Noite da pizza
4 Capítulo 4
Ao alcançar a última porta, a pobre menina foi verificar se seu amigo a havia acompanhado até lá. Seu coração parecia que ia explodir de tanto medo que sentia no momento em que constatou que agora estava sozinha. De costas, na mesma posição em que tomou para olhar para trás, começou a adentrar o quarto e pôde ver que era uma suíte máster. A única janela existente ficava no banheiro, e este ficava no fim do closet.
Cristal começava a se aproximar do closet, planejando uma fuga desesperada pela janela, quando uma sombra começou a se arrastar pelo corredor, se aproximando cada vez mais rápido. A menina já tinha paralisado e se distanciava involuntariamente com passos lentos, encarando a sombra que se esparramava pelo chão.
A menina se aproximava lentamente, com a faca já erguida. Resolvi me concentrar nos olhos da última sobrevivente – até agora – e vi pelo reflexo a outra se aproximando. Não demorou muito para o momento chegar, e só fui abrir meus olhos depois.
Olhei para Maria Clara, e me surpreendi ao constatar que ela me olhava de volta, e dessa vez tive certeza que me olhava também.
Agora eu entendi o porquê dela conseguir me ver e o porquê dela não ter crescido: tudo o que torna uma pessoa humana, tudo que fazia parte da humanidade dela havia sido substituído por ódio e remorso, e agora ela não passava de uma sombra, algo que o mundo recusou-se a abrigar e que até a própria vida desprezava.
Saí do apartamento; minha presença não era mais requisitada ali, pelo menos por enquanto. Sabia que aquela menina com certeza me traria mais trabalho futuramente.
Tive pena das vítimas? Ou talvez do destino irreversível que Maria Clara havia se inserido? Receio não poder dizer isso, afinal, foi só mais um de muitos dias de trabalho.
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