Noite da pizza
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Olá.
Essa história se passou há algum tempo, mas consigo lembrar-me perfeitamente. Era apenas outra de muitas noites de trabalho, assistindo tudo em um canto, esperando minha deixa.
Certo dia, não lembro muito bem qual (esse tipo de coisa volta e meia acontece no meu trabalho) aconteceu algo que me surpreendeu: minha interceptora seria uma criança.
Bom, chega de enrolação.
Em uma sala de estar, encontravam-se sete amigos que estavam ali reunidos para comer pizza. Ao espera-la, conversavam: até aí tudo bem, mas as coisas só iriam realmente começar com o interfone tocando. Naturalmente, a dona da casa levantou-se e foi atender.
Era uma menina de uns quinze anos, que mais tarde descobri chamar-se Ângela. Atendeu o interfone com uma expressão estranha, voltou para junto de seus amigos e falou: “Estranho, pensei que o nosso porteiro tinha uma voz adulta, aquela parecia de uma criança! Deve se por causa do interfone mesmo...”. Após isso, começou uma discussão sobre quem deveria descer para pegar a pizza. Uma menina chamada Bibiana foi escolhida, e não teve escolha a não se ir. Quando estava saindo, eu, obviamente, a seguia .
Algo muito importante a dizer sobre mim é que ninguém pode me ver, mas os afetados costumam sentir frio e angústia. Não demorou muito até o elevador chegar e a descida foi breve. No corredor do andar térreo, a menina pareceu não perceber uma sombra arrastando-se pelo corredor. Seu pior (e posso dizer que também o último) erro. Foi até a portaria e viu que não havia pizza, muito menos porteiro lá, então voltou irritada por ter tido que descer alguns andares e ter perdido parte de seu tempo. Quando se aproximava do elevador, e automaticamente para o fim do corredor, xingava baixinho, e com isso nem teve tempo de ver o que a atingiu. Como sempre, fechei meus olhos; simplesmente não consigo suportar a visão do meu trabalho sendo feito. Depois de alguns segundos, abri e pude ver que a vida já a havia deixado. Fechei seus olhos e voltei para o apartamento. Mal o elevador tinha chegado ao oitavo andar e já tinha mais uma pessoa para entrar nele: reconheci um adolescente que estava na casa com os amigos. Resolvi acompanhá-lo na sua última volta de elevador — afinal, eu não tinha nada a perder.
O garoto teve o mesmo destino de Bibiana, o que para mim não foi surpresa; os mortais sempre cometem os mesmos erros, e certamente o indivíduo responsável pelo que estava acontecendo certamente já havia percebido isso.
Dessa vez tive tempo de entrar no apartamento antes da próxima descer. Ela estava furiosa com os amigos dela, que haviam descido e não voltado, todos os outros estavam dizendo que eles haviam fugido com o dinheiro. Mal sabiam o que havia acontecido a eles...
Ângela encaminhava-se ao elevador, silenciosamente, porém com a fúria estampada em seu rosto. Eu quase podia ler seus pensamentos através de seus olhos: “além de ceder minha casa para fazer essa droga de noite de amigos, paguei a pizza e, como agradecimento, eles ainda fogem com todo o meu dinheiro!”. É uma pena que não tenha escutado a voz da razão enquanto tinha tempo.
Foi uma das únicas que posso dizer que viram exatamente o que a atingiu. Tudo aconteceu muito rápido, mas sua visão se ajustou à velocidade e à escassez de luz do ambiente. Fora a primeira que realmente percebeu o que estava acontecendo, a única que notara o sangue seco espalhado em um canto do corredor, que havia sido limpo às pressas de uma maneira ineficiente; entretanto, nada disso foi o suficiente para livrá-la do seu destino desagradável...
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