Norfolk
2 Capítulo 1
Capítulo 1
Ela sentia o coração bater descompassado. Estava ali, diante daquela espelunca, um verdadeiro botequim, numa pequena vila próxima a Atenas, local que Lady Margaret afirmara ser a entrada de um Santuário onde o neto poderia ser encontrado. A velha senhora não conseguiu explicar direito o que o neto era e a que tipo de organização pertencia, apenas afirmou que era para o endereço desse “bar” que ela enviava cartas para o rapaz e que, ao que sabia, o tal lugar era apenas um embuste, uma forma de esconder a entrada do tal Santuário.
Katrina respirou fundo e entrou no local. O cheiro de bebida e suor masculino quase a deixou nauseada, mas precisava deixar certos pudores de lado se quisesse resolver seu problema. Se dirigiu ao balcão onde um homem aparentemente com trinta e tantos anos secava copos. Era um homem muito bonito, mas com jeito de “mal encarado”, tinha cabelos azuis-claros curtos e olhos igualmente azuis.
— Boa tarde, senhor! – Disse num grego quase perfeito, a educação de uma lady incluía estudo de línguas clássicas. – Preciso muito localizar um homem, o nome dele é Louis Philip Camus Stonehaven, me disseram que conseguiria encontrá-lo aqui!
O homem olhou para pequena figura com desprezo. Era uma moça bem jovem, talvez até mesmo menor de idade. Estava vestida de maneira simples, jeans e um moletom com capuz.
— Lamento senhorita, não conheço ninguém com este nome, agora saia daqui, não servimos menores de idade!
Katrina bufou, teria que ser mais incisiva se quisesse sair dali com a resposta que veio buscar.
— Escute, senhor, talvez não o conheça por esse nome, sei que ele faz parte de um tipo de seita, sei lá, sei também que esse lugar é a entrada de um Santuário e que o homem que eu procuro vive aqui, ele tem alguma coisa a ver com o signo de Aquário, e, quer saber? Não arredo o pé desta espelunca até que me diga o que desejo saber!
A morena, de grandes e expressivos olhos castanhos, falava com elegância e altivez o que chamou ainda mais atenção do homem que trabalhava como “bartender”, o que uma jovem assim poderia querer com o Cavaleiro de Aquário?
— Escute bem, menina, te tiro daqui com o peteleco, portanto, dê meia volta e saia logo daqui se não quiser que eu chame as autoridades!
Katrina tremeu perante a ameaça. A essa altura Merlows já deveria saber de sua fuga e provavelmente já teria tomando medidas drásticas para localizá-la, além do mais, ela era herdeira de uma das maiores fortunas da Inglaterra, era da nobreza, logo mesmo o governo Inglês estaria buscando por ela. Sentiu as lágrimas encherem os olhos ao mesmo tempo em que um nó lhe apertava a garganta.
— O senhor não entende! Tenho que encontrá-lo, é muito importante!
O homem chegou a sentir pena da jovem, ela realmente parecia desesperada, mas não poderia lhe dar a informação que buscava, ainda que estivesse muito curioso sobre o que ela poderia querer com o aquariano.
— Lamento mesmo! Mas devo pedir que saia... Não quero ter problemas...
Ele ouviu a jovem soluçar. Pelos deuses o que faria com aquela menina aos prantos?! Foi com alívio que olhou para a entrada do bar e viu que Camus entrava acompanhado por Milo. Agora o problema da jovem chorosa dizia respeito ao guardião da Décima Primeira Casa e não mais a ele.
— Senhorita... – Disse baixo para não chamar atenção – Olhe quem acaba de entrar... Acho que os deuses estão do seu lado!
Katrina olhou para direção indicada pelo atendente. Senhor! Que homem era aquele?! Margaret havia dito que o neto era bonito, mas não que era algo além do normal. Ela podia ver muito de Nicholas ali, mas havia mais ainda da sua falecida esposa, Justine. Ela tinha uma foto dele, mas ela era antiga, nela ele não devia ter mais que 15 anos. Se amaldiçoou, não estava ali para ficar apreciando a beleza do rapaz, mas para lhe implorar ajuda. Esteve tão distraída que nem percebeu que ele andava para um fundo do bar, quase sumindo na escuridão que ali havia.
— Lord Norfolk!
Mesmo falando alto, ela não obteve qualquer resposta e ele continuava a sumir nas sombras.
— Lord Norfolk! — Chamou ainda mais alto, mas continuou sendo ignorada. — Louis Philip Camus Stonehaven, Conde de Arundel, Duque de Norfolk, Vossa Graça acaso é surdo?!
Dessa vez ela quase berrou. Camus estancou, havia tido a nítida impressão que alguém havia mencionado o título que seu pai vinha ostentando antes de morrer, mas realmente não achou que fosse alguém tentando falar com ele. Como alguém ali poderia saber da sua ascendência nobre e dos títulos que ele deveria ter assumido após a morte do pai?! Olhou na direção do balcão onde uma figura no mínimo inusitada o encarava. Tratava-se de uma jovem pequena, vestida de maneira informal, alguém que ele sabia muito bem quem era e não acreditava que poderia estar ali.
— Pelo visto não é surdo... – Ouviu ela dizer com timidez.
— O que faz aqui, Lady Norfolk?!
— Lady Stonehaven!
Ele a olhou com uma das sobrancelhas erguidas.
— Seu pai permitia que eu usasse o título ligado ao ducado, mas com a sua morte volto a ser apenas Lady Stonehaven. — Quis explicar.
— Que seja, My Lady! O que faz aqui?
— Sua avó deve ter lhe explicado que quando Merlows assumiu o ducado ele...
— Ele a internou por ter mais de três laudos que atestam que a senhorita não se encontra em seu juízo perfeito e que sofre de esquizofrenia e, vendo-a aqui, me vejo forçado a ver que nenhum desses profissionais está enganado.
Katrina olhou indignada. Mordeu o lábio nervosa, como faria ele a ouvir?! Ele já estava convencido que tudo que Armand havia inventado era verdade. Ela sentia o olhar gelado e de desprezo que ele lhe direcionava.
— Acredita mais em médicos comprados que em sua avó e, pior, do que no seu próprio pai?
Camus não esperava por uma resposta com tamanha perspicácia. Seu pai sempre falou da tutelada com profunda admiração e sua avó também não lhe poupava elogios. Mas como o tal de Armand conseguiria fraudar laudos médicos? O pai havia lhe dito que a jovem tinha uma mediunidade ostensiva, porém tinha total controle sobre ela. Mas com a morte do seu tutor logo depois da morte trágica e ainda não solucionada de sua melhor amiga a garota poderia sim ter sofrido algum tipo de colapso nervoso que justificasse a intervenção médica que vinha sofrendo.
— Lady Stonehaven, tem que aceitar que precisa de ajuda. Deveria providenciar para que voltasse para Londres imediatamente, não percebe que assim apenas dá razão para que permaneça sobre constante vigilância! Não sei como fez para vir até aqui, imagino que minha avó tenha algo a ver com isso e apenas por respeito a ela não vou lhe entregar as autoridades para que seja extraditada, mas sugiro que volte pelo mesmo caminho...
Ela teve ganas de voar sobre o pescoço daquela criatura fria e presunçosa, não conseguia acreditar que ele poderia ser filho de Nicholas, os dois não poderiam ser mais diferentes, seu antigo tutor era uma pessoa terna e sensível.
— Precisa me ouvir, por favor...
Ele ignorou a súplica e voltou a andar em direção ao fundo do bar. Milo estava relutante em segui-lo, achava mesmo que ele deveria ouvir os argumentos da pequena mulher que, na opinião dele, não parecia nem um pouco fora do seu juízo normal, mas sabia que o amigo o ignoraria da mesma forma que estava fazendo com a jovem. Máscara da Morte, que estava atuando como atendente do bar naquela tarde, também achava que Camus deveria dar ouvidos a garota, mas aquilo não era problema seu e por isso não iria intervir.
Katrina tentou seguir o rapaz, mas foi impedida pelo bartender.
— Não posso permitir que siga, lamento mesmo, moça, mas o que tem que fazer é ir embora.
O canceriano teve muita pena do olhar desolado que a jovem exibia. Ela não insistiu, olhou uma última vez para o fundo do bar onde já não era mais possível ver sua última esperança, ele havia sumido na mesma escuridão que agora definitivamente se tornaria sua vida. Sentindo as lágrimas rolarem ela saiu do bar sem olhar para trás e decidida a acabar com aquele sofrimento...
Antes mesmo que pudessem adentrar nos domínios do Santuário que surgiam ao final do bar na vila de Rodório, Camus e Milo puderam ouvir a forte frenada de carro junto a um ensurdecedor barulho de buzina, voltaram imediatamente e não encontraram o canceriano no bar, seguiram para rua, onde um motorista em pânico berrava que a garota havia se jogado na frente do carro e que ele não pode fazer nada.
— Milo, chame o serviço de resgate do Santuário! – O escorpiano concordou e seguiu para chamar ajuda.
Camus se livrou do motorista, que era um turista visitando a pequena vila, afirmando que ele se responsabilizaria pela garota e que todos ali eram testemunhas de que ele não tinha culpa no evento. Assim que o viu partir foi até Máscara da Morte que já havia constatado que a morena estava viva.
— Sabe que isso não teria acontecido se a tivesse ouvido...
Camus não respondeu, não tinha que justificar suas atitudes para ninguém e a verdade é que com aquilo ele apenas se convenceu ainda mais que a jovem estava com a saúde mental claramente prejudicada.
Em poucos minutos Milo estava de volta e a garota foi levada ainda desacordada para a Ala Hospitalar do Santuário.
— Por que nunca me disse que era conde, duque, marquês, barão...? — Milo parecia realmente chateado com o amigo.
— Porque não sou nada disso!
— Então ela realmente está louca?
Camus respirou fundo enquanto passava as mãos pelo rosto.
— Meu pai herdou de um primo, o pai dela, o título de Duque de Norfolk. É simplesmente o título mais antigo da Inglaterra e faz de seu dono o Primeiro Duque, algo como um conselheiro pessoal da rainha e o chefe da câmara dos Lords. Meu pai nunca revelou que tinha um filho, sabia que meus compromissos estão aqui e que não conseguiria conciliar minhas funções de cavaleiro com as de Primeiro Duque. Fui registrado na França, onde nasci, sabem que minha mãe é francesa. Meu pai viveu em Paris mesmo após a morte dela, apenas quando seu primo, Richard, morreu é que ele voltou para Inglaterra para assumir o ducado e a tutela da filha do falecido duque.
— Nunca me contou que seu pai tinha assumido o título de nobreza, pensei que não havia segredos entre nós! — Milo realmente parecia magoado o que fez o certo canceriano gargalhar.
— Por Zeus! Além de ter que ficar aqui esperando a "Barbie quero ser médica", tenho que acompanhar essa DR entre vocês dois!
Milo e Camus fuzilaram o canceriano com o olhar.
— Milo, só não te contei por ser uma coisa totalmente irrelevante. Nunca assumiria o ducado, que diferença faria saber que meu pai é ou não nobre?! – Camus disse com gentileza tentando mostrar para o amigo que não o havia traído.
— Ai que lindo... Acho que vou chorar! — Máscara continuava a rir da cena emocional protagonizada pelos companheiros.
— Vá se ferrar, crustáceo dos infernos! — Milo disse raivoso. — Mas então me conta, o que fez com que ela viesse atrás de você e quem é Merlows?
— É um primo distante do meu pai e, sendo o parente masculino mais próximo assumiu o ducado, já que aparentemente meu pai não deixou herdeiros.
— Então de fato você é o duque, como ela disse, sabe que títulos de nobreza são inatos e se transmite automaticamente para os sucessores legais... — Máscara da Morte interveio.
Camus apenas cruzou os braços. É claro que ele sabia que ele era o verdadeiro dono o título que vinha sendo ostentado por Armand Merlows, mas não tinha a menor pretensão de atuar como duque.
— Não fui educado para ser um duque e nem mesmo meu pai imaginava que um dia seria um! Me importo muito pouco com essa coisa de títulos de nobreza, tudo tão ultrapassado! Agora ela, ela sim é obcecada com isso. Meu pai sempre me disse que Katrina tem muito orgulho de ser da família mais antiga da Inglaterra, o título nunca havia saído da família Howard Stonehaven até agora. Acho que isso é que a deixou transtornada, principalmente por saber que eu sou o legítimo Stonehaven e que comigo o título permaneceria na família. Mas se ela pensa que agindo como louca e se jogando na frente de um carro vai me convencer de me apresentar perante a rainha para retomar o ducado, está completamente enganada! Assim que Shaka lhe der alta a mando de volta para a Inglaterra no primeiro voo e ainda direi ao tal Merlows que estou disposto a ajudar para que ela fique definitivamente internada! Está evidente que ela é um perigo para si mesma e precisa de constante vigilância. Também vou ligar para minha avó e exigir que ela se comporte ou vou achar que ela também precisa de suporte psiquiátrico!
— Ele sabe que você existe, o tal que hoje é duque? – Milo quis saber.
— Sim! Me apresentei a ele no dia no enterro do meu pai apenas para dizer que não precisava se preocupar, que jamais seria importunado com a perspectiva de que eu viesse a assumir o título. Deixei claro que ele estava me fazendo um favor e pedi discrição quanto a minha existência, no que, por óbvio, ele concordou.
— Elza, sei que a garota realmente agiu como se estivesse fora de seu juízo normal, mas, ela não me pareceu ser realmente prejudicada mentalmente quando conversamos antes de você chegar...
Camus ignorou o apelido ridículo.
— Existem diferentes graus para esquizofrenia, mas todos eles exigem cuidados médicos constantes, provavelmente a internação se deu num momento de crise aguda. O fato de agora ela atuar com certa clareza e aparentar normalidade inclusive indica que o tratamento vem dando resultados.
Milo e Máscara foram obrigados a concordar, talvez a jovem fosse mesmo problemática e Merlows havia feito apenas o que a sua família não teve coragem de fazer, por não quererem aceitar o problema. Porém Máscara achou justo pontuar algo em defesa da jovem:
— Pelo que eu sei, Merlows herda apenas o título e as propriedades a ele ligadas, mas e o dinheiro da família?
— Tudo pertence a Katrina. Ela poderá administrá-los livremente quando fizer 21 anos, até lá ele atuará como tutor dos bens.
— Isso se ela estiver no completo domínio de si mesma...
Camus sabia perfeitamente o que Máscara da Morte pretendia insinuar. Claro que era extremamente conveniente para o tal Merlows que a jovem tutelada fosse mentalmente incapaz, isso daria a ele domínio sobre os bens e toda a fortuna dela, a avó também havia insistindo com ele nesse ponto, mas o pai lhe havia esclarecido, quando lhe contou quem era seu sucessor, já que o filho não assumiria o título, que Armand não poderia dispor livremente dos bens da jovem e que teria acesso apenas à pequena parte da fortuna. Porém ele realmente não sabia se essa seria a realidade caso Katrina viesse a ser considerada legalmente incapaz. Não queria pensar na possibilidade de que o rapaz estivesse manipulando a situação, mas se lembrou do que a jovem havia falado “acredita mais em médicos comprados...” . Merlows tinha dinheiro e é fato que com ele se compra quase tudo. Sentiu-se angustiado, sabia que se consideraria culpado caso a jovem de fato tivesse sido internada sem ter qualquer problema que justificasse, por isso havia se antecipado.
— Sei o que quer dizer, Máscara! Pedi ao Shaka que chamasse um psiquiatra para avaliá-la.
— Pena que precisou dela se jogar na frente de um carro para que pensasse no óbvio...
O aquariano fingiu não ter ouvido o comentário ferino, até mesmo por não ter como discordar do canceriano. Após mais uma hora de espera, o Cavaleiro de Virgem surgiu acompanhado de outro médico que eles não conheciam.
— Cavaleiros, lhes apresento o Dr. Niko, psiquiatra que trabalha aqui conosco. – Os três cumprimentaram o homem. – Desculpe a demora, Camus, mas como me pediu que a garota também passasse por um exame psiquiátrico achei melhor antecipar as coisas para lhe dar um parecer mais completo.
— Pare de falar como se estivéssemos diante de um médico de seriado e diga logo como está a moça! – Máscara da Morte falou nervoso, estava mesmo ansioso com o estado da jovem, não sabia o porquê, mas simpatizara muito com ela.
Mesmo querendo se negar a dizer qualquer coisa ao guardião da Quarta Casa, Shaka respondeu:
— Por incrível que pareça, sofreu ferimentos relativamente leves, mas quebrou três costelas, o que vai fazer com que sinta muita dor pelos próximos dias. Para quem tentou se matar, ela não teve muita sorte. Contudo, há muitos ferimentos pelo corpo dela que nada têm a ver com o acidente e, eles, sinceramente, me preocupam muito mais pelo que podem significar. Doutor Niko também tem suas considerações a tecer. Mas falaremos apenas com o Camus. Nos acompanhe até minha sala.
Os três saíram deixando Milo e Máscara no corredor.
— “Minha sala”, fala como se fosse gente importante, esse projeto de Doctor Rey – Com raiva, o canceriano se sentou e foi seguindo pelo outro e se mantiveram em espera.
Camus se sentou a frente dos dois médicos, estava nervoso, mas tentava demonstrar serenidade.
— Comecemos pelo senhor, Doutor Niko. – Shaka disse ao se sentar.
— Fizemos uma série de exames na jovem, inclusive tomografia que vem sendo usada para diagnóstico de esquizofrenia, pois o cérebro doente não funciona como um considerado normal. Também fiz uma entrevista de mais de quarenta minutos com a garota, mesmo atordoada com o acidente ela respondeu a tudo com lucidez e racionalidade. Tem total noção da realidade e possui muita perspicácia. Enfim, tanto pelo exame clínico quanto pelos resultados tomográficos posso atestar, sem qualquer receio, que a jovem, apesar de estar com um quadro de depressão, é absolutamente sã.
O aquariano sentiu o peito se apertar, ali estava um profissional que não tinha qualquer interesse na situação, havia feito uma análise puramente clínica e profissional, não tinha como ele estar enganado, principalmente por estar se valendo de exames complexos. A culpa começava a consumir-lhe, a avó havia insistido tanto...
— Agradeço por sua avaliação, doutor.
— Indicarei uma medicação apenas para tratá-la desse estresse pós-traumático. Se me derem licença, senhores, tenho que voltar às minhas atividades.
O médico deixou Camus e Shaka a sós e ao ver o semblante do amigo, o aquariano teve certeza que as coisas piorariam.
— Não vou lhe poupar, até mesmo por ter certeza de que não quer ser poupado. A senhorita Stonehaven vem sofrendo sessões de tortura, incluindo eletrochoque em voltagens muito acima do recomendável para qualquer tratamento psiquiátrico. Posso até dizer que estou admirado dela realmente não ter enlouquecido. Os pulsos e as laterais da cabeça atrás das orelhas estão queimadas pelas descargas elétricas. Ela também sofre com açoites, as costas estão tão mutiladas que não tem lugar onde não se veja uma cicatriz, além de hematomas de escapamento pelo corpo...
A cada palavra dita por Shaka, Camus sentia o estômago revirar, a náusea era quase incontrolável. A culpa corroía uma a uma as células do seu corpo e o ar ficava mais pesado, o impedindo de respirar, forçando-o a puxar o ar com força.
Conseguiu se controlar, precisava saber de tudo, por mais horrível que fosse:
— Sinais de violência sexual?
— Felizmente, não! Ela é virgem e não constatei nenhuma violação retal, mas isso não quer dizer que ela não possa ter sofrido algum tipo de abuso...
— Como ela está agora?
— Cansada, a entrevista com o doutor Niko foi longa, além do mais ela acabou de sofrer o acidente sério e com certeza está com dor. Mas pode ir vê-la se quiser, em dois dias ela poderá ter alta.
O aquariano deixou a sala para ir ao quarto onde a jovem estava.
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— Não acredito que teve coragem de fazer isso, Katrina Rovena! Poderia ter morrido! Já te mostrei como é o vale dos suicidas!
— Eu é que não acredito que ao invés de estar me consolando, esteja me criticando, ótima amiga que você é!
— Desculpa, Katri, mas é que se eu não tivesse intervindo... E nossa luta?!
— Que luta, Juliet? Não resta mais nada! Louis não vai assumir o ducado. Logo me mandará de volta para Londres e voltaremos para onde estávamos, você me vendo sofre e eu aguardando o próxima sessão com Jhonson... — As últimas palavra saíram em meio a lágrimas de desespero. — Não vou suportar, Lety...
Tudo que Juliet queria era ter a capacidade de se materializar para poder abraçar a amiga. As duas olharam para porta, alguém havia batido e antes mesmo de receber a resposta entrou.
Juliet ficou encantada com a figura masculina que entrava no quarto. Era o rapaz que atendia no bar, o mesmo que havia socorrido Katrina logo após o acidente. O mais estranho é que ela sentia que ele também podia vê-la, mas agia como se não.
— Como está se sentindo? — Ele disse se aproximando da cama e sentando na cadeira ao lado.
— Como se tivesse sido atropelada.
Ele sorriu.
— Deve mesmo estar muito desesperada para fazer o que fez, não sei se sabe, mas a vida pós-morte não é muito boa para quem causa o próprio fim...
Juliet olhou para amiga com ares de "eu te disse".
— Bem, digamos que eu tenho um anjo da guarda atento.
— E linda!
Máscara da morte só percebeu o que disse depois que as palavras já tinham saído de sua boca. Chegou a corar e viu que a jovem ruiva que acompanhava Katrina também havia ficado vermelha.
Katrina o olhava com estranheza, será que ele também podia ver Juliet?!
— Apenas entrei para ver se estava realmente bem. Logo Camus estará aqui e acredito que vocês têm muito o que conversar.
Ele se levantou e deu um beijo na testa.
— Fique bem. Você também ruivinha.
Ele piscou para Juliet e deixou o quarto, deixando a ruiva sem saber como reagir.
— Até depois de morta continua arrasando corações, dona Juliet Shimit! — Katrina ria.
— Não diga isso, Katrina! Vou indo, acho que deve conversar com o duque sozinha.
— Sei... Vai é atrás do bartender bonitão!
A amiga lhe mostrou a língua e sumiu.
Mal Juliet deixou o quarto, Camus entrou. Katrina sentiu o coração apertar, não tinha a menor vontade de conversar com ele, muito menos para lhe ouvir que agora estava certo da sua insanidade, que logo ela seria enviada de volta para a tutela de Merlows.
— Como se sente?
— Com vontade de voar na sua cara e te socar até a morte, My Lord!
Camus arregalou os olhos, não esperava tamanha sinceridade, embora não tivesse como tirar a razão dela.
— Sei que não há desculpas para meu comportamento, mas quero deixar claro que seu ato de desespero não mudará o fato que não assumirei o título ou a sua tutela. Mas lhe garanto que não voltará para Londres até que eu consiga desmascarar Merlows e deixá-la em completa segurança.
— Desmascarar Merlows? Mas ele não tinha mais de três laudos que atestavam minha insanidade mental?
O cavaleiro recebia a ironia dela como um tapa em seu ego.
— Sei que não começamos muito bem, mas uma vez que teremos que manter ao menos uma convivência razoável até que se recupere plenamente e esteja segura em relação à administração de seus bens é importante que tentemos, ao menos, demonstrar cordialidade um para com o outro.
— Concordo, Vossa Graça! Sei que não estou em condições de discutir, pois preciso de sua ajuda e não quero fazer da nossa convivência um tormento para My Lord!
— Poderíamos começar com você parando de me chamar de My Lord, não sou duque, acho que deixei isso claro.
— Títulos de nobreza não são aceitos, My Lord, são inatos e hereditários, você é o que é, e eu sei que você é Louis Philip Camus Stonehaven, 20º Duque de Norfolk, a quem, por ordem do reino da Bretanha deve ser chamado de Vossa Graça. Mas falava sobre nossa incomoda convivência forçada e a necessidade de nos adequarmos a ela. O que sugere, Vossa Graça?
— Não pretende me chamar dessa forma na frente de outras pessoas, pretende?
— Mas é claro, é um dos atributos de seu título, nada posso fazer a respeito. Mas como já superamos isso, vamos a vossa graciosa ideia.
O cavaleiro rodou os olhos, no fundo merecia o tratamento ferino e não queria deixá-la mais estressada, ela já havia passado por sofrimento suficiente.
— Preciso que me conte tudo sobre sua internação e as condutas de Merlows desde que assumiu sua tutela. Com isso posso começar a pensar num plano para tirá-lo do cargo de seu tutor.
— O que Merlows fez comigo é quase insignificante perante o grau de maldade que ele pode atingir. Merlows é líder de um esquema de tráfico de órgãos e nas horas vagas também é um estuprador assassino. Matou Juliet! Como vê, My Lord, Armand tem mais razões que a simples ambição para me manter internada e convencer a todos que sou uma pessoa mentalmente insana.
O aquariano sentiu o sangue gelar, e isso era algo que ele julgava impossível dado seus poderes.
— Tem certeza de tudo que está dizendo, Katrina? Isso é muito grave!
— Ainda duvidando de mim...?
— Passarei suas informações para o sistema de espionagem do Santuário. Ele não terá como escapar e garanto que pagará por cada um de seus crimes e eu juro, ele ou qualquer de seus cúmplices não voltaram a te tocar.
— O que é esse tal de Santuário e o que você realmente faz que possa justificar que se negue a assumir um título quase milenar e sua responsabilidade perante o governo inglês?
Camus contou a ela tudo que era possível, inclusive chegou a lhe mostra como conseguia manipular a temperatura. Ela também lhe contou tudo que já havia descoberto sobre o esquema de Merlows, especialmente o fato de o local onde ela esteve internada ser o centro da organização e como ele era esperto em dar ares de regularidade ao local.
Dali a dois dias ela recebeu alta, como Shaka havia prometido e, a pedido de Camus, o mestre Shion permitiu a estada da jovem na casa de Aquário até que fosse possível que ela voltasse a ter uma vida normal.
CONTINUA...
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