Noiva em fuga.
1 ÚNICO.
Notas iniciais
Boa leitura.
Por que eu havia feito isso? Por que eu havia pegado justamente aquele metrô que eu sabia exatamente para onde levava? Encarei meu próprio reflexo no espelho, sabia que estava completamente acabada, meu cabelo – que demorou horas para ficar ajeitado, mesmos sendo tão curto – estava escorrido de suor.
Eu havia corrido muito e em uma velocidade maior do que a que eu era acostumada. Todas aquelas corridas matinais pelos parques da cidade, que Wilbert sempre me forçava a fazer, não adiantavam de nada. Eu continuo a mesma garota que perde o folego rapidamente e sua como uma porca.
Meu vestido de noiva estava totalmente rasgado e sujo. Minha irmã Melanie havia tido tanto cuidado quando me levou a aquela loja para que a gente escolhesse o vestido. Era ela quem devia estar casando naquela igreja, não eu. Eu nunca acreditei no casamento. E não amava Wilbert como ela amava. E foi justamente por isso que eu fugi.
— Estamos todos aqui reunidos para celebrar o casamento de Wilbert Lynwood e Samantha... – o padre falava com aquela postura que me irritava, e meu coração se desesperava. Olhei ao redor da igreja, e todos os rostos que via pareciam artificiais demais, superficiais demais. E ele não havia aparecido.
— Eu tenho algo que impede esse casamento. – eu falei, Wilbert me olhou, sabia que Melanie deveria estar com uma cara de desespero atrás de mim, o padre me encarava.
— Agora não é a hora para isso e tenho certeza que não é isso que você quer dizer. – o padre disse solenemente em um sussurro. A igreja ficou suspensa. As respirações dos meus convidados não eram nem um pouco audíveis.
— Eu não vou esperar até o momento certo. – eu disse, não sabia se soei grossa, mas era quase uma certeza. – E eu tenho certeza que eu quero dizer que existe algo que impede esse casamento.
— Sam... – Wilbert murmurou chocado, seus olhos castanhos estavam arregalados. Deveria haver muitos olhos arregalados ali naquele momento, minha mãe, Cat, Carly, Mel, e minha adorável sogra.
— Will, deixa eu falar. – sorri docemente para ele, tentando acalmá-lo. – Você não me ama, e eu não te amo. – um som de choque percorreu a igreja e então começou o murmurinho chato. – Você ama a Melanie. – novamente um som de surpresa – E ela te ama.
E então eu fugi. Corri mais do que podia. Deixei meu noivo e a vida que eu estava construindo para trás somente porque eu sabia que não era certo. Eu devia estar com outro, um moreno que fazia meu coração se perder. Eu não devia ter agido como agi da última vez que nos vimos.
Prendi meu cabelo em um rabo, e me encarei. Eu estava um lixo. Meu celular não parava de tocar. Eu havia prendido o celular na bota de combate que eu calçava. Não sabia dizer exatamente quem era, mas poderia dizer com toda certeza que não era Wilbert, nem minha irmã. Eles iriam ser felizes juntos de uma maneira que eu nunca seria capais de fazer.
Apoiei meu rosto sobre minhas mãos, eu estava fazendo uma loucura. Não tinha noticias de Freddie há anos, desde que ele foi me visitar pela segunda vez em Los Angeles. Eu simplesmente não fui uma pessoa muito agradável com ele, mas havia mandado o convite, queria que ele fosse ao meu casamento para me fazer acordar para uma realidade muito mais forte que aquela, queria ele naquela igreja para que provasse que eu não o amava e que amava realmente Wilbert.
Mas eu não amava Wilbert e não adiantava mais negar. Não nesse momento. Mas ainda precisava ver Freddie para ter certeza que o amava.
O trem avisou que aquela era a parada final do metrô, e por isso levantei. Notei que muitas pessoas me encaravam, o que me deixou completamente desconfortável. Não gostava quando as pessoas me davam mais atenção do que era preciso.
Subi as escadas e dei de cara com o apartamento. Era o apartamento no qual ele foi morar depois que sua mãe o expulsou de casa. É difícil para eu assumir, fiz Carly me contar o endereço dele, e desde que descobri venho todas as tardes tomar café em uma lanchonete que tem na frente.
Algumas vezes inclusive o vi andando, algumas vezes com um jornal nas mãos, outras com um livro, mas na maioria das vezes apenas com uma bolsa de computador. Encarei a porta do edifício, era simples e pequeno, não era como o Bushwell.
E agora? Eu entraria ou ficaria ali como se fosse algo comum. E se Freddie estivesse namorando? E se Freddie não sentisse mais nada por mim? Eu acabei de deixar um cara incrível no altar para correr atrás daquele que eu realmente gosto, mas só quando cheguei aqui percebi o erro que isso foi. Freddie poderia estranhar. Não era todo dia que você via sua amiga da infância, se é que podemos definir aquilo como amizade, e ex-namorada vestida de noiva assim na porta do prédio onde você mora.
Deveria tocar o interfone do apartamento dele? Se eu fizesse isso o que eu diria? “Olá Freddie, é a Sam, eu estava na região e pensei, olha, é o endereço do Freddie, faz tempo que não encontro ele, podemos conversar sobre assuntos aleatórios”? Não, isso seria muito ridículo.
Toquei todos os outros interfones. Toquei do 1 ao 20, pulando o número 8, que era o dele.
— Alô? – alguém gritou do outro lado – É do restaurante chinês? Se for toque duas vezes e pode subir, o microfone ai tá quebrado. – Toquei duas vezes o interfone e um clique soou do portão. A pessoa abriu a porta, e ficaria morrendo de raiva por não receber sua comida.
Subi as escadas com o coração na mão e uma possível conversa se formando em minha cabeça. Não sabia o que poderia falar com Freddie. Parei em frente ao número 8. Meu coração estava batendo tão rápido e tão forte que eu achei que poderia machucar meu peito. “Olá, Freddie, eu estava passando pela região e achei que seria legal te encontrar para conversarmos”. Eu não posso falar isso. É besteira. Ele é esperto, ia perguntar como eu sabia o endereço, ou como eu entrei sem tocar o interfone.
Fechei meu punho para bater na porta. Movi meu punho para próximo da porta, mas sem coragem para bater apenas deixei ali, suspenso, tomando coragem e criando um pretexto para conversar com ele, para estar ali.
Mas a porta se abriu, e encontrei um Freddie com uma pelugem em seu queixo, o cabelo maior do que eu lembrava. Resultado dos quatro anos que não o via. – Sam? – ele perguntou me encarando surpreso, surpreso e confuso. Então quando seus olhos percorreram meu vestido e ele percebeu meu estado ele apenas abriu espaço para que eu passasse.
Cheguei na sala e me sentei no sofá, e segurei a calda do meu vestido na mão. Estava nervosa, minha mão suava, e meu vestido estava levemente molhado e sujo. Me senti uma idiota de ter ido até aquela casa e de ter ficado ali na frente da porta como uma idiota.
— Sam, o que houve? – Freddie perguntou, aqueles olhos tão castanhos à minha frente, me lendo e me percebendo. Eu ainda o amo. Como posso amá-lo como amo? É muito amor para destinar a alguém que não vejo há quatro anos.
— Eu fugi. Desculpa, eu não sabia para onde poderia ir. – eu sussurrei, não queria que ele ouvisse, era duro admitir, mas era preciso. E a pior parte é que isso era verdade, eu não sabia para onde correr, corri para o lugar mais impensado, sabia que ninguém me procuraria ali.
— Tudo bem. – ele sorriu, aquele sorriso tão lindo e confortante, o sorriso que ele deu quando terminamos e o sorriso que ele deu quando eu o dispensei em Los Angeles. Era um sorriso que por mais bonito que fosse escondia algo.
— Eu... – eu pensei bem antes de falar uma besteira enorme – Você poderia me dar um copo de água, minha garganta tá seca. – Pedi com um sorriso enorme, eu havia me acostumado a ser mais polida do que eu realmente era, como Wilbert era meu chefe quando começamos a namorar, eu sempre agia muito mais em um caráter profissional com ele.
Não que pegar sua secretária, a demitir para poder namorá-la e casar com ela fosse muito profissional da parte dele. Mas isso não vem ao caso.
Freddie assentiu e foi em direção à pequena cozinha do apartamento. E então eu ouvi o barulho da torneira do banheiro. Sabia que era do banheiro porque vi uma menina morena baixinha saindo de lá alguns segundos depois. Como eu havia sido idiota, ele estava provavelmente com alguém e eu estava estragando esse momento.
E por isso levantei correndo. E como fugir era minha nova especialidade, eu abri a porta e corri escada abaixo. Pulava dois degraus, por vezes até três para chegar ao fim da escadaria. E então percebi que não tinha como sair sem que alguém abrisse o portão.
A decisão mais sensata? Esperar alguém entrar ou sair para que eu pudesse me esgueirar. Mas a pessoa que desceu foi justamente a garota que estava na casa dele, com ele em seu encalço. Sinceramente, eu não sabia onde enfiar a cabeça naquele momento. Maior vergonha da minha vida, e eu havia me declarado para ele em um hospício.
Freddie abriu o portão e eu me levantei. A morena já estava saindo quando eu tentei sair rapidamente atrás dela, mas meus planos de fuga do dia foram interrompidos por ele. Ele estava malhando? Foco, Samantha.
— Onde pensa que vai? – ele perguntou rindo, e após acenar com a mão para a morena ele fechou o portão atrás de si.
— Para minha casa? Ou para qualquer outro lugar? – eu sugeri nervosa, eu precisava fugir dali, ele estava com outra, eu deveria ter imaginado.
— Só por causa da Chloe? Ela é minha colega. – Freddie riu como se aquilo explicasse tudo, eu evitei o encarar – Estava ajudando ela com uns exercícios da faculdade, ela não é a pessoa mais inteligente da turma.
— E você é, nerd? – não consegui segurar minha língua, aquilo era mais forte que eu, insulta-lo era a forma mais segura que eu tinha de não me entregar.
— Vamos subir, acredito que você tem uma longa história para contar. – ele me chamou, mas vendo que eu não iria subir facilmente, ele se posicionou às minhas costas, e me empurrou escada acima como ele faria com um animal. Em um bom sentido.
— Obrigada pelas roupas, não acho que passar a noite com o vestido de casamento fosse me alegrar. – eu agradeci verdadeiramente, ele havia me emprestado uma calça de moletom com desenhos do Batman, e uma camisa branca.
— Agora vai me contar sobre como você se tornou uma noiva em fuga? – ele pediu se sentando no sofá e me entregando uma garrafa de cerveja enquanto segurava a outra firmemente.
— Wilbert amava Melanie. Melanie amava Wilbert. Melanie estava noiva, ele pegou a coisa mais parecida com a Melanie, a pessoa que vos fala. Só não era certo, eu não amava ele. Eu amava a ideia de ter alguém. – eu expliquei rapidamente, e tomei com dificuldade um gole da cerveja. – Ele me mataria se soubesse que estou tomando cerveja.
— Ele é um idiota, como ele pode amar uma pessoa que não existe? – Freddie perguntou, e então irritada, peguei o celular do cós da calcinha (precisava de outro lugar para esconder o celular agora que a bota estava largada no canto). E mostrei o vídeo da minha despedida de solteira, onde eu e Melanie fazíamos uma competição de shots de tequila enquanto Cat filmava e narrava o jogo. – Ah, ela existe.
— É claro que existe, acha mesmo que eu iria me vestir de rosa só pra te enganar? – perguntei com a sobrancelha erguida em sinal de desafio.
— Desculpa. – ele riu. – Mas me conte mais da fuga. Foi dramático como nos filmes?
— É dramático correr doze quadras da igreja até a estação de metrô e vir de metrô até aqui? – perguntei sorrindo.
— Vestindo isso. – ele apontou para o vestido – É sim. – piscou, e se levantou para pegar algo na cozinha. – Você fez bem em fugir desse casamento, vocês não iriam ser felizes com esse relacionamento.
— Sim, ainda mais quando eu gosto de outro. – eu falei, mas logo mordi meu lábio. Freddie, que estava voltando para o sofá, parou no meio do caminho me encarando. Mas logo retomou as passadas largas e se sentou no lugar onde estava.
— Deveria contar para ele. – eu sorri com a sugestão dele, essa era a razão de eu ter corrido até ali naquela mesma noite, ele também sorriu, mas aquele sorriso de quem esconde uma frustração.
— Não sei se seria uma boa, não sei se ele gosta de mim. – confessei, encarando a garrafa de cerveja, então levei ela até a boca e tentei tomar mais um gole forçado daquele liquido horrível. Freddie pegou a garrafa de mim, e trocou por um copo de chá gelado, ele realmente me conhecia.
— Quem seria o idiota que não gostaria de você? – ele perguntou, aqueles olhos castanhos me fitaram como nunca haviam feito. Ao menos não nas últimas vezes que nos encontramos.
— Digamos que eu não fui uma pessoa muito legal com ele da última vez que nos vimos. E que mesmo que eu tenha tentado consertar tudo apenas piorei. – eu suspirei ao encontrar o olhar dele na direção de meus olhos. – Acho que esperei tempo demais para falar para ele que eu teria adorado que ele fosse morar comigo em Los Angeles, mas que não queria que ele perdesse a vaga de estágio perfeita que ele tinha conseguido. E eu voltei para Seattle, alguns meses depois, então não teria mudado muita coisa. – ele pigarreou, desviando o olhar de mim, me senti frustrada. Ele não me amava como eu o amava.
— Talvez ele também tenha esperado tempo demais para ir falar com você quando você ficava o observando da lanchonete na frente do apartamento. Ou talvez se ele tivesse corrido até a sua casa e falado que seria um erro você se casar com Wilbert Lynwood, o adorável noivo dela, com um sorriso adorável e um cabelo adoravelmente penteado para trás. – Freddie sorriu para mim, e meu coração disparou novamente, eu tinha quase certeza que estava corando, mas não me importei.
— Você me via todas as tardes? – eu perguntei corada, minhas bochechas ardiam em um fogo constante.
— Quase todas, mas tentava não mostrar. – ele riu, e eu por instinto, por desejo e por vontade de finalmente quebrar a distancia que tinha entre nós, me inclinei até ele e o beijei.
O beijei para matar a saudade e para confirmar algo para ele. Confirmar que eu o amava. Eu o amava. Não. Eu o amo. E sempre vou amar. Ele foi meu primeiro amor, e único. E aquele beijo era a minha perdição, quando vi já estava sentada no colo dele, tentando aprofundar aquele beijo.
— Droga, como eu te amo. – ele sussurrou quando afastei levemente minha boca da dele, meu corpo todo se retesou ao ouvir essa simples frase, senti minha pele se arrepiar, e meu coração parou, meu estômago gelou.
— Eu te amo. – sussurrei encarando os olhos dele.
— Eu te amo. – ele repetiu me encarnado.
—Você não sabe como é bom ouvir isso. – sorri – e dizer verdadeiramente. – completei com um sorriso ao ver o sorriso enorme no rosto dele. Aquele homem era simplesmente o amor da minha vida. E eu esperava ser o amor da vida dele.
— Sam? – ele me chamou, e eu o olhei lentamente – Como você conseguiu entrar sem tocar o interfone?
— Eu bati o interfone de todos os seus vizinhos, até que alguém esperando a comida chinesa abriu o portão para mim. – eu sorri, e senti o corpo dele vibrar sob mim, ele estava rindo, como eu amava o riso dele.
— Você podia ter apertado o meu interfone, eu não ia ligar de receber uma visita tão ilustre. – ele admitiu.
— Eu sei, mas era mais divertido bater o de todo mundo. Me senti criança novamente.
Fiquei na casa de Freddie aquela noite, e muitas seguidas. Não demorou muito até que fosse morar com ele, e a gente casasse em uma cerimonia pequena apenas para familiares e amigos. Freddie é apenas meu melhor amigo e amante, só queria ter descoberto isso de uma maneira mais fácil, sem ter feito Melanie e minha mãe gastarem uma fortuna com o casamento com Wilbert. Falando nele, Melanie acabou casando com ele um mês depois de eu o ter largado no altar. Esse casamente foi ele quem pagou.
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