No submundo da guerra
1 Capítulo Único
Notas iniciais
- Crônica escrita em primeira pessoa sob o pseudônimo de Jacques Perrisé, criação do próprio autor.
Fico feliz quando encontro pessoas que comentam de forma idílica a beleza de vossas juventudes e a saudade que estas possuem de seus dias alegres e ternos momentos entre seus amigos e familiares. Pois com isso tenho a completa certeza que nem todos tiveram a mesma sorte que tive.
Minha infância foi muito conturbada, no pior sentido que essa palavra possa ter. Nasci em 14 de Junho de 1789, um mês antes de a Revolução derrubar a Bastilha de Luís XVI e mostrar ao mundo o sentimento de justiça que ainda vive em nossos corações. Minha mãe era da vida e justamente por isso que a agradeço com todo o meu amor por ter me dado à honra de viver, já que nem toda cortesã permite que seu filho venha ao mundo.
Fui criado por um padre que havia se disfarçado de camponês para não ser perseguido nos tempos de Terror. Ele era uma pessoa bondosa e desapegada dos bens-materiais (o que contrastava e muito com os frades parisienses). Seu nome era Irineu Chateau. Ensinara-me a ler e a escrever — um privilégio na época – tanto em latim quanto em francês. Graças ao seu empenho, consegui ter uma infância tranquila e honesta, mas o que me deixa intrigado é a forma avassaladora que o tempo passa e os conflitos na França persistem.
Irineu não me deixava ver as execuções que aconteciam em praça pública e nem passar pelas ruas que um dia antes foi palco de guerra. Tudo isso para evitar o máximo possível que eu visse a morte. Não poderia esconder essa informação ao leitor, já que foi por esse pequeno detalhe, que uns consideram até como uma trivialidade de minha parte, que me abalou profundamente quando entrei pela primeira vez em um campo de batalha.
Como um raio, minha infância caiu no passado. Irineu tinha uma saúde de ferro, mas como todos sabem, até o ferro está sujeito à ferrugem. Ele morrera quando eu tinha meus 17 anos. Já tinha visto a morte de perto quando fui fazer uma entrega de carvão para alguns comerciantes da Rue Floretim. Houve um pequeno conflito entre grupos de girondinos e sans-culottes, em que os primeiros foram derrotados e suas cabeças foram parar em pontas de lanças. Mas naquele dia foi diferente, ao contrário das cabeças empaladas, eu conhecia Irineu e tinha por ele grande respeito e afeição. Vê-lo morrer gradualmente de tuberculose foi angustiante... Porém inevitável.
Como não tínhamos muito dinheiro, eu e alguns amigos próximos o enterramos em um terreno afastado de Paris. O leitor pode achar uma falta de respeito da minha parte, porém achei essa opção mais honrosa do que jogá-lo no rio Sena, como muitos parisienses faziam quando não tinha dinheiro para enterrar seus entes queridos em cemitérios.
Sozinho no mundo e com poucos recursos, não tive outra escolha se não servir ao exército francês. Cheguei a um dos postos de recrutamento e ingressei no exército de Napoleão Bonaparte.
Sinto-me até arrepiado quando digo este nome. Toda a juventude francesa o tinha como um grande herói – apesar de ser uma pessoa mirrada, de baixa estatura e com um grande ego – todos na artilharia comentavam o seu grande intelecto e sua postura austera no comando das tropas.
Era o ano de 1806. Nosso Imperador tinha assinado o Decreto de Berlim, uma espécie de bloqueio continental a Inglaterra. O meu regimento foi incumbido de invadir a Espanha e “abafar” um grupo de revoltosos armados que ainda não foram convencidos a aceitar a figura de nosso Digníssimo Comandante.
Se ainda não disse isso ao leitor, eu o faço agora: toda essa bajulação à figura de Bonaparte é meramente estética, para mostrar a vocês o quanto meus colegas o reverenciavam. Mais adiante revelarei minha opinião sobre ele.
O dia mal começava e o General Ary Fàrssiox nos despertava ao som do trompete. Ele poderia mandar algum soldado fazer isso, mas como gostava de xingar e dá ponta-pé em seus subalternos, não achara necessário. Todos deveriam se vestir rapidamente e comparecer a frente de comando.
Seguimos até uma área plana e nos organizamos em fileira. O general deu ordens expressas para que só tivéssemos o desejum após andarmos algumas milhas à frente. Arrumamos nossas bolsas e carregamos as carabinas, caso encontrássemos inimigos em algum ataque surpresa.
Se eu ou algum de meus colegas ficasse com os sapatos rotos, ficaríamos descalços, pois demorava muito para que o governo nos enviasse fardamento e calçados novos. A comida também era escassa e muito ruim, do tipo que você só tinha duas opções: ou come ou morre de fome.
Quando finalmente tivemos autorização para comer, já era mais de meio-dia. Alguns de meus companheiros pegavam os ratos que encontravam no chão ou em seus mantimentos e os assavam com sal e banha de porco.
Chegamos até a cidade de Barcelona em quatro dias de viagem. Encontramos os revoltosos e matamos boa parte deles. Só prendemos umas 25 pessoas, só que uma das poucas qualidades que o General Ary Fàrssiox não possuía era piedade. Ele mandara fuzilar todos os presos, não importando se estes eram mulheres, crianças ou idosos...
Não entendia o motivo das guerras. Nós, os soldados, somos forçados a matar e a odiar nossos inimigos, mesmo não os conhecendo. Todos têm familiares, todos têm amigos, todos têm mulheres, todos têm pessoas que nos amam... Mesmo assim matamos em nome de nossa pátria, pátria essa que pregava a Liberdade, Igualdade e Fraternidade... “Fraternidade”. Até agora busco essa palavra nas imagens de nossos antigos reis e em nosso atual Imperador, mas não consigo encontrar.
Depois de calada a revolta, fomos liberados temporariamente de nossas funções. Era uma espécie de férias que o General nos agraciava após as batalhas. Pode parecer fantasia minha, mas nem todos os soldados em guerra ficavam anos a fio em campos de batalha. Normalmente, quando qualquer militar fica muito tempo recebendo tiros e vendo seus colegas morrerem, acabam cometendo suicídio, por isso que nossos comandantes nos dão essas regalias de vez em quando.
Fiquei na casa do meu amigo da infantaria, Gravouch Siédon. Apaixonei-me pela sua irmã Fantine e como achava que não duraria muito nessas “guerras napoleônicas” (como era costume falar em Paris), casei-me com ela. Mas para minha infelicidade, ela ficara grávida dois meses após o casamento. Não que isso seja ruim, caro leitor, mas fui convocado novamente.
Passei longos meses na guerra. Quando voltei, ela estava com minha filha nos braços, esperando-me em frente à porta de casa. Não consegui esconder minhas lágrimas. Beijara as duas com muita comoção e rezava todos os dias para que meu bom Deus não me separasse nunca das duas.
Só que o tempo somado com as guerras resultava em uma equação funesta na minha vida e na de todos os franceses.
Tinha agora 23 anos de idade. Minha filha Genevive estava para completar seus cinco anos de vida. Mas o infeliz Imperador quisera fazer uma investida final contra a Rússia. Pensei com meus botões que não seria mais convocado, pois já era pai de família, tinha conseguido um emprego de alfaiate, graças aos ensinamentos de Irineu na minha infância. Eu era bom no que fazia. Tinha uma boa clientela e dava tudo de mim para sustentar minha família, a qual lutava para que fosse muito unida. Tanto é que fiz de Gravouch meu sócio.
Porém, meus pensamentos foram todos em vão. Napoleão Bonaparte queria a maior quantidade possível de soldados. E para meu desterro, ele prezava tanto a quantidade quanto a qualidade de seus comandados. Os mais jovens seriam convocados em massa. E, traduzindo para minha linguagem, não tão cedo veria minha família novamente. Despedi-me de todos e, junto com Gravouch, fomos para a guerra.
Foram em média 600 mil homens recrutados para invadir o território russo. Meus colegas estavam, por sinal, muito otimistas. Segundo eles, os russos são muito vulneráveis, enquanto que o exército napoleônico era forte e invencível. Mas o tempo iria provar o contrário.
Para os leitores terem uma idéia das dimensões de uma guerra, vou dar uma pequena descrição da minha última batalha: desespero, fumaça, tiros e cadáveres. É com essas poucas palavras que podemos descrever qualquer guerra desde a invenção das armas a base de pólvora. Eu e Gravouch tínhamos que ficar sempre abaixados para não sermos atingidos pelas costas. Era bem assim que acontecia: a fumaça encobria nosso horizonte, da mesma forma que as brumas encobrem Paris no inverno. Se não me engano, um terço de meus companheiros pereceu por nossas próprias armas.
Os tiros mencionados acima nem se comparam com a chuva de pedaços de corpos mutilados que caem do céu quando uma bala de canhão atinge um ponto com muitos homens, ou seja, em todo lugar.
Depois que os ataques terminam outro sofrimento começa... Verificar se seu amigo morrera ou sobrevivera. Foram várias às vezes em que fui dado como morto até me apresentar ao pelotão horas mais tarde.
Agora que já descrevi, de uma forma superficial, o espetáculo mortífero das guerras, vou narrar o que ocorrera com as nossas tropas no território russo.
Nos primeiros meses de nossa invasão (isso mesmo... meses!) nos deparamos com poucos inimigos e estes foram eliminados sem piedade por nossas armas. Mas o que me deixou intrigado e aos meus companheiros também, foi a pouca quantidade de inimigos que se depararam conosco. Cada cidade pela qual passávamos estava deserta e carbonizada. Só depois quando invadimos Moscou percebemos que os russos fizeram aquilo de propósito para enfraquecer nosso exército e nos atacar, quando partíamos em retirada.
Foi um dos momentos mais desesperadores da minha vida: tínhamos que andar umas 40 milhas diariamente. Sempre olhando para trás, por causa da constante ameaça russa. Meus pés faziam bolhas enormes e que consequentemente provocava dores excruciantes. Minhas roupas estavam andrajosas. Não tínhamos mais nada para comer. Quando algum de nossos cavalos perecia, muitos homens disputavam até o último naco de carne. O inverno nessas regiões nortistas era muito rigoroso. O frio era tão intenso que doía meus ossos e enrijecia minhas mãos. Não se podia colocar a língua para fora da boca se não quisesse congelá-la. A morte levava centenas dos meus companheiros diariamente. Retornamos para casa tristes, desanimados, cabisbaixos e com o gosto amargo da derrota.
Retornei para Paris em 1812 e, antes mesmo que surgisse uma nova convocação para qualquer guerra que viesse, procurei um amigo brasileiro que conheci quando este estava cursando direito na Universidade de Sorbonne. Pedi a ele que quando retornasse me emprestasse alguns francos para comprar passagens para o Brasil. Minha família me olhara com desconfiança quando dissera que íamos deixar nossa amada França. Mas era o único modo de garantir nossa paz, longe dos algures de guerra.
Antes que me esqueça, minha opinião a respeito de Napoleão Bonaparte é simples e direta: “quem se eleva, será rebaixado”. Era o que Irineu me falava quando o perguntava a respeito dele. Sendo assim, faço das palavras dele as minhas.
Despedimo-nos de nossos amigos e fomos para o Brasil. Quem sabe algum dia conte a vocês as peripécias que me ocorreram nesta colônia selvagem, cheio de doenças e habitado por pessoas curiosas. Mas uma coisa lhe digo, caro leitor, a beleza da paisagem deste país nunca vi em lugar algum.
Para minha querida França, ficam minhas saudades e meus dias insalubres de guerra na juventude. Para essa colônia, fica a minha esperança... Esperança de dias melhores. E uma das coisas que essa minha vida me ensinou é que as guerras não são apenas selvageria do homem, e nem a inexistência da razão, elas são os lembretes do Além para mostrar o quanto de dinheiro nós buscamos e o quanto de amor nos falta.
Rio de Janeiro, 22 de janeiro de 1818.
Notas finais
Atenciosamente, Jacques Perrisé.
Fale com o autor