Nora, a morte mudou minha vida
1 Primeiro e último.
Notas iniciais
O celular tocou no meio da noite.
Eleonore estava dormindo em sua cama de casal num quarto de hóspedes depois que seus pais decidiram pintar seu quarto.
–Alô? – ela atendeu, a voz cansada e preguiçosa. Ele era a típica garota brasileira dos olhos castanhos e cabelos escuros, sorriso branco e simpático, pele morena e corpo magro.
–Alô? Nora? – chamou a pessoa do outro lado da linha. Ela levou alguns segundos para reconhecer aquela voz. Diana.
–O que foi, Dina? – perguntou, já prevendo uma má notícia. A voz da mulher tremeu. Diana era a mãe de seu namorado, Erick. O rapaz era alvo, cabelos arrepiados e cor de mel, por conta de sua heterocromia, tinha um olho azul e um verde, pele clara e um porte físico assustador.
–Erick sofreu um acidente e não aguentou. – sua voz falha e Nora sentiu o ar ser expulso de seus pulmões.
–Por favor, me diga que isso é uma pegadinha. – ela suplicou ao telefone ás duas da madrugada. A voz de choro do outro lado confirmou seu maior medo. Havia perdido a pessoa que mais amava.
–Obrigada por avisar. – ela falou e desligou antes de começar a chorar sem parar. Mesmo sendo um ano mais velho, Erick sempre a apoiou, a ajudou e a defendeu no colégio. Ele era seu refúgio naquele lugar. Ela era apenas a nerd esquisita antes de começarem a namorar sério.
Ela chorou horas a fio antes de cair no sono.
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No dia seguinte, acordou com os olhos inchados e o rosto marcado. Provas que a noite anterior realmente aconteceu.
Correu para o banheiro, escovou os dentes e os cabelos negros que iam até o meio das costas antes de prendê-lo em uma trança bem trabalhada. Vestiu uma saia simples azul, um camiseta do Slipknot e tênis all star preto antes de sair correndo de casa com a mochila azul nas costas.
O colégio Rosa Vermelha que Nora frequentava era um dos melhores da cidade. Ela havia ganho uma bolsa de estudos por ter notas altas e pode entrar no colégio particular.
Ao chegar na escola, ela correu para o auditório e se sentou no palco. Ainda tinha algum tempo para a primeira aula e gostava daquele lugar. Silencioso e pacífico. Então, ouviu-se um estrondo e a porta fechou mostrando um garoto alto, moreno, atlético e simples. Ele sorriu tímido. Vestia uma camiseta do AC/DC, calça jeans escura Divans brancos e uma jaqueta vermelha que tinha escrito nas costas “As aparências enganam”.
–Desculpe, sou novo aqui. Você poderia me dizer onde é a sala A-09? – ele perguntou se aproximando. Ela se levantou e olhou seus horários.
–Você é da minha turma. Eu sou a Eleonore, mas me chame de Nora. – ela respondeu, com um meio sorriso. Ela pegou sua mão e o guiou por toda a escola até a sala, então o sinal bateu e eles entraram na sala.
Nora sempre se sentou no fundo sozinha, bem, ela fazia par com Erick. Ele nunca a deixou sozinha, nem mesmo sendo assediado por garotas, deixava de segurar a mão da namorada e ficar ao seu lado. Ela sentia falta disso. Ainda imaginava ele entrando por aquela porta e sorrindo ao vê-la. E isso era apenas o dia seguinte a sua morte.
–Alunos, esse é o Douglas Henrique. O novo aluno da nossa sala. – o professor Ian apresentou o rapaz novo para a turma. – Pode escolher um lugar vazio e se sentar. – ele avisou e foi para o seu lugar na frente da sala.
–Posso sentar aqui? – Nora deu um pulo quando o garoto se aproximou e puxou a cadeira ao lado da sua.
–C-claro. – ela gaguejou, colocando o material em cima da mesa. Ele apenas sorriu em resposta e se sentou, começando a copiar a matéria que o professor passava na lousa.
Assim que o primeiro sinal bateu, ela guardou seu material e saiu em direção à outra -sala, onde teria aula de inglês, quando foi parada por Douglas.
–Eleonore... – ele corou quando falou seu nome.
–Me chame de Nora, por favor. – ela riu, mas logo seu sorriso se desfez. Uma torrente de lembranças de Erick passaram por sua mente, mas a que ficou em destaque foi quando eles se conheceram.
“-Ei, Eleonore! – ele chamou, segurando seu braço quando ela saiu da sala.
–Me chame de Nora, por favor. – ela sorriu, tímida.
–Quer sair mais tarde? – ele perguntou, sorrindo. Ela apenas assentiu e saiu.”
–Quer sair mais tarde? – perguntou o rapaz. Ela apenas negou.
–Desculpe, não posso. – ela saiu correndo antes de começar a chorar. Antes que pudesse entrar na sala, bateu de frente com Alexandra e as duas caíram sentadas no chão.
–Não olha por onde anda, esquisita? – insultou a garota. Alexandra era a típica patricinha de escola que todos odeiam e invejam. Alta, loira e dos olhos azuis, deixava a desejar com um corpo de dar inveja às outras garotas e fazia os garotos babar. Naquele dia, vestia calças jeans justas, uma blusinha preta com o desenho de uma coroa e uma rosa nas costas e saltos altos, mesmo sendo alta com seu 1,78. Nora estreitou os olhos e se levantou ao mesmo tempo que a outra, mas essa lhe passou uma rasteira e ela bateu com a cabeça no chão. – Compre um par de óculos, quem sabe assim comece a olhar por onde anda.
–Desgraçada. – ela murmurou, se levantando. Um par de braços morenos seguraram sua cintura e a ajudaram a levantar. Ela pegou a mochila no chão e se virou, dando de cara com Douglas.
–Você está bem? – perguntou o garoto, a examinando com os olhos.
–Sim, obrigada. – ela mordeu o lábio inferior e limpou as lágrimas remanescentes em seu rosto. – Eu tenho que ir. – ela se virou e correu para fora da escola, deixando aquele lugar que lhe lembrava tanto o namorado.
Assim que entrou na sorveteria, foi direto ao balcão e chamou por uma atendente.
–Um Milk-shake médio de chocolate, por favor. – pediu. A mulher apenas concordou e se pôs a fazer a bebida enquanto a menina batia as unhas no balcão de granito gelado e cantarolava uma música em japonês e baixo tom.
–Aqui. São três reais. – cobrou a atendente. Nora lhe entregou o dinheiro e pegou a bebida, saindo dali. Ela caminhou por mais alguns minutos, ignorando o fato de estar matando aula em uma segunda feira, e se sentou em um banco na praça da cidade, aonde ia quando mais nova junto com alguns amigos. Amigos que se mudaram ou deixaram de falar com ela depois de um tempo. Ela terminou o Milk-shake e jogou o copo vazio no lixo.
–Sabe, matar aula não é muito bom para quem quer fazer faculdade. – ela deu um pulo com a voz.
–Gabriel? – ela sorriu. Faziam anos que ela não via o amigo. Alto, moreno, olhos castanhos e corpo atlético, ele a fazia rir quando ninguém conseguia e estava sempre ao seu lado. Naquele dia, estava com uma calça jeans clara, tênis pretos e uma regata amarela. Havia se mudado alguns anos antes, quando seu pai foi transferido pela empresa para trabalhar em outra cidade, mas agora estava de volta, morando com a mãe, que a pouco havia se divorciado.
–Conhece outro? – ele riu e a abraçou.
–Não, com certeza não. – ela respondeu, rindo. – Vai voltar para o colégio? Juro que preciso de alguém que me segure quando eu der de cara com a Alexandra de novo.
–Volto amanhã, como vai o pessoal?
–Nem sei. Depois que você foi embora, todos esqueceram de mim. Provavelmente, querendo evitar a esquisita. – ela respondeu amargamente e começou a encarar o céu, que ao poucos escurecia.
–Que isso! Você é demais! – ele tentou levantar seu humor. Sem sucesso.
–Hoje não é um bom dia, Gabe. – ela se levantou, prevendo uma chuva e puxou uma sombrinha dobrável da mochila.
–Fiquei sabendo. Sinto muito, Nora. Fiquei sabendo que vocês namoravam. – ele se levantou e se colocou ao seu lado enquanto ela abria a sombrinha.
–Está tudo bem. Só estou meio abalada, sabe? Foi muito de repente. – ela contava enquanto começava a garoar. Ela colocou a sombrinha transparente sobre os dois quando a chuva engrossou e as pessoas começaram a correr em busca de abrigo.
–Vai ficar tudo bem. Você vai superar isso, como superou a do Math. – ele se referia a Mathew, um amigo de infância da garota. Ele morreu afogado enquanto brincavam na piscina da casa da tia dele e o ralo abriu, o sugando para o fundo e o prendendo lá embaixo, submerso. Ela conseguiu se segurar na borda e segurou a mão dele antes dele ser puxado, mas não aguentou muito e acabou cedendo. Ela sempre se culpou pela morte do amigo, dizendo a si mesma que devia ter aguentado mais, que, se o fizesse, Mathew ainda estaria vivo. Com um balanço de cabeça ela afastou aquelas lembranças e pôs um sorriso no rosto.
–Vamos, temos que sair dessa chuva. – ela puxou sua mão em direção a uma lanchonete e os dois se sentaram em uma mesa perto da porta. A chuva ficou cada vez mais grossa, até que a água começou a correr pelas ruas, como o canal de um rio em movimento.
–Posso anotar seus pedidos? – perguntou uma garçonete.
–Dois cachorros-quentes, por favor. – pediu Gabriel, vendo que os pensamentos da amiga estavam longe. Ela fechou os olhos e voltou a olhar para o amigo.
–Tenho que ir. – ela se levantou e acenou para a mesma garçonete – Cancele um dos lanches! – ela gritou e entregou um papel para o amigo.
–O que é isso? – ele pegou o papel meio receoso.
–Me ligue quando puder. – ela deu de ombros e saiu com a mochila nas costas, esquecendo a pequena sombrinha transparente ao pé da mesa no exato momento em que o lanche do rapaz chegou.
Correu pelas ruas pensando em entrar assim que batesse o sinal para o intervalo e apertou o passo, torcendo para não encontrar ninguém. Quando a chuva começou a diminuir e parou em frente ao prédio azul marinho recém pintado. Percebeu que o sinal ainda não batera e ficou levemente agradecida antes de pular o muro e correr para o velho auditório. Assim que se sentou na borda do palco, o sinal bateu e dois rapazes entraram no auditório, rindo. Ela rapidamente se escondeu atrás de algumas cadeiras e esperou eles irem embora. A porta bateu novamente e ela se sentou na cadeira. Estava exausta da corrida.
–Ei! Quem é você? – ela se assustou com a aparição repentina de um dos rapazes. Quando tentou se levantar, o outro segurou seu ombro, mantendo-a parada. Só então ela os identificou. Alto, pele branca como porcelana, olhos escuros, cabelo escuro e forte. Afonso. Ele estava vestido com uma blusa de moletom da GAP, calças jeans, e Vans brancos.
–A mesma que vai bater em você se não me deixar em paz. – ela se soltou do segundo, o qual ela nem olhou e sai andando com a mochila nas costas, quando ele puxou a alça e a fez parar num tranco.
–Eleonore, podemos conversar? – ela se virou estupefata.
–Não, Ricardo, não podemos. – ela apenas deu as costas para o segundo, cabelos dourados, olhos castanhos, baixo e magro. Vestia uma bermuda jeans, tênis e uma regata branca. Ela simplesmente não conseguia olhar para a cara deles. Ambos foram seus melhores amigos um dia, mas deixaram de ser depois que ela ganhou a fama de esquisita. Ela respirou fundo e saiu dali correndo, deixando os dois calados.
Agradeceu pelo sinal assim que chegou à sala da aula de química e entrou, sentando-se no fundo, no lugar habitual. Então ela finalmente percebeu que aquilo seria seu cotidiano agora. Ele não estaria mais com ela. Nunca mais.
Afonso e Ricardo queriam apenas dar os pêsames. Gabriel e Douglas se tornaram sua companhia diária, sempre ao seu lado quando tinha uma recaída. No entanto, alguns meses depois, um noticiário local exibiu um incêndio em uma fazenda, a mesma fazenda em que ela estava passando o final de semana.
–No local, foi encontrado apenas o corpo de uma jovem. A perícia afirmou que a causa do incêndio foi um curto circuito na lavanderia, faíscas caíram sobre a roupa e iniciou o incêndio que tirou a vida da garota. Os pais estão em choque, mas o quadro é estável. – afirmou a repórter aos jornalistas. Mal sabia o impacto daquelas palavras sobre os professores, os alunos e os amigos da garota. Eleonore Baxter estava morta.
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