Nona

1 I Saturno desaparece


As nuvens estavam cinzas. O ambiente alternava-se entre silêncios e soluços. Um estranho pássaro prateado pousou a janela e pareceu observar o que acontecia lá dentro. Uma senhora pálida e magra se encontrava em um caixão rodeado de flores, suas mãos magérrimas entrelaçavam-se perpetuamente e expressão em sua face era severa – com sobrancelhas arqueadas descendentes ao centro. Uma mulher de meia-idade levantou-se:
— Hoje...-limpou o canto dos olhos- perdemos nossa querida avó, mãe, tia, irmã... Mas não devemos nos lembrar dela como esteve nos últimos meses. Devemos nos lembrar dela com seu sorriso, sua doçura...
De repente o pássaro prateado entrou na sala e avançou no cadáver, arrancando-lhe algo brilhante que guardava entre os dedos. Todos se agitaram e a Tia Lívia, que estava discursando, desmaiou. O marido dela foi acudi-la enquanto o pássaro dava um baile no restante dos meus parentes — ele veio para cima de mim e se eu não tivesse coberto o rosto teria sido arranhado, mas ele só bagunçou meu cabelo e voou em direção à janela pela qual tinha entrado e sumiu com algo no bico.
Tia Cristina, totalmente sóbria em relação à todos que estavam em choque, acenou para que fechassem o caixão e seguimos ao sepultamento — nós tínhamos um jazigo no cemitério da cidade e lá demos o último adeus a Helena, minha estimada avó.
Nos momentos finais do enterro, ninguém tinha muito a dizer. Aquele era o momento que sanava todas as dívidas da terra. Minha mãe, firme, séria, não esboçou uma reação emocional. Mas aquela tia que tentou discursar no velório estava desequilibrada, gritou, atirou-se na cova.
Minha mãe me puxou e fomos os primeiros a irmos embora. Dentro do carro trocamos algumas palavras:
— A Tia Lívia ficou muito...
— A Tia Lívia nunca foi visitar sua avó no hospital e poucas vezes em casa. Aquele sentimento chama-se remorso, meu filho -explicou ela, me interrompendo.
Dois dias se passaram e minha mãe veio me acordar cedo pra irmos a casa de minha avó. Casa, estou sendo modesto, casebre... Casarão. Nós vivíamos por lá, era triste ter que retirar a mobília e a decoração de onde muito havíamos nos divertido.
— Isso tudo vai pra onde?
— A maioria das coisas serão doadas... Ninguém quer essa velharia. — respondeu minha mãe com apatia.
Os cômodos pareciam ainda maiores com os móveis embrulhados. Peças antigas, milenares até, já que ela tinha apreço por relíquias de outras culturas – especialmente gregas. Minha mãe mandou eu ir ao ateliê, que ficava ao lado do quarto, pegar as peças inacabadas. Assim que entrei avistei uma enorme obra que retratava um homem com sua família, ninguém acreditaria que não foi pintada à partir de modelos ou fotos. Os olhos verdes dele pareciam me fitar, era um olhar onipresente. Haviam muitos quadros extremamente realistas, quase tridimensionais: Uma senhora cuidando de um bebê, uma paisagem que parecia a vista aérea do prédio comercial do centro da cidade e até mesmo um casal de namorados aninhando-se. Desci uma a uma.

Quando subi para fechar a sala, percebi algo incomum: A luz que adentrava por uma fresta rasgada da cortina formava uma sobra que parecia um pássaro de asas abertas. Ouvi um crocitar senti um frio na barriga, algo mexeu-se entre as cortinas balançando-as. Peguei os dois lados e abri rapidamente, a luz preencheu a sala e na mesma parede uma mancha de tinta descascada tinha o mesmo formato corvídeo. Chamei minha mãe para que visse mas quando ela entrou e olhou para onde eu apontei, ela não enxergou nada, nem mesmo quando eu fechei as cortinas para mostrar a sombra. Ela me olhou com um olhar severo e desceu balançando a cabeça, impaciente. Mas eu não estava ficando louco, quero dizer, eu tinha certeza do que vira.

Os dias seguintes voaram, minha vida não era a mais agitada. Eu tive uma semana de provas que passou depressa. Na sexta-feira levei meu cão, Saturno, para passear. Eu dei esse nome a ele em homenagem ao deus do tempo e porque, pelo menos por um momento, o tem parecia ser meu amigo ou estar sob meu controle — na melhor das hipóteses. Era um labrador grande demais para um ano de idade.

Enquanto circulava o parque ouvindo minha playlist favorita, Saturno corria atrás dos pombos. Ele não usava coleira, era muito obediente – corria de um lado para o outro e estivara-se na grama quando cansava. Adorava brincar com a bolinha.

No fim da tarde o tempo fechou, mas ainda não chovia. Saturno me trouxe a bolinha amarela só que dessa vez eu joguei mais longe do que pretendia. Ele correu naquela direção à reserva ambiental do parque e sumiu. Depois de cinco minutos eu me levantei e fui atrás dele. Aproximei-me de onde deveria encontrá-lo chamando-o pelo nome mas não ouvi nem um latido ou movimentação. Embrenhei-me entre as árvores e arbusto e achei uma trilha com pegadas pequenas em formato de patas em uma trilha estreita de barro vermelho. Começou a garoar. Eu segui o caminho que parecia não terminar. Continuei seguindo as pegadas e percebi uma bifurcação adiante, sem qualquer placa ou sinalização. A chuva apertou fazendo com que as pegadas desaparecessem do barro úmido e quando cheguei na bifurcação não sabia para qual lado prosseguir. Tirei uma moeda do bolso – Cara para a esquerda, coroa para a direita. Lancei-a no ar e... Cara. Então e tomei o rumo à esquerda.

Molhado e com frio percebi que a trilha começou a ficar íngreme e meu tênis que tinha a sola de borracha estava escorregando. Eu não só estava propenso como eu realmente levei um tombo e fiquei de costas no chão – Naquele momento eu olhei para o céu sentindo as gotas de chuva grossa que me assentavam no barro e pensei – Acho melhor voltar para casa enquanto ainda lembro o caminho de volta. Amanhã eu espalho panfletos sobre o desaparecimento de Saturno.

Levantei-me e tirei o excesso da lama e percebi que meu celular havia caído e o recolhi rapidamente. A tela ficou toda melecada e mal pude ver as horas. Faltavam quinze minutos para as sete e eu precisava ir para casa. Quando dei as costas para voltar, ouvi um uivo longínquo. Só poderia ser do Saturno. Meu coração apertou e eu comecei a correr em direção ao som. Uma figura estava ficando cada vez mais perto e mais nítida. Me aproximei o suficiente para entender do que se tratava e não acreditei no que vi.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.