens em jogos de xadrez. Sentava no colo de cada um e os embriagava à espera que o mais bêbado caísse em suas graças para a brincadeira começar.

Era divertido quando os homens cambaleavam sob o efeito da bebida enquanto ela, Kate e Irina os atraíam para um beco escuro ou para algum quarto das instalações ou até mesmo para o campo atrás das tavernas. Todo lugar era válido para elas saciarem seu prazer e sua sede. Tanya ainda podia ouvir as risadas abafadas e cúmplices que as três trocavam quando voltavam para casa com o sabor quente do sangue humano nos lábios e o rastro de sexo e perfume masculino marcados na pele, acreditando por um instante que o mundo era só delas.

Com tempo, as mortes, antes triviais, passaram a pesar para as três. Nem todos os homens eram brutamontes bêbados. Alguns eram gentis e se dirigiam à elas com ternura. As três começaram a se ver refletidas nesses olhares humanos e frágeis e a ilusão da monstruosidade que haviam abraçado quando acordaram como vampiras começou a ruir. Foi isso que motivou Tanya a descobrir que podiam viver de sangue animal. Kate e Irina a seguiram e foi assim que as três se tornaram vegetarianas.

Flashback OFF

De volta ao presente — Fairbanks, Alasca, 2007

Um sorriso triste curvou-se nos lábios de Tanya enquanto ela erguia a cabeça e olhava ao redor. A casa era silenciosa demais sem o riso contagiante de Irina, que costumava preencher cada canto. O sofá vazio ao lado de Tanya parecia um lembrete cruel. Ela respirou fundo, mais por hábito do que por necessidade, e o som leve do vento do Ártico lá fora batendo contra o vidro das janelas ecoou na sala. Foi então que, em meio àquela quietude saturada de memórias, ela escutou o som de passos vindos do andar de cima.

Tanya ergueu seus olhos dourados em direção ao mezanino e viu Kate surgir de mãos dadas com Garrett, que estava calado. Kate parou no alto do mezanino e colocou a mão esquerda sobre o guarda-corpo de vidro. Com sua mão unida à mão de Kate, Garrett parou e permaneceu ao lado dela, os dois imóveis, com os olhos fixos em Tanya. Abaixo, Tanya os observava e ninguém disse uma palavra. O silêncio entre Tanya e Kate, assim como a troca de olhares, carregava séculos de cumplicidade e de amor fraterno.

Tanya observou quando Garrett, ao lado de Kate, afrouxou o toque de suas mãos entrelaçadas e a perda imediata do contato fez os olhos de Kate se voltarem para ele. As mãos de Garrett deslizaram para a cintura de Kate ao mesmo tempo que aproximou os lábios do ouvido de Kate para sussurrar algo que Tanya não pôde ouvir, mas o modo como Kate inclinou sua cabeça em direção à ele e como a mão direita dela tocou com carinho o rosto de Garrett lhe mostrava que está tudo bem.

Então, Tanya viu o modo carinhoso como Garrett depositou um selinho nos lábios de Kate e como ela sorriu e beijou o canto da boca dele. Tanya não pôde evitar sorrir com os dois. Eram um casal adorável e Tanya estava feliz que Garrett tinha ido com eles para o Alasca, pois caso contrário, não saberia o que fazer com Kate, que certamente ficaria destroçada, além de que ela teria um certo patriota de Massachusetts para matar.

Tanya observou como Garrett, em silêncio, se afastou de Kate e desceu as escadas com a fluidez silenciosa dos vampiros, mas rápido demais para olhos humanos. Garrett desacelera apenas quando chegou na sala, seguido pelos olhos atentos de Tanya. Garrett se aproximou de sua nova irmã e tocou de leve o seu ombro. O sorriso que Garrett lhe dirigiu foi singelo e respeitoso. Tanya inclinou suavemente a cabeça e seus lábios se curvaram em um singelo sorriso em resposta.

Garrett, então, foi até a porta e a abriu. Seus olhos âmbar se ergueram para olhar para Kate no alto do mezanino, e ele sorriu para ela antes de desaparecer e a porta se fechar. O olhar de Tanya voltou a erguer-se em direção à Kate, que permanecia no alto do mezanino, olhando para a porta pela qual Garrett tinha saído segundos antes com um sorrisinho no rosto. As mãos de Kate seguravam o guarda-corpo de vidro quando ela então voltou os olhos para Tanya e por um instante, não sabia o que dizer. O brilho dourado de seus olhos oscilava sob o peso da saudade.

-Pra onde ele foi? — perguntou Tanya, num tom baixo, quase um sussurro, suficiente apenas para quebrar o silêncio.

-Caçar... — respondeu Kate. A voz saiu trêmula, quase um sopro, como se cada palavra carregasse o peso de um esforço contido

-E você não vai com ele? — Tanya estranhou, afinal, Garrett e Kate não se se separavam por nada.

-Hoje não... Eu não quero que você fique sozinha, ainda mais no dia de hoje. Garrett já conhece o perímetro, sabe voltar pra casa — Kate tenta brincar e o canto direito de sua boca se ergue em um sorriso leve, mas era claro que não tinha ânimo para isso. Tanya hesitou por um instante antes de perguntar:

-Você está bem, Kate?

A pergunta simples quebrou o frágil equilíbrio entre elas. Kate piscou, como se despertasse de um transe, e seu queixo tremeu. A dor rompeu a barreira de sua contenção, e sua voz rouca, embargada, deixou escapar apenas.

-Estou com tanta saudades da Irina....

Foi tudo o que Tanya precisou ouvir. Antes que qualquer outra palavra fosse dita, Kate desceu as escadas em um borrão. Tanya abriu os braços e colocou as pernas para baixo, com seus pés tocando novamente o chão. Kate atirou-se nos braços da irmã, encostando a cabeça no ombro de Tanya, e escondeu o rosto ali, como se buscasse abrigo. Com a mão esquerda deslizando pelas costas de Kate, Tanya fechou os olhos e pousou a mão direita sobre os cabelos loiros de Kate, deixando os dedos deslizarem entre as mechas lisas num carinho lento, hipnótico, que dizia mais do que qualquer palavra poderia. Cada movimento era um murmúrio silencioso de consolo, de presença, de amor que resistia à ausência.

-Eu não consigo parar de lembrar dela — murmurou Kate, a voz quase inaudível. Tanya não respondeu de imediato, mas sua mão continuou o movimento suave no cabelo de Kate — já faz um mês que a perdemos...

-Eu estava aqui, me lembrando de quando a conhecemos — Tanya sussurrou e se permitiu sorrir ao lembrar de Irina ainda menina naquele campo de trigo — ela era tão fofa....

Kate ergueu a cabeça devagar e abriu seus olhos dourados, buscando o rosto da irmã. Forçou um sorriso, triste e terno, e Tanya retribuiu com outro, igualmente frágil.

-Eu sinto tanta falta dela, Tanya... — murmurou Kate, a voz embargada. O sorriso de Tanya se desfez e suas mãos se ergueram ao rosto de Kate, um gesto quase humano em sua ternura, e respondeu num tom sereno, baixo.

-A Irina ainda está aqui... — a mão direita de Tanya escorrega e toca o lado esquerdo do peito de Kate, onde seu coração deveria estar batendo se elas fossem humanas. Já a mão esquerda de Tanya pousa nas pernas de Kate, que baixou a cabeça para olhar para a mão da irmã em seu peito, sorrindo — Irina pode não estar aqui fisicamente, mas sempre estará nos nossos corações e nas nossas memórias.

-O Garrett disse que devemos viver para honrar a memória dela... e eu concordo — confessou Kate, com a voz partida. Tanya deixa escapar um leve riso pelo nariz, suave, quase um sopro, e baixou a mão direita e a pousou sob a perna direita de Kate.

-Falou, é? — Tanya perguntou com um meio sorriso, e Kate assentiu, sorrindo de volta — ele é um cara legal, não é?

-Eu não sei o que faria sem o Garrett — Kate respondeu, quase num sussurro. Seu sorriso não se desfez, apenas cresceu com a menção do nome de Garrett. Tanya sentou-se de lado para olhar melhor para Kate e dobrou sua perna direita sobre a perna esquerda, unindo suas mãos sobre suas pernas. Kate se ajeitou ao seu lado e cruzou as pernas no sofá, colocando uma almofada no colo.

-Garrett te ama como um louco — Tanya fez uma pausa breve, com a voz suavemente quebrada, e o sorriso de Kate cresce — onde quer que estejam, a Irina e a mamãe devem estar muito felizes por você, assim como eu estou e assim como a Carmen e o Eleazar também estão.

A menção à mãe fez o sorriso de Kate se desmanchar. Ela fica surpresa, como se precisasse se certificar de que ouvira direito. A mãe era raramente mencionada em voz alta naquela casa porque doía demais lembrar-se da mulher cuja imagem se tornara quase mítica com o passar dos séculos. O peito de Kate se apertou com a lembrança de como tudo terminou naquela fogueira acesa pelos Volturi.

-Faz tanto tempo que você não fala da mamãe... — sussurrou Kate. Tanya sorriu com tristeza, desviando o olhar por um instante, como se também lutasse contra as próprias lembranças.

-Eu sei... Mas hoje eu senti vontade de falar dela... — Tanya respondeu em voz baixa e volta a olhar para Kate — Mamãe teria amado o Garrett — Tanya murmurou, com a voz trêmula, e Kate deixou escapar uma risada curta, melancólica.

-Você acha? — um meio sorriso surge nos lábios de Kate

-Acho... Assim como tenho certeza que ela teria amado a Carmen e o Eleazar... — Tanya responde e as duas sorriem — você já imaginou como as coisas seriam se estivéssemos juntos? Mamãe, eu, você, o Garrett, a Irina, o Laurent, a Carmen e o Eleazar?

-Penso direto.... — Kate confessa sorrindo e começou a imaginar aquela casa que agora estava tão silenciosa cheia de vida.

"Kate conseguia enxergar perfeitamente todos juntos ali naquela sala, rindo, como uma família grande e feliz. Imaginou sua mãe sentada ali, com o sorriso suave e acolhedor de sempre. Tanya estaria ao lado da mãe e sempre pronta para soltar uma piada que arrancaria gargalhadas e olhares de reprovação da mãe. Garrett estaria com seus braços envolvendo-a em um abraço protetor enquanto sua cabeça descansaria no peito dele. Os dois trocariam vários beijinhos preguiçosos".

"Irina e Laurent também estariam abraçados e Laurent estaria enrrolando os cabelos de Irina ao redor de seus dedos. Irina estaria de olhos fechados, com a cabeça encostada no ombro dele enquanto Laurent estaria depositando selinhos nos lábios dela, o que arrancaria risos de Irina. Era assim que eles costumavam ficar quando a família se reunia na sala para assistirem juntos algum filme e Kate sempre achou fofo. Carmen e Eleazar completariam a cena. O braço de Eleazar estaria, como sempre, passado com naturalidade pelos ombros de Carmen, enquanto os dois trocavam olhares cúmplices e beijos apaixonados".

-Eu gostaria que pudéssemos ter tido isso de verdade... — murmurou Kate, a voz carregada de saudade e ternura. Os lábios de Tanya se curvam em um sorriso fraco. Era óbvio que ela também desejava que o destino tivesse sido menos cruel — mas ninguém sabe como teria sido se a mamãe estivesse viva... — enquanto Kate continua falando, Tanya a observa em silêncio, atenta a cada palavra. O braço esquerdo de Tanya se ergue devagar até o encosto do sofá e ela apoia a cabeça levemente inclinada em seu cotovelo enquanto seus olhos dourados estavam fixos em Kate, como se tentassem decifrar cada nuance de sua voz e expressão — Talvez as coisas tivessem que ter sido como foram para que sejamos como somos. Eu penso direto em como seria se pelo menos a Irina e Laurent estivessem aqui...

-Eu também penso na Irina e no Laurent direto e em como seria bom se eles estivessem com a gente... mas imagina se a mamãe tivesse nos dado um pai ao invés de criar uma criança imortal? — Tanya provocou suavemente, a voz tingida por um humor melancólico. Kate levantou o olhar e um sorriso se abriu devagar.

-E quem garante que você já não teria encontrado sua alma gêmea? — Kate retruca, um misto de carinho e travessura, e Tanya deixa escapar uma risada anasalada.

-Ah, sim... e com a mamãe, mais um pai, Irina e Laurent nós seríamos quantos? Nove? Se eu tivesse alguém subiria para dez... — Tanya disse com um olhar brincalhão e Kate ri, assentindo — Imagina isso, Kate? Com esse tanto de gente vivendo sob o mesmo teto, precisaríamos de uma casa bem maior e com mais quartos — Tanya completou, com um sorriso que se abriu um pouco mais, e uma risada leve lhe escapou dos seus lábios. Kate não pôde deixar de rir também. O som da risada de Tanya trazia de volta ao coração de Kate a lembrança das noites em que as três irmãs riam juntas, das histórias sem fim e das conversas que duravam até o amanhecer.

-Seria uma bagunça... — Kate diz rindo e Tanya assente com a cabeça, ainda apoiando o peso dela sobre seu cotovelo esquerdo que repousava sob o encosto do sofá.

-Seria... mas admita que seria uma bagunça pra lá de boa! Seríamos uma família grande como os Cullen

-Seria muito bom — Kate responde baixinho, ainda rindo.

Tanya permaneceu sorrindo por um momento, observando a irmã mais nova. A luz pálida da manhã entrava pelas janelas da sala, desenhando um brilho suave no rosto pálido de Kate, que a observava de volta com um meio sorriso. Os olhos dourados de Kate refletiam o mesmo misto de ternura e melancolia que os de Tanya. Ainda que a vida tivesse lhes tirado as pessoas que elas mais amavam, era reconfortante saber que ainda tinham uma a outra como sua mãe e Irina teria querido que Tanya e Kate continuassem: Unidas e cuidando uma da outra.

Nenhuma das duas falou mais nada por enquanto. O vento do lado de fora sussurrava contra as janelas, e o estalar distante da madeira da casa parecia acompanhar o ritmo calmo daquele momento. Kate foi quem quebrou o silêncio, a voz saindo num tom suave.

-Mas voltando pra nossa realidade, nós ainda somos um time, não é? — A pergunta veio simples, mas carregada de necessidade de ouvir em voz alta aquilo que o coração já sabia. O sorriso nos lábios de Tanya se ampliou com ternura e sem dizer nada de imediato, inclinou levemente a cabeça, observando a irmã com aquele olhar caloroso que misturava força e doçura. Então, Tanya viu Kate estender sua mão direita para ela. Tanya não hesitou em pegar a mão de Kate e entrelaçou seus dedos, sentindo o toque frio, mas familiar da irmã.

-Sempre... Não importa o que aconteça. — Tanya respondeu, num tom baixo, mas seguro. Kate sorriu e Tanya apertou levemente a mão da irmã, inclinando-se um pouco para frente e unindo sua testa à testa de Kate, que sorria — eu te amo, irmãzinha — Tanya disse com voz firme e doce.

-Também te amo... — Kate responde, apertando de leve a mão de Tanya em resposta.

-Kate, eu quero que saiba que você e Irina foram e sempre serão o melhor presente que a mamãe poderia ter deixado pra mim... eu não se o que teria sido de mim se não tivesse vocês duas.. não sei o que faria se te perdesse também...

-E saiba que ser a irmã de vocês duas foi e sempre será a melhor coisa que me aconteceu — Kate respondeu no mesmo tom de Tanya, que sorria para ela — e você nunca vai me perder. Eu estarei com você até o fim da linha — Kate completa e Tanya toma a iniciativa de abraçá-la, passando os braços ao redor de Kate e apoiando seu queixo no ombro direito dela. A mão esquerda de Kate pousa na lombar de Tanya enquanto sua mão direita vai parar atrás da cabeça dela. Kate beija os cachos loiros da irmã e Tanya sorri e fecha os olhos com o gesto. Por um instante, parecia que o mundo inteiro se resumia àquele gesto das duas.

Nesse momento, um raio de sol do nada atravessou o vidro da janela como se tivesse escolhido aquele exato momento por alguma razão. A luz dourada se espalhou sobre elas, deslizando por suas peles e fazendo-as brilhar como se fossem feitas de milhares de pequenos diamantes. Elas se afastaram devagar, apenas o suficiente para se olharem e mantiveram suas mãos unidas. Ao se verem brilhando, sorriram cúmplices.

Havia algo naquele instante que ultrapassava a razão. Era como se o universo lhes mostrasse que alguém as observava com amor e que não estavam sozinhas. Tanya e Kate sentiram, sem precisar dizer, que Irina e sua mãe estavam ali, não em corpo, mas em espírito, abraçando-as também.


*********

Algumas horas se passaram e a tarde caiu. A casa continuava mergulhada em silêncio quebrado apenas pelas risadas e diálogos vindos da televisão da sala. Carmen tinha ido bem cedinho para Anchorage, cidade a cerca de seis horas de distância de Fairbanks, para acompanhar de perto a obra de um chalé de luxo que estava construindo para um casal de clientes antigos e provavelmente não chegaria em casa antes das sete da noite. Já Eleazar cumpria sua rotina como professor de Economia Política na Universidade do Alasca, no campus de Fairbanks. Eleazar amava lecionar e era a sua paixão, misturada à sua didática, o que cativava seus alunos, que o adoravam, tornando suas aulas muito disputadas.

Embora estivessem ocupados com seus afazeres, Carmen e Eleazar procuravam manter contato constante. No horário de almoço, Eleazar tinha ligado para o celular de Tanya para saber se ela, Kate e Garrett estavam bem. Carmen, por sua vez, ligou duas horas depois para saber sobre eles, como se fosse um combinado entre ela e Eleazar, já que ambos sabiam o peso que aquele dia 31 de janeiro carregava e queriam garantir que Tanya e Kate não estivessem enfrentando a dor da perda de Irina sozinhas. Era uma preocupação silenciosa, mas constante, nascida do amor e da família que haviam construído juntos.

Tanya e Kate estavam juntas na sala, agora envoltas em um clima leve e tranquilo. A série F.R.I.E.N.D.S, a favorita de Tanya, passava na tela, iluminando o ambiente com luzes coloridas e sons familiares. Tanya estava sentada em um dos sofás. Suas pernas estavam cruzadas e uma almofada com capa de crochê off white com franjas descansava sobre suas coxas. Seus olhos dourados acompanhavam cada cena e ouvia com atenção a cada diálogo que ela já sabia de cor enquanto suas mãos deslizavam suavemente por entre as mechas lisas dos cabelos de Kate, num movimento lento e afetuoso. De vez em quando, uma risada suave escapava de seus lábios diante de alguma cena da série.

A cabeça de Kate repousava sobre a almofada no colo de Tanya e ela estava deitada de barriga para cima, com as pernas dobradas para cima, e as balançava-as suavemente no ar. As mãos de Kate repousavam sobre seu abdômen, e seus cabelos lisos, tão dourados como ouro líquido, se espalhavam pelo colo da irmã mais velha, refletindo o brilho suave da televisão.

O riso fácil de Tanya em alguns momentos arrancava de Kate pequenos sorrisos, mas a distração momentânea não era suficiente para afastar sua crescente preocupação. Apesar de Kate manter os olhos voltados para a televisão, Kate só conseguia pensar que Garrett ainda não havia retornado da caça. O tempo passava devagar, e a ausência dele começava a pesar em seu peito como um mal pressentimento.

Kate tentava se convencer de que talvez Garrett apenas estivesse caçando um pouco mais longe do que o habitual, mas o medo crescia dentro dela. E se algo tivesse acontecido? Ou pior... e se Garrett tivesse simplesmente decidido não voltar e tivesse ido embora do Alasca? Onde ele estaria agora? Pra lá da fronteira canadense? A lembrança de Laurent desaparecendo e deixando Irina para trás, despedaçada e posteriormente consumida pela dor da perda do seu amor surgiu e Kate apertou as mãos sobre o seu abdômen, tentando afastar o pensamento, mas o medo persistia, silencioso e cruel.

Tanya desviou o olhar da tela e pousou-o sobre Kate, percebendo a mudança no semblante da irmã mais nova e a forma como Kate tamborilava os dedos sobre o próprio abdômen. Conhecia a irmã a séculos demais para saber que Kate estava incomodada com algo.


-O que foi, irmãzinha? — perguntou Tanya num tom leve. Seus dedos continuam acariciando de leve os cabelos dourados que repousavam sobre seu colo. Kate hesitou por alguns segundos. Seus olhos ainda fixos em algum ponto indefinido à frente, antes de murmurar.

-É o Garrett... — sua voz saiu baixa, trêmula. — ele tá demorando pra voltar. Não é normal.

-Vai ver que ele não encontrou nada ainda... — Tanya tentou manter o tom calmo — você sabe que é dificil caçar no inverno porque os animais hibernam...

-E se ele não voltar, Tanya? — Kate ergueu o olhar e franziu a testa ao olhar para a irmã. Tanya pôde ver a preocupação estampada nos olhos de Kate — E se o Garrett se cansou do Alasca e de tentar ser vegetariano? E se eu fui só mais uma aventura e chegou a hora dele parar? — as últimas palavras saíram quase num sussurro, como se o próprio som delas a ferisse.- E se ele foi embora e me deixou como o Laurent deixou a Irina?


O nome de Laurent caiu entre as duas como um eco do passado. Tanya inspirou fundo, a mandíbula apertando por um segundo antes de relaxar.

-Ei, Kate... se endireita e olha pra mim — Tanya pede firme e Kate sai do colo dela e se senta ao seu lado, virada para Tanya e com os olhos fixos na irmã — O Garrett não é o Laurent. Ele te ama igual um louco. Eu vejo isso cada vez que ele olha pra você. Ele não iria embora... — Tanya falou com firmeza, a voz suave, porém carregada de certeza — ele disse que te seguiria aonde quer que você fosse.... não disse?


Kate assentiu, sentindo como a tensão em seus ombros cedia um pouco. Tanya aproveitou a brecha e forçou um pequeno sorriso.


-Mas se você quiser ter certeza ter a certeza de que ele continua aqui por perto e que vai voltar, eu vou com você atrás dele — Tanya levantou uma sobrancelha, brincando, e um canto de sua boca se ergueu — vamos procurar o seu Romeu — ela brinca e Kate deixou escapar uma risada curta, aliviada, e assentiu.

-Tá... vamos atrás dele.


Tanya pegou o controle e desligou a televisão enquanto, ainda sentada ao seu lado, Kate calçava depressa suas botas pretas, ansiosa para saber o paradeiro de Garrett. Tanya tentou manter o ar tranquilo, mas por dentro, um misto de preocupação e irritação fervilhava. Se Garrett realmente tivesse deixado Kate, ela o caçaria até o fim do mundo, ao mesmo tempo que seu instinto dizia que ele não faria isso. Garrett amava Kate, não é mesmo? Mas Laurent também amava Irina e isso não o impediu de ir embora. Tanya estava confusa sobre o que acreditar, mas temia perder mais uma irmã por culpa de outro nômade.

As duas se apressaram para andar até a porta. Kate estava tão ansiosa para encontrar Garrett que foi na frente, sem querer esperar por Tanya, que terminava de calçar seus coturnos ainda sentada no sofá. Kate abriu a porta e o vento gelado entrou pela fresta, invadindo a sala. Porém, antes que pudesse dar o primeiro passo, uma sombra conhecida surgiu nos degraus do alpendre.

Kate deixou escapar um suspiro de alívio ao vê-lo subindo os degraus que davam ao alpendre da entrada. Seus cabelos castanhos estavam bagunçados pelo vento e cheio de flocos de neve nele. Seus olhos continuavam âmbar, indicando que ele mantinha-se fiel à sua nova dieta. Ao ver Kate na porta, Garrett parou no meio da escada de cinco degraus, a somente alguns passos de Kate, e sorriu.

Antes que Garrett dissesse qualquer coisa, Kate correu em sua direção, como se temesse que ele desaparecesse diante de seus olhos e em um só movimento, se lançou nos braços dele. Garrett mal teve tempo de reagir, apenas a segurou com firmeza quando as pernas dela se enroscaram em sua cintura e os braços se prenderam em torno de seu pescoço. Garrett então terminou de subir os degraus que faltavam para chegar ao alpendre e dá alguns passos até a porta, com Kate ainda em seus braços.

Os olhos de Kate se fecharam quase no mesmo instante em que o abraçou e virou lentamente o rosto em direção a ele, buscando-o de um jeito instintivo. O nariz dela roçou de leve os cabelos castanhos dele e um arrepio suave percorreu seu corpo quando o aroma amadeirado de Garrett a envolveu. Era o cheiro dele, inconfundível, e bastou que ela o respirasse fundo para sentir seus músculos relaxarem, o desespero se dissipando aos poucos. Por um instante, Kate apenas ficou ali, afundada naquele abraço, imóvel.

Garrett sentia como o corpo de Kate estava tenso sob seu toque e, num gesto instintivo e terno, colocou sua mão direita atrás da cabeça dela e beijou os cabelos dourados de Kate antes de apoiar o queixo no ombro dela. Nesse momento, as mãos de Kate subiram para os cabelos de Garrett e seus dedos se agarraram nos fios castanhos.


-O que houve.... — Garrett pergunta confuso por aquela recepção um tanto desesperada e seu olhar encontrou o de Tanya, que estava parada à porta, sorrindo para eles com os braços cruzados junto ao peito. Confuso, Garrett a encarou por sobre o ombro de Kate, buscando uma explicação silenciosa. Tanya apenas arqueou uma sobrancelha enquanto Kate ergueu o rosto devagar, afastando-o o suficiente para olhar para Tanya. Seus dedos ainda se enroscavam nos cabelos castanhos de Garrett, apertando-os como se tivesse medo de soltá-lo.

-Estávamos indo atrás de você — Tanya responde com um misto de ternura e ironia

-Mas porque? O que houve? Vocês estão bem? — havia medo na voz dele.

-Pergunta pra sua namorada.. ou sei lá o que vocês dois são — Tanya lhes dirige uma piscadela e entra na casa, fechando a porta em seguida, os deixando a sós no alpendre. Garrett então olha para Kate, sem entender nada.

-O que houve? — ele volta a perguntar, dessa vez sussurrando e com preocupação evidente em sua voz. Kate olha para ele

-Você demorou... — murmurou ela, com a voz quase trêmula. Garrett piscou, atordoado. — Eu comecei a achar que tivesse ido embora. Eu ia atrás de você...

-Que? — Garrett franziu o cenho e seu rosto, tipicamente brincalhão, se tornou sério ao perceber que Kate falava sério. Ele deixar escapar uma risada baixa e irônica, incrédula. Até parece que ele ia embora sem ela... — Kate...

-Pensei que tivesse desistido de ficar com a gente — Kate respondeu, com os dedos ainda apertando os cabelo dele — e que tivesse desistido de mim.... — A última parte sai baixa, quase inaudível.


Por um segundo, o silêncio pairou entre eles, quebrado apenas pelo farfalhar do vento gélido que bagunçava os cabelos de Kate. Então Garrett apertou Kate levemente contra si, de forma que o corpo dela molda-se ao dele, e inclinou a cabeça, trazendo sua testa para tocar a testa dela. O contato foi suave, íntimo, quase como se o mundo inteiro tivesse diminuído de tamanho ao redor deles. Kate fechou os olhos instintivamente e seus dedos continuaram entrelaçados nos cabelos castanhos de Garrett, segurando-o firme. Garrett também fechou os olhos, respirando devagar, como se cada segundo ali fosse precioso demais para ser interrompido.


-Isso nunca vai acontecer, amor — ele sussurrou, roçando seu nariz no nariz dela e também pressionando de leve a testa dela contra a sua, uma vez que sua mão direita permanece pousada nos cabelos de Kate — eu nunca vou embora, não sem você... eu te prometo e você sabe que eu nunca quebro minhas promessas.


Os olhos dourados de Kate se abriram devagar e encontram os olhos âmbar de Garrett que a observavam com ternura. Um sorriso surgiu nos lábios de ambos. As mãos de Kate subiram suavemente até o rosto de Garrett, pousando nas bochechas, como se quisesse memorizar cada detalhe dele.

Num movimento quase instintivo, os lábios se tocaram suavemente num pressionar leve. Por um instante, tudo se reduziu àquele toque, doce, silencioso e cheio de significado, antes que ambos se afastassem, ainda sorrindo, os olhos brilhando com cumplicidade e carinho.


-Eu demorei pra voltar porque não consegui caçar os ursos que eu queria. Estão hibernando e isso me fez ter que ir mais para o sul, onde encontrei uns alces — Garrett acrescentou num tom divertido e Kate riu — Desculpa por te preocupar, meu amor. Da próxima vez eu mando um sinal de fumaça ou algo assim — Garrett brinca e Kate ri.

-Seria útil — Kate comentou com um olhar divertido. Garrett ri e os dois voltam a se beijar, dessa vez mais do que um simples toque de lábios.


Quando Kate e Garrett atravessaram a porta, entrando na sala sob a luz suave do fim de tarde, Tanya já estava de volta ao sofá, com a cabeça baixa ao desamarrar o cadarço de seus coturnos. Seus cachos loiros caíam para a frente e quase arrastavam no tapete da sala. Kate agora estava sobre seus próprios pés e segurava a mão de Garrett com firmeza, enquanto Garrett a acompanhava com um sorriso calmo. Tanya ergueu a cabeça e sorriu para os dois.

-A gente estava de saída para te procurar — disse Tanya com um sorriso maroto se formando nos lábios. A frase arrancou risos imediatos de Garrett enquanto Kate só olha para ele, sorrindo. Garrett olha para Kate, sorrindo, e ergue seu braço na altura de Kate para deslizar sua mão pelos cabelos loiros dela — se perdeu, foi?

-Tive que ir para o Sul. Os ursos estão hibernando — Garrett responde, rindo, e olha para Tanya, que colocava seus coturnos junto ao sofá antes de cruzar as pernas sobre o estofado. Ele sentiu quando a mão de Kate soltou a sua para logo em seguida os braços dela envolverem seu abdomen, apertando-o como se não quisesse mais soltá-lo. Garrett olha para Kate e a vê apoiando o queixo no ombro dele, com seus olhos dourados fixos em algum ponto do chão de madeira lâminada. Seus cabelos dourados caíram para a frente como uma cortina de ouro líquido. Garrett soltou uma risada baixa, e a puxa para si, abraçando-a com cuidado e depositando um beijo na testa dela, o que arrancou um sorriso de Kate, que encostou a cabeça no ombro dele — fizeram o que de bom?

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-Conversamos sobre a Irina... relembramos o passado... foi bom — Kate ergue a cabeça para olhar para ele ao responder, e sorri. Garrett sorri para ela e deposita um selinho nos lábios dela.

-Você não muda de assunto, Garrett! — o tom acusatório de Tanya faz Garrett interromper o selinho e olhar para ela. Tanya apontava para ele e Kate revira os olhos ao encarar a irmã, voltando a encostar a cabeça no ombro de Garrett — Se você tivesse ido embora, eu juro que iria atrás de você até o fim do mundo se fosse preciso e mataria por magoar a minha irmã! — Tanya diz, misturando brincadeira com um aviso sério. Garrett arqueia uma sobrancelha, com um sorriso largo e confiante abrindo-se no rosto, enquanto aperta Kate contra si.

-Eu só vou embora se irmã me expulsar daqui — Garrett responde com um tom de brincadeira e olha para Kate, a apertando de leve novamente. Kate, ao voltar a erguer a cabeça para olhar para ele, ri baixinho.

-O que vai ser no dia de são nunca... — Kate responde, sorrindo. Os dois então trocam um selinho. Quando se afastaram, um sorriso escapou dos lábios deles enquanto suas testas se encostavam por uma fração de segundo.





Tanya sorriu para eles e então puxou de volta a almofada que antes servira de travesseiro para Kate. Abraçando-a contra o peito, se recostou no sofá e, com um leve toque no controle remoto, deu play na série. A música da abertura de F.R.I.E.N.D.S, "I'll be there for you", preenche a sala e em silêncio, Kate e Garrett se acomodam juntos no sofá perpendicular ao de Tanya. O episódio continuou exatamente de onde havia sido pausado, e o riso dos personagens ecoou suavemente no ambiente acolhedor. Garrett passou o braço direito ao redor de Kate, num gesto natural, e pousou a mão sobre o quadril dela com um toque firme e protetor.

Kate se ajeitou, deixando seu corpo se moldar ao corpo dele. Cruzou uma perna sobre a outra e sua mão esquerda repousou sobre o joelho direito de Garrett enquanto sua cabeça se apoiava no peito dele. Os cabelos loiros de Kate se espalharam sobre o peito e o ombro de Garrett, que sorriu para ela e passou o polegar de leve sobre o quadril dela, num movimento calmo, compassado. Tanya, observando de relance, sorriu de canto, aconchegando-se um pouco mais na almofada.


Os três permaneceram ali, imersos, enquanto as horas escorriam sem pressa. O riso artificial da série se misturava a sorrisos verdadeiros, e o tempo parecia se dissolver entre falas conhecidas e piadas que Tanya repetia junto com os personagens. O aconchego da sala contrastava com o frio do Alasca. Por volta das cinco da tarde, o dia já tinha cedido ao domínio da noite e agora os três estavam mergulhados no escuro que só não era absoluto porque tinham o brilho da televisão e das chamas da lareira.

Garrett fitava as janelas da sala, onde apenas a escuridão o encarava de volta. Permaneceu sentado no sofá, com Kate encostada em seu peito. O corpo dela estava totalmente entregue ao conforto de seus braços. Seu braço direito continuava envolto ao redor da amada, mantendo-a junto de si, firme, mas ao mesmo tempo com uma delicadeza quase reverente. A mão direita repousava sobre o quadril de Kate, imóvel, aquecida pela presença dela, enquanto a esquerda descansava em sua própria perna.

Embora tudo aquilo ainda fosse novo, Garrett percebia o quão rápido estava se adaptando à sua nova vida. Ele não tinha encontrado um clã, mas sim uma família. Tanya, Carmen e Eleazar eram pessoas incríveis, que o acolheram e o tornaram membro da família no instante que ele decidiu que seguiria Kate onde ela fosse.

Ainda assim, sua mente, inquieta por natureza, o levou de volta à lembrança de outra existência que já não lhe pertencia, vivida em meio à simplicidade e ausência de luxos, numa fazenda em Massachusetts, na Nova Inglaterra. Esse era o lar para onde ele não pôde voltar depois da guerra. Para sua família e para aqueles que conheceram Garrett Alden, ele morreu na Batalha de Yorktown, naquela madrugada fria de 4 de outubro de 1781.



"Garrett ainda podia sentir o cheiro da terra úmida que se erguia no ar após as típicas chuvas de fim de tarde que caíam no verão. Podia ouvir o som distante do bule chiando sobre o fogão a lenha misturado ao tilintar das xícaras na mesa de madeira enquanto o cheiro de café fresco se espalhava pela casa simples onde crescera no interior de Massachusetts, preparado religiosamente todas as manhãs por sua mãe e sua cunhada. Ao fundo, como um eco distante, ouvia as risadas infantis de sua sobrinha correndo descalça pelo chão de tábuas. Garrett inclusive podia ouvir a voz doce de Charlie, sua sobrinha, o chamando para brincar com ela do lado de fora.

Garrett sentia tanta saudade de casa, de sua família... e, principalmente da sua borboletinha... Só de pensar em Charlie, Garrett sentia seu peito se apertar. Ele a amou como se fosse sua própria filha e eram tão grudados que sua mãe dizia que o dia em que Garrett se casasse e tivesse seus próprios filhos, Charlie sentiria, e muito, mas Garrett sempre respondia que Charlie seria sempre seu primeiro amor. Não tinha nenhuma fotografia de Charlie até porque fotografia sequer existia naquela época, mas ele não precisava. O rostinho de sua borboletinha, seus cachinhos castanhos claros e, principalmente, aqueles olhinhos azuis cheios de vida, estariam para sempre gravado em sua mente com uma nitidez que o tempo jamais apagaria.

Por um instante, Garrett se pegou imaginando se Charlie teria sentido ciúmes de Kate e esse pensamento o fez imaginar como as coisas poderiam ter sido diferentes se ele e Kate tivessem se conhecido em outras circunstâncias, como humanos nascidos no mesmo século. Pensava na vida simples e feliz que os dois poderiam ter tido vivendo no interior de Massachusetts, no século XVIII, com sua família por perto. Tanya e Irina ainda seriam as irmãs de Kate e apesar de não ter conhecido os dois, Garrett imaginava Irina viva e feliz com Laurent. Carmen e Eleazar talvez fossem os primos, e todos estariam juntos nos almoços de domingo. Seria o melhor dos mundos se ainda tivesse sua família mortal e também sua nova família, imortal, que tão bem o recebeu.

Garrett se recordava da sua última noite em casa. Em seu quarto, ele terminava de arrumar sua mala para partir pela manhã no trem das 7 que partiria para Nova Jersey, onde ele deveria se apresentar no quartel-general do Exército Continental. Charlie apareceu de pijama em seu quarto e pediu para dormir ele. Garrett nunca esqueceu dos olhinhos azuis cheios de lágrimas e do beicinho fofo que ela fez. Garrett se lembra como, ao pegá-la no colo, Charlie se aconchegou contra seu peito, não querendo que ele fosse embora. Então ele deitou-se junto dela e prometeu que voltaria assim que a guerra acabasse. Os dois dormiram uma última vez juntinhos como sempre faziam e Garrett foi embora antes do dia amanhecer, enquanto Charlie ainda dormia. Essa era a última lembrança que ele tinha da sua eterna borboletinha.

Dali em diante, Garrett nunca mais quebrou uma promessa. Cumprí-las era sua forma silenciosa de pedir perdão à Charlie por não haver retornado".



De volta para a realidade, Garrett pousou os olhos em Kate, que estava alheia aos pensamentos que o atravessavam, completamente imersa na série que passava na televisão. A cabeça dela descansava contra seu peito e o rosto sereno exibia um pequeno sorriso tranquilo nos lábios. O reflexo da tela projetava uma luz suave em seus traços delicados, realçando o dourado vívido de seus olhos e o brilho sutil dos cabelos loiros, que se espalhavam sobre o peito de Garrett, que se perguntava, com uma pontada de incredulidade, como Kate poderia sequer imaginar que ele tivesse ido embora.

Kate realmente não parecia fazer ideia da intensidade do seu amor por ela. Garrett a amava tanto que não se imaginava passar mais um dia sem ela. Imaginava tudo o que poderiam ter vivido se fossem humanos. Garrett se via envelhecendo ao lado dela, imaginava Kate grávida, sorrindo enquanto ele acariciaria a barriga arredondada. A simples ideia fazia um nó se formar em sua garganta ao lembrar que jamais sentiria os pequenos chutes do bebê que teria sido a perfeita mistura deles dois.

Ainda com os olhos fixos em Kate, um sorriso despontou no canto dos lábios de Garrett ao pensar que, se dois meses atrás alguém lhe dissesse que encontraria o amor de sua vida em meio a uma convocação para enfrentar os Volturi, ele teria rido, incrédulo. Foram duzentos anos vagando sozinho, certo de que sua eternidade seria solitária, e pra ele estava tudo bem. Era tudo o que ele conhecia até então. Se apaixonar definitivamente foi totalmente inesperado e agora estava ali, com Kate em seus braços, e a amava com uma intensidade que às vezes o assustava. Garrett já não podia mais imaginar uma vida sem ela.

Garrett se inclinou um pouco e fechou os olhos ao pressionar os lábios nos cabelos loiros de Kate, respirando fundo o perfume fresco que se misturava ao próprio cheiro amadeirado dele. Kate ergueu levemente a cabeça, ainda encostada em seu peito, e o olhou com um sorriso que parecia iluminar o ambiente ao redor. Garrett abriu os olhos nesse momento e sorriu para ela antes de se inclinar mais, unindo seus lábios aos dela num beijo suave que logo se aprofundou.

A mão esquerda de Kate, que antes repousava sobre o joelho dele, subiu devagar até o rosto de Garrett. Seus dedos deslizaram pela linha da mandíbula dele, firmes e delicados, até pousarem ali com carinho. Ele correspondeu ao toque, envolvendo a cintura dela com o braço, puxando-a ainda mais para si, enquanto o beijo se tornava mais intenso.

No outro sofá, Tanya agora estava deitada de lado, com as pernas levemente dobradas sobre o estofado, e sua cabeça apoiada sobre a almofada. A luz trêmula da lareira criava reflexos dourados em seus cachos loiros e enquanto assistia sua série, um pequeno sorriso se desenhou em seus lábios ao escutar o som úmido do beijo de Kate e Garrett. Tanya estava feliz pela irmã, que havia encontrado a alma gêmea que por tanto tempo ela sonhou.


Algum tempo depois, o som distante de um carro chegou até eles, cortando a quietude da sala. Logo depois, o ronco do motor do portão da garagem sendo aberto ecoou. Tanya sentou-se no sofá imediatamente e apontou o controle remoto para a televisão e deu pausa, congelando a cena. Ela ergueu o olhar alerta, com o corpo levemente inclinado para frente para tentar espiar em direção ao corredor.

No outro sofá, Kate se desvincilhou um pouco dos braços de Garrett, embora a mão direita dele se unisse à mão esquerda dela e seus dedos se entrelaçassem. Os olhos de Kate se fixaram no final do corredor escuro que dava para a garagem, brilhando de expectativa, enquanto Garrett apoiava o braço esquerdo dobrado sobre o encosto do sofá e acompanhava o movimento de Kate, atento.

Eles escutam o motor de um carro se desligando e em seguida, passos firmes ressoaram pelo corredor. De repente as luzes da corredor e da sala se acenderam e Eleazar apareceu. Ele sorri ao avistar as três figuras diante dele. Tanya sorriu, relaxando um pouco, e encostou-se no sofá. Kate também sorriu enquanto Garrett apenas observava.

Eleazar sentiu um aperto no peito ao ver as meninas que considerava como suas irmãs ou até mesmo filhas a depender do dia e da situação. Seus olhos dourados parecem procurar o quarto rosto que deveria estar ali, com as irmãs mais velhas. A ausência de Irina pesava sobre todos como uma sombra silenciosa e o certo era que ninguém tinha se acostumado com a ausência dela. Eleazar respirou fundo, contornando a mistura de alegria e saudade.


-Carmen já chegou de Anchorage? — ele perguntou, com a voz carregada de preocupação, e avançou em passos lentos pela sala silenciosa até a cozinha, cujas luzes estavam todas apagadas. O brilho suave vindo da lareira desenhava o contorno de seu rosto enquanto ele deixava a maleta de couro preta sobre a pedra fria do balcão de granito. O som do couro ao tocar a superfície ecoou baixinho pelo ambiente.

-Ainda não — respondeu Kate, num tom suave. Eleazar ergueu o olhar para ela, e um sorriso singelo curvou-lhe os lábios, um gesto quase paternal.

-E como foi o dia de vocês? — Eleazar perguntou, estudando o semblante das duas irmãs, que pareciam tranquilas. Então, ele se virou, caminhando até o sofá onde Tanya estava, e parou logo atrás dela, o olhar sereno, observando-a por um instante. Tanya, ao sentir sua presença, girou o corpo levemente no sofá, apoiando um dos braços no encosto enquanto voltava o rosto em sua direção.

-Foi bom. Eu e a Kate estivemos o dia todo aqui, mas o Garrett saiu para caçar.... — respondeu Tanya, com um sorriso sereno — e foi sozinho... — Tanya completou com um tom carregado de orgulho genuíno, antes de voltar o olhar para Garrett.

Eleazar ergueu as sobrancelhas, surpreso por um instante, e seu olhar se suavizou. Um sorriso satisfeito despontou em seus lábios enquanto fitava o patriota, claramente contente com a determinação dele em adaptar-se à nova dieta. Havia algo quase paternal em sua expressão — um orgulho silencioso por ver que Garrett se esforçava não apenas para se ajustar ao estilo de vida deles, mas, acima de tudo, por seu amor à Kate.

Os lábios de Garrett se curvaram num sorriso tímido. Ele não estava tentando se exibir ou buscar aprovação de ninguém, apenas queria que soubessem que não tinha planos de ir embora. Kate, em silêncio, olha para Garrett, sorrindo. Seus olhos dourados denunciava o quanto se sentia orgulhosa. Garrett voltou o olhar para ela e seu sorriso cresceu. Kate ergueu as mãos, pousando-as suavemente sobre o rosto dele e se inclinou para unir seus lábios aos dele em um beijo breve, mas carregado de ternura e amor. As mãos de Garrett pousam no rosto de Kate no meio do beijo. Eleazar e Tanya se entreolharam, cúmplices, e sorriram.

-E o seu dia, como foi? — perguntou Tanya para Eleazar, ainda sorrindo, enquanto o calor suave da cena permanecia no ar.

-Bom também — disse Eleazar, com o habitual tom calmo. Kate e Garrett ouvem e olham para ele — Vou deixar vocês três com sua série e vou subir para o meu quarto. Quando a Carmen chegar, peçam para ela subir, por favor?


Os três assentiram e então Eleazar subiu as escadas, mas antes, parabenizou Garrett novamente com direito a tapinhas nos ombros, fazendo Garrett sorrir. Kate sorri para os dois. Tanya permaneceu sentada no sofá, com as pernas cruzadas e puxa a almofada de volta para o colo, enquanto estende o braço direito, apontando o controle remoto para a televisão e dá play no episódio de FRIENDS, retomando exatamente de onde haviam pausado.

Kate, então, puxou as pernas para cima do sofá, sem se preocupar em tirar as botas que calçava, e dobrou-as para o lado sobre o estofado, permitindo que o corpo dela se encaixasse contra o de Garrett. Ele observou o movimento com um sorriso tranquilo e cúmplice, enquanto seus braços a rodeiam de imediato, envolvendo-a num abraço protetor e confortável.

Os braços de Kate também se moveram. Ela o abraçou pela cintura, com suas mãos pousando sobre o abdômen dele. Em seguida, ela repousou a cabeça no peito dele, buscando aquele refúgio silencioso que só Garrett conseguia oferecer. Garrett correspondeu ao inclinar-se ligeiramente e pressionou os lábios sobre os cabelos loiros dela, inalando o perfume suave dela.

Sua mão direita permanecia pousada na lombar de Kate, mantendo-a junto de si. A esquerda, porém, começou a se mover lentamente, subindo até o braço direito dela. Os dedos de Garrett deslizavam com cuidado sobre o tecido macio da blusa preta de manga comprida que ela usava sob o colete de pêlo marrom. O toque era leve, quase reverente, e Kate se aconchegou ainda mais nos braços dele, com os olhos semicerrados. Garrett fechou os olhos por um instante, com os lábios ainda pressionados contra os cabelos dourados dela.



Alguns minutos depois da chegada de Eleazar, o som de um segundo carro se aproximando ecoou, seguido pelo rangido do portão da garagem sendo aberto. Tanya, Kate e Garrett se entreolharam, mas ninguém se moveu, nem mesmo para pausar a série. Já sabiam quem era.

Tanya apenas abaixou o volume com um toque no controle remoto e voltou o olhar para a porta. Segundos depois, Carmen surgiu no corredor aceso por Eleazar minutos antes, elegante como sempre, equilibrando várias amostras de materiais nas mãos que reluziam sob a luz do televisor. O ar frio da noite ainda a acompanhava, e um sorriso se desenhou em seus lábios ao ver a cena acolhedora que a esperava na sala.



-Oi, pessoal! Buenas Noches — disse ela sorridente e parou atrás do sofá onde estavam Garrett e Kate. Kate ergue a cabeça do peito de Garrett e ergue o olhar para olhar para Carmen enquanto Garrett joga a cabeça pra trás para olhar para ela.

-Olá... — Tanya responde sorrindo

-Como vai? — Kate responde sorridente também. Carmen sorri para elas.

-Como foi seu dia?

-Bom e o seu? — Garrett é quem fala agora e Carmen olha para ele.

-Lotada de trabalho — Carmen ri e então se inclina para a frente e coloca as amostras de material sobre o braço do sofá onde estavam Kate e Garrett, que a observam em silêncio — mas é o que eu amo fazer, então não reclamo — Carmen brinca e coloca seus cabelos castanhos para trás das orelhas ao se endireitar e então ergueu o nariz sutilmente ao captar um aroma familiar e olhou para cima, na direção do mezanino, à procura do marido — Eleazar já chegou do trabalho? — Carmen perguntou e volta a olhar para Tanya, Kate e Garrett, que olhavam para ela.

-Chegou há alguns minutos — Tanya respondeu com serenidade — foi para o quarto de vocês dois

-Ele disse para avisar quando você chegasse, subisse lá — Kate completou e volta a recostar a cabeça no peito de Garrett.



Garrett inclinou a cabeça e pressionou um beijo suave sobre os cabelos dourados dela. Kate fechou os olhos por um instante, deixando escapar um pequeno sorriso contra o peito dele, e em seguida, ergueu o rosto. Quando seus olhos dourados encontraram os dele, um sorriso sereno floresceu em seus lábios antes que Garrett se inclinasse para tocá-los com os seus, iniciando um beijo tranquilo e apaixonado. A mão direita de Garrett deslizou para o quadril direito de Kate, enquanto sua mão esquerda se move lentamente pelos fios loiros dela, acariciando-os com delicadeza, em gestos lentos e quase hipnóticos.

Carmen e Tanya observavam a cena com sorrisos calorosos. Depois de uns segundos, Carmen olhou para Tanya, que olhou para ela com um sorriso cúmplice, o mesmo que ela havia trocado com Eleazar minutos antes.

Sem mais demora, Carmen recolheu suas amostras e o restante do material, e começou a subir as escadas. O som leve de seus passos contra os degraus de madeira se misturam à série que passava na televisão. Enquanto isso, Garrett permanecia abraçando Kate. Sua mão direita descansava no quadril dela, enquanto a esquerda deslizando pelos fios loiros, acariciando-os com delicadeza em gestos lentos, quase hipnóticos.

Entre risos baixos e selinhos preguiçosos, Kate e Garrett também mordiscavam os lábios um do outro para depois virem com selinhos mais demorados e até beijos mais profundos. Os dois estavam completamente alheios ao mundo ao redor. Os braços de Kate rodeavam o abdômen de Garrett, com suas mãos pressionando suavemente os flancos dele e agarrando firmemente o tecido cinza de sua camisa de mangas três quartos. Tanya, por sua vez, acomodou-se no outro sofá, retomando a atenção à série, mas com um sorriso discreto, cúmplice do amor que emanava do casal ao lado.



********

Depois de horas maratonando a primeira e a metade da segunda temporadas de Friends, Kate e Garrett subiram para o seu quarto. O corredor estava silencioso, salvo pelo som distante da televisão da sala que ainda ecoava lá embaixo. Tanya ficou assistindo o restante da segunda e provávelmente passaria a noite toda maratonando pela milésima vez. Ela era fã da sitcom.

Quando chegaram à porta do quarto, Garrett a abriu com um gesto calmo e a segurou para que Kate passasse primeiro. Ela sorriu para ele ao entrar e esticou a mão para acender as luzes no interruptor, inundando o quarto com um brilho acolhedor que contrastava com o escuro do corredor.



-Então... — Garrett começou, parado na porta que segurava aberta, e apoia o ombro direito no batente, com a outra mão na cintura e a perna direita transpassada diante da esquerda. Kate deu uma volta completa sobre os próprios pés e voltou-se para ele — é sério mesmo que você acreditou que eu tinha ido embora? — ele finge indignação e Kate soltou uma risada curta.

-Por um momento, sim... — ela confessou em voz mais baixa e o sorriso que ainda estava em seu rosto foi se desfazendo aos poucos — eu achei que você tivesse desistido de nós.... Você pode mudar de ideia a qualquer hora, Garrett — As palavras saíram da boca de Kate como um sussurro — Eu não te odiaria por isso. Eu te deixaria ir se fosse pra você ser feliz... mesmo que isso me destruísse...



Com os olhos fixos nela, Garrett endireitou o corpo que até então apoiava no batente da porta. A expressão antes brincalhona desapareceu de seu rosto, cedendo lugar a um olhar sério. Por uns segundos, ele desviou sua atenção para a porta ao fechá-la atrás de si com um clique suave e então começou a caminhar em direção à Kate, que permaneceu imóvel. As íris douradas dela subiram, acompanhando as íris âmbar de Garrett à medida que ele se aproxima e fica cada mais alto e mais perto dela, como se temesse que, a qualquer instante, ele fosse desaparecer diante dela.



-Mulher... — murmurou Garrett enquanto seus braços deslizam pela cintura de Kate. Suas mãos traçam um caminho firme até se encontrarem na lombar dela, onde seus dedos se entrelaçam, assim fechando-a em seu abraço — você tem alguma noção do quanto eu te amo, por acaso?

-Será que sei? — um sorriso travesso surgiu nos lábios de Kate e ela inclina suavemente a cabeça para o lado, sem tirar os olhos de Garrett, enquanto suas mãos repousam na clavícula dele, sob o tecido da camisa cinza que ele vestia. Garrett inclinou-se, unindo sua testa à de Kate, sem jamais quebrar o contato visual. Os olhos dela fixos nos olhos dele, como se todas as palavras que poderiam ser ditas estivessem ali, no silêncio compartilhado.

-Se lembra que eu disse que te seguiria aonde você fosse? -murmurou ele, quase em um sussurro, e Kate assente. Um sorriso doce se formou em seus lábios ao se lembrar da primeira vez que ele disse exatamente aquelas palavras, lá na clareira, exatos trinta dias atrás — é uma promessa... eu não consigo mais imaginar passar um dia sem você....



Kate então fechou os olhos e se permitiu relaxar nos braços de Garrett. O perfume amadeirado dele envolvia seus sentidos. Garrett sorriu e fechou os olhos, inclinando-se e unindo seus lábios aos lábios dela. O beijo veio como uma surpresa para Kate, afinal estava de olhos fechados, mas levantou as mãos e pousou-as delicadamente no rosto de Garrett, sentindo a aspereza da barba e o contorno da mandíbula dele sob seus dedos. A respiração de ambos se misturou enquanto o mundo ao redor desaparecia, deixando apenas o calor e a intensidade daquele momento.

Lentamente, Garrett começou a guiá-la em direção à cama. Kate se permitiu ser conduzida, andando para trás enquanto ele avançava à frente. A ponta da língua de Garrett pressionou os lábios de Kate, fazendo ela entreabrir os lábios, permitindo assim que a língua dele invadisse sua boca e encontrasse a língua dela nesse momento com uma dança precisa, explorando cada centímetro, provocando pequenas contrações involuntárias no corpo dela. Cada movimento calculado para aumentar a antecipação. O som do contato dos lábios, misturado aos suspiros e gemidos abafados que escapavam deles dois era o único som que quebrava o silêncio do quarto, criando uma música própria, íntima e quase palpável.

A mão esquerda de Garrett pressiona a lombar de Kate, puxando-a para si, enquanto sua mão direita deslizou pelos cabelos loiros, com seus dedos se enroscando nas mechas loiras de Kate enquanto empurra a cabeça dela contra a dele enquanto seus lábios sugavam o inferior dela, arrancando um gemido abafado dela. As mãos de Kate não se moveram do rosto de Garrett e seus polegares acariciavam a linha da mandíbula dele com delicadeza, traçando o contorno da barba. Os anéis metálicos nos dedos dela faiscavam à luz tênue do quarto.

Ao bater as pernas na cama, Kate sentou-se na beirada enquanto Garrett se inclinou para a frente para não ter que acabar o beijo. Ele manteve os lábios colados aos dela enquanto se sentava ao lado dela na beira da cama.

Os dois viraram-se para ficarem frente a frente e Kate inclusive dobrou a perna esquerda sobre a cama, sem dar a miníma que estivesse de sapato sobre a cama enquanto Garrett permanece com as penduradas para fora da cama.

As mãos de Kate permanecem no rosto de Garrett a todo momento, mas a mão direita de Garrett deixou os cabelos de Kate e deslizou até o quadril dela, sentindo as curvas sob seus dedos. Simultaneamente, a mão esquerda de Garrett, que antes repousava na lombar de Kate, se deslocou para o outro quadril dela, envolvendo-a quase que completamente.

O beijo continuou intenso, mas, aos poucos, eles diminuíram a pressão dos lábios, trocando selinhos suaves até se afastarem. Quando abriram os olhos, os rostos ainda estavam próximos, respirações misturadas, os olhos de Kate se prendem aos olhos de Garrett e ambos sorriem. Os olhos e Garrett, no entanto, carregavam uma melancolia delicada.



-Muitos anos atrás, prometi a uma garotinha de quatro anos que voltaria para casa assim que a Guerra da Independência terminasse — Garrett começou e sua voz era baixa. Ele então fez uma pausa, tentando esconder a dor que a lembrança que surgia em sua mente despertava com um meio sorriso.


Kate o ouviu atentamente, e por um instante, teve a nítida impressão de que a voz de Garrett carregava saudade, talvez de casa, em cada sílaba dita. O timbre rouco e baixo parecia trincar nas bordas, denunciando o quanto aquela lembrança ainda o tocava. Ela notou o meio sorriso que surgiu nos lábios dele, que tentava suavizar a dor, mas que, aos olhos dela, só a tornava mais evidente. Havia amor na voz dele, um amor antigo, profundo... e não o tipo de amor que se esquece com o tempo.

Garrett tinha dito que não teve filhos ou esposa quando era humano, mas a forma como falava daquela garotinha soava como um pai e Kate se pegou pensando em quem seria a menina? Será mesmo que Garrett não tinha tido uma filha e mentido por medo de afastá-la? Pensar nisso a fez sentir-se tola. Mesmo que ele tivesse uma filha, não mudaria o que sentia por ele. Era impossível não o amar. Mas então, como um estalo, lhe veio à mente Garrett ter mencionado que teve uma sobrinha, filha do irmão mais velho. E, de repente, tudo fez sentido.


-A garotinha era sua sobrinha? De quem você me falou uma vez? — perguntou Kate. As mãos de Kate permanecem no rosto de Garrett e seus polegares traçavam uma linha suave ao longo da mandíbula dele. Garrett assentiu, assumindo um sorriso nostálgico ao lembrar de Charlie.

-Ela se chamava Charlotte. Charlie era o apelido... Mas pra mim, ela era a minha borboletinha, porque quando ela nasceu era bem pequenininha — a voz de Garrett ficou mais suave, quase um murmúrio, e lentamente, as mãos dele deixaram os quadris de Kate erguendo-se no ar enquanto ele mostrava, com as palmas viradas uma para a outra, o tamanho que a pequena Charlotte tinha quando nasceu — Quando eu a vi pela primeira vez, ela tinha minutos de nascida e estava enrrolada em um pano, parecendo uma largatinha no casulo.... então ela foi crescendo e ficando linda, igual uma borboleta...


O carinho que Garrett demonstrava ao falar da sobrinha arranca um sorriso de Kate, que olhava atenta para as mãos dele, seguindo o gesto. Kate então tirou as mãos do rosto de Garrett e levou na altura do seu rosto para afastar seus cabelos que caíam sobre o próprio rosto, prendendo-o atrás das orelhas. Suas mãos então repousaram sobre as pernas de Garrett, tocando o tecido da calça jeans de lavagem escura que ele vestia.

Foi um pensamento rápido, mas suficiente para arrancar um sorriso dela. Garrett, com aquele jeito brincalhão, o riso fácil e um coração imenso, teria sedo um pai incrível. Kate conseguia facilmente imaginá-lo contando histórias antes de dormir, com a voz grave e animada, fazendo vozes diferentes para cada personagem só para ver o filho rir. Conseguia vê-lo correndo atrás de uma bicicleta, incentivando uma criança a pedalar sem rodinhas....

A imagem a fazia sentir-se leve e por um segundo, Kate quis ser capaz de dar um filho à Garrett. Era absurdo. Bizarro, até. Um pensamento que não fazia o menor sentido, especialmente vindo dela, que nunca se viu sendo mãe de ninguém, nem quando era humana e muito menos depois de ser transformada por Sasha. A infertilidade, para Kate, sempre foi uma bênção, ainda mais se considerasse os tempos antigos em que ela, Tanya e Irina perambulavam pelas tavernas durante a noite em busca de diversão e sexo. A ideia de gerar uma vida era quase risível. Os homens, na maioria bêbados, viajantes e até mesmo casados, com quem elas transavam e depois se alimentavam não eram os tipos ideais para formar uma família. Eram apenas distrações momentâneas que as ajudava a esquecer da dor de perder a mãe.

Kate nunca teve um instinto maternal aflorado, embora adorasse Renesmee. Ela até gostava de crianças, apesar de não ter contato com nenhuma, mas a ideia de ter outra pessoa dependendo cem por cento dela, ainda mais um bebê pequeno e indefeso, sempre lhe pareceu estranha até agora. No entanto, ouvir como Garrett se abria com ela sobre Charlie e ver o quanto ele ainda amava a garotinha mesmo após duzentos anos, algo dentro de Kate se remexia e sua mente, sempre tão lógica, começou a criar imagens de uma vida humana que eles jamais viveriam.

Pela primeira vez em um milênio, Kate se pegou imaginando como seria estar grávida e como seria a sensação de sentir os braços de Garrett envolvendo sua cintura, o toque protetor dele sobre sua barriga, sentindo juntos o bebê chutar. Imaginou crianças loirinhas correndo pelo jardim de uma casa grande com cerca de madeira branca tipicamente americana que eles teriam comprado para começar a vida juntos e para constituir uma família. E então veio uma curiosidade boba. De que cor seriam os olhos dos filhos que eles teriam? Teriam herdado o verde que um dia fora o tom dos seus? Ou teriam os olhos de Garrett? De que cor teriam sido os olhos dele, afinal? Castanhos?.

Foi um pensamento rápido, mas ao despertar dele, Kate desviou o olhar por um segundo e olhou para baixo, envergonhada da própria imaginação, e respirou fundo antes de levantar a cabeça e fitá-lo novamente. Garrett ainda sorria, perdido na lembrança, e ela percebeu que aquele homem que enfrentava o mundo com bravura e sarcasmo, carregava uma ternura que o tornava ainda mais irresistível.


-Você sente falta da Charlie, não sente? — sussurrou Kate, a voz baixa, quase um sopro, enquanto seus dedos tocaram levemente o braço de Garrett. Ele ergueu os olhos para ela, e naquele brilho âmbar havia algo que parecia pulsar, quase humano, quente e vivo.

-Todos os dias — admitiu ele, e um sorriso nostálgico se abriu lentamente em seus lábios, suave, como se cada lembrança fosse acariciá-lo e ao mesmo tempo pesar sobre seus ombros. Seus olhos não se afastaram dos de Kate, presos neles, e revelando a profundidade da saudade que carregava — Charlie era muito apegada a mim, e eu a ela. Ela gostava de dormir comigo... Minha mãe até dizia que, no dia em que eu me casasse e tivesse meus próprios filhos, Charlie sentiria ciúmes...


Um sorriso doce e genuíno se abriu no rosto de Kate e por um instante, ela se pegou imaginando como teria sido Charlie, a garotinha que era talvez a maior saudade de Garrett. Kate teria gostado de conhecê-la, mas será que Charlie teria gostado dela?


-A Charlie teria sentido ciúmes de você no começo... — disse ele, e a ternura na voz era tão palpável que fez Kate prender a respiração por um instante, apenas absorvendo.

-Ah, qual é? Eu sou tão legal! — Kate brincou, fingindo indignação, e levantou uma mão ao peito. Garrett riu, baixo e profundo, o riso envolvendo-a como um calor suave. Ele balançou a cabeça em meio à risada, e inclinou-se apenas um pouco para a frente, diminuindo ainda mais a distância entre seus rostos.

-Eu sei que você é legal, amor... Mas esse ciúme seria momentâneo, porque depois a Charlie ia ver a mulher maravilhosa que você é e amar ter você como tia... aliás, todos lá de casa te adorariam e você seria a melhor tia, pode ter certeza disso. Eu via como você agia perto da Nessie lá em Forks... — murmurou ele, e por um momento deixou que a imaginação o levasse e seus olhos perdessem um pouco o foco. Seus ombros relaxaram e o corpo inteiro se suavizou, deixando que sua imaginação pensasse na vida que ele e Kate nunca tiveram e que infelizmente nunca teriam. Kate, sem perceber, também deixou que um sorriso doce se espalhasse por seu rosto.


Antes que Kate pudesse dizer qualquer coisa, Garrett voltou a olhar para ela e inclinou-se suavemente em sua direção. Suas mãos subiram lentamente até o rosto dela, envolvendo delicadamente suas bochechas com os dedos, o toque firme e ao mesmo tempo suave, como se temesse quebrar algo frágil. Os olhos âmbar dele se fixaram nos dourados dela, profundos e penetrantes, carregando toda a atenção e emoção que ele não precisava expressar em palavras.

Kate sentiu um arrepio leve na espinha enquanto seus dedos subiam instintivamente até os pulsos de Garrett. Com cuidado, começou a deslizar os polegares, em movimentos lentos, suaves, quase exploratórios, sentindo cada contorno da mão dele. A respiração dela se misturava à dele, o ritmo se ajustando como se eles compartilhassem a mesma frequência silenciosa.


-Eu te contei sobre a Charlie porque quero que você entenda uma coisa... — disse Garrett, mantendo os olhos fixos nos dela enquanto Kate o olhava com expectativa — Eu jurei pra mim mesmo que nunca mais quebraria uma promessa... nem para uma criança... — continuou ele, a voz um pouco mais baixa — e muito menos para a mulher maravilhosa que está agora na minha frente.


As últimas palavras ditas por Garrett vieram acompanhadas de um sorriso que se abriu nos lábios dele. Kate piscou devagar, surpresa com a ternura da confissão, e um sorriso pequeno, mas cheio de luz, formou-se em seus lábios. Garrett então inclinou o rosto mais perto e roçou a ponta do seu nariz na ponta do nariz de Kate, enquanto seus olhos permaneceram fixos nos dela.


-Eu te prometi há um mês que te seguiria para onde quer que fosse... e eu não vou quebrar essa promessa — a voz de Garrett voz soou quase como uma promessa antiga sendo selada e ainda segurando o rosto de Kate entre as mãos, ele uniu suas testas. Kate fechou os olhos com o toque e ele também fecha os olhos dele — pra sempre estarei com você... eu te amo tanto que você não faz ideia do tanto que eu já imaginei pra gente...

-Eu também te amo... muito... — Kate sussurra e o sorriso que já estava ali nos seus lábios cresce. Ela então desencosta sua testa da dele e abre os olhos. Garrett também abre os olhos com a perda do contato — mas você pode mudar de ideia a qualquer hora, Garrett — As palavras saíram quase num sussurro — Você é livre para ir e vir e se você decidir que o Alasca não é o seu lugar e que a dieta vegetariana não é pra você, eu não vou odiar por isso, eu vou continuar te amando mesmo você não estando aqui. Eu quero que você seja feliz, mesmo que não seja comigo e que isso me destruísse... — ela confessa, com a voz trêmula, e Garrett sorri.

-O Alasca de fato não é o meu lugar... — ele responde sorrindo e Kate fica tensa, com medo do que viria a seguir. Seus olhos dourados fixos nos âmbar dele e seu queixo tremula, como se ela fosse chorar se pudesse. Garrett sente o peito ao apertar ao ver a carinha dela, mas continua sorrindo porque era algo bom o que viria — até porque o meu lugar é onde você estiver e eu te prometo, meu amor, que eu nunca vou sair do seu lado... Seremos eu e você pra sempre... — e sem mais palavras, Garrett colou seus lábios aos dela, mas Garrett não se contentou em apenas tocar os lábios de Kate. Ele então deslizou a própria língua suavemente para dentro da boca dela, sentindo a maciez e a resistência leve de seus lábios entreabertos. Kate, por reflexo e desejo, deixou que o contato acontecesse, aprofundando o beijo.


A língua dele explorava com delicadeza, quase brincando, traçando o contorno da língua dela antes de se entrelaçar de forma mais lenta e deliberada. Kate respondeu, movimentando a própria língua, curiosa e tímida no início, mas logo se deixando levar. Cada toque era meticuloso, cheio de nuances: o deslizar de uma língua contra a outra, os pequenos encontros e recuos, o calor e a umidade que se misturavam, criando uma dança silenciosa e íntima.

As mãos de Kate, antes apoiadas nos pulsos de Garrett, agora deslizam suavemente e envolvem os antebraços dele. O cheiro amadeirado dele neutralizava todos os seus sentidos como fazia a névoa de Alec nas suas vítimas. O beijo, intenso e ternamente possessivo ao mesmo tempo, era promessa do que Garrett tinha dito minutos antes. Kate sentiu-se flutuar por aquele momento, completamente entregue à ele, a quem ela pertencia.

Após alguns minutos, Garrett afastou-se o suficiente para mergulhar nos olhos dourados de Kate, como se precisasse de uma permissão silenciosa. O contato dos lábios se perdeu, e Kate abriu os olhos devagar, deixando um sorriso suave surgir em seus lábios ao encará-lo. Suas mãos subiram naturalmente ao rosto de Garrett, deslizando com delicadeza pelos traços dele, explorando a linha da mandíbula, acariciando as têmporas, arrancando um sorriso contido dele.

Com um leve impulso, Garrett inclinou-se sobre ela, e Kate se deixou guiar, deitando de costas na cama. Seus cabelos se espalharam em um leque sedoso, emoldurando o rosto de Garrett e delineando contornos que prenderam seu olhar. Um sorriso quase imperceptível se formou em seus lábios, como se estivesse hipnotizado, antes que ele se inclinasse novamente, trazendo os lábios para os dela.

O beijo retomou com a mesma intensidade, carregado de desejo. Primeiro, os lábios apenas se roçaram, explorando, até que a urgência se tornou incontrolável. Garrett sentiu Kate entreabrir os lábios, convidando-o a aprofundar, enquanto as mãos dela subiam para sua nuca, prendendo seus dedos nos cabelos castanhos dele e puxando-o contra si. A língua de Garrett deslizou lentamente, provocando, brincando com a dela, cada movimento medido para incendiar o momento.

Kate respondeu com a mesma intensidade, envolvendo a língua dele com a própria, alternando com mordidinhas suaves no lábio inferior dele, cada gesto arrancando um arrepio que percorria o corpo dele. Garrett se acomodou sobre ela, sentindo o calor do corpo dela moldar-se ao seu. Suas mãos exploravam cada curva, deslizando pelas laterais, traçando contornos, sentindo cada vibração sob seu toque, enquanto a união das línguas, a pressão dos lábios e cada sussurro de pele sobre pele pareciam incendiar tudo ao redor, consumindo-os em uma chama silenciosa, mas avassaladora.


Entre sussurros e promessas que pareciam suspender o tempo, Kate e Garrett se entregaram um ao outro sem reservas, como se o mundo lá fora não existisse e tudo se resumisse àquele quarto e aos dois. A cada toque suave de suas mãos pelo corpo nú de Kate, a cada estocada e a cada chupada que a faz gemer seu nome e revirar os olhos, Garrett buscava reafirmar que era à ela a quem ele pertencia e que seria assim pra sempre.

Enquanto Garrett se move sobre ela, estocando com intensidade e urgência, mas também com carinho, suas mãos pousavam firmes nos quadris de Kate e seus dedos exploravam cada curva do corpo dela com cuidado e desejo. O rosto de Garrett mergulhado na curva do pescoço de Kate e ele mantinha seus lábios pressionados ali, sugando e mordiscando suavemente o pescoço dela, enquanto Kate permanece sob ele, com as pernas envolvendo sua cintura. Suas mãos se fechavam nos cabelos castanhos de Garrett, apertando e puxando de leve, enquanto o nome dele escapava de sua boca em forma de gemidos entrecortados, quase sem fôlego. Naquela dança de intimidade e possessão, cada toque, cada suspiro, cada movimento era um entrelaçar de paixão e carinho sem medo, consumindo-os por completo, deixando apenas o calor e a entrega absoluta entre os dois.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.