Noir

15 Ciel Bleu


Celine

- Chegamos, Fael! – Tentei animá-lo. Ele havia passado a viagem toda desenhando. O que será que era tão importante?
Paguei o taxista.
— Fael, o que você está desenhando? – Perguntei, pegando o desenho das mãos dele. O desenho era um retrato. Eu, um pouco mais velha, segurando duas bebêzinhas. O desenho era perfeito. Per-fei-to. – Fael, isso é... Lindo!
— São nossas filhas. Kathryn e Alicia. – Os olhos de Fael estavam perdidos no nada. O dourado de seus olhos começou a ficar opaco.
— Oi?
— São nossas filhas. Kathryn e Alicia.
— Desculpe, mas eu não lembro de ter ficado grávida.
— Você vai ficar, um dia.
— Fael, você está bem? – Preocupei-me. Ele começou a ficar meio mole. Apoiei ele em meu ombro. – Fael? Fael? – Chamei. Ele se soltou e me olhou. Os olhos dourados brilhando o suficiente para ofuscar minha visão. Então fiquei cega por um segundo e vi um imagem. Era eu, com duas garotinhas ao meu lado. Elas eram muito parecidas comigo. Eram as garotinhas do desenho, mas um pouco mais crescidas.
– O que aconteceu? Celine, que cara é essa? – Perguntou ele, sem saber o que estava acontecendo.
– Nada. – Menti. – Vamos logo. Chegamos no apartamento. Olhei o horário. O psicólogo chegaria às 5:00. Era 4:50. – Fael, eu chamei um... Psicólogo. Espero que você não reaja mal. – A campainha tocou. – Eu estarei no quarto de Jesse arrumando tudo para quando ele chegar ok? – Beijei Fael e me retirei para o quarto.
Que bagunça. Jake realmente não era um rei da organização. Cuecas, meias, camisas, calças, tudo jogado pelo quarto. Suspirei. Recolhi tudo, e então coloquei em um cesto na área de serviço. Voltei para o quarto. Arrumei tudo e recoloquei os móveis no lugar. Então vi no armário um cachecol. Senti o perfume dele. Polo Blue, Ralph Lauren. O perfume que Jake usava. Aquele cachecol...
Me lembrei do dia em que eu e ele havíamos começado o namoro.
Era inverno, e estava muito frio. Estávamos em um acampamento com a escola, e eu havia ido procurar meu colar, que havia caído em algum lugar lá fora. A neve praticamente impossibilitava a procura, mas eu não iria desistir. Foi o presente de minha mãe quando fiz 12 anos. Eu tinha 14, e ele 17. Eu estava quase congelando, mas eu não iria deixar de procurar. Então Jake apareceu.
— É isso que você está procurando? – Ele me entregou o pingente.
— Jake?
— Hm... Será que eu poderia te cobrar um beijo em troca disso?
— Não. Eu não serei mais um risquinho na sua lista de "quem eu peguei"
— Mas eu quero que você seja mais do que isso.
— E eu acho que posso te dar uma chance...
— Voltando ao início. Peguei o pingente quando ele caiu. Posso te pedir um beijo em troca?
— Acho que pode. – Respondi. Naquela época eu era apaixonada por ele. Era um amor platônico, claro. Jake era sempre o garoto popular, com várias amigas. Não que eu não tivesse muitas amigas, ou não fosse popular. É só que... Ele era mais velho, não ficaria comigo nunca. Então ele me beijou, e lá nós havíamos começado a namorar. Escondidos de Fael, que já era meu conhecido na época. Mas era de meu conhecimento que ele gostava de mim.
Eu voltei à realidade. Fui para a sala. O psicólogo havia ido embora.
– E então?
– Nada muito especial. Ele... Perguntou se eu tenho alguma habilidade especial. Eu respondi que eu desenho, e ele pediu que eu desenhasse mais.
– Isso é bom! – Então a campainha tocou. – Jesse! – Abri a porta. Jesse estava lá com suas malas. – É um prazer! Seu quarto é o terceiro da esquerda, ok?
– Eu estou exausto da viagem... Posso dormir um pouco?
– À vontade. A cama está arrumada! – Avisei. Jesse agradeceu e saiu.
– Eu vou tomar um banho. Fael, você quer algo?
– Não.
– Fael, você tem que comer algo... Já tem um tempo que você não come. Amanhã eu chamo uma cozinheira... Hoje nós podemos comer miojo. – Ri. Fael foi até a cozinha e ficou me esperando terminar de cozinhar o miojo. Terminei, coloquei o tempero e servi. Fael comeu sem interesse.
– Celine, – Começou ele. – Eu... Te amo. Por favor, não me leve à mal. É só que eu... Não estou com... – Eu beijei ele.
– Eu entendo. Fael, lembra-se das garotinhas do seu desenho?
– Sim. Embora não me lembre de tê-lo feito.
– Não importa. Um dia elas vão nascer, ok? Prometo. Agora vai dormir, eu vou tomar um banho.
Fael foi até o quarto e se jogou na cama. Entrei no banheiro e abri a torneira da banheira. Afundar na água morna foi praticamente uma bênção, não tínhamos banheiras no acampamento. Como eu sentia falta!
Saí da água, me vesti e fui dormir. Fael ainda me esperava acordado.
– Achei que você estivesse dormindo.
– Pesadelos demais. Celine, eu não quero dormir sozinho.
– Não tem problema. – Fael esticou os braços e eu me deitei neles. Ele me afastou um pouco assim que toquei-o, mas me abraçou novamente e tomou minha mão na sua. Não era muito bom dormir com um Fael que estava em depressão, mas era o melhor que eu iria conseguir. Se aquilo o ajudava, para mim estava ótimo.
Acordamos no outro dia com minha mãe me sacudindo.
Espere. Minha mãe não estava... Morta?
– Vamos lá, Celine, você tem aula.
– Ma-Mamãe? É você mesma? – Perguntei, apertando suas bochechas para conferir se não era uma miragem.
– Você queria que fosse quem? – Desconfiou ela, levantando uma sobrancelha. – Digo, normalmente eu estou fazendo filmes, e não em casa, mas... Bem, acho que sou eu mesma que estou aqui!
– Mamãe! – Gritei, pulando em cima dela. – Eu achei que nunca mais fosse te ver! – Comecei a chorar. Jesse surgiu na porta.
– Celine, venha cá um momento, sim? – Saí do quarto e acompanhei Jesse. Assim que chegamos à sala de estar. – Ela não sabe de nada que aconteceu. Celine, ela nunca esteve morta. Victarion nunca existiu, uma vez que Fael... Hm...Você sabe. Então sua mãe sempre esteve viva.
– Ah, faz sentido. Ainda assim é bom tê-la de volta. – Concluí.
– Sim. Agora eu vou me trocar, temos aula daqui a pouco. – Jesse saiu e foi se trocar. Quando adentrei meu quarto, Fael já estava trocado. Entrei no banheiro e me troquei também. Coloquei uma calça azul e um corset preto. Amo corsets. Mamãe nos levou até a escola. Mas não antes de me parar.
– Quem é esse Jesse? Você conheceu no acampamento?
– Hm... Ligue para Jake. Ele vai te explicar melhor do que eu.
– Pode ser. Vamos logo, você vai se atrasar! E chame Fael! – Ela e Jesse foram à garagem. Entrei no quarto. Fael estava sentado na cama. A mão ele estava em carne viva.
– Fael, o que é isso? – Franzi a testa.
– Me queimei no fogão. – Apressou ele. Mas era mentira. Os olhos dele diziam isso.
– Mentira. Vamos lá, Fael. Responda.
– Foi você.
– Fael, eu quero a verdade. – Mandei. Mas dessa vez seus olhos não mostravam que era uma mentira.
– Celine... É sério. Quer ver? – Ele pegou minha mão e tocou em seu braço. Depois de alguns segundos, sua pele começou a abrir-se em uma ferida.
– Fael, o que é isso?
– Eros. Quando nós dormimos no chalé dele... Eu tive um sonho, e Eros dizia que eu iria me arrepender de afrontá-lo dormindo em seu chalé. Acho que isso é... Uma punição.
– Mais uma vez meu pai avacalhando nossa relação...
– Celine. Existe algo que eu quero te falar.
– Sim.
– Eu não me importo se seu pai é um idiota. Celine, eu quero você. Você. Não me importa se tocá-la faz mal. Eu posso superar.
Fael me beijou. Intensamente, longamente. Eu podia sentir seus lábios se rachando com as queimaduras da maldição. Bem, para quem não conseguia amar, algumas queimaduras devem ser... Fáceis de suportar. Afastei Fael de mim.
– Fael. Temos que ir para a aula.
– Er... Você está certa. Vamos.
Fael e eu pegamos o elevador, entramos no carro e fomos à escola. Ao chegar lá, entrei junto com Jesse e Fael. Jesse havia conseguido adiantar-se um ano na escola, o que o colocaria em nossa classe. Assim que entramos, uma mulher nos esperava. E eu conhecia aquela mulher. Era Cheryl. E assim que nós sentamos, ela começou a falar.
– Bom dia classe! – Disse ela, simpática. Os garotos da sala começaram a cair o queixo. Olhei para Fael. Tomara que ele não babasse também. Hmpf. – Eu sou a nova diretora, Cheryl Ayleen!
Cheryl se apresentou, estranhamente gentil, e pediu que nós nos dirigíssemos ao laboratório:
– Bem, vocês irão conhecer o novo professor por lá... O nome dele é Jake. Tomara que recebam à ele assim como me receberam! Eu adorei vocês! Ah sim. Meninas. Ele é meu namorado. Então se alguém arrastar a asa pra cima dele... Teremos problemas.– Cheryl sorriu simpaticamente e saiu da sala. A classe saiu junto com ela. Assim que entramos no laboratório, vimos uma arara de jalecos nos esperando. Pegamos os jalecos, vestimos e entramos no laboratório. Lá, Jake nos esperava, com uma camisa polo roxo-escuro e um jeans preto. Ele estava usando algo como uma bandagem em um dos olhos, devido ao pequeno incidente com Cheryl no hotel, quando havíamos a conhecido.
– Bom dia classe. – Disse ele. Ao olhar para os lados, vi meninas quase caindo de surpresa. Jake era muito bonito para elas. Algumas quase caíram no chão. – Bem... Sou Jake Rouge. Ex-aluno daqui. Talvez algum de vocês tenha me visto por aí em anos anteriores. Bem, vamos lá. Tenho aula à dar.
– Professor. – Chamou uma garota.
– Sim?
– Em quais dias você nos vê?
– Todos os dias. – Jake sorriu com aqueles dentes perfeitos dele. As garotas soltaram suspiros. – De qualquer jeito, vamos logo. Em cima das bancadas, há alguns tubos de ensaio...
Jake terminou de nos dizer os procedimentos, e então Cheryl apareceu na porta.
– Olá, professor. – Disse ela, piscando para ele. – Será que você se importaria de me acompanhar por um minutinho?
– Claro que não, diretora. – Jake respondeu. – Jesse, vigie a turma por mim, sim? – Jake não esperou resposta. Jesse suspirou, se levantou e sentou-se na mesa do professor. Algumas meninas suspiraram, o que fez Jesse corar e ficar envergonhado. As meninas disseram "Ownnn", e Jesse ficou um pouco mais vermelho. Ele começou a brincar nervosamente com uma caneta em cima da mesa. Então uma das garotas o chamou. O tipo de garota que eu odeio. Uma patricinha bem vadia. Digo, muitos me chamam de patricinha. Mas eu não era uma vadia, definitivamente não.
– Jesse, eu tenho uma dúvida. – A garota pediu. Jesse ficou mais vermelho ainda.
– Acho que eu posso te ajudar. – Me ofereci. Levantei-me e me dirigi à mesa dela. Ela inventou qualquer dúvida. Então sentei na minha bancada, ao lado de Fael e terminei as atividades propostas. Então Jake voltou para a sala. O cabelo ligeiramente desarrumado. Então olhei ele um pouco mais. A camisa estava ligeiramente torta, e o zíper da calça estava aberto. Acho que era meio óbvio o que havia acontecido. Fui até ele.
– Professor, será que poderia me acompanhar ali fora um minuto? – Jake e eu saímos de sala. – Jake. Olhe para você.
– O que tem de errado? – Perguntou ele. Tirei um espelho do bolso e apontei para ele. – Ok, o topete está desarrumado. – Ele arrumou o topete.
– Jake. Sua camisa está torta e o seu zíper está aberto.
– Porcaria! – Praguejou ele. Ele fechou o zíper e arrumou a camisa.
– Jake, tenha mais cuidado!
– Vou ter. – Ele riu. Entramos na sala. A classe nem me olhou, Jake era muito mais chamativo. Na verdade, falo das meninas. Os meninos olharam sim.
– Usar corset na escola não é uma boa ideia, Celine. Fica a dica. – Jake sussurou no meu ouvido.
– Anotado. Amanhã vou vir comportada. – Ri dele.
Passamos o resto do dia em aula. Fael estava até se comportando bem.
Quando voltamos à Chicago, imaginei que fosse virar um tipo de mãe para Fael, mas não foi assim. Passamos dois meses por lá, e estava tudo indo bem. Fael estava até superando a depressão. Seus desenhos das tais Kathryn e Alicia ainda me incomodavam um pouco, pois eu nunca havia pensado em ser mãe de gêmeas. Mas se aquilo o ajudava a sair da depressão, eu poderia suportar.
Um dia chuvoso, após a aula, Jake me chamou no terraço. Estava chovendo um pouco, mas ele não parecia se importar. Estava parado, olhando para onde o Sol deveria estar se pondo, e estava meio molhado.
– Por que me chamou? – Perguntei.
– Celine, nós passamos por muitas coisas juntos.
– Eu sei. Mas... Por que está falando isso?
– Eu queria aproveitar a oportunidade. Vê o céu? Hoje ele está escuro. Preto. Noir, preto em francês, a língua que você ama. Mas ele virá a se abrir um dia.
Parecia brincadeira, mas assim que ele disse isso, o céu começou a se abrir, revelando o céu azul.
– Sabe, Celine. Você sabe que poderia ser diferente. Você poderia sofrer menos se houvesse me escolhido ao invés de escolher Fael. E eu poderia ter te escolhido ao invés de escolher Cheryl.
– O que está insinuando?
– Que nós fizemos as escolhas certas. Ou talvez não estivéssemos conversando agora.
– Jake, muito obrigada.
– Por quê?
– Por ser meu melhor amigo. Meu professor. Por estar aqui. Por ter... Morrido por mim. – Recostei minha cabeça em seu ombro.
– Eu acho que também devo te agradecer por ser minha melhor amiga. Celine, você não poderia ser mais perfeita para Fael. Acho que eu nunca disse que você é mais do que eu mereço. Mas você é. Você é a melhor amiga que alguém poderia querer.
– Talvez o céu esteja dizendo que estamos no caminho certo.
– Sim... O céu está azul... Como se diz céu azul em francês?
– Ciel Bleu. – Respondi, abraçando Jake.
Tudo iria melhorar, eu tinha certeza.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!