Noite de Caça
3 Segunda Parte - O Lobo
Notas iniciais
Naquela noite de lua cheia, a cidadela não dera nada ao Lobo. Eles queriam esperar para ver se aquela ação de desafio acarretaria algo. Eles tinham quase certeza que não.
A jovem que agora descia a rua sozinha sabia que, definitivamente, algo iria acontecer.
Red continuava abalada, sem saber ao certo o que pensar. Tentara avisar Ella, mas ela praticamente a expulsara de lá. Já havia algum tempo que Ella estava estranha com Red. Parecia mesmo que algo estava a ponto de mudar, e a situação que acabara de acontecer sugeria que era exatamente isso: os moradores já não sentiam medo do Lobo.
Como Ella era impulsiva, mas planejava suas ações, Red já suspeitava que algo aconteceria no decorrer dos próximos dias. Nunca descobriria o que era.
A garota sentia-se dividida em proteger a cidade tentando alertá-los ou defender quem a treinara para ser Lobo. Decisão difícil de ser tomada. Os dois lados pesavam: a vila toda iria se perguntar como ela soubera que algo aconteceria — e então ela seria acusada de bruxaria por qualquer motivo estúpido -, e depois Ella saberia que Red contara a todos sobre seus planos. Ambos os lados dessa opção poderiam matá-la. A outra era ficar calada junto à Ella. Se ela fizesse o que pretendia – seja lá o que fosse – e a cidade acabasse talvez até disseminada, Red ainda teria Ella.
Estranhamente, o Lobo era a maldição da cidade, mas a benção de Red. Ela poderia estar vivendo sua vida normalmente como humana, isso era óbvio, mas ainda assim ter ido de encontro ao Lobo quando tinha sete anos havia sido culpa de Red. Ella era uma irmã de um jeito que Joan talvez nunca fosse. Red ainda amava sua família, mas Ella a entendia de verdade.
Resumidamente, sua vida era uma confusão.
A jovem chegou até a sua casa, um cubículo deteriorado como todas as outras, feita de madeira e elevada por ripas que davam apenas a sensação de segurança caso o Lobo atacasse. Subiu as escadas com cuidado, olhando ao redor.
No final da rua que cruzava com a principal, Red viu uma silhueta. A neve por trás estava alaranjada, devido ao fogo disposto na rua para iluminar os caminhos dos cidadãos. Assim, como a pessoa estava um passo para dentro da sombra, era só um contorno negro, recortado junto com as casas da beira. Demorou um segundo para perceber quem era.
A figura conhecida era fácil de ser notada entre os outros. Obviamente, ter um corpo tão escultural não era comum nas jovens da cidade pobre. Ela mantinha os braços junto ao corpo, colados para que seu volume não chamasse tanta atenção. Tática ótima para se usar em uma cidade onde querem te matar.
Ela ficou um segundo mais e então correu para dentro da rua em uma velocidade não-humana. Antes de passar na frente de Red, porém, ela pulou e pendurou-se no balaústre da casa ao lado. Brilhou seus olhos por um segundo, e então sumiu acima dos telhados.
Red tinha certeza de que ela trazia algo em sua mente. Aquele lampejo dos olhos também disse: junte-se a mim ou então sofrerá com eles.
***
Já haviam se passado quatro dias da lua cheia, e os moradores pareciam esperançosos com a ausência do monstro em suas vidas. Red ouviu que eles queriam fazer uma festa para comemorar o sucesso da tentativa deles. Até mesmo o padre se sentia feliz com a rapidez com que o plano dera certo. Talvez fosse mesmo verdade; talvez o Lobo nem sequer existisse.
– Por favor, Ella, não faça nenhuma besteira. – Red sussurrou para si mesma enquanto descia até seu trabalho. Era realmente chato ter que ficar atrás daquele balcão quando ninguém queria comprar nada naquele inverno.
Dulcy, a dona da loja, era uma mulher simpática e baixinha, que administrava muito bem o seu negócio. Dera até um emprego para a pessoa mais deslocada da cidade. Red só tinha que ficar sentada em uma cadeira baixa, pegando algumas moedas de prata e entregando roupas de malha para algumas velhas que vinham comprar xales.
Nada de emocionante naquele trabalho. Talvez até ajudasse Red a esquecer o que Ella estava fazendo. As duas não se viam desde a manhã de domingo. Já estavam no final da semana, e elas nem sequer haviam combinado o próximo dia de treinamento.
Provavelmente nem haveria mais treinamentos. Algo estava mudando. Algo estava ficando diferente e...
– Red, querida? – Dulcy atrapalhou sua linha de pensamento. Deveria prestar mais atenção ao seu redor, Red frisou-se. – Posso deixar a loja com você alguns minutos? Tenho que encomendar algo na ferraria.
– Deixe comigo. – Red esboçou o menor sorriso.
Depois que Dulcy se foi, Red bufou:
– Como se alguém fosse vir aqui comprar algo.
Nem se passaram trinta segundos, um movimento chamou sua atenção. Alguém estava entrando na loja.
Red apertou os lábios, querendo fugir mais uma vez. Daniel andava diretamente para o balcão, quase como se estivesse esperando uma deixa em que a garota permanecesse sozinha.
E lá estava ela.
A jovem ficou entre ameaçá-lo ou esperar que falasse. Não deu tempo de decidir.
– Por favor, não quero que fuja desta vez. – ele sentou-se devagar sobre um dos banquinhos do outro lado do balcão estreito. Apesar do banco em que ele estava sentado ser menor do que o dela, continuava mais alto que Red. Também dava para ver que ele era bem mais forte que ela. Jeito de quem carregava pacotes pesados o dia todo. Ombros largos. Braços rígidos. Corpo esguio. E, finalmente, olhos elétricos e brilhantes; olhos que a perscrutavam.
Red não queria ouvir o que ele planejava dizer.
– Parece que você está me seguindo agora, Daniel. Estava esperando lá fora até eu estar sozinha?
Ele pareceu surpreso. Mas, de certo modo, aquele jovem parecia ter um irritante talento para voltar as acusações para Red.
– Como sabe meu nome?
Ela ficou sem fala por um momento. Seu rosto passou de certeza para medo.
– E-eu... Me falaram de você.
Daniel ergueu as sobrancelhas. Mais uma vez não parecia desdenhar, mas sua expressão não era exatamente amistosa. Ele era perfeitamente equilibrado; mostrava precisamente o que queria mostrar, sem causar julgamentos exagerados. Diferentemente de Red, que tentava não mostrar absolutamente nada. Ella dizia que, se não sentisse, ninguém poderia atingi-la.
– E o que mais lhe falaram de mim? – ele inclinou-se sobre o tampo lustro, apoiando-se sobre as roupas à mostra da loja. Parecia à vontade.
Red também se inclinou, perto o suficiente para sentir sua respiração quente.
– Que você é particularmente metido.
Ela saiu da cadeira com velocidade, puxando as roupas com ela. O cotovelo de Daniel deslizou pela mesa e ele quase bateu o rosto na madeira.
Red caminhava para a porta, mas o jovem também era rápido. Bloqueou o caminho com o braço.
– Por que está sempre na defensiva? Só estamos conversando.
Ela o olhou, cautelosa.
– Tem algo errado em eu querer falar com você? Sabe, também ouvi falarem de você. Disseram que você era má e fria e... Coisas piores que isso. Só estou tentando descobrir se você é como sua primeira impressão disse.
Red olhava para o chão agora. Não ousaria o olhar nos olhos enquanto falava essas coisas. Ela ainda estava tentando decidir se gostava ou não daquelas palavras.
– Que você parece habilidosa e esperta. E alguém digno de ser perseguido.
Ele ia continuar, mas ela o interrompeu com a voz baixa.
– Na verdade, na primeira vez que nos falamos, eu te dei um soco.
Surpreendentemente, ele riu. O som saiu nervoso.
– Por favor, sem fugir agora. – Daniel estendeu a mão, formal. – Começamos de novo?
Red virou-se para ele. Não tinha muito gosto em tocar as pessoas, mas aceitou a mão dele.
– Daniel. – ele falou como se ela já não soubesse seu nome.
– Red. – ela murmurou, como se toda a cidade não soubesse quem ela era.
***
Daniel estava ocupado com os pacotes, mas pensava na garota que acabara de conhecer.
Fora a conversa mais estranha que já tivera, mas tinha certeza de que ela era uma boa pessoa. Talvez não exatamente boa, mas sua curiosidade sobre ela era tanta que ele não agüentava mais apenas ouvir o que as senhoras que sua mãe conhecia diziam sobre ela. Precisava desvendar seus segredos sozinho.
Nada melhor do que falar com a própria moça.
O que é que uma garota que supostamente fora atacada por uma criatura sobrenatural poderia esconder? Traumas? Talvez... Algo mais?
Daniel tinha que admitir para si mesmo que antes — quando ele só fora atingido por ela e então Red fugira – seu interesse era apenas isso. Um interesse. Mas, agora que passara aquela hora falando com ela, devia dizer que queria saber mais.
Queria desvendar a garota que fora supostamente atacada pelo Lobo.
Também não devia ignorar a voz que dizia para ele que ela era linda. A cor de seus cabelos era tão diferente das outras; suas faces eram coradas pelo frio e os olhos, nervosos e verdes em um tom inimaginável. Red parecia frágil, mas era forte e ágil, como um cachorro.
Pare com isso, imbecil. Daniel pensou. Você está apenas curioso. E ela não é uma boa pretendente.
Enquanto ele olhava para a neve caindo, porém, acabou se perguntando sem querer:
Será mesmo?
Naquela noite, a garota escapou de sua casa e foi para a floresta.
Ela sabia que Ella tinha conhecimento de sua fuga noturna. O Universo deve ter dito a ela. Cruzou o longo caminho até o altar em meio a uma nevasca, apertando a capa contra seu corpo até os nós de seus dedos ficarem brancos. Entretanto, era isso ou então não seria nada. Se ela não fosse em meio a nevasca, não teria as pegadas apagadas pelos flocos novos.
O vento a empurrava de lá para cá, e era tão forte que ela tinha de andar com os olhos fechados. Teve então que confiar em seus instintos para encontrar o caminho. Se Red se concentrasse bastante, podia identificar o lugar que estava com os olhos fechados. Como quando batera nos lenhadores, a árvore era gelada e os homens, quentes. Seus instintos não eram aguçados, e as percepções mudavam entre cores e temperaturas, mas pelo menos davam a localização das coisas no ambiente.
Agora, era como uma visão no escuro: o chão era negro, as árvores tinham uma coloração prata e as pedras eram brancas. De vez em quando, um veado aparecia, e era um contorno vermelho e dócil.
Ela sabia que chegara quando uma figura à sua frente se destacou, na mesma cor dos flocos que caíam: azul-claro. É claro que Ella parecia mais um fogo azul do que um simples floco suave.
Por trás de seus olhos, Red viu a silhueta erguer a mão em câmera lenta.
O vento parou. Seu vestido e capa caíram com um baque, e seus cabelos continuaram sendo açoitados por um momento. Então a nevasca parou. Quando conseguiu abrir os olhos, tudo continuava negro.
Ella ficou parada sobre o altar, e então uma bola de luz se formou acima seus dedos.
A cena era assombrosa. Duas mulheres paradas uma em frente à outra, congeladas e tensas, com o exato círculo da clareira sem se mover, e mais adiante, na floresta, a neve batendo contra a parede invisível que Ella evocara.
A luz baça se estendia em dedos e espinhos onde os galhos a cortavam, e então acabava com um suspiro noite adentro. Nem a mais forte luz combatia o escuro que se forçava sobre ela.
Era assim que Red se sentia em relação à Ella. O Lobo era o Escuro, o mal e a assombração. Mas... E Red? Ela com certeza estava longe de ser a Luz. Ela era apenas um reflexo menor do Escuro. O outro Lobo.
Red se sentia tentada em ser a Luz. Mas agora simplesmente não podia.
– Vai me dizer o que está planejando?
Ella deu o mínimo sorriso, por mais que doloroso.
– Por que está tão nervosa, querida? Não estou planejando nada.
Red estava nervosa. Ela deixou transparecer aquilo nas próximas palavras:
– Então o que foi aquilo ontem à noite? Por que apareceu na vila?
Ela não queria ter sido agressiva. Mas não conseguiu evitar. Ella olhou para o chão, claramente envergonhada. Quase nunca deixava suas emoções expostas, por isso Red percebeu que aquilo era um sinal. Bom ou ruim, dava para interpretar que Ella estava instável. Se ela mostrava algum sinal de fraqueza, sua mente estava em outro lugar.
– Foi um ato impensado, sem dúvidas. Mas precisava ver com meus próprios olhos.
– O quê?
Ella a olhou diretamente nos olhos. Os dela queimavam em ouro puro.
– A revolta dos outros. O que estavam fazendo. A propósito, da próxima vez tente não mostrar tanto seu nervosismo, querida. Eu vi lá de longe o quanto você estava aflita.
Esta era Ella. Sob ameaças de morte, ainda corrigia os pequenos erros que Red cometia em público.
– Não diga que não vai fazer algo a respeito da revolta, Ella.
– Oh, não seja tão tola, Red! Eles já estão comemorando a vitória. Vão fazer uma festa em seis dias, sabia disso?
Red bufou, frustrada. Aquela conversa claramente não levaria a lugar nenhum. Fora apenas uma tentativa desesperada – que Red já sabia que não teria sucesso – para tentar saber de algo.
A neve voltou a soprar para dentro da clareira. Era a mensagem de Ella para: agora saia logo, não aguento mais gastar meus poderes com suas conversinhas.
– Certo. – Red disse. – É melhor eu voltar logo, então. Já vai amanhecer e não quero que notem que eu saí.
– Isso mesmo, boa tática. – Ella usou sua melhor voz para aprovação. A jovem tentava decidir se aquilo era ou não uma resposta sarcástica para Red querer sair logo dali. Optou por entender que era apenas uma aprovação de que mais um erro não seria cometido em público.
Ella chamou sua atenção antes.
– E não se esqueça, querida, aproveite a festa!
Red acenou com a cabeça, e então sumiu correndo.
Quando a outra tinha certeza de que nem o vento carregaria suas palavras, sussurrou:
– Porque será a sua última.
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