Noite dos Lobos

2 2/5: Sussurros no silêncio


Com o silêncio que tomou a casa, a garota se acalmou e se direcionou ao segundo passo de seu ritual antes de ir dormir. Por fim, durante o estrondoso som da descarga, seus olhos se direcionaram à maçaneta da porta do banheiro, que se mexia lentamente sem querer ser notada. Nesse momento, suas barreiras céticas se desfizeram. Ela acreditou em espíritos, monstros e serial killer. Acreditou em tudo dos filmes de terror e também acreditou que a casa havia sido invadida.

Estava nervosa demais para verificar se havia trancado a fechadura. E descobriu que não, quando a porta começou a se abrir lentamente e seu coração arrumava caminho em disparada para sair-lhe pela garganta. Quando a porta já tinha um vão para o ambiente escuro do corredor, o frio do medo arrepiou sua nuca e todo seu corpo. Ela não sabia como ia lutar naquele lugar confinado e sem armas, e ainda a escuridão lhe impedia de ver quem ou o que era.

Sobrepondo-se ao som da chuva, um rosnado grosso soou. A respiração pesada farejava a garota. A mandíbula, que salivava, fez barulho ao se fechar e abrir novamente. A peça fluorescente com as escovas sobre a pia ajudou-a a enxergar um brilho em um nariz negro que se confundia na escuridão. Dedos com nós grossos seguraram a porta e a abriram lentamente. Atrás da barreira, o monstro se satisfazia com o medo e a tensão da garota encurralada no banheiro.

A moça moveu-se com passos hesitantes para trás, entrando na banheira baixa do fundo do cômodo. O corpo tremia e estava frio. Seu pavor era tanto que não conseguiu pensar em gritar ou reagir. A porta se abriu até a metade. A escuridão do corredor e os dedos eram tudo que ela conseguia ver, até que notou o brilho fraco, vermelho florescente, que apenas olhos de cães tinham.

Ele se preparava para atacá-la. Os pelos do corpo já se eriçavam, os rosnados eram involuntários e a saliva escorria entre os dentes afiados. Apesar do desejo intenso de feri-la, ele não queria deixar de aproveitar toda aquela emoção de sentir o medo no ar, pressentir os batimentos cardíacos, jorrando sangue velozmente para todo o corpo da moça pálida, e ver os tremores nos músculos do corpo atlético dela. Ele ainda desejava que chegasse o momento em que ela gritasse de pavor e chamasse por ajuda. Aí, então, teria sua própria adrenalina correndo em seu enorme corpo por estar correndo o risco de ser pego e ter que lutar contra os humanos para fugir.

Quando a gigante cabeça canina se exibiu no vão da porta, encarando a garota fixamente com seus olhos esbugalhados, ela reagiu pegando o frasco de shampoo, ficando pronta para jorrar o conteúdo na boca ou nos olhos do animal.

Os segundos se estenderam, tornando-se minutos infinitos. Enquanto vigiava os movimentos dela, a criatura avançava lentamente com um silêncio impressionante. Os pelos negros, sujos e grossos lhe cobriam toda a face. Apenas as pontas dos enormes caninos brancos se mostravam na boca que pingava saliva. A garota certamente morreria de ataque cardíaco se ele fosse mais devagar naquele pesadelo; ou, talvez, isso estivesse prestes a acontecer, pois ela sentia o coração no ponto de explodir e então sua vida acabaria melhor do que com a provável morte mastigada que teria.

O monstro parou dentro do cômodo e se endireitou, revelando seus dois metros de um corpo musculoso, peludo e de animal. Um grande cão negro humanoide, apoiado nas patas traseiras, que carregava o cheiro de terra, umidade e até mesmo podridão. Levantando as patas dianteiras, ele não economizou tempo em revelar as garras afiadas, cinzentas e brilhantes, com as quais dilaceraria sua vítima.

Um trovão ecoou no jardim e, em um ato impensado, a moça apertou o frasco para espantar a criatura, liberando um grito apavorada. O jorro de shampoo o atingiu no pescoço, confundindo-o por um momento pelo cheiro doce e intenso. Então ele a encarou mais irritado. Outros dentes apareceram quando ele deu um rosnado, avisando que chegou a hora e que ela não teria misericórdia.

Contudo, os dois ouviram o estilhaçar de vidro em algum quarto do corredor. Porém, isso não impediu que o lupino se voltasse para sua vítima e desse o primeiro golpe para tirar-lhe o sangue o quanto antes. A moça abaixou-se dentro da banheira, escapando das unhas e gritando de pavor mais uma vez, fechando os olhos e rezando por uma ajuda divina.

De repente, a criatura ganiu. Seu couro das costas havia sido agarrado e sua cauda volumosa foi estirada sem aviso, também pega de surpresa no corredor escuro da casa. Ele não sabia o que era que o segurava, mas se irou. Derrubando os itens da pia, tentou manter-se no cômodo, enquanto era arrastado para a escuridão à força e jogado contra uma parede.

A jovem moça se encolhia na banheira, de olhos bem fechados e protegendo a cabeça com as mãos. Mal sabia o que aconteceu. Segundos depois, quando a porta se fechou brutalmente, ela olhou para o banheiro vazio, enxergou o piso e o ladrilho sobre a banheira partidos pelas garras do bicho e o pote de escovas que jazia florescente no chão.

Do outro lado da porta, a confusão desconhecida prosseguia. Por um momento, ela se acalmou, achando que estava salva, mas então lhe ocorreu o pensamento de que ninguém poderia a tê-la ouvido chamar por ajuda, pois não chamou (apenas gritou) e ninguém escutaria um som daquele lugar fechado. Ela concluiu que, provavelmente, estava era sendo disputada.

A luta no corredor era definida pelas batidas contra as paredes, grunhidos de ira e dor, rosnados e, então, mais batidas violentas. O monstro e seu oponente estavam no mesmo nível de força. Era difícil vencê-lo naquele espaço estreito e escuro da casa dos humanos. O outro era pequeno, forte e ágil. A criatura rugiu irritada, segurou seu inimigo e o jogou contra a porta do banheiro, onde este outro intrometido tinha prendido novamente sua presa. Depois, o lupino lançou suas garras contra seu pescoço, mas o desconhecido escorregou de seus dedos no último segundo. O pequeno suava e ofegava, mas estava determinado a mantê-lo longe da moça humana.

O inimigo intrometido agarrou a cintura do monstro, quando ele ainda liberava as garras da porta, deixando rasgos e furos, e o empurrou para as escadas. Logo, jogando-o de lá do alto. O monstro tentou fincar as garras na parede enquanto dava cambalhotas doloridas e barulhentas para o andar de baixo, mas não conseguiu resultados, além de alguns dedos deslocados e uma queda desajeitada. Quando parou, sua visão borrou, mas, mesmo atordoado, pôs-se de pé sem querer desistir.

A moça percebeu que ainda estava em perigo quando as pontas das garras atravessaram a porta, com um impacto que fez a divisa tremer, e depois elas abriram rasgos na madeira. Ela ficou imediatamente de pé na banheira, tendo mais controle de si com a falsa sensação de proteção por estar dentro do cômodo fechado. Ouvindo a queda de algo grande pela escada, sem esperar mais nada, ela procurou pela janela do cômodo, esquecendo-se de que estava no segundo andar.

Bruscamente, a porta foi aberta.

Na escuridão e imóvel, ela ouviu passos e o som do pote de escovas atingir a parede depois de ser chutado. Assustada demais, se dedicou a enfiar-se pelo vão da janela sobre a banheira, prendendo-se à sua única saída para sobreviver. Logo dedos mornos agarram suas pernas à mostra pelo short de algodão do pijama e a puxam fortemente para baixo.

A garota se agarrou à janela, sem querer ver quem era e temendo enxergar um novo monstro em que não acreditava até algumas horas atrás. Os dois caíram dentro da banheira quando ela não conseguiu mais segurar. Então, sobre ela e em sua nuca, a voz de um rapaz a xingou rapidamente, enquanto pingos escuros caíam diante dela e o cheiro férreo de sangue se definia.

— Temos que sair daqui, sua idiota! — ele avisou num murmúrio e depois a segurou pela cintura, a colocando de pé junto com ele, quase como se ela fosse uma boneca de pano. E, de fato, naquele momento estranho de um garoto desconhecido a ajudando, era como se sentia depois de estar diante da morte.