Não passa da meia noite, estou na moita, atrás de um trem, onde uma cachorra chora por causa da chuva frequente, relâmpagos pintam o céu de vermelho, meu peito fica encharcado, onde confundo as minhas lágrimas com os pingos molhados.

Ela não me deixa dormir, peço café e me trazem insônia, quero o silêncio e recebo trovejadas, sinto um cheiro de “não”, a cadela não cansa e persiste, leva-me ao túmulo da insanidade junto a ela. Tenho afazeres após a madrugada, mas a hora parou e ela também deveria parar, todavia nas horas mais insones é onde o meu fantasma grita, e devo agradecer, pois depois das onze, já estou morto, sou um zumbi.

O quarto está escuro, um zunido infrequente aglutina-se aos meus sussurros, lendo rascunhos, esperando o sono, aguardando que o medo transforme-se em astúcia e faça o animal ficar esfomeado e calar-se, sem forças. Soa cruel. Minha mãe levanta, corre, esmaga o chão, e como um craque, chuta a cachorra. Finalmente... Foi um erro, ou uma atitude estreitamente necessária? Oh dúvida cruel, pelo menos espero dormir em paz.

Passou-se um minuto, e o teto permanece em pé. Há uma trégua estranha, parece momentânea. HA! Ouvi um murmurar... Essa morta-viva se alimenta do sereno. Raivoso. Fúnebre. Sonolento. Devo dar um fim nisso, ou esperar que o próximo trovão tumultue novamente?

Shit. Quero urgentemente dormir, a cama está confortável, o travesseiro amaciado, as cobertas sebosas, mas sempre existe o mas. Perguntam o porquê que não durmo, digo que sou um Rust da vida, eu não adormeço, sonho. Perambulo pela cidade, o ruído transcende, grita: “Recuar, recuar!”. Hora de rir, hora do carrossel, fecho os olhos e não vejo nada, consegui, ou conseguiram por mim.

Trovoa novamente. E a pestilenta treme as cordas vocais. Estagna. Silencia. Morre por um capricho do destino.

Assumo o comando da cama, acho que posso ousar repousar. Se ela voltar a atormentar quando tomar coragem de desdobrar-me, digo que na verdade, não voltarei para deixar recado, esperarei a morte me beijar, e escrever na minha epígrafe: “Aqui jaz um homem que só queria dormir”.

FIM

04/11/14

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