Noites de Montmartre

9 Capítulo 9: Fabi


Notas iniciais
Ei, sei que demorei a postar, mas aqui está o capítulo! Lembrando que ele é um POV do capítulo anterior. Espero que gostem. Não prometo mais nada, porque não estou conseguindo cumprir prazos... Mas enfim. É isso! Beijos!

Meu dia não tinha começado bem.

Acordava todos os dias, pontualmente as 6h da manhã para por os pães no forno, fazer o café, preparar os ingredientes para o almoço das meninas, arrumar a bagunça que ficava a cozinha logo depois que as meninas comiam, preparar os ingredientes do jantar dos clientes. Hoje a noite iria servir Ratatouille, Blanquette de Vitela, Sopa de Cebolas e Quiche Lorraine que seria servido com o Pinot Blanc d’Alsace.

Tinha em mente como tudo ocorreria. Claro, na minha mente tudo daria certo e eu realizaria as tarefas sem atraso. Ah, como eu queria que isso fosse verdade. Logo quando acordei, Dani avisou-me que estávamos com falta de Pinot Blanc d’Alsace, o quiche seria servido com outro vinho tinto. Seria a combinação perfeita, mas teria que ficar para outro dia. Cheguei a separar a maior parte dos ingredientes para o bolo matinal, enquanto as baguetes assavam no forno a lenha. A farinha havia acabado, mas não era o pior de tudo. Meu pai era dono da padaria da frente.

Eu era pequena, observava minha mãe e minha avó cozinharem enquanto me ensinavam os truques da família. Como elas me ensinaram a fazer o ganache perfeito para se por nos bolinhos, a receita do fricassê que tinha passado por várias gerações da família, ou quando me ensinaram que quando se faz Bavaroise de Baunilha, tem que misturar a calda com a baunilha, leite, já derretidas e as claras em neve que devem ser batidas com 3 colheres de açúcar. Eu anotava tudo num caderninho com capa de couro, chegava a fazer alguns desenhos rústicos e sentia o cheiro dos temperos, gravando sua essência e onde poderiam ser usados.

O dia mais feliz da minha vida fora quando pude cortar os primeiros legumes. Claro, cortei os dedos uma ou duas vezes, mas cada corte, queimadura e copo quebrado era um aprendizado, uma coisa a ser aperfeiçoada, algo que eu teria de mudar com o tempo, pois a prática leva a perfeição.

Logo, fiz meu primeiro prato. Um desafio que cumpri, não saindo perfeito, mas não estava intragável. Tomates com salsinha. Uma receita simples, mas eu tinha 8 anos, era o máximo que minha mãe deixava que eu realizasse. Aos 10 anos, mostrava maestria na artes dos bolos, doces e tortas. Os doces sempre foram meu orgulho. Logo eu já confeitava os bolos da vitrine. Meu pai apoiava cada esforço meu, sempre dizendo o quanto eu era boa. Minha família gostava da minha comida, mas eu queria mais. Queria poder um dia cozinhar em um restaurante conhecido, sonhava em algum dia poder cozinha no Le Petit Poucet, ser reconhecida por meus esforços, que as pessoas do mundo gostassem da minha comida.

Eu tinha 14 anos quando recebi minha primeira encomenda de certo valor e calibre. Tive que implorar para que minha mãe me desse aquele voto de confiança, era algo que eu queria, queria provar meu valor. Ela acabou cedendo, a muito custo, mas cedeu. Teria de fazer e confeitar um bolo de casamento. Nada menos que um bolo de 3 andares. Era o casamento de um janota com a filha dos Bouillard, Elleanor. Um evento que teria nada menos que 3 dias de festa, todas as socialites iriam comparecer. Era a hora perfeita. Se todos gostassem do meu bolo, poderia, quem sabe, ser convidada para trabalhar nas cozinhas de algum senhor importante, algum dia a porta seria aberta e eu cozinharia para algum restaurante conhecido antes dos meus 30 anos.

Tive que frequentar a casa dos Bouillard, teria que saber como Elleanor queria seu bolo, os enfeites. Os bordados do vestido de noiva dela eram andorinhas, seda chinesa, cetim, renda, uma profusão de tecidos, charmoso de certa forma.

Era o casamento do ano, todos esperavam isso, um evento que seria lembrado ao longo dos anos, os Boillard não poderiam esperar nada melhor do que casar sua única filha com alguém de uma família poderosa e influente em Montmartre, mas Elleanor não aparentava estar feliz. Parecia que só eu conseguia ver que, por trás daquele sorriso perfeito, havia dor e tristeza.

Eu deveria saber que ao nos aproximarmos, ela logo confiaria em mim. Estava escrito na testa dela e eu sendo inocente demais, nada fiz quando ela me beijou. Senti suas mãos em minha cintura contra a dela, seus lábios tentando forçar caminho para que finalmente sua língua me preenchesse. E eu não impedi, pior, correspondi. Logo vi que nunca tinha sentido nada parecido com aquilo, entendia a tristeza de Elleanor. Ela nunca poderia casar com a mulher que amava. Fora o jeito que tinha encontrado de me explicar tudo.

Aquilo me abalou. O casamento fora lindo, seria comentado por anos, quem sabe séculos, as notícias corriam, os jornais noticiavam isso, a mansão onde o casal morava era de dar inveja a muitos ricaços, não tardou para se espalhar a notícia de que Elleanor estaria grávida. Imaginei toda a dor que ela sentia mesmo tendo a vida que qualquer adolescente do meu bairro daria a alma ao demônio para ter. Meu bolo tinha ficado lindo, os confeitos tinham sidos detalhados com maior amor, meus pais ficaram orgulhosos do meu trabalho... Mas a festa havia passado e meu bolo havia sido comido pelos convidados. Só. Meus sonhos minguaram e uma outra coisa cresceu em mim.

Por que o beijo de Elleanor havia me deixado tão mexida? Por que tinha sentido um comichão na ponta dos dedos, um frio na barriga? Por que ainda pensava em como suas mãos exploraram meu corpo, sua boca me beijou e seus suspiros no meu ouvido?

Eu não entendia e queria entender. Aos meus 16 anos, meu pai me viu beijar uma amiga no quarto. O pai que me apoiava nas ideias, me dando dicas sobre bolos, confeitos, a textura perfeita do pão, todas as risadas, elogios, carinhos, tudo aquilo tinha sido esquecido. Fora a única surra que havia tomado. Em toda a minha vida, nunca tinha dado motivos para que meus pais me castigassem. Ainda lembrava do olhar da minha mãe, enquanto meu pai gritava, me agredia, jogava farinha em mim, o rolo de massa, vidros e qualquer coisa que visse pela frente, me enxotando da única casa que conhecia. Passei 3 dias na esquina de casa, apenas com a roupa do corpo quando Izabella me encontrou e me levou para o MulberyCabaret. Estava traumatizada, com feridas abertas, a farinha que tinha sido jogada em mim havia se misturado com as lágrimas e eu tinha algum tipo de máscara branca grudada no rosto. As queimaduras das brasas que foram jogadas em mim, ainda tinha as cicatrizes. Resolvi guardá-las como um aprendizado, como os cortes de facas que eu levei quando era pequena. Um aprendizado, algo a ser mudado, aperfeiçoado, a prática me levaria a perfeição.

Descobri que o Mulberry precisava de uma cozinheira chef. Afinal, o sonho de me tornar chef de cozinha de um restaurante havia se realizado.

Minhas feridas tinham sido curadas, mas minhas cicatrizes existiam para me lembrar da ignorância do ser humano quando se trata de algo novo. Não conseguir agir de forma racional, simplesmente, preferir agir com a violência. Não desejava mal para minha família, queria que o negócio do meu pai prosperasse, mas não aconteceu tudo muito bem. Após minha saída da padaria, os bolos nunca foram os mesmos. Meu pai teve que aceitar Sofia, que era a única que sabia chegar a algum nível próximo ao meu. Meu pai era tão orgulhoso, que preferia aceitar os de fora do que pedir para que eu voltasse.

Era para a padaria da frente que eu me dirigia para comprar a maldita farinha que tinha acabado. Ariel ainda estava dormindo, Tefi estava com uma ressaca infeliz e só iria ficar “bem” depois das 10h. Só restava a mim essa tarefa.

Sentia as pernas tremendo, meu estômago tinha ido parar na China, a respiração formava nuvens por causa do frio, a neve formava uma camada fina e extremamente perigosa na calçada. Abri a porta da padaria.

Os fiéis clientes de meu pai me olharam, assim como Sofia tinha uma cara de espanto, vi duas senhoras cochicharem enquanto fingiam bebericar o café, vi os olhos de minha mãe se encherem de água. E claro. A carranca de meu pai a me encarar.

— O que gostaria? – disse Sofia, me atendendo o mais depressa possível. O clima estava pesado dentro da padaria, eu sentia os olhares dos clientes.

— 10kg de farinha de trigo. Se puder me ajudar a levá-los ao Mulbery...

— Puteiro. – ouvi alguém dizer atrás de mim. Vi que meu pai estava começando a atingir um tom de roxo.

— Claro! – vi um sorriso se formar no rosto de Sofia. Ela tentaria ver Posterli.

Ouvi alguns elogios do tipo puta, rameira, pervertida, endemoniada, possuída e outros belos adjetivos. Não esbocei reação, não sorria, encarava os bolos da vitrine. Eram bonitos, mas tanto Sofia quanto os meus pais sabiam que não chegavam nem perto do que eu fazia.

“Essa menina tem um dom.”, lembrava de minha avó me dizendo uma vez enquanto comia um bolo de nozes que eu havia feito e minha mãe trançava meu cabelo. Me pergunto se ela me aceitaria hoje ou tentaria me queimar com o braseiro toda vez que me visse.

— Aqui. – disse Sofia, voltando com um carinho com dois sacos grandes de farinha. Paguei para minha mãe, a mesma só me olhou, vi uma lágrima correr pela bochecha. Saí antes que meus sentimentos me traíssem.

Sofia deixou os sacos de farinha na cozinha e subiu rapidamente para ver Posterli. Ariel já estava acordada, cortava os legumes para o almoço, Bruna e Caroline estavam de robe ainda, as duas estavam em treinamento para subir aos palcos. Se Nayne continuasse tendo crises, alguém teria que substituí-la.

— É verdade que Nay se machucou feio? – Ariel disse, bocejando. Bocejei logo em seguida.

— Sim, vai ficar fora dos palcos pelo menos até o Ano Novo. – respondi, voltando a me concentrar no que estava fazendo. “2 ovos, 3 xícaras de farinha, 4 de açúcar...”, contava mentalmente.

— Ela bebeu alguma coisa que Dani deu para ela, não foi? – Ariel perguntou.

— Ela estava bêbada, mas acabou com 3 garrafas de vinho sozinha. Não foi obra de Dani, se não a mesma se sentiria culpada por tudo. Aliás, Dani tentou impedir Naye e quase se machucou feio também. – disse. A conversa estava me desconcentrando. “Eu já pus ovo? Acho que já.”

— Já percebeu que ela embebeda todo mundo e nunca fica bêbada? – Ariel insistia naquela assunto.

— Olha, as meninas bebem porque gostam, inclusive, você é uma pé de cana! Não sei se a Dani dá ovo... Pera. Não sei que tipo de ovo... Ah! Vamos parar com isso, estou ficando confusa! – estava começando a trocar as bolas, logo iria por cachaça no bolo. Se bem que não seria uma má ideia. “Bolo de cachaça com chocolate? Será que pega?”, pensei.

O dia foi seguido de uma zona na minha cozinha na hora do almoço, com direito a Rebbie tocando violão enquanto comíamos, algumas apostas que ocorriam diariamente, como mais uma vez, Luana apostando com Mandhy quem ganhava na queda de braço. Ouvi Duda dizer que Liane estava mais nervosa do que nunca nos ensaios, pois hoje era sua primeira apresentação com as garotas. Bruna subiu na mesa e começou a dançar para Tefi, não eram nem 15h e a garota já estava bêbada?

Estava tudo pronto para aquela noite e isso era estranho. Tirando o imprevisto com a farinha e a falta de Pinot Blanc, nada mais tinha dado errado. Os ingredientes para preparar o Ratatouille, Blanquette de Vitela, Sopa de Cebolas e Quiche Lorraine estavam prontos. Eu teria tempo para descansar, coisa que não fazia havia muito tempo, principalmente porque era semana de véspera do Natal. Alguma coisa estava para dar errado, só podia.

— Acorde para a vida, Fabi. – disse Haline. Nem percebi que tinha entrado na cozinha, trazia consigo uma taça de vinho que já estava pela metade. Até a noite terminar, Haline iria beber muito mais do que aquela taça.

— Como vai? – perguntei, cordialmente.

— Vou bem, obrigada por perguntar. Escute. Dani me disse que você estava com falta de Pinot Blanc d’Alsace, certo? – disse ela, lançando aquele olhar conquistador.

— Estou, vou ter que servir os quiches lorraine sem Pinot Blanc. A combinação é perfeita, Haline, tem que experimentar algum dia. – eu falei para ela com entusiasmo.

— Estava. Agora tem 100 garrafas. Lembre-se de me agradecer de algum jeito mais tarde. – e piscou para mim.

— MENTIRA! Haline, muito obrigada! Nem sei como te agradecer! – Haline era impossível. Sempre mexendo seus pausinhos, dando um jeito de nos ajudar. Mas queria muito saber como ela havia arrumado tão rápido 100 garrafas de um vinho caro como esse.

— Ah, eu sei como pode me agradecer. – deu um sorriso malicioso para mim e saiu da cozinha.

***

A clientela já estava chegando, na semana que antecedia o Natal, a clientela costumava ser alta, fazendo a casa ficar cheia. As dançarinas teriam trabalho duro, tanto porque Liane teria sua primeira apresentação em conjunto e teria um número solo e era isso que deixava Auri preocupada. Os camarins seriam responsabilidade dela naquela noite, qualquer deslize, ela seria a responsável. Era quase 19h quando fui para o Salão Principal para ver a apresentação de abertura. Me juntei a Dani no bar, ela usava uma camisa social branca, os botões de cima estavam abertos exibindo um decote, o cabelo solto em cachos, maquiagem leve, um batom marcando os lábios.

— Está bonita, Dani. – tive que elogiar.

— Obrigada... – o olhar que ela me lançou não era o costumeiro olhar amigável. Era sedutor. O modo como as sobrancelhas ficaram arqueadas, aquele brilho no olhar, o sorriso de canto. Ao perceber minha reação, ela mudou de expressão. Me deu o olhar amigável. — Está tudo bem, Fabi? – ela perguntou.

— Sinceramente... Tem coisas dando certo demais hoje.

As luzes do Salão foram ficando cada vez mais fracas, vi Tefi fazer sinal para que a cortina fosse levantada, o ambiente ficou em silêncio. Lentamente a banda começava a tocar. O momento que todas aguardavam estava para acontecer.

Notas finais
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