Noite Escura
3 Enfrento os primeiros dias
Quíron pigarreou e tossiu duas vezes,o que era nosso sinal para "estamos sendo observados", o diretor saíra da sala prometendo um pouco de privacidade para que nos despedíssemos, mas aparentemente não nos deixou tão solitários assim.
– Espero que se adapte, e goste do lugar, filho.
– Também espero, gostei muito do ambiente escolar! — respondi com ênfase, o que queria dizer de verdade era que achara coisas estranhas ali, e Quíron captou o recado.
– Que bom, Marcos. Vou checar se não deixou nada importante em casa e trago se for necessário. — ele mudou de assunto com cautela, mas a mensagem secreta ali era o vou checar, significava que ele daria uma olhada atenta no colégio.
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O diretor me conduziu por um tour no Norma's e achei o colégio fantástico. O refeitório tinha portas de vidro e janelas enormes que deixavam a luz entrar e davam uma postura tranquila ao ambiente bem arejado. Por outro lado, a noite aquele lugar seria sinistro.
O diretor falava pouco enquanto andávamos, realmente era um sujeitinho antipático.
Ele me mostrou também as salas de aula; do lado esquerdo do colégio ficavam as dos garotos de 12 a 14 anos que eram apenas seis, duas para cada ano letivo. Eu estudaria na última sala, pois tinha apenas catorze anos. Do lado direito ficavam as salas reservadas aos estudantes de 15 a 17 anos, também eram apenas seis.
Entre os dois grupos de salas, ficava o Auditório, que o diretor não me mostrou, apenas indicou a porta e disse o que era.
Então ele parou subitamente e disse:
– À partir de agora continue a conhecer o Norma's com nosso inspetor. — ele disse e começou a andar,mas parou quando se lembrou de algo — Ah, e mais uma coisa, trate de memorizar os horários. — o diretor jogou um papel por cima do ombro, que veio parar aos meus pés.
Recolhi o papel e reprimi um impulso de jogar de volta no diretor, mas ele já estava além do meu alcance. Pensei que estava sozinho, até que um homem parou ao meu lado.
Ele tinha pele morena e por volta de cinquenta anos, era meio calvo e foi a primeira pessoa simpática que encontrei nesse estranho colégio.
– Olá, posso ajudar?
–Oi, pode sim. Aquele homem super simpático que se diz diretor, pediu para você terminar de me mostrar a escola.
No momento, pouco me importei com quem tivesse observando e deixei minha personalidade difícil comandar a situação.
–Claro, claro. Vamos.
Não havia mais nada de tão interessante para ver, afinal. Apenas o laboratório, a piscina, a quadra multi-esportiva, e a sala de informática, onde poderíamos fazer deveres de casa, acessar redes sociais e outras coisas que semideuses como eu não podem ter.
Fui levado aos dormitórios masculinos perto da minha sala, para me instalar e esperar até a hora do almoço, quando eu seria levado e apresentado para meus novos colegas.
Não estaria sozinho no quarto, pelo contrário, haviam outras beliches ali, que no momento estavam vazias, pois seus "donos" estavam em aula.
Olhei o papel que o diretor me dera, continha todos os horários da instituição. O café da manhã seria às 7:30, as aulas iniciariam-se às 8:00 se estendendo até 12:00, quando seria servido o almoço e às 13:00 as aulas iniciariam novamente seguindo até as 16:00 quando, enfim estaria livre para fazer o que quisesse, é claro, dentro do colégio.
Só poderia sair do colégio nos finais de semana, mas não liguei, pois minha missão teria de ser feita dentro desse lugar mesmo.
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Gostei de cara do pessoal da escola, eram na maioria garotos e garotas legais, com algumas poucas exceções.
Mas uma garota em especial me chamou a atenção, ela estava sentada na extremidade da mesa ao lado de onde me sentei, tinha cabelos negros e um pouco enrolados nas pontas, usava uma regata verde e calças jeans, — outro ponto bom da escola; não precisávamos usar uniforme — ela tomava um sorvete e ria de alguma coisa dita pelas pessoas que estavam na mesma mesa. Então ela olhou em minha direção e meu sangue gelou, trinquei os dentes e cerrei os pulsos involuntariamente, como se me preparasse para uma luta. Ela desviou o olhar e relaxei, Jonas, um garoto que conheci e que seria meu colega de classe, olhou interrogativamente em minha direção. Dei de ombros, tentando convencê-lo de que não fora nada.
Mas fora,definitivamente fora alguma coisa.
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A noite, conversei e até certo ponto me enturmei com os garotos com quem dividiria o dormitório, eram todos mais velhos, pois como entrei algumas semanas depois do início das aulas fiquei com o pessoal do primeiro e segundo colegiais.
Tive que inventar algumas boas mentiras para eles, que não paravam de me perguntar coisas sobre a minha vida, gostaria de dizer a eles que era um semideus, um dos melhores guerreiros do Acampamento, e tinha a honra de ser filho de Atena. Mas para a minha segurança e para a segurança daqueles garotos mortais, eu mantive tudo em segredo.
Porém levei um grande susto, quando o inspetor noturno dos dormitórios masculinos, um homem alto e grisalho, com aparência hostil, veio dizer que "eles foram soltos".
Já ia perguntar quem eram os eles, quando ouvi um uivo, que cortou minha alma e fez com que eu perdesse o fôlego.
– Qual é amiguinho? São só alguns cachorros. — um dos garotos disse em tom de chacota.
Mas não eram cachorros! Amaldiçoei qualquer um que tenha tido a ideia de usar aqueles lobos selvagens para patrulhar aquela escola.
E ninguém, a não ser por mim, podia vê-los de verdade. Pois a Névoa os tornava cegos aos monstros cruéis além dos portões do colégio.
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