Noite

21 Chuva de Janeiro


Notas iniciais
Hey! Mais um capítulo pra vcs! =) Gostaria de agradecer epecialmente a Yuuki-chan e a Camila Rosier por sempre acompanharem a fanfic e deixarem reviews! P.S: Hoje faz exatamente 5 meses que Noite está sendo postado no Nyah! *-* Boa leitura!

_ 04 de fevereiro_

Os meus olhos se fecham

Eles se negam

Não querem ver o horror

O vazio

Essas palavras ainda ressoam dolorosamente pela minha mente. São tão distantes, tristes... Mas elas provam-se cada vez mais verdadeiras conforme minha garganta continua seca e a minha cabeça lateja. Mas isso é o de menos. Qualquer que seja o trecho da poesia de Barker, não chega nem perto de descrever o infinito que machuca.

Porque não importa o quanto me consolem, sei que aqueles olhos castanhos não estão mais ao meu alcance.

A noite arrastou-se em um borrão de dor, irritação e tédio. Victor é excelente persuadindo as pessoas e acho que é só por causa disso que não passei a noite na delegacia sendo submetido a sucessivos interrogatórios. Sou menor de idade e não há nenhum indício de culpa; — Até porque, quem além daquele delegado suspeitaria que eu fosse capaz de arrancar os braços e a orelha de um cadáver e a cabeça de outro? – segurar eu e minha mãe na delegacia por tanto tempo, foi pura displicência da polícia de uma cidadezinha minúscula. Realmente não os culpo por isso. A minha história não é nem um pouco fácil de acreditar.

Assim que saímos da delegacia, escoltados pela voz um pouco exaltada do Victor que ainda discutia com o delegado, fui com a minha mãe ao hospital. Todos os meus ossos queriam urgentemente uma cama onde eu pudesse me jogar e ser esquecido lá, mas ainda tinha a tia Lídia, a preocupação da minha mãe por causa de todo aquele sangue na minha roupa e claro... Tinha a Tabhita.

Pensar nela melhorou consideravelmente meu humor. Victor mencionara um dispositivo de rastreamento no celular dela. Provavelmente um daqueles softwares GPS. Se a ideia veio por parte da Tabhita ou dele, eu não sei, mas fiquei muito grato.

Quando chegamos ao prédio branco, com cruzetas azuis na entrada, minha mãe correu logo para recepção. À julgar pela expressão da recepcionista, meu pai já a havia notificado quanto a chegada de uma doida paranoica semi-desesperada, pois ela pegou o telefone imediatamente e disse-nos que meu pai viria em breve falar conosco.

Enquanto minha mãe torcia as mãos, aflita, dispensei-a de me acompanhar até uma saleta com uma enfermeira que deu uma boa olhada nos rasgos que haviam no meu braço e nos diversos arranhões. Ela olhou com aprovação para a sutura que a senhora havia feito na delegacia e limpou cuidadosamente – Dolorosamente. – todos os machucados. Também deu uns pontos em um machucado recém-descoberto para mim. Um corte atrás da orelha esquerda que seguia por longos quatro pontos, entrando no meu couro cabeludo.

Depois disso, fiquei um tempo sentado na sala de espera do hospital. Estava me sentindo tonto, mas fiquei quieto. – Muitas mortes em pouco tempo para uma pessoa digerir. – Minha mãe já parecia preocupada o suficiente e meu tio, tentava demonstrar confiança enquanto aninhava Luan e Caique no colo. Ambos estavam bem, isso foi um imenso pró para o meu estado de espírito.

Devo ter dormido sem perceber, mesmo com aquela cadeira dura e aquele cheiro nauseante de desinfetante inundando minhas narinas.

Aff. Odeio hospitais.

Acho que sonhei, porque acordei com uma sensação desconfortável. Como se tivesse esquecido, algo... Não dei atenção a isso por muito tempo. Foquei-me no que minha mãe me dizia após ter me sacudido para que eu acordasse.

— Felipe, o Victor está aqui.

— Ah... — eu disse debilmente, ainda com os sentidos entorpecidos.

— Eu vou ficar aqui um pouco mais, com o seu tio. Os meninos já estão dormindo no carro, vá com eles. Você precisa descansar, hoje foi um dia difícil. — ela disse me dando um beijo na testa. Seu perfume era de jasmim e me senti bem quando vi sua cascata de cabelos castanhos caírem por seus ombros, em frente aos seus olhos... Bem, isso até eu ter a nítida sensação de que eram azuis e pular da cadeira.

— Júnior? — minha mãe me fitou curiosa.

— Ah, sim... Eu vou. Estou com um pouco de sono ainda, não é nada. — eu disse tentando parecer natural frente aos seus olhos avermelhados de cansaço e aguçados pela preocupação.

Depois de praticamente enfiar minha cabeça debaixo da torneira da pia do banheiro, para ver se eu acordava direito, sai do hospital e procurei o carro do Victor. Foi muito fácil distinguir seu carro em um estacionamento praticamente vazio, mesmo com as luzes frágeis e piscando. – Também não gostei da parte que envolve luzes frágeis e piscando. Pela lógica de Martina, coisas ruins acontecem no escuro.

— Oi. — eu disse me aproximando.

— Oi, Felipe. — ele disse afrouxando sua gravata, o que fazia-o parecer terrivelmente deslocado. Quero dizer, Victor é um daqueles caras altos, fortes e bonitos que sempre estão impecavelmente vestidos; vê-lo desalinhado e com as rugas em evidência pelo estresse, parecia errado. — Vou levar vocês para casa, entre. — ele disse sinalizando para a porta da frente.

Eu ouvia o ressonar constante dos meninos no banco de trás e esse era o único som que ocupava meus ouvidos. Não havia música nem conversa. Acho que nenhum de nós estava com vontade de puxar assunto, de modo que mergulhamos em nossos próprios pensamentos. Victor mais do que eu, eu diria; já que ele olhava para a rua a nossa frente com uma estranha determinação.

— Eu conversei com o delegado, situação problemática. — ele disse de repente. Realmente, sinto-me muito grato por ele ter aparecido e ajudado um monte e tal, mas... Cara, eu não queria esmiuçar pela milésima vez a droga da morte dos dois vampiros. Por isso, conduzi logo o assunto para o campo que me interessava:

— Sim, foi... Victor, você mencionou um rastreamento no celular da Tabhita... — assim que deixei a sentença no ar, ele me lançou um breve olhar e não me incomodei com a certeza de que ele sabia as minhas intenções ao mudar o rumo da conversa.

— O sinal aponta para a floresta. — ele disse e percebi sua voz mais tensa. — Convenci alguns guardas florestais a começarem a procurar hoje a noite, mas eles não me deixaram ir e vão parar logo... — ele disse olhando para o céu com uma careta.

Segui o seu olhar e suspirei compreendendo.

— Porque vai chover.

— Amanhã, haverá uma mobilização maior.

— É. — eu disse olhando as nuvens cinzentas, como se isso fosse o suficiente para mandá-las embora.

Descemos do carro e eu passei vagarosamente pelo portão da entrada, ainda com o meu joelho reclamando de dor. Algumas faixas amarelas ainda estavam lá, e as demarcações dos locais onde haviam sido achados os cadáveres também permaneciam no lugar, como se me lembrassem com quem estou lidando.

— Felipe? — chamou Victor carregando facilmente o Luan e o Caique, um em cada braço.

— Ah, sim... — eu disse tentando não parecer o cara traumatizado, que estava olhando demarcações de cadáveres, como Victor certamente achou que eu fosse. — Estou indo. — eu disse vendo-o entrar indo atrás dele, sem pressa, enquanto os chuviscos noturnos tornavam-se mais fortes. Pensando bem, já deviam ser uma ou duas da manhã.

Lembro-me de ter pensado que eu precisava tentar dormir cedo para variar, quando ouvi aquela risada. Clara e familiar em meio ao sussurro fraco da brisa noturna.

— Ta-Tabhita? — consegui gaguejar, virando-me para o portão onde o coisa 1 havia metido a cabeça há apenas algumas horas.

Não havia nada. Nem luzes da vizinhança. Nem um vislumbrar de cabelos azuis... Foi então que o sorriso ecoou novamente assim como a chuva ficou mais forte.Talvez fosse minha imaginação, mas eu ainda fiquei ali parado por alguns minutos, tentando ouvir... Não sei bem o quê, mas ouvir.

Depois de minutos parado no chuvisco, tentando ouvir uma risada do além, Victor, esmo sem saber a razão do meu jeito de agir, me arrastou para dentro e me enfiou uma caneca de café goela abaixo.

Café requentado e sem açúcar. Argh!

— Felipe, vai tomar um banho e... Cama. — ele disse taxativamente. Acho que minha expressão não era muito boa e eu realmente deveria estar parecendo o maluco traumatizado dos cadáveres... Mas, só sei que nada disso passou pela minha cabeça na hora. Apenas a imagem da Tabhita dançava na minha mente, como uma memória distante.

Eu tenho certeza que aquela risada era da Tabhita.

Dormi o sono dos mortos e tenho certeza de que minha mãe fez campanha para que ninguém me acordasse, portanto, quando me levantei já era quase meio dia. Troquei de roupa, tentei deixar minha cara o mais apresentável possível e então desci.

Célia, a mãe da Tabhita, havia acabado de chegar. Ela conversava com a minha mãe quando me viu descendo as escadas e me lançou um sorriso caloroso. Nem parecia que a sua filha estava desaparecida. A Célia é assim, totalmente o oposto do Victor e, estranhamente, os dois parecem um casal de adolescentes. Ele nem parece ele quando estão juntos em uma mesma conversa.

— Bom dia, Célia. — eu disse tentando devolver o sorriso. Como eu disse, eu tentei, não garanto que tenha saído melhor do que uma careta.

— Boa tarde, rapaz. Boa tarde. — ela disse colocando um misto quente sobre a mesa e sinalizando para que eu fosse até lá devorar tudo. Surpreendentemente, eu estava mesmo com fome, então comi tudo.

— E as buscas? — eu perguntei sem delongas.

— Alguns vizinhos, alguns policiais e uns guias, saíram bem cedo hoje. Victor foi junto. — disse Célia parecendo perder o vigor que tinha até meio minuto atrás.

— Eles ainda não deram notícias. — disse minha mãe.

Eu queria ajudar a procurar também, mas não sou nenhum idiota. Não sei me orientar em uma floresta e tenho certeza de que os guias não estão propriamente seguindo trilhas. Eu só atrapalharia.

Tentei pensar no que eu poderia fazer para ajudar. Nada. Talvez bancar o adolescente normal e não encher o saco? Faltei aula e fiquei jogando a tarde inteira, quando me cansei, fui escrever nesse diário sobre o dia de ontem. Estava doido para sair e ir andar um pouco ou nadar, mesmo com o tempo nublado, mas se eu saísse... Eu poderia acabar perdendo alguma novidade... Portanto, lá estava eu, ruminando mau humor.

Fui lá para baixo de novo e, circulando pelos corredores da pousada, percebi que alguns quartos estavam vazios. Posteriormente, também, percebi a ausência de algumas barracas no gramado lateral. Acho que era de se esperar os turistas caindo fora depois de duas mortes grotescas como aquelas. Eles acham que é mera violência urbana.

Ah, doce ingenuidade.

Quando voltei novamente à cozinha, depois de esbarrar em um gordinho que riu de um jeito muito estranho para mim, entrei na cozinha e achei um recado da minha mãe:

Felipe, fui ao mercado com a Célia. Talvez a gente demore um pouquinho, ela não parece estar lidando muito bem com a situação. Qualquer coisa me liga ou então, fale com a Rosa.

Pedir algo para a Rosa quase me fez rir. Afinal, a Rosa é uma versão indígena da Cris. Sério, elas devem ter vindo de alguma espécie de clã secreto de domésticas de aura perversa.

Quando minha mãe, finalmente, voltou; as coisas começaram a ficar ruins. – As coisas sempre começam a ficar ruins quando já estão ruins. Isso é covardia, muita redundância na minha vida! – Ouvi o sino da entrada e ajudei-as a carregarem as comprar, só para ter o que fazer.

O sino da entrada tocou e um homem parecendo exasperado entrou abanando as mãos como se estivesse tentando falar com elas.

— Uma mesa! — ele disse. — Precisamos de uma mesa!

— Pra que você quer uma mesa? — eu inquiri e ele me olhou como se estivesse se divertindo, talvez tenha sido minha imaginação.

— Tem a da cozinha... — disse minha mãe desconfiada. — Por quê?

— É atrás? — perguntou o homem indicando de onde viéramos.

— Tem uma entrada pela lateral da pousada. — disse minha mãe em um misto de irritação e confusão. — Por quê? Você quer levá-la para algum lugar, é isso?

— Não. Não. — disse o homem abanando as mãos e saindo rapidamente.

— Ok, isso foi estranho. — eu disse encontrando o olhar interrogativo da Célia. Ela realmente se parece com a Tabhita, principalmente na cor dos olhos. Isso é meio incômodo, me fez desviar o olhar.

Ouvi a porta da cozinha fazer aquele típico rangido, de quando se abre. Não sei bem o que imaginei, – Talvez que o cara estivesse tentando roubar a mesa da cozinha? – mas cara... Como a imaginação pode ser gentil em certos momentos...

O mesmo senhorzinho com quem eu tropeçara mais cedo, seguido pelo o que acabara de perguntar pela mesa, entrou carregando um volume sobre o ombro esquerdo, revestido por um lençol pardo.

Meus olhos cruzaram com os seus e eu não soube decifrar o que ele estava pensando, parecia distante... Mas isso era o de menos, eu só estava tentando adiar o inevitável que veio assim que ele depositou o volume sobre a bancada de mármore da cozinha. O lençol escorregou um pouco, revelando um All Star personalizado com caneta esferográfica azul.

Eu voltei o meu olhar acusadoramente para o homem, sentindo o meu sangue gelar, mas não disse nada. Em algum momento ouvi Célia soltar um grito agoniado e, pelo canto do olho, vi minha mãe abraçá-la enquanto ela chorava e tremia descontroladamente.

— Nóis a achamos por ali nas mata. Nóis sente muito, mais ela num tá mais virva não. — disse o homem que carregara o cadáver, tirando o boné em uma tentativa desajeitada de mostrar suas condolências.

Dentre tudo o que eu poderia ter ouvido, aquelas eram as piores palavras possíveis.

Felipe, eu quero ir embora, ok? Cansei de você, desse fim de mundo... Não percebe que eu estou surtando?

Não lembro direito o que aconteceu em seguida. Sei que o homem disse mais alguma coisa, mas sua voz grave já não passava de um eco sussurrado nos meus ouvidos que pareciam captar um estranho zumbido. Andei até a mesa com as minhas pernas dormentes enquanto o mundo parecia desacelerar-se.

Felipe, eu quero ir embora, ok? Cansei de você, desse fim de mundo... Não percebe que eu estou surtando?

Puxei lentamente o lençol sujo de terra e só então percebi que minha mão tremia. Atrás de mim o choro da Célia parecia abafado. Os dois homens que me fitavam pareciam insignificantes... Tudo o que havia eram aquelas malditas palavras. Minha última lembrança não é de um sorriso de olhos ou de lábios. São de palavras, daquelas que se quer apagar e converter a meras mentiras o mais rápido possível...

Mas eram elas que retiniam insistentemente por minha memória quando, finalmente, fitei aquele rosto frio emoldurado por um emaranhado de cabelos azuis.

Felipe, eu quero ir embora, ok? Cansei de você, desse fim de mundo... Não percebe que eu estou surtando?

Olhando aquela expressão indiferente... Não soava como a Tabhita. Os cílios longos destacando-se na pele pálida, o silêncio... Acho que o silêncio foi a parte mais assustadora. Foi o que me fez voltar à realidade.

A Tabhita e o silêncio não são compatíveis.

— Você foi mesmo embora... — eu murmurei sentindo as lágrimas quentes resvalarem por meu rosto enquanto passava os dedos em seus cabelos que estavam úmidos.

Não sei se foi antes ou depois daquela sensação dolorosa travar minha garganta... Mas lembro-me de ouvir a chuva começar a despencar do lado de fora, como se carregasse seus lamentos em cada gota solitária e fria.

Fria como a Tabhita... Como o sorriso que jamais verei novamente. Como as tardes que se tornaram memórias intocáveis. Como as palavras que eu não disse e permanecerão perdidas no silêncio...

A Tabhita está morta.

Notas finais
Então, gente... Antes de mais nada, vamos deixar as mortes pra ficção, ok??? )quero dizer: não me matem!!!) kkkk Mas, e aí, o que acharam??? P.S.: Planejei esse cap antes mesmo de inventar o nome da Tabhita. =) Bjus, att^^