Noites de Montmartre
1 Capítulo 1: Liane
Notas iniciais
Gostaria de deixar anexada aqui pra fácil entendimento da fic.
Ela foi baseada em um grupo que participo, todas consentiram que eu poderia postar a fic. Gostaria de pedir que deixassem seus comentários na fic, eles sempre são bons para que o conteúdo melhore.
Cado não entendam alguma coisa, comentem também, prometo responder sempre que possível.
Aproveite a leitura.
Montmart, França, 1876
As noites costumavam ser frias demais em Montmart, a neve caía numa valsa sincronizada, cada floco preenchendo a rua. Executivos usavam seus sobretudos, acompanhavam prostitutas até os famosos cabarés. O Moulin Rouge era o mais famoso deles. As garotas eram as mais belas, todas eram muito bem vestidas, sempre bem acompanhadas, usavam joias e vestidos caros, presentes de seus clientes, com certeza. O Lido ficava logo atrás do Moulin Rouge, mesmo não tendo o mesmo glamour. As garotas eram igualmente bonitas, vinham de todas as partes do mundo: loiras, morenas, ruivas, nipônicas, brasileiras, americanas, mas as francesas eram sempre as favoritas dos clientes.
Montmart era conhecido pelos seus cabarés, todos sempre cheio de executivos, homens casados, solteiros, bêbados, procurando garotas para aquecer suas camas naquela noite.
Eu procurei abrigo em todos eles, e todos me deram um grande e sonoro NÃO.
Todos... menos um.
O frio estava no seu ápice, deveria ser impossível esfriar mais. Eu sentia minhas pernas arderem, as ponta dos dedos estavam roxas, meus dentes batiam em protesto e o ar entrava rasgando meus pulmões. Se eu não encontrasse um lugar para passar a noite, iria morrer ali mesmo, na calçada. Eu já tinha perdido tudo.
Minha mãe havia me rejeitado, meu padrasto abusado de mim, estava apenas com a roupa do corpo e um dinheiro que eu havia guardado as pressas antes de sair definitivamente de casa... resolvi sentar na calçada coberta de neve e esperar pelo fim que já estava escrito.
— Mon Dieu! O que faz aqui fora numa tempestade dessas?! – era uma acompanhante, alta, esguia, cabelos curtos e negros, a boca vermelha como sangue. Usava um vestido de dançarina de cancan e por cima um pesado casaco de pele. – Duda, me ajude a levá-la para dentro! – disse a moça para outra.
— Pela porta da frente não, animal! – disse a outra moça.
— Por que não!? – disse a dançarina.
— Rebbie, o que você tem de peito, bunda e corpo, lhe falta em cérebro! Se levar ela pela porta da frente, vai espantar a clientela. Vamos pelos fundos, Fabi pode dar algo para ela comer.
A garota alta despiu o casaco de pele que usava e jogou sobre meus ombros. Era mais alta do que eu havia pensando quando me ergue junto com a outra garota. Ambas me carregaram para um beco. Estava tão exausta que não resisti. Já não sentia as pernas devido o frio, meus dedos dormentes e a respiração fraca... desmaiei.
— O QUE SIGNIFICA ISSO!? – ouvia os gritos muito ao longe. Ainda estava meio imersa num sono, mas estava bem mais quente.
— Não podíamos deixar a garota lá fora! – reconheci a voz de uma das garotas que me tiraram da rua.
— Tassi, sossegue que a garota não é nenhuma ladra. – uma voz desconhecida.
— Ela passou por mim sem eu ver!
— Na verdade, você não estava cuidando da porta dos fundos. Devia estar agarrada com alguma dançarina. – a outra garota da rua, mas não saberia dizer quem era quem.
— Silencieux! Vão acordar a garota! – gritava outra.
— Que putaria é essa? Dá pra ouvir do salão principal! Haline já perguntou o que está acontecendo... Misericórdia! Quem é essa?
Abri os olhos lentamente e vi a multidão que me esperava. Todas bem vestidas, com feições perfeitas, mas não eram nada parecidas com as garotas do Lido ou Moullin Rouge. As dançarinas dos outros cabarés eram todas magras, esguias, traços finos.
Essas eram uma profusão de variedade. Loiras, morenas, altas, magras, gordinhas, mas todas lindas do seu modo. Todas muito bem vestidas, aliás.
— Mon chèrie, está se sentindo melhor? – era a dançarina alta que tinha me tirado da calçada. Eu ainda usava seu casaco de pele. Acenei com a cabeça em concordância.
— Está com fome? – perguntou uma loira dos olhos claros. Acenei concordando novamente.
— Duda, vá buscar algo mais quente pra ela. – ordenou uma mulher morena, baixa, cabelos enrolados, olhos bondosos. Usava um vestido rico em detalhes, era drapeado nas mangas, decote e na barra com uma rica renda. Cai-lhe tão bem quanto respirar.
Reconheci a garota que foi ordenada, havia me ajudado na rua.
— És muda? – perguntou a mesma.
— N-não. – minha voz presa na garganta, sentia sede e um pouco de frio.
— Tens nome? – perguntou a mulher.
— Liane.
— Hmm... Me chamo Izabella, mas pode me chamar de Tia. Rebbie e Duda... vocês sabem o que fazer. Tenho de voltar antes que sintam minha falta. – disse a mulher voltando ao tal salão principal.
As duas garotas eram altas, mas a branca era maior, tinha mais corpo e usava um vestido bem mais ousado. A morena tinha raspado os cabelos, mas não deixara de ter sua sensualidade. Seu corpo era mais magro, mais esguio, usava um vestido de dançarina muito curto. Ambas deram um sorriso malicioso. Nunca senti tanto medo quanto naquele momento. Tinha saído do frio aterrador direto para a boca dos leões... ou nesse caso, das leoas?
— Consegue andar? – perguntou a morena.
— Sim... mas onde estou? – perguntei confusa e com medo.
— Ótimo! Ariel, vá buscar Auri. Deus sabe que precisamos ter certeza que ela aprenda direito! – disse Rebbie.
— Novata, este não é um cabaré qualquer como os que você vê ali na esquina. Não! Este é um cabaré de respeito, acima de tudo! Somos uma família!
Ariel tinha voltado trazendo a mulher mais bem dotada de seios que eu já tinha visto. Eram ENORMES! Senti uma vergonha súbita dos meus pequenos seios. Logo atrás vinha outra mulher, vestida num terno negro, camisa vermelha e chapéu fedora preto.
— Mandhy, me ajuda lá na frente, a garota da padaria veio de novo pedindo Posterli. – disse ela com certa impaciência.
— Está bêbada de novo? – disse Mandhy, devia ter quase 1,90m de altura, uma voz grave, usava o mesmo terno que a outra.
— Je ne sais pas, mas está ameaçando escalar a parede se não a deixarmos entrar. Quando Posterli for para o quarto, reforce a segurança naquele lá. Se algo acontecer com ela, Giovanna fecha as portas desse cabaré em segundos. – dizendo isso, saiu com Mandhy em seu encalço.
— Ok... continuando! Auri, leve esta novata para tomar um banho, depois empurre algo nessa barriga! Amanhã começamos. Agora deixe-me voltar para o salão que Haline me espera. – Rebbie disse com entusiasmo.
A mulher me levou por outra porta e esta levava a um corredor estreito e poeirento. Uma escada de madeira negra levava aos andares superiores. Dali eu conseguia ouvir a música alta, risadas e sentia um cheiro doce do cigarro. A casa estava cheia.
— Não precisa ter medo de nós. – disse a mulher virando para me olhar, mas sem interromper a caminhada.
— O que aquelas duas vão fazer comigo? – perguntei assustada.
— Rebbie e Duda podem parecer assustadoras quando querem, mas são uns amores. As duas são rígidas no trabalho, mas fora dele nem parecem a mesma pessoa. – dizia ela. Abriu a porta de um quarto que era 3x maior que o que eu tinha na casa de minha mãe. Cama com dossel, penteadeira com vários tipos de maquiagem e acessórios, o closet estava aberto e exibia uma fileira enorme de vestidos, botas, sapatos. — Este será seu quarto. É simples, mas você não deve ocupar muito espaço... Feche a boca, meu bem. Podem entrar moscas. – nem percebi que minha boca formava um O perfeito.
— Quarto simples? – perguntei.
— Devia ver o de Posterli. Nossa dançarina mais lucrativa. O dela é o triplo deste. Vou pedir para trazerem seu banho pra cá, depois desça coma algo e volte para dormir. Amanhã, Duda e Rebbie irão começar seu treinamento. – dizendo isso, saiu.
Uma banheira de bronze polido fora trazida para meu quarto, a água fora esquentada até ficar num morno agradável. Duas mulheres me ajudaram a tomar banho, esfregando minhas costas, pernas, pescoço, escovando meu cabelo enquanto colocavam tipos diferentes de perfumes, desmanchando os nós. Depois, me cobriram com um robe de seda fina, sentaram-me numa cadeira e começaram a secar meu cabelo. Escovaram-no até que caísse em ondas pelos meus ombros, brilhantes cabelos negros como a noite. Saíram levando a banheira, deixando-me só no quarto. Procurei no closet algo confortável para dormir e achei umas camisolas de seda, vesti uma azul bebê, coloquei o robe por cima e desci para a cozinha.
— Acha que ela se acostuma? – ouvi a voz de Ariel.
— Não. Provavelmente vai vir parar na cozinha como você.
— Só estou aqui porque dançar não é meu forte. Mas daria tudo pra subir naquele palco glamourosa como as outras dançarinas. – queixava-se a garota.
— A garota está muito assustada, provavelmente aprenda o que Duda e Rebbie vão ensinar, mas vai pedir pra lavar os banheiros se puder fugir do palco ou dos programas. – dizia a loira. Estava no corredor, podia vê-las, mas elas não me viam.
— Ou não, Fabi. Lembra-se de Nayne? Veio da Itália, maltrapilha, fugindo dos pais autoritários, também, que mistura miserável! Russos e italianos? Tinha como dar mais errado? Enfim... a garota parecia essa Liane quando veio, se não estava pior e mais assustada. Hoje tem mais programas do que tempo!
— Veremos... Quer apostar?
— Bien sûr! Valendo? – perguntou Ariel com entusiasmo.
— Sua sobremesa por 3 meses. O espírito de gorda não pode morrer! – ria Fabi.
— Chien! Fechado! – gargalhava Ariel.
Entrei lentamente, estava descalça, por isso não me ouviram. A loira foi a primeira a parar de rir. Me olhou de cima a baixo, vi seus olhos esbugalharem, a boca escancarar, Ariel virou-se para ver o que Fabi tinha visto e teve a mesma reação.
— Mon Dieu! Que linda! – disse Ariel, espantada.
— Nem parece a garota que entrou na minha cozinha hoje mais cedo. – disse
Fabi, ainda espantada. — Agora fale, o que quer comer?
— O que tem de gostoso? – perguntei timidamente.
— O que tem de gostoso? O QUE TEM DE GOSTOSO?! Ah, meu amor, tudo nessa cozinha que tenha sido feito por mim é maravilhoso! – disse Fabi em tom afetado. – Como assim “o que tem de gostoso”? Absolutamente tudo! Desde as saladas ao escargot, os bolos, tortas, massas, TUDO! – ela dizia, quase cantando. — Diga-me o que quer comer e eu farei.
— Toda vez que te peço pra fazer algo diferente, você diz que aqui não é a casa da mãe Joana. – reclamou Ariel.
— E realmente não é, mas a garota é nova e extremamente linda. – falavam como se eu não estivesse presente, me deixando cada vez mais tímida. – Por isso, meu bem, diga o que quer comer?
— Hmm... Macarrão? – perguntei, fitando o chão.
— Ariel, prepare a massa, a garota quer espaguete! – Fabi só faltava cantar enquanto mexia com as facas, cortando tomates, cebolas, pimentão.
As vezes entravam garçonetes usando vestidos cheios de rendas e babados, meias pretas, vermelhas, lábios marcados pelo batom vermelho, olhos com sobra preta. Quando a porta que dava para o salão abria, ouvia risadas, gritos, música, o cheiro do cigarro, mas minha fome era tão grande que quando o molho do espaguete pegou fervura e começava a exalar aquele cheiro bom de especiarias, meu estômago começou a fazer barulhos nada agradáveis.
— Desculpe. – disse para Fabi que tinha ouvido o barulho.
— Pedindo desculpas por estar com fome? Diga-me, quanto tempo que não come?
— 3 dias. – respondi.
— Por que fugiu de casa? – perguntou Ariel.
— Não fugi porque quis, fugi porque não tive escolha. – disse.
— Conta pra gente o que houve? – Rebbie tinha voltado para a cozinha. Já não trajava o vestido curto, as meias, boas, a maquiagem tinha sido retirada.
— Bem... Eu era muito apegada ao meu pai, desde pequena, ele sempre foi meu melhor amigo, minha mãe amava ele. Tudo mudou quando ele morreu. Minha mãe começou a beber demais, perdeu o emprego... – lembrar de tudo aquilo doía demais, senti as lágrimas correrem pelo meu rosto.
— Continue. – insistiu Rebbie.
— Então em uma noite de bebedeira, ela conheceu o Maxwell, um agiota. Eles começaram um relacionamento, minha mãe ficou perdidamente apaixonada por ele, começou a me negligenciar, parou de cuidar da casa, se afastou dos amigos, da família. Maxwell era tudo pra ela. – a dor crescia em meu peito ao lembrar. – Foi há mais ou menos 1 ano que começou.
— Começou o que, gente? – perguntou Ariel, mostrando impaciência.
— Deixe de ser insensível, mulher! – disse Fabi.
— Ele começou me dando presentes. Vestidos, sapatos, mas dava muitos mais pra minha mãe, pra que ela não ficasse com ciúme. Foi então que ele quis algo em troca, se eu negasse, iria dizer o contrário pra minha mãe. De toda forma, fui estuprada. Contei pra minha mãe, ela disse que eu era mentirosa, me ameaçou de morte... Fugi antes que ela realmente tentasse me matar ou que aquele monstro tentasse me tocar de novo. E cá estou.
Todas me olharam aterrorizadas. Rebbie tinha os olhos cheios d’água, Ariel não sabia o que dizer, Fabi olhava para a panela e as facas tentando lembrar o que estava fazendo.
— O macarrão, meu bem. Coma antes que esfrie. – disse Fabi empurrando um grande prato de macarronada. Ariel tinha trazido vinho, serviu a todas.
— Um brinde: Ao Cabaré! – disse Rebbie.
— Ao Cabaré! – as outras duas disseram em coro.
— Ao Cabaré! – completei timidamente.
O resto da noite foi tranquila. Rebbie contava suas experiências como dançarina, cada uma mais escabrosa que a outra. Contou que uma vez tinha sido paga para ler contos de fadas a filha de uma cliente, enquanto a mesma transava com o marido no quarto ao lado. Fabi tinha feito torta de chocolate para a sobremesa, ditava sem parar que sua comida era a melhor de Montmart, que os clientes do Lido vinham provar seus quitutes.
Apesar de não conhecer nenhuma delas muito bem, depois de muito tempo sem saber o significado, me sentia em casa. Elas me fizeram esquecer de que tinha contado o porquê de ter fugido de casa, me encheram de alegria, risos, me deram um teto para dormir, comida, a calma de estar com amigos.
Sabia que havia um preço a ser pago, mas era ali que eu queria estar.
Depois de horas papeando, o vinho estava começando a me deixa tonta, resolvi ir deitar. Tive certa dificuldade em achar meu quarto, mas quando deitei naquela cama de dossel, olhei a vista da minha janela e vi a Torre Eiffel, sorri. Não demorou muito e o sono me brindou. Naquela noite, eu dormi maravilhosamente bem.
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