Notas iniciais
Feliz Natal e um Ano Novo repleto de realizações.

Marguerite espiou através do vidro da janela os pequenos flocos de neve que começavam a precipitar.

—Este dia não podia ficar melhor._resmungou para si mesma.

Era véspera de Natal, nunca gostou particularmente destas festividades, entretanto, neste ano tinha um motivo a mais para se sentir infeliz. Seu coração, o qual por tantos anos manteve protegido sob camadas de autopreservação,encontrava-se agora esmigalhado por uma traição. Onde estava com a cabeça quando entregou seus sentimentos aLorde Roxton, mesmo sabendo que as convenções sociais nunca permitiriam que eles tivessem um final feliz? Acreditou que o amor que compartilhavam seria capaz de superar tais barreiras aristocráticas, contudo, enganou-se completamente. Ao final o título e as responsabilidades falaram mais alto, e agora, ali estava ela, no quarto de vestir da butique de Madame Delacroix, esperando as libras que lhe deviam pelo dia trabalhado.

Enquanto eram amantes, Lorde Roxton a mantinha em um apartamento provendo todos seus gastos, de alguma maneira boba ela acreditava que ele a amava, e por isso não sentia-se nem um pouco indigna por aceitar tal apoio e proteção. Entretanto, na noite em que o nobre lhe contou que precisava cumprir sua obrigação como herdeiro do título e casar-se com a noiva moribunda prometida de seu falecido irmão, Marguerite percebeu que sua posição mudara e que não poderia mais aceitar o auxílio nem as visitas de John. Embora sob inúmeros argumentos desesperados dele, ela decidiu que o melhor para ambos seria que seguissem caminhos separados. Não suportaria viver sendo a outra e a custas das migalhas de atenção que ele a ofertaria.

Sozinha e desamparada, aceitou a proposta de Madame Delacroix para coser e modelar os vestidos de sua butique. Estava longe dos luxos experimentados na companhia de seu amado amante, porém, era um emprego honesto e lhe ocupava o tempo e a mente, principalmente depois que soube da viuvez de Lorde Roxton. Não chegou a ser uma surpresa, Emília já era uma moça muito doente na ocasião do casamento, de certa maneira sua condição frágil foi crucial para que o noivo não declinasse de sua responsabilidade com ela. Marguerite sabia disso, a nobreza e virtude de Roxton não lhe permitiria abandonar a desonra uma moça que jamais teria a oportunidade de se casar novamente. Era sua velha e inconveniente habilidade de ser altruísta, não seria esse um dos valores que mais admirava nele? Isso não vinha ao caso agora, pensou ela. Tampouco as tentativas de reconciliação depois que os meses de luto passaram. Marguerite havia sido irredutível. Ele a havia magoado e ela não pensava em perdoá-lo, não nos termos dele. Se por algum momento de sua história pode parecer uma mulher fácil e passiva, isto havia mudado. Batalhou por sua independência e não desistiria disto tão facilmente, nem mesmo pelo sentimento que ainda nutria por Lorde Roxton. E era por isso que preferia estar ali, trabalhando na noite de natal, ao invés de pensando nas cartas que ele lhe enviara aos montes, pedindo para que ela viesse até ele, que sentia sua falta e sugerindo um recomeço.

Não! Disse para si mesma, não encheria seu coração de esperanças para amargamente ter que enterrá-las quando a obrigação novamente o acenar.

—Marguerrite._ Madame Delacroix a chamou forçando seu sotaque francês._temos um último cliente. Preciso que vista os modelos da nova coleção.

A modelo suspirou decepcionada. Quanto mais tarde fosse embora pior estaria a nevasca e menor seriam as chances de conseguir uma carruagem de aluguel.

—Mas, milady, hoje é Natal. Quem compraria um presente tão em cima da hora? Além disto, está ficando tarde…

—Sinto muito, mon chéri, porém, trata-se de um senhor muito importante e me confidenciou que está em busca de algo paga uma dama que não é sua esposa. Você me entende chéri, precisamos ser discretas em algumas situações, faz parte da nossa profissão.

Marguerite entendia bem. Não só entendia como sentia repulsa. Não era a primeira vez que precisava ficar até mais tarde no ateliê para atender a clientes que necessitavam de discrição. A maioria aristocratas adúlteros que mantinham suas amantes mesmo sob os votos sagrados do sacramento do matrimônio. Exatamente como John Roxton gostaria de conduzir sua relação. Ficou grata por não ter que se prestar a este papel.

Ciente de que não havia muito com o que discordar, além disso, ninguém a esperava para ceia, resignou-se a vestir o lindo vestido de veludo vermelho e se encaminhar para a pequena passarela instalada no centro da butique. Por sorte o importante homem não seria do tipo indeciso e escolheria logo uma das primeiras amostras.

Como sempre fazia antes de desfilar, Marguerite inspirou fundo, concentrou-se no objetivo e tentou ser impassível, não era ela que deveria ser observada, e sim a roupa que vestia. Ela era apenas um instrumento, porém, não naquela noite. Sua respiração ficou presa na garganta quando se deu conta do senhor importante ao qual Madame Delacroix se referia. Ele não podia fazer isso, não ali, não no sei emprego. Que tipo de humilhação nefasta Lorde Roxton pretendia com aquilo?

Os olhos dela cintilavam de fúria a cada passo e a medida que encontrava no olhar dele algo como divertimento a sua fúria foi se transformando indignação. Não podia suportar por mais tempo aquela exposição que a ridicularizava. Antes de chegar ao fim da passarela, Marguerite viu-se descendo do elevado e correndo para o camarim.

Madame Delacroix tentando manter a aparência fez menção de chamá-la, mas, Lorde Roxton interviu.

—Está tudo bem… gostei daquele, e vou ficar com a coleção toda.

—Mas o senhor nem viu os demais._pareceu confusa.

—Não importa, levarei todos. Enquanto a madame calcula quanto lhe devo, preciso falar com a sua modelo.

A mulher o olhou com com dúvida. Era óbvio que eles já se conheciam, e pela reação de Marguerite, provavelmente eram muito mais do que apenas conhecidos. Porém, para ela fazia pouca diferença se eram amantes ou não, contanto que o nobre homem continuasse a ser assim generoso, ela lhe concederia até uma audiência com a rainha se estivesse ao seu alcance.

—O camarim fica no final do corredor_disse por fim_tentem não quebrar nada.

John assentiu com um meio sorriso, embora a ideia de possuir Marguerite de maneira selvagem em meio a tecidos, manequins e araras era deveras estimulante. Cortou seus pensamentos libidinosos antes de que estes nublassem os reais motivos que o trouxeram ali aquela noite. Calculando as passadas ele tentou ser silencioso ao chegar ao cômodo, seu pequeno sacrifico foi recompensado, conseguiu por alguns instantes vislumbrar o corpo nu da mulher que amava refletido no espelho com moldura de prata. Quanta saudade ele tinha daquelas curvas gloriosas. Conteve-se porque sabia que qualquer atitude impensada colocaria em risco seus planos. A reação dela a pequena brincadeira que propôs não saiu exatamente como o esperado, mas, não desistiria tão fácil.

Um pedaço de tecido voou em sua direção, só depois do suave impacto contra seu rosto foi que percebeu que Marguerite o tinha arremessado.

—O que pensa que está fazendo aqui?

—Admirando-a._respondeu com sinceridade.

Ela apenas vestia a combinação de cetim.

—Vire-se!_ordenou ela._Não é apropriado que me veja assim.

—Não é a primeira vez que a vejo nua, Madge.

—Poupe-me dos seus comentários. Este é meu local de trabalho, exijo que me respeite. Se veio aqui tentar infringir algum tipo de humilhação sobre a minha condição atual, esqueça, eu posso estar longe do requinte que seu dinheiro me proporcionava, mas esta é uma atribuição digna e o honesta, me sinto muito orgulhosa disto.

John a mediu com os olhos semicerrados enquanto acabava de se aprontar. Com dificuldade com o zíper emperrado ele se aproximou na intenção de ajudá-la.

—Permita-me._pediu aprovação antes de tocá-la, ela assentiu um pouco menos irritada._Você tem razão._concordou ele._Devo uma desculpa, não era minha intenção ofendê-la ou humilhá-la.

—Então, o que o trouxe aqui?_ela estava completamente vestida mas não se afastou.

Ele suspirou, era hora de ser honesto.

—Você não respondeu minhas cartas.

—Não havia nenhuma novidade a ser dita. Minha reposta é a mesma a sua proposta.

—Marguerite, eu estava na taverna na noite passada._começou ele dando-lhe as costas_Estávamos bebendo e jogando, quando, Lorde Rothmore mencionou a nova modelo de Madame Delacroix. A forma como a descreveu, eu soube que era você antes mesmo que ele dissesse seu nome._o ciúme reacendia em seu peito a cada lembrança de como o maldito nobre a classificou como uma joia de luxo.

Marguerite lembrava de tal lorde. Ele visitou o ateliê algumas vezes comprando presentes para a mãe e irmã. Simpático e gentil, mas, agora, ela ponderou que a frequência das visitas de fato estavam sendo superiores a de demais clientes da loja.

—Eu quase o desafiei a um duelo._ admitiu John.

—O que?_ficou estupefata.

—Só não o fiz porque desafia-ló a colocaria em uma exposição ainda maior. Todos saberiam da nossa relação e…

—Nossa relação já acabou. Agradeço que se importe com a minha reputação e segurança, mas, não é necessário. Eu sei me cuidar.

—Eu sei que sabe, mas, isso não muda o fato de que desejo me fazer cargo disto.

—Não é verdade. Você está com o orgulho ferido e acha que tem algum tipo de posse sobre mim, o que não existe. O que tínhamos acabou, fez a sua escolha e eu fiz a minha. Agora se não se importa, está ficando tarde e frio.

—Sim, eu me importo!_segurou-a pelo braço forçando-a a encara-lo._ Por que é tão teimosa?_ Não deixou que ela respondesse, seus lábios exigiram os dela com sede e desespero. Ela tentou recusar de início mas em poucos instantes se viu retribuindo a carícia com igual fervor. _Admita que sentiu tanta saudade quanto eu senti… que seu sangue queima quando lembra de nossas carícias… que dorme pensando em mim e que sou seu primeiro pensamento ao acordar.

—sim… _murmurou entre beijos._Eu sinto sua falta todos os segundos do meu dia.

Os beijos dele desciam por seu colo e suas mãos fortes acariciavam seus seios sob o tecido das roupas. A realidade do que estava acontecendo submergiu ao prazer do momento e ela se afastou de uma só vez.

—John, não… eu não posso aceitar isto. Não desse jeito. Eu acabaria por odia-lo e perdendo o respeito por mim mesma.

—Eu te amo Marguerite, sempre te amei desde o dia que a vi pela primeira vez.

—Eu também te amo_sentia as lágrimas arderem em seus olhos._ entretanto, honestamente, acredita que só o amor seja o suficiente?

—Não._para a surpresa dela ele também admitia que só o sentimento que os unia não era o bastante para mantê-los juntos._eu fui um tolo egoísta para propor aquele arranjo vergonhoso para nossa relação. Fui um covarde, tive medo de perdê-la e acabei afastando-a de mim definitivamente. Você sabe que meu casamento nunca foi de verdade, pobre Emília, não sei se cumprindo a responsabilidade de meu irmão lhe fiz mais bem do que mal._o remorço na voz dele a compadeceu._ o amor que sinto por você sempre se manteve imaculado, assim como de Emília por William.

—Porque você está me contando essas coisas?

—Porque ontem, enquanto estava cego de raiva e ciúmes, eu soube o que precisava ser feito.

Um tremor percorreu o corpo de Marguerite pela intensidade daquelas palavras.

—Marguerite Krux, eu a quero mais do que qualquer coisa que já quis na vida._ele tirou do bolso uma caixinha de veludo azul. Abriu-a e ela pode ver o diamante mais lindo. Lorde Roxton tirou o anel e colocou no dedo delgado da mulher que amava._Eu a quero no lugar que você merece, como minha esposa e senhora. Aceita se casar comigo, Madge?

As lágrimas não eram mais poupadas e molhavam um sorriso fantástico. Abraçou-lhe e beijou-lhe com sofreguidão enquanto dizia:

—Sim! Sim! Sim!

John a ergueu do chão e a girou com facilidade. Depois de tanto tempo, eles teriam enfim, a sua noite feliz.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!