Notas iniciais
Então, aqui está o final da segunda parte. Tenho que admitir que eu só comecei a postar porque já estava bem adiantada na escrita, mas no ritmo que eu posto, comparado ao que eu escrevo (que é muito, muito lento), por favor, não se assustem se eu tiver que desacelerar as postagens por que tenho que escrever o capítulo. (É só um aviso, eu já estou na quarta parte. Só pra vocês se acostumarem). Espero que gostem!!

Mais uma vez, Ella estava certa. Dez dias depois da lua cheia, os moradores fizeram uma festa para comemorar o sucesso deles. Isso significava duas coisas: a praça estaria cheia, e Red ficaria mais uma noite sem dançar.

Ela era uma das pessoas que acabava dançando com a irmã, pois não tinha par. Agora que Joan estava noiva, não teria nem a companhia dela. A mais velha já saíra de casa, junto com o pai das duas. Sobravam a mãe e Red.

Claramente a mãe via que Red se sentia deixada de lado. Seu olhar era minimamente penoso. A filha começou a se dirigir para a porta, mas a mãe a parou.

– Tem certeza de que quer ir com essa roupa, querida? É uma grande festa.

Red a olhou, cautelosa. Ela sabia que Red não ligava para como se vestia.

– Acho que estou bem assim, mamãe.

A mulher a chamou para as escadas, e então para a pequena cômoda com suas melhores roupas. Abriu a gaveta e puxou uma peça.

– Troque por este aqui. É mais adequado.

Ela estendia um de seus mais belos vestidos. Rendado, claro e delicado como uma flor. Tinha um corpete macio cor de caramelo, amarrado com fitas. Mostrava os ombros e parecia perfeito para se usar durante uma dança.

– Mamãe, eu... Eu não acho que deveria me emprestar. Sabe que nem danço.

A mãe olhou-a com um sorriso no rosto.

– Acho que você deve se sentir especial também. Se Joan hoje é uma garota comprometida, quero que você seja a mais bela dançarina. Aproveite.

E com isso, ela deu um beijo na bochecha fria da garota, e então desceu e foi-se porta afora.

Red não pode evitar refletir com um sorriso as palavras da mãe. Pôs a roupa e teve um pequeno momento, por mínimo que fosse, de se achar bonita diante do espelho sujo pendurado na parede. Sua cintura ficava bem delineada, os braços à mostra em perfeita harmonia com o colo nu e os cabelos em volta.

Red também não pode evitar lembrar-se das palavras de Ella, ditas há dias atrás, alertando-a para aproveitar a festa.

***

A festa ocupava toda a praça, que ficava no exato meio da cidade. As luzes dispostas se espalhavam por todas as ruas adentro, fechando o desenho de uma estrela: um ponto luminoso e seus dedos brilhantes para fora. Mas, uma vez que se pisava naquele círculo, ele deixava de ser brilhante e passava a ser barulhento.

Alucinante. Agitado. Tentador. Red ainda se agarrava à capa, com certa vergonha de aparecer com aquela roupa linda de sua mãe. Quando chegou ao círculo da cidade, porém, não pode nem lembrar-se do que estava usando. O pulso daquela comemoração era deslumbrante.

Havia uma enorme fogueira no centro de tudo, com um tapete de brasas onde haviam damas dançando inebriadas com a música. Pares giravam em torno um dos outros, sem nunca se baterem entre si, como se fosse combinado ou ensaiado. Homens bêbados usando máscaras riam dos músicos que, por sua vez, não ouviam as piadas, mas riam porque todos estavam felizes demais para não rir. E afinal, quem não estava feliz ali?

Red viu Joan agitando a saia do vestido junto à Isaiah, que sorria com a visão da noiva. Eles combinam, Red pensou. Mais adiante, na beira da roda que os casais mais velhos faziam observando os mais jovens, ela teve o vislumbre de seus pais, abraçados juntos e apenas gratos por verem a cidade feliz.

Mais uma vez, ela se sentia deslocada. Começou a ponderar se a idéia de ter vindo era uma boa idéia. Na verdade, chegava a ser um pouco insano. Eles queriam se livrar do Lobo, e estavam comemorando porque achavam que tinham conseguido. Mas na verdade, no meio da festa havia outro Lobo, em forma de garota bem vestida e sozinha.

Um movimento atrás dela chamou sua atenção, mas antes que se virasse, uma vez surgiu:

– Parece que nos encontramos novamente.

Red virou-se, encontrando Daniel. Ele estava elegante, de certo modo, com um casaco pesado e a gola virada para cima. Usava um colete de couro por baixo. Visivelmente, quando olhou Red seus olhos se arregalaram um pouco.

Quando viu que ela notara o movimento nada sutil, teve que sussurrar:

– Você está bonita. Eu... Quer dizer... – ele ergueu as sobrancelhas, confuso. Não sabia como remendar aquele erro. – Você está bonita. – repetiu, com a voz mais suave.

Red desviou o rosto para baixo, rindo dele. E, de certo modo, do elogio. Nunca os recebia, mas pelo que já vira pelas ruas, a maioria deles era mais cortês do que um gaguejar.

– Você também. – ela sussurrou, mas não deveria tê-lo feito. Continuando a cena das ruas, as moças não deveriam devolver um elogio com outro.

Ele puxou os lábios para baixo, levemente. Como se ela tivesse feito algo errado, e fosse muito ruim.

– O quê? – ela deu um empurrão no ombro dele, e embora estivesse brincando, era para ser levada a sério. – Você falou primeiro.

Daniel riu, apesar do embaraço da cena.

– Certo, eu sei. Mas isso foi muito ruim mesmo. – ele falou para si próprio. Após um longo suspiro, ele olhou novamente para Red.

– Quer... Dançar?

Red, de certo modo, estava esperando por aquele convite. Ele era o único jovem que teria o pouco senso de convidá-la para dançar, e ela estava em um estado de alerta baixo, porque não importava realmente o motivo da festa estar acontecendo. Red sabia os passos daquela música e ela a dançaria com alguém que – finalmente – não era sua irmã.

Daniel tomou sua mão com cuidado, entrando no turbilhão que rodava perto da fogueira.

Naquele ponto, Red nem sabia mais quanto tempo fazia que eles estavam dançando, ou em que parte da estrofe estavam. Ela era a música e não tinha peso – existia apenas como movimento. Daniel era o seu parceiro, finalmente alguém que sustentava seu corpo com precisão e força, não como Joan, que não conseguia girá-la.

Dois passos para o lado, braços acima da cabeça. Palmas, que soaram junto com toda a praça, e então mãos na cintura do par, girar com ele, depois para o outro lado, e repetir tudo outra vez.

Perto do final, a coreografia era: braço erguido para o lado, passar a cabeça por baixo do par respectivo. Deslizar as mãos até se encontrarem, cruzá-las e girar novamente.

Os olhos de Daniel brilhavam quase ferozes perto do rosto de Red, e ela estava inebriada com a dança. Ambos respiravam pesadamente, rindo entre os passos. Suas respirações se misturavam, e ele não estava próximo demais? Red não teve tempo de pensar no que ele estava tentando fazer, quando um grito animado soou, e ela girou para fora da bolha deles para trocar de par.

Daniel pareceu decepcionado. Ela riu para ele.

O homem que acabou sendo seu novo par estranhou que Red estava dançando com, bem, Daniel. De fato, não era mentira que ela ouvira falar dele. O jovem era respeitado e bondoso, e todos o conheciam na cidade. E ele escolhera dançar justamente com Red? Isso era novidade para os outros, com toda certeza.

Talvez tivesse sido uma má idéia dançar com ele. A cidade era alimentada com o escândalo, e Red poderia mantê-la satisfeita se arruinasse a reputação do garoto.

Outra voz soou, quebrando sua linha de pensamento. Red girou novamente, voltando para os braços dele. Ambos pararam de dançar por um momento, apenas olhando um para o outro. Sentiam-se estranhos, ali parados enquanto o resto estava correndo sobre o chão coberto de neve, aquecido por suas próprias chamas.

Pegaram o ritmo novamente no próximo passo. Seus olhos não se desgrudavam mais. Os olhares só se separaram quando, na última frase, ele segurou a cintura de Red e ela jogou o corpo para trás, enquanto seus pés contornavam o pequeno círculo que os dois ocupavam.

Ela abriu os braços, se sentindo livre. Não aquele tipo de liberdade que você sente quando olha pela janela e respira o ar puro. O tipo de liberdade estático e frenético, quando você sente que não pertence a nenhum lugar, mas que todos os lugares pertencem a você. Red sentia que, com aquelas voltas que dava pendurada por duas mãos quentes, ela podia voar, ela podia mergulhar, ela podia correr.

O pensamento da corrida a fez sufocar com o ar. Algo estava errado. Ela via sombras passando abaixo de seus olhos, agora abertos, e os corpos das pessoas acabavam na maior escuridão, maior que a própria noite. Viu olhos dourados. Viu Ella na beirada da cidade, olhando-a com desaprovação.

Daniel a puxou para cima, e segurou seus ombros até que ela estivesse firme.

– Você está bem?

Red deslizou a mão instintivamente até seu pescoço, acariciando, ou então esfregando, suas cicatrizes. Daniel viu o movimento, e não interpretou o sinal de um jeito bom.

– Estou, eu só... Fiquei tonta com todos esses giros e giros... – ela riu sozinha. Claramente estava nervosa, porque nada desse gênero acontecera com ela antes. Red respirava pesado.

O resto da multidão agora aplaudia os músicos. A dança havia acabado. Antes de começarem a próxima música, eles deslizaram para a beira do círculo.

– Não quero parecer intrometido, mas... – ele baixou a voz a um mero murmuro. – O que tem suas cicatrizes?

Red não esperava por aquela pergunta, então ficou apenas olhando-o com a boca ligeiramente aberta, pasma.

Daniel começou a se desculpar. Ela obrigou-se a responder.

– Elas não têm nada, certo? Senti uma dor por perto, só isso.

Ele estava sério agora. Seus olhos eram duas lâminas mortificadas e brilhantes, que incitavam alguma coisa além da dança. Red sabia que algo viria.

– Tem algo errado, certo? – Daniel não pode suportar. Disparou a pergunta. — Como conseguiu essas marcas?

Ela recuou um passo. Não foi algo intencional, mas não pode ser evitado.

– Por que quer saber?

Um clique ocorreu. Por que ele queria saber?

Por que o garoto doce e respeitado de repente se mostrara disposto a parecer louco em frente às pessoas?

Por que dançara com ela, deixara esperanças de que, talvez, ela não fosse assim tão estranha?

Por que era tão interessado quando falava com ela?

Porque ficar observando a aberração de longe não garantia respostas o suficiente.

Red fechou o rosto em uma expressão mortal. Ela recolheu a extensão do vestido e puxou-a para si. Mantendo o olhar no rosto de Daniel, ela não disse nada.

Não precisava dizer.

Red apenas correu.

Notas finais
Tenho que admitir que a cena da dança foi, de longe, uma das minhas preferidas de escrever. E também a relação entre Daniel e Red, que seria mais curiosidade pela Red do que romance. O que acham? (P.S: eu estou me sentindo muito chata pedindo opiniões e mais opiniões, mas é necessário para eu saber o que vocês estão achando do desenvolvimento da história!) Até semana que vem!