Nolram.
4 Parte 4
Nolram abre os olhos com imensa dificuldade. Não sabe se é dia ou noite, sequer se lembra onde está. Seus olhos doem, então ele os fecha novamente. A cabeça está latejando. Tenta ouvir algum som além da sua respiração, mas tem o silêncio como resposta. Abre novamente os olhos e tenta identificar o lugar, que aparenta ser um quarto extremamente organizado. Nolram nunca esteve neste ambiente antes. Nada ali é familiar. Tenta se levantar, mas seu corpo não responde. Seu corpo. Percebeu só agora que todos os seus ossos doem. Sente-se tão cansado que é como se tivesse corrido por um mês sem parar. Reúne forças para mexer o braço e derruba algo que estava sobre a sua barriga.
Um ruído parece vir de outro ponto da casa. Passos rápidos se movem em sua direção, cada vez mais próximos. Em instantes, projeta-se na porta uma figura peculiar e com ela tudo volta. Todas as memórias, desde a sua trágica volta para casa, até o momento em que abriu os olhos e se viu encarando aquele rosto.
— Vejo que está melhor. — Seu sorriso dizia que não estava mentindo.
— Se você chama isso de melhor… Não consigo mexer meu corpo, minha cabeça dói e meus olhos ardem. Por favor, diga que não fui atacado outra vez.
Tod se aproximou e colocou a mão em sua testa. Em seguida, encheu de água um copo longo que estava na mesinha ao lado. Ajudou Nolram a se sentar e beber toda a água, junto com alguns comprimidos.
— Não se preocupe, estamos seguros aqui dentro. Infelizmente, não sei dizer o que tem acontecido lá fora nos últimos dias. Também não vi nenhum movimento na rua pela janela.
— Últimos dias? Quanto tempo passei desacordado? — Se pergunta agora se devia ter tomado aqueles remédios sem saber o que eram. — O que você me deu?
— Essas pílulas? São para controlar a sua febre e aliviar as suas dores. Agradeça por eu ter uma vizinha hipocondríaca e por ela confiar em mim a ponto de me deixar uma cópia da chave. Não faça essa cara. Sim, você esteve inconsciente pelos últimos dois dias. Foram dias difíceis. Creio que a doença se tornou mais perigosa e seus efeitos foram quase imediatos. Você delirou, gritou, ardeu em febre e vomitou tantas vezes, que achei que não fosse resistir. Felizmente, consegui te fazer comer um pouco de frango e feijão de tempos em tempos, também te fiz beber muita água. Acho que foi assim que conseguiu sobreviver.
— Você nem mesmo me conhece, nunca nos vimos antes. Por que está fazendo tudo isso por mim?
— Você tem razão, nós nunca nos vimos antes. Tudo o que sei sobre você, é que precisa da minha ajuda. Nós vivemos em uma sociedade que não tem salvação. Se você acompanha ao menos um pouco as notícias, deve saber que estamos caminhando a passos largos rumo à nossa própria extinção. A guerra interminável entre Hizashii e Gundan atingiu seu pior momento, centenas de milhares de inocentes têm morrido e ninguém faz nada. Toriusk continua a poluir desenfreadamente o nosso planeta, sem contar seus testes com armas de destruição em massa. Havenda fecha suas portas ao resto do mundo e se acha superior por ter uma economia avançada, além de tentar intimidar a todos com seu poderio militar. Tendo crescido em meio a tudo isso e odiando o modo como as coisas funcionam, acha que posso agir como eles? Eu não me visto como eles. Não penso como eles. Não vivo como eles. E, principalmente, não desprezo a vida das pessoas como eles.
Nolram não consegue entender como alguém pode dizer tais coisas como se estivesse falando sobre o clima, ou algo assim. Como uma pessoa leva um desconhecido até a sua própria casa e gasta seu tempo cuidando dele como se fosse algum parente? Tudo o que Nolram consegue fazer é observá-lo por algum tempo, desconfiado de que está sendo zombado. Mas aqueles olhos o observam de volta. É como se eles pudessem enxergar a sua alma e ler claramente tudo o que se passa em sua mente.
— Obrigado, eu… Eu juro que vou te pagar por tudo o que fez por mim, se é que isso é possível.
— Eu não faço isso por pagamento, tampouco espero qualquer retribuição. Eu ajudo as pessoas na esperança de que, inspiradas em minha boa ação, possam ajudar também algum desconhecido. Quem sabe assim o nosso mundo não melhore?
Nolram encara o copo vazio em sua mão. Nesse momento, não sente mais a dor nos músculos, nos ossos ou nas articulações. Seus olhos não o incomodam mais, tampouco seu cansaço ou sua sede. Sua cabeça está pesada, mas não de dor. Um turbilhão de pensamentos bombardeiam sua mente, então ele diz:
— Você me lembra a minha irmã. — Continua encarando sombriamente o copo.
— Sua irmã… Eu sinto muito. Você não parava de chamar por ela enquanto delirava, dizia que precisava dela. Me desculpe, eu procurei nas fotos do seu celular por alguma pista de onde você mora, mas não encontrei nada. Não consegui trazê-la até você.
— Meu celular? Como conseguiu passar pelas senhas? Bom, não importa. Minha irmã certamente teria te ajudado se estivesse aqui. Assim como você, ela ajuda as pessoas. Eu nunca tinha reparado muito nisso, achava que era apenas uma mania dela, mas vocês são muito parecidos. Acho que não se encaixam em nosso mundo.
— Talvez o nosso mundo só precise de um pouco mais de amor ao próximo.
— Você deve ter razão. Desde pequena, Lin cuidava de animais feridos e dividia seu lanche com moradores de rua. Eu sempre disse que ela devia deixar que as pessoas se virassem, ou sempre ficariam dependendo de ajuda, mas ela simplesmente sorria. Ela sempre foi muito inteligente, sabe? Parece saber sobre tudo. Foi uma decepção ao nosso pai quando disse que não queria entrar para os industriais. Ela tinha capacidade para crescer muito na área e se tornar influente e rica, mas decidiu entrar para os médicos. Meu pai ficou muito triste, pois sabia que eu não tinha a mesma capacidade da minha irmã e lá se ia a chance de crescimento da nossa família…
— Infelizmente a área da saúde é muito desvalorizada, tendo em vista a sua importância. Na minha opinião, seu pai deveria se orgulhar muito da decisão da sua irmã, pois ela não escolheu o caminho mais fácil, mas foi o mais nobre. Eu não tive tanta coragem quando fiz a minha escolha e acabei optando pelos industriais para agradar aos meus pais, apesar de sempre ter sonhado em entrar para os médicos.
— Você é dos industriais? — Nolram não conseguia imaginar algo mais improvável que isso.
— Exatamente. Sou responsável pelo setor de desenvolvimento e criação da K.W.Z. Tech, mas dedico o meu tempo livre para aprender o máximo possível sobre a área da saúde.
Nolram agora não tinha mais nenhuma dúvida, aquele sujeito estranho estava brincando com ele. “Uma das pessoas mais influentes em nosso país… Será que ele acha que bati a cabeça com tanta força assim quando caí?” Tentou responder algo, mas percebeu que sua boca estava muito seca. Era como se tivesse passado vários dias sem beber nada. Agarrou o copo e tentou se levantar para beber água, mas as dores retornaram com tudo e o cansaço o impedia de se levantar. Tod entendeu o que estava acontecendo, trouxe a jarra de água até ele, tomou o copo em suas mãos e o encheu. Ajudou-o a beber e pediu que descansasse mais.
— Tod, sei que já fez muito por mim e não tenho direito de pedir mais nada, mas eu preciso muito saber o que aconteceu com a Lin.
— Não se preocupe com isso, eu te entendo perfeitamente. Vou buscar papel e caneta e você anota o seu endereço.
Tod abre uma gaveta em sua mesa e Nolram repara que não é tão simples quanto ele pensava. Ela é totalmente equipada com ferramentas para desenhos e projetos. Nota que o quarto não é simplesmente limpo e organizado, mas extremamente amplo e bem mobiliado. “Ele tem mesmo uma boa vida aqui.”
— Aqui está, consegue escrever?
— Sim, só um inst…
—Aaaaaaaaaaaah!
O grito vinha da rua, Tod correu em direção à saída.
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