Noites de Montmartre
8 Capítulo 8: Auri
Notas iniciais
Faltava uma semana para o Natal e nessa semana que antecedia a data, a casa costumava ficar cheia. Muitas clientes iam viajar na véspera de Natal e algumas gostavam de aproveitar ao máximo sua liberdade enquanto podiam. Com a mudança frequente de clientela, havia uma escala das dançarinas que cuidavam dos bastidores a cada dia, o que não era tarefa fácil, pois consistia em conciliar suas apresentações e ainda por cima supervisionar as apresentações em geral, ajudá-las na troca de roupa, na maquiagem, sem contar quando alguma cliente insistia em ter nossa presença em determinados momentos.
Meu dia de supervisionar os camarins seria somente no dia 23 de dezembro, mas Nay era irresponsável demais. No dia anterior, Nay tinha entrado numa briga com Tefi, o que resultou em muitos insultos e uma gritaria sem fim. Para afogar as mágoas, Nayne se afundou na bebida. Enquanto Dani tentava controlar o quanto ela bebia, Nay respondeu jogando uma garrafa, que por sorte Dani conseguiu desviar. Causou um caos no salão, fazendo algumas rirem e outras gritarem assustadas com toda aquela cena estapafúrdia. Seu último ato de loucura foi se jogar do palco caindo em cima de garrafas de vidro, machucando os braços e pernas, cortes não tão profundos como havia dito Micki. Depois de recuperar a consciência, a dor das feridas veio e tudo aquilo só tinha acontecido porque Tefi a tinha proibido de sair por Montmartre.
— Está me dizendo que deu esse show de buceta todo só por que Stèphanie a proibiu de sair? – o tom de raiva em minha voz era evidente.
— Bem... não foi bem assim... – ela começou, vi a vermelhidão nas bochechas.
— VOCÊ PODERIA SER MENOS INFANTIL AS VEZES? – gritei, não conseguindo conter a raiva reprimida.
— Shhhhiu! Sem gritaria na minha enfermaria! – disse Micki.
— Desculpe. – disse em resposta a Micki. — Nay, sabe que poderia ter se machucado feio? Olha como você está! Toda estropiada, vai ficar assim por semanas e Deus ajude que não fique com cicatrizes... Logo na semana de Natal. – eu lamentava.
Nayne podia as vezes ter merda ao invés de cérebro, mas possuía um corpo invejável, uma das dançarinas mais lucrativas do Mulberry e agora estava mais enfaixada que uma múmia egípcia.
— Eu vou ficar bem, mãe. – disse ela tentando sorrir, mas o sorriso virou uma face de dor.
— Não sou sua mãe, mas se não fosse o fato de que você está toda ferrada, te daria uma bela surra! – disse, tentando sorrir.
No fundo, considerava aquela desmiolada como minha filha. Tinha visto aquela garota tímida se tornar uma conquistadora de primeira, deixar homens e mulheres enlouquecidos com apenas um olhar ou uma palavra. Tinha visto ela subir naqueles palcos e dançar como nenhuma outra mulher, mas por culpa daquela desmiolada, eu teria de cobrir seu dia nos bastidores.
A parte ruim não era o fato de ficar nos camarins e coordenar toda aquela desordem, já estava acostumada a botar ordem naquele lugar e ainda dar conta das minhas tarefas, mas o pior era que hoje seria a primeira apresentação de Liane e Deus sabia que eu precisaria de toda paciência que existia no mundo. Ela tinha evoluído bastante nos ensaios, mas a maldita timidez ainda estava lá, mesmo depois de uma longa conversa com a Thay, nada adiantava. Ela sentia vergonha de se trocar com as outras garotas, sentia vergonha de entrar no Salão Principal no meio do expediente, sentia vergonha de falar com Dani, sentia vergonha da própria sombra. Ela tinha uma beleza admirável. Longos cabelos negros, olhos castanhos, branca como leite, boca vermelha... seria perfeita se não fosse tímida.
Naquela noite a casa estaria cheia e por esta razão, eu só teria descanso depois que a última cliente saísse por aquela porta. Hoje tudo tinha que correr bem, mas eu sabia que de certa forma, alguma coisa iria dar errado.
O primeiro número incluía uma apresentação onde 7 garotas dançavam juntas, a mesma coreografia, a maioria das dançarinas saberia executá-la de olhos vendados. Menos Liane que era tímida demais.
— Você se apoia na dançarina que estiver no seu lado. – disse Rebbie, tentando ensinar alguns truques para Liane. — Não se apoiar de verdade, mas sim nos passos dela. Você vai ficar a esquerda de Nayne, olhe como ela se move, Nay tem presença de palco, não se apoia em ninguém, por isso ela é nosso meio.
A primeira apresentação era uma formação em V como as aves migrando para o sul, uma formação que alternava de acordo com o decorrer da música. Bem... Nayne ERA nosso meio, mas depois daquele show de infantilidade, o meio ficaria com Posterli, que era a segunda a assumir o posto caso algo de ruim acontecesse.
O primeiro erro estava ai. Com Post no meio, teríamos de achar mais uma dançarina para substituir o buraco da asa leste. Eu odiava com todas as minhas forças realizar aquele maldito número, Liane era a chave para que eu saísse daquele inferno, mas Nay teve a infelicidade de ter um ataque e eu continuaria naquele número chato por mais alguns dias.
Me troquei no quarto antes de descer para os camarins. Meu vestido preto com tons em lilás, o boá preto, a cartola na cabeça para o primeiro número, o cabelo preso em coque, as pérolas cintilando no pescoço e a maquiagem pesada. Antes de me dirigir ao camarim, passei pelo Salão para dar uma conferida na clientela e eu estava certa: a casa estava cheia.
A notícia que essa seria a grande noite de estreia da novata tinha se espalhado como fogo em palha, carne nova era sempre bem vinda.
O camarim estava uma zona, num canto eu via Rebbie e Duda ensaiando os passos novamente com Posterli, Arianna estava tentando fazer com que os seios não pulassem para fora do corselet, Thay estava terminando de maquiar Liane quando fui conferir o resultado.
— E como estamos aqui? – perguntei para Thay.
— Estou terminando de maquiar ela, Auri. – ela respondeu.
— Ei... Levante mais esses peitos. – disse para Liane que me olhou, corando as bochechas.
— Acho que ela nem precisa de blush nessas bochechas, sabe. – disse Thay, rindo, fazendo a garota corar mais. — Viu só?
— Já levantou esses peitos? – disse de novo para Liane. Ajudei-a a apertar mais o corselet, fazendo seus seios ficarem tão cheios que dava vontade de arrancá-los com os dentes de tão belos que eram.
— Auri, pegue uma gilete para mim? Preciso desfiar as postas do cabelo de Rebbie. – Thay disse.
— Essa branquela poderia ter feito isso hoje de tarde! – disse abrindo a gaveta.
— Eu ouvi isso! – disse Rebbie.
— Era para ouvir mesmo... – enfiei a mão na gaveta procurando a gilete, então senti um pontada no dedo e algo frio escorrer por minhas mãos. Havia cortado o dedo em alguma coisa e o sangue jorrava pela minha mão, pingando no chão. — É brincadeira! – enfiei a mão novamente na gaveta, decidida a achar a gilete e descobrir o que havia me cortado! — EU MANDO AQUI! – gritei para a gaveta.
— Auri, ficou louca?! – disse Arianna me encarando com os olhos arregalados.
— Foi um momento de distração... – respondi, indo para um canto do camarim para limpar o corte. — Thay, achei a gilete.
“Ótimo, está tudo dando errado mesmo, o que pode acontecer de pior?”.
Por que eu tinha aberto a boca?
Entrando no camarim, vinha Stèphanie com Luana e Tassi no encalço. Vi Tassi olhar Thay abaixar para pegar um pincel que tinha caído.
— O que quer, Tefi? – perguntei, lavando a mão na bacia que estava sobre a mesa.
— O que houve com a sua mão? – perguntou ela, observando a água da bacia ficar vermelha.
— Mostrei para uma gaveta quem manda aqui. – respondi, mostrando impaciência.
— Louca. – ela disse, rindo. — Tem uma novata no bar com a Dani, vá recepcioná-la.
— Estou ocupada no momento. Dani sabe o protocolo, ela que faça. – terminei de lavar o ferimento e o cobri com um esparadrapo, depois teria de ver com Micki se o corte não era grave.
Eram quase 19h quando nos dirigimos para trás do palco para os últimos preparativos antes do show. Depois do primeiro número, uma pausa de 15 minutos antes de Posterli retornar ao palco e dar continuidade as apresentações.
— Muito bem... O que fazer se caírem? – perguntei para as meninas.
— Cruza a perna, levanta o queixo, estufa o peito! – elas repetiram em coro.
— Ótimo! Eu quero ver vocês dando o máximo...
— Auri, fazemos essa porra faz 5 anos, relaxa que se a Liane cair, nos jogamos no chão para não deixá-la no vácuo. – disse Arianna.
— Ok... vamos lá. – respondi. Vi Liane levantar a mão. — O que é agora?
— E-eu... não consigo. – ela gaguejou.
— Puta que pariu, hein. – ouvi Rebbie resmungar.
Só havia um jeito de fazer aquela garota se soltar.
— Vá chamar Dani. Diga que traga qualquer coisa que funcione rápido. – disse para Thay que imediatamente saiu correndo em cima do salto para buscar nossa única salvação. Dani deu algum de seus drinks misteriosos, disse para Liane tomar de uma golada só, foi o que a garota fez.
Entramos no palco. A cortina ainda estava abaixada, mas eu podia ouvir as vozes dos espectadores do outro lado. Nos colocamos em nossos lugares: Rebbie e Duda nas pontas, seguidas de Arianna e eu, Liane e Thay logo depois e Post no meio. A formação estava completa. As luzes no Salão foram ficando cada vez mais fracas, a banda começava a tocar enquanto a cortina subia lentamente. Era hora do show.
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