O monge de Fentus

Paz. Essa é a palavra pela qual ele buscava e ansiava desde que havia voltado. Seu nome, ninguém sabia. Movia-se devagar pela cidade e vivia da benevolência das pessoas. Seu cabelo cumprido era disciplinarmente escovado e caía em uma trança bem feita pelas costas. Vestia roupas simples, uma blusa de algodão branca com três botões negros, calças negras e sandálias nos pés.

O monge rezava suas preces para o deus de duas faces. Seu templo ficava no alto da colina de Hatur ao norte da cidade de Fentus. Todos os dias ele descia as escadarias relaxadamente. Ao pé da colina, estava a arvore de Fentus, uma linda e inigualável árvore de tronco largo, folhas em forma de estrela e das mais variadas cores. Cresciam apenas por aquela região e suas flores eram usadas em chás e remédios. O homem olhou para uma flor caída ao chão e sentiu o vento cortar o local, era o fim da primavera. Aspirou o aroma doce que permeava o local e voltou a sua caminhada em direção à cidade.

Fentus era uma cidade movimentada, cortada pelo rio Thannis o que a fazia importante para a rota de comercio de ceda, matéria prima para artesões e especiarias. Infelizmente seu solo não era propício para o plantio mas seus artesões eram superestimados e faziam jus aos seus nomes. A cidade possuía muitas ruelas apertadas onde pessoas se movimentavam freneticamente negociando, resmungando e roubando. Suas ruas cheiravam a açafrão, poeira e algo entre perfumes, suor e excrementos.

O monge cortou a rua do mercado desviando das pessoas como quem afasta folhas de uma árvore de seu caminho. Dobrou uma esquina, entrou em um beco, depois subiu um lance de escadas até um sobrado e parou diante de uma porta de madeira antiga ornamentada com desenhos entalhados a mão. Observou a lua minguante no topo do vão e se curvou em sinal de reverencia. Por de trás um senhor acenou com a cabeça indicando para que o jovem homem entrasse no recinto.

O cheiro de fumo e madeira foram inalados pelo monge e um sentimento nostálgico lhe veio a memória. Um sorriso amarelo o esperava sentado em uma cadeira de madeira de balanço. Sua pele escura contrastava com a tez alva do monge. A idade avançada e os olhos fechados não impediam o velho Abigail de manusear com maestria uma pequena faca de esculpir e um pedaço de carvalho vermelho.

— O que o traz aqui dessa vez monge? – Cuspiu as palavras com um sotaque carregado.

— Olá Abigail. É sempre um prazer vê-lo em sua plena saúde. – O monge respondeu polidamente, mas com um sorriso jovial no conto dos lábios.

— Monges não deviam ser tão sarcásticos. – Grunhiu o velho. – Mas eu sei quando um velho amigo fala comigo. – e riu.

— Como vai a saúde Abi? – puxou um banco simples do canto da sala e sentou-se de frente para o carpinteiro. – Soube pelo seu filho que você teve outra crise. – O tom de preocupação era evidente em sua voz.

— Aquele moleque tagarela e ridículo não consegue ficar com os culhões dentro das calças quanto mais com a língua entre os dentes. – E cuspiu pela janela. Ouviu-se um grito de nojo e palavrões ao longe. Ambos riram um pouco e voltaram à conversa.

— Ainda é a tosse? – O monge retirou de um de seus bolsos uma pequena embalagem e pousou em sua perna. – Você não tem tomado seus remédios, certo? – E levantou a sobrancelha, como uma mãe ao repreender o filho.

— Essa coisa é ruim, amarga e me deixa com um gosto ruim na boca que até mesmo meu cachimbo não consegue tirar. – Ele praguejou baixo e voltou a falar. – Tire isso de perto de mim.

Abigail soltou o pedaço de carvalho vermelho em cima da mesa e puxou seu cachimbo longo. Do bolso de seu avental puxou um tanto considerável de fumo, jogou dentro do cachimbo e em um estalar de dedos estava fumando. O monge sorriu e jogou a embalagem com os remédios cuidadosamente preparados em cima da mesa.

— Isso sim é vida. – Falou o velho.

— Você devia me ouvir mais vezes velho amigo, isso ainda vai te matar, de novo. — O monge mostrava todo o carinho de um filho para com seu pai.

— E você devia escutar os mais velhos. – o sorriso amarelo de Abi se escancarou e se fechou. – O que veio buscar está na bolsa, ao pé da mesa monge.

— Obrigado Abi.

O monge levantou-se, estendeu o braço para pegar a bolsa e foi surpreendido pela mão firme de um homem totalmente diferente daquele que com ele estava falando. Abi mostrava uma força que não condizia com sua idade e seus olhos, abertos não mostravam pupilas ou íris, apenas o brilho de milhares de estrelas que reluziam, chegando ao ápice de seu brilho para logo em seguida morrer.

— Algo está acontecendo monge. – Alertou Abi. – O panteão não se agita assim desde que o deus trapaceiro Klain roubou a lua e a repartiu em duas. Algo está mexendo com os firmamentos e não consigo saber o quê. — Sua voz era dura e velha, muito velha. Como o som de metal raspando a pedra.

— Não tenho mais nada com isso Abigail. – Falou o monge calmamente, mas com o semblante carregado. – Isso ficou no passado. Sou tão mortal quanto qualquer outro ser mortal. Esses assuntos não me interessam mais. – E se largou do aperto da mão do velho Abigail. Que se retraiu e voltou a ser apenas um velho.

— Somos amigos a muito tempo rapaz. E é isso que amigos fazem, avisam quando a coisa começa a feder. – E cuspiu. Resmungou um pouco consigo e voltou a falar. – Não conseguirá manter essa fachada por muito tempo. Temo que não nos veremos mais velho amigo. – bateu seu cachimbo no braço da cadeira de balanço, jogou mais fumo no cachimbo e voltou a soltar baforadas para o ar.

O monge pegou a bolsa, jogou-a nas costas e saiu pela porta. Ao sair, mais uma vez curvou-se em sinal de reverencia e refez o caminho até o tempo do deus de duas faces. Pelos corredores do templo viam-se os monges, orando, lutando ou somente meditando. O local cheirava a incenso, velas e pergaminhos. Entrou no salão principal e desceu por uma porta anexa até o sala comum, onde eram feitas as refeições. Cortou mais um jogo de corredores e entrou em seu quarto.

Não havia nada de especial no quarto; uma janela que dava para o lado oposto de Fentus, uma cama de palha, uma cadeira e uma escrivaninha com livros e pergaminhos antigos. Fechou a porta as suas costas, sentou-se à mesa e colocando a bolsa sobre ela a abriu vertendo seu conteúdo com cuidado.

Uma pequena caixa de madeira trancada. Não se via fechadura, dobradiça ou emenda. Era um pedaço perfeito de madeira retangular escura, brilhante e muito bem polida. E apesar de não haver nada que demonstrasse que aquilo era uma caixa, havia em seu interior algo. Ele olhou para ela com tristeza pegando-a com as duas mãos. Apesar de caber na palma da mão de um adulto, pesava como um pedaço de ferro fundido. Depositou-a ao lado de um livro trancado.

Três velas usadas, uma verde e duas negras. Ele as enrolou ao com um pano simples e colocou-as ao lado da caixa de madeira. Um par de luvas de couro, uma camisa de algodão simples, um par de botas escuras e calças de caça. O monge jogou as vestimentas na cama e pegou o último item no fundo da bolsa: um pedaço dobrado de papel, delicadamente dobrado, e enfaixado com uma fita vermelha.

O envelope estava manchado pelo tempo, água e sangue, mas seu conteúdo estava intacto. Ele o pegou com cuidado, como se fosse feito de algo mais frágil que vidro. Retirou o laço e o desdobrou, revelando uma carta escrita com tinta feitas a partir de conchas do mar do sul, um lugar muito distante de Fentus. Não a leu, apenas a segurou. Retornou-a para o envelope e cuidadosamente refez o laço com a fita vermelha. Destrancou o livro e descansou a carta cuidadosamente dentro. Voltou a tranca-lo.

Os minutos se arrastaram enquanto o monge observava os itens sobre a mesa, reminiscências de um passado longínquo. Não havia mais nada de monge em seu rosto. A paz que ele buscava estava chegando ao fim ele tomou a decisão. Era hora de partir. Retirou a vestimenta de monge a dobrando com cuidado enquanto a depositava na cama. Vestiu as calças de caça e o restante da vestimenta, retornou o livro, a caixa e as velas para dentro da bolsa e soltou a trança que pendia de sua cabeça.

Os olhos castanhos varreram o quarto na busca de algo que pudesse ser usado contra ele. Soltou um longo suspiro de tristeza. Apesar de não ser monge, ele não queria partir, havia se tornado algo na cidade, ajudando as pessoas. Curando doentes. Mas sabia que uma hora partiria dali, nada dura para sempre. Abriu a janela e saltou por ela. Pousou suave em uma pedra e escorregou pela encosta até encontrar o riacho que rodeava a colina de Hatur.

Olhou para o céu. Era por volta do meio dia. Nuvens ao sul indicavam que uma tempestade vinha de encontro a ele. Virou para o norte e começou seu caminho para a cidade de Galbar. Pegou o livro trancado, retirou a tranca, abriu com cuidado e escolheu uma palavra ao acaso. Leu toda a frase onde se encontrava a palavra escolhida.

— “De incerteza chorou o deus de duas faces, de felicidade fingida sorriu, de ódio matou, de tristeza morreu.” – Parou, olhou para a citação, sorriu tristemente e continuou a andar.

Era o fim da primavera.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.