Norfolk
5 Capítulo 4
Capítulo 4
Enquanto Camus se apresentava oficialmente perante a rainha, Milo, que era advogado e estava atuando como representante do aquariano, foi até as autoridades competentes para conseguir a licença especial para que o juiz de Sussex realizasse o casamento ainda na manhã seguinte.
Camus ficou surpreso ao perceber que a rainha não estranhou o seu súbito aparecimento e ele desconfiava que a avó tinha algo a ver com isso. Mesmo respeitando sua decisão em não assumir o título, Lady Margaret sempre atuou nos bastidores para quando o jovem viesse a assumir suas responsabilidades. Ao final da entrevista a rainha desejou ao cavaleiro felicidades na união o Katrina e lhe informou que Armand Merlows já vinha sendo investigado, pois Margaret havia entrado com uma ação em favor de Katrina buscando provar que a jovem não sofria de problemas mentais.
Milo estava munido dos atestados médicos conseguidos com o psiquiatra do Santuário para provar que a jovem tinha condições de contrair matrimônio. Também os juntou no processo movido pela avó de Camus, conseguindo autorização tanto administrativa quanto judicial para o casamento.
Naquela mesma tarde Merlows foi informado que não era mais o Duque ao ser impedido de entrar na mansão ducal em Mayfair, bairro tradicional da nobreza em Londres:
— Como assim apareceu outro herdeiro?! Não existe outro Duque de Norfolk...
— Sabe perfeitamente que essa não é a verdade, Merlows! – O loiro olhou na direção de quem falava, surpreso por estar diante do homem que ainda naquela manhã havia entrado com contato com ele informando que estava lhe devolvendo a guarda de Katrina.
— Você! Como?!
Camus se aproximou perigosamente do outro homem que não se amedrontou com aproximação.
— Foi muito esperto em provocar aquele incêndio, mas não seja tolo, muitas provas contra você já haviam sido colhidas antes que San Valentin virasse cinzas... Seus cúmplices te contaram como aquele porco do seu capanga, Jhonson, morreu?!
Merlows sentiu o ar em volta de si gelar e pela primeira vez o rosto cínico demonstrou pânico.
— O que é você?
Camus apenas sorriu de lado.
— Sou Louis Philip Camus Stonehaven, o 20º Duque de Norfolk e exijo que não volte a colocar nem mesmo um único pé nas minhas propriedades. De tudo isso lamento apenas que não possa lhe dar o mesmo castigo que dei ao Jhonson por ousar tocar na minha duquesa! Mas saiba, se mesmo com todas as evidências de seus crimes você se safar, ou se tentar fugir, creia, eu posso te achar em qualquer buraco de ratazana que venha a se enfiar! Vou te congelar por dentro e te espatifar como se fosse louça barata – Enquanto dava seu último recado Camus aumentou o frio em volta do ex-nobre que tremia dos pés a cabeça tanto pelo frio quanto pelo pavor!
— Me devolveu aquela maldita apenas para armar uma armadilha... – Disse trêmulo.
O cavaleiro achou melhor que Armand acreditasse naquela visão das coisas, não seria nada bom que ele soubesse que Katrina havia sido sequestrada por um inimigo.
Foi quando o loiro caiu de joelhos sentindo uma dor alucinante, como se tivesse sofrido uma forte picada de um animal peçonhento.
— Já ouviu o que, Vossa Graça, disse! – Falou Milo com o sorriso jocoso fazendo Camus rodar os olhos com o tratamento cerimonioso. – Sou advogado do Duque e já estou com a ordem judicial que o impede de entrar em qualquer propriedade ducal, suas coisas foram devidamente embaladas e enviadas para seu endereço anterior.
Merlows tinha certeza que a dor que sentia tenha a ver com um rápido movimento que o tal advogado havia feito antes de se aproximar.
— Vocês são aberrações! — Gritou.
Os dois cavaleiros apenas sorriram um para o outro em cumplicidade.
Milo empurrou o homem abaixo pelas escadarias da entrada da mansão. Depois o pegou pelo colarinho.
— Aberração e estuprar e matar uma jovem de 17 anos, aberração é estripar pessoas para venda ilícita de órgãos! Vá antes que mostremos realmente o que somos capazes e acredite, podemos disfarçar as provas dos nos atos de justiça com muito mais eficiência que você!
Apavorado o homem saiu de lá mais rápido que o vento.
— Nossa! Ele quase atingiu a velocidade da luz! Tem até potencial esse idiota! – Milo disse em tom de brincadeira.
— Gostei do seu toque , Escorpião, ele vai lembrar da sua escarlate por uns três dias...
Milo sorriu para o amigo.
— Lamento apenas não ter dado outra na bunda dele quando saiu correndo!
Camus riu de forma contida e os dois entraram na mansão. Duas horas mais tarde já estavam de volta ao Castelo de Arundel na companhia de Lady Margaret que mal cabia em si de tanta felicidade. Havia conseguido tudo o que queria, a liberdade de Katrina, que o neto assumisse o ducado e, principalmente, que os dois se casassem, agora tinha apenas que fazê-los ver o óbvio, que haviam sido feitos um para o outro.
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A manhã seguinte foi de grande movimentação no castelo em Sussex. Ainda que não se trata-se de uma grande festa, o casamento seria seguido de uma pequena recepção em que estariam presentes os parentes mais próximos do casal e também alguns cavaleiros, além dos que já estavam na mansão ducal no dia anterior. Máscara da Morte, Shura e Aioria também vieram acompanhar a cerimônia.
Lady Margaret e a Senhora McClean, junto a algumas empregadas, cuidaram da preparação de Katrina, que vestia um tubinho branco tomara que caia, que ia até a altura dos joelhos. Peep Toe branco nos pés. Os cabelos foram presos num coque elegante, ornado com orquídeas amarelas da estufa que pertencera ao pai da jovem. Já o noivo vestiu-se com um terno simples azul marinho, camisa branca e gravata prateada, na lapela usou a mesma flor que a noiva usava nos cabelos e no buquê. Devido a formalidade do evento ele também prendeu os cabelos num coque que deixou a noiva encantada.
Faltando meia hora para o horário marcado para a cerimônia a jovem foi deixada sozinha sendo absolutamente proíbida de sair do quarto, pois o noivo não deveria vê-la. Riu do cuidado. Como um casamento provisório e sem que houvesse ao menos empatia entre os nubentes poderia ser mais azarado pelo simples fato do noivo ver a noiva antes da hora?! Ela percebia a atração sexual que havia entre ela e Camus, mas sabia que essa sensualidade não encobria o fato de que ele estava sendo forçado assumir um título e uma esposa que não queria.
Sentia o coração se apertar em angustia, como estaria dali a um ano, dois, compartilhando a cama com ele, sentindo seus beijos, suas carícias e, junto a isso, sua indiferença emocional?! Mais uma vez tinha a nítida sensação que estava apenas mudando de prisão.
— Não se angustie tanto, querida!
— Mãe!
Katrina mal acreditou ao ouvir aquela voz, os olhos se inundaram no mesmo instante. A bela mulher, que era muito parecida com a jovem, apesar do cabelos lisos e completamente rosados emanava um brilho reconfortante, trazendo uma enorme sensação de paz.
— Não deixaria de estar com você num dia tão especial, seu pai e Nicholas também tiveram permissão para vir...
— Isso não vai dar certo, a senhora sabe! – As lágrimas corriam livremente misturando a emoção da felicidade com a do receio.
— Katrina, esse casamento será o que você e Louis decidirem fazer dele! Lembre-se do que Margaret disse, seja inteligente, pode ter dele tudo o que quiser! Dê uma chance a vocês dois. Mas hoje quero apenas te ver. Está tão bonita, querida! Seja forte, tudo vai dar certo, me sinto realizada por ter tido a chance de estar aqui com você hoje.
A entidade etérea se aproximou da filha e a jovem quase sentiu seu abraço caloroso, fazendo com que chegasse a soluçar. Ficaram um pouco em silêncio até que Katrina conseguiu falar:
— Sou grata também, mamãe! – Pela primeira vez ela sorria verdadeiramente.
— Estaremos os três na cerimônia, poderá nos ver e contar com nosso carinho nesse momento. Fique bem, meu amor!
No momento em que a mãe desapareceu a garota ouviu batidas na porta, sem nem mesmo esperar pela identificação autorizou a entrada; era Rômulo.
— Nossa, mas como a Elsa é sortuda! Está belíssima, ragazza!
Katrina sorriu com vontade, quase chegando a rir.
— Obrigada. Louis me contou como foi importante sua intervenção junto a Juliet para que descobrissem onde eu estava, nunca vou conseguir agradecer o suficiente a vocês dois por isso!
— Não há o que agradecer, Katri! Mas é justamente por Juliet que estou aqui. Pedi também para que Charles suba.
O coração da morena se apertou, mesmo sabendo que esse dia fatalmente chegaria, não se sentia capaz de ficar sem a presença constante da amiga.
— Sei o que vai acontecer... Sempre chega esse momento! Ela já não pertence a essa realidade... – Novamente a jovem não conseguia conter as lágrimas.
— Lamento ter de certa forma antecipado essa despedida...
— Não lamente! Bom saber que o coração dela voltou a se abrir. Sinto tanto por vocês...
O canceriano achou melhor não falar nada. Nunca imaginou sentir tanta dor por algo que nem mesmo aconteceu. Não houve ele e Juliet, mas a dor pela perda era ainda mais tão intensa que a de anos atrás em Argard. Ouviram batidas na porta, era Charles, o mordomo e pai de Juliet.
— Estou muito fraco pelas constantes materializações. Mas Shaka e Mu me deram uma dose extra de cosmo para que eu permita essa última manifestação. Poderão fazer o que não foi possível antes, hoje poderão dar-lhe o abraço de despedida!
Em segundos a jovem ruiva surgiu e a emoção foi irrefreável. Em lágrimas os três se abraçaram e ali ficaram pelo tempo que foi possível.
— Ai minha, querida, minha filha linda! Juliet, você cresceu, como é isso é possível?! Também está mais madura, é como se tivesse envelhecido normalmente, me sinto diante de uma mulher e não da adolescente que enterrei quase dois anos!
— Ah, papai, eu sinto tanto pela dor que te causei! Nunca imaginei...
— Não diga nada, querida! Sofremos todos e eu sei que a justiça será feita! O que me importa é que você fique bem aonde quer que vá agora, esse é meu desejo de pai!
Katrina se afastou por um momento para que pai e filha pudessem se abraçar e aproveitarem os últimos momentos que teriam juntos.
— Nunca vou achar palavras suficientes para definir o que está fazendo por nós hoje, não sei como um homem capaz de sacrificar-se como está fazendo agora pode ter o nome de Mascara da Morte... – Katrina se aproximou do cavaleiro falando baixo para não atrapalhar Juliet e Charles.
— Acredite, fiz muito por merecer meu título! — O homem, que tinha o rosto tão marcado de lágrimas como todos ali não quis estender aquela conversa, nunca havia sentindo tanta culpa pelo passado nefasto.
Katrina secou suas lágrimas e o abraçou com carinho desejando que um dia ele conseguisse se livrar dos fantasmas reais e psicológicos que tanto o perseguiam.
Charles de aproximou e agradeceu quase em reverência pelo que Máscara da Morte havia feito por ele e pela filha. Depois deu um abraço em Katrina a felicitando antecipadamente pelas bodas e, em lágrimas de alegria e saudade deixou o quarto.
— Bem, meninas, encontro vocês lá em baixo, não estará material durante o casamento, mas poderá assistir à cerimônia de fuzilamento do aquariano... – Rômulo tentou de todas as formas recobrar o controle sobre si, voltando a falar com sua ironia constante.
— Eu que estou indo para o cadafalso! – Katrina protestou rindo.
— Vocês têm mais cinco minutos! Aproveitem!
O cavaleiro percebeu o olhar triste de Juliet sobre si, sabia que estava lhe dando a impressão de indiferença ao afastamento dela.
— Teremos a nossa despedida, ruivinha, mas já será no seu mundo, onde não ficarei fraco pelos beijos que te darei! Vou acompanha-la depois da cerimônia, quando meu corpo puder ficar um pouco em repouso, ainda não está livre de mim... – Disse jocoso deixando a jovem com um sorriso aberto e bobo nos lábios.
Assim que o canceriano as deixou, as duas se olharam e palavras não foram necessárias, a duas sabiam muito bem o que estava no coração e na mente uma da outra. Num prato impossível de ser contido as duas se abraçaram fortemente e assim ficaram até que a ruiva deixar os braços da Katrina vazios.
— Sua cara tá horrível! Até parece que não ama seu noivo e está sendo praticamente obrigada a este casamento...
— Ai, Lety, isso é coisa que se diga! – Katrina ria com a brincadeira da amiga que poderia continuar a ver apenas por ter as faculdades mediúnicas necessárias.
— Mas olha como já está bem melhor! Só dá um retoquinho na maquiagem e aquele homem perfeito ficará aos seus pés!
— Até parece... Você não viu a loira maravilhosa que eu vi um dia tentando arrancar a língua dele da boca! – Juliet riu da cara de nojo que a amiga fez.
— Acredite, ele nem lembra que ela existe! Só tem olhos para você... Sabe que eu posso ver os sentimentos dele...
— Desejo não é amor!
— Mas é o começo! Katrina Rovena, essa é última vez que vou poder puxar sua orelha! Não faça desse casamento uma tragédia grega!
Em resposta Katrina apenas mostrou a língua para amiga, as duas riram enquanto a morena se recolocava apresentável. Logo Lady Margaret bateu a porta, a jovem respirou fundo, não tinha mais como voltar atrás e com um sorriso ainda não muito firme seguiu com a anciã para o local da celebração.
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Foi Charles que levou Katrina ao altar, sentindo-se muito orgulhoso pelo pedido da jovem para fazê-lo. As poucas pessoas presentes acompanhavam a cerimônia com o forte desejo de que o casal fosse feliz apesar das circunstâncias que levaram àquela união.
Camus sentia as mãos geladas da jovem que suava frio. Com suavidade ele apertou a mão trêmula tentando passar confiança e conforto a ela. Ao sentir o aperto afetuoso a jovem lhe deu um sorriso e ele a olhou com cumplicidade.
No momento do beijo ele não se ateve ao protocolo e a beijou efusivamente e ela, mesmo tímida e assustada com a clara demonstração de desejo na frente de todas aquelas pessoas, correspondeu, levando o público aos aplausos e gritos de “viva os noivo”.
No coquetel que se seguiu à celebração, o aquariano não saiu do lado da jovem nem por um momento, circulavam de mãos dadas ou mesmo abraçados e até chegaram a valsar! Faziam tudo em meio a sorrisos e beijos, levando ao rosto de Lady Margaret o sorriso do triunfo. Ela sabia que o neto iria relutar, que logo voltaria a vestir sua máscara de frieza, mas ele não conseguiria lutar por muito tempo contra a pequena chama de amor começava a brilhar naquele coração que muitos acreditavam ser uma pedra intocável de gelo. Bastava ver a intimidade e verdade na relação dele com os amigos que estavam presentes para ver que Camus era apenas uma fachada de indiferença escondendo um homem terno, amoroso e leal. A ela restava apenas desejar que Karina fosse inteligente o suficiente para ver além da fachada.
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Logo após o coquetel, Camus, Katrina e os demais cavaleiros partiram para o Santuário. Não se valeram dos poderes telecinéticos de Mu, pois teriam que levar a bagagem da jovem. Enquanto Merlows não tivesse ao menos sua prisão temporária decretada, Camus não queria que a jovem ficasse na Inglaterra sem que ele estivesse com ela. Katrina percebeu que viajavam numa velocidade descomunal, mas lhe foi explicado que os meios de transporte do Santuário tinham uma tecnologia lemuriana para que fossem mais velozes que o normal. Dessa forma em meia hora estariam no Santuário e nesse meio tempo Rômulo dormiu.
— Não te disse que eu vinha!
Juliet se assustou, estava distraída de frente ao lago que existia da propriedade ducal, olhando já com saudade para o local em que havia crescido e vivido tantas aventuras infantis com Katrina. Mesmo tendo vivido pouco, viveu plenamente, quase não tinha arrependimentos e foi muito, muito feliz! Ao ver quem havia se aproximado, sorriu.
— Estava te esperando.
Ela sentiu os braços dele a envolverem num abraço amoroso. Estava de costas para ele, ainda olhando para o lago.
— Por que nunca me disse que poderia me tocar sem que isso lhe fizesse mal...?
— Porque isso seria tremendamente tentador! Estou vivo, Juliet, não posso estar com você como se minha vida física não existisse... — Ele a beijou no topo da cabeça e se aconchegou ainda mais. – Minha vida é aqui e ainda há muito o que ser vivido e expurgado.
— Andei investigando...
— Então sabe que estou muito longe de ser seu príncipe encantado! – Ele disse com rispidez de afastando dela.
— Matou seu próprio pai quando tinha apenas 13 anos e ainda estava na fase de treinamento para se sagrar cavaleiro... Seu pai abusava da sua mãe, muitas vezes ela esteve perto da morte pelo espancamento constante, mas o que fez seu sangue explodir em fúria foi quando descobriu que ele abusava sexualmente da sua irmã de 8 anos. Foi quando o matou...
O cavaleiro tinha os olhos banhados por lágrimas e não encarava a jovem, que dizia tudo com uma voz doce e bastante compassiva.
— Então você saiu de casa e nunca mais voltou, nunca soube o que aconteceu com sua mãe e sua irmã...Você a culpa, não é, culpa sua mãe/! Acha que ela era niliente com o comportamento do seu pai, que nunca protegeu você e sua irmã dos maus tratos! Achou então que era justo abandoná-la a própria sorte e passou a treinar ainda com mais dedicação. Ai virou Mascará da Morte, um justiceiro implacável, que não aceitava nem o menor tropeço fosse de homens, mulheres, velhos, ou mesmo crianças...
— E ainda queria meu toque sujo sobre sua inocência...
— Inocência?! – Agora era ela que falava com rispidez. – Fui ingrata com amor de Katrina, Richard e do meu pai! Larguei tudo para seguir um homem que nunca me ofereceu nada além da sua beleza! Eu errei, Rômulo e na sua antiga visão de justiça, merecia morrer nas mãos do homem que me enganou, pois era um castigo justo por ter traído os que me amavam incondicionalmente!
Eles se fitaram com intensidade.
—Como pode dizer uma coisa desta? Não pode haver justiça num ato como estupro...
— Mas não era justo eu ser penalizada? Não cometi um erro?! — Ela voltou a falar com docilidade.
— Pare, Juliet!
O cavaleiro berrava exasperado, não suportava vê a si mesmo, a forma dura como julgava o erros alheios, através da fala calma e amorosa dela.
— Mas veio a luta com Shiryu a armadura de Câncer o abandonou provando que aquela justiça que vinha fazendo não era justa... E a redenção! O amor de Athena e... Helena!
Ele sentiu que a voz da jovem falhou pela primeira vez desde que ela havia começado a falar. Os olhos azuis estavam cheio de lágrimas, não conseguia deixar de sentir aquele ciúme, aquela mulher havia sido a grande promotora da mudança dele, como concorrer com aquilo?! Riu de si mesma, não poderia ter ciúmes, não se perde o que nunca se teve!
— Juliet... – Ele foi até ela, pegou-lhe uma das mãos levou aos lábios depois a puxou para si e lhe deu um beijo que mesmo não tendo sido inocente, também não foi nada além da troca mais profunda de afeto.
— Ninguém sabe, não é? Ninguém sabe que nas noites insones você leva comida aos mendigos de Atenas, que sustenta financeiramente um orfanato, que conta histórias para crianças hospitalizadas, que é doador de sangue e medula, que monta bazares de caridade...
— Estou quase pedindo minha canonização, ruivinha! – Disse irônico enquanto prendia uma mecha vermelha atrás da orelha dela. – É verdade o que seu pai disse? Que cresceu e amadureceu mesmo depois de ter morrido?
— Sim, me disseram que na hora certa saberei o porquê, mas envelheço como se estivesse viva!
Ele voltou a beijá-la dessa vez de forma mais exigente, mais sensual e quando sentiu que reagia fisicamente mesmo estando ali apenas em espírito percebeu que era hora de dizer adeus de uma vez.
— Meu Deus, como você é linda, como te desejo, isso sim é castigo! Acho que vou expurgar mais por isso que pelas caridades que faço!
Ela passou a mão pelo rosto másculo.
— Hora de ir, não é?! – Ele acenou afirmativamente com a cabeça – Me promete uma coisa?
— Depende! – Disse de forma malandra.
— Volte para sua casa, sua mãe e sua irmã rezam por você todas as noites, sentem sua falta...
— Lety...
— Caridade começa em casa!
Ele suspirou vencido.
— Venceu, ruivinha, prometo!
— Um dia vai ter que enfrentar seu pai novamente e nesse dia se conseguir perdoá-lo vai conseguir a paz que tanto busca!
— A paz somente será paz se nela estiver você, Helena pode ter sido minha redenção, mas você, você é a minha paz!
— Eu estarei esperando, tenha certeza!
— Eu sei...
Os dois voltaram a se abraçar e ficaram trocando carinhos e palavras doces, mas ele percebia que voz dela ficava cada vez mais longe e o barulho típico de turbinas de avião cada vez mais perto...
— Acorda, Máscara, chegamos!
E ali estava ele, coração apertado, choro preso na garganta e com uma vida inteira para sentir falta do que não pode ser.
CONTINUA
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