No escuro

1 No escuro eu enxergo melhor


Notas iniciais
Ol!! Quem quiser ler o poema antes, http://www.releituras.com/alphonsus_ismalia.asp
Boa leitura, xoxo!

A garota, alta e magra, já não caminha como antes, anda cabisbaixa, com passos que riscam o chão. Um longo casaco preto cobre todo seu corpo deixando apenas o fino e delicado rosto exposto à luz do seu quarto. Sentada em uma grande cadeira vermelha no canto esquerdo da sala, analisa calmamente, sem nenhuma reação, todo o cômodo que um dia fora repleto de móveis coloridos e polidos . Já não sente mais vontade de se levantar, de voltar a pintar telas e mais telas no antigo quarto, se mudou, agora vive cinco andares acima das telas. Vive assim, ela e a cadeira.

Antes visitava outros cômodos, mas aos poucos foi trancando cada sala e derretendo todas as chaves, não sentia mais vontade de ver suas antigas pinturas, ou de ver cada decoração colocada com muito cuidado em lugares diferentes a cada dia e, hoje, apenas muda sua cadeira durante a noite. Não tem mais ocupações e com isso, raramente tem sono e cansaço, a fome não a incomoda, aprendeu a deixar algumas necessidades de lado. Sua diversão se dá pela noite, mesmo que não demonstre. Durante o dia anseia desesperadamente pela escuridão. A claridade do dia machuca seus olhos e queima sua pele que já está tão branca que seria possível confundi-la com um lírio. Assim , para sua própria segurança, se acomoda junto à sua grande cadeira no ponto cego do quarto, onde a luz não atinge em horário nenhum do dia.Quando o quarto mergulha nas sombras escuras, que antes lhe causava calafrios, a garota finalmente se sente segura. Aquela esperança de a noite chegar finalmente começa a transparecer. Embora não tenha com quem dividir a difícil missão de arrastar a grande cadeira vermelha até a janela, a garota não teme, não se cansa, nem ao menos para pra respirar, guarda forças durante todo o dia para poder levar seu meio de conforto até a ponta triangular do quarto onde se encontra uma pequena janela.

Ao terminar a tarefa, fica ainda parada nas sombras esperando, por alguns minutos, uma luz que aos poucos toma conta de todo o lado direito do quarto. Com cuidado, a garota ultrapassa a barreira entre a luz e as sombras com as pontas dos dedos, embora faça isso todos os dias, ainda tem medo da luz, tem medo de não conseguir enxergar e de queimar sua pele sensível. Aos poucos mergulha na imensidão cinzento-azulada Na única luz que não a fere, apreensiva, só se sente segura por completo para se despir quando se senta em sua grande cadeira vermelha. O grande e pesado casaco cai ao chão, deixando o corpo alto e magro brilhar com a luz que entra da pequena janela. A garota, agora se sente segura, se sente alegre e calma. Sentada, nua, banhada pela luz que entra pela pequena janela, a garota entra em sono profundo, dorme com a luz calma que não a machuca, a luz do luar.

Os sons calmos, o canto alegre dos pássaros faz a garota se assustar nervosa como se seu segredo tivesse sido descoberto. Veste-se rápido e arrasta sua cadeira tentando arranjar forças de onde não tem. Ainda zonza do sono pesado em que caíra, tropeça em seus próprios pés varias vezes, muitos desses tropeços resultam numa queda dolorida, seu corpo magro e fraco se choca com o chão, vários estalos agudos juntamente com gemidos abafados ecoam pelo quarto preenchido apenas pela sua existência. Quandofinalmente consegue posicionar sua cadeira na extremidade mais distante da janela, se senta apreensiva, a luz quente e alaranjada invade o cômodo de modo tão rápido que a garota só solta o ar quando se convence de que a luz não vai atingi-la. Cotovelos roxos e joelhos tortos, a garota havia deslocado um dos joelhos numa das quedas, mas não demonstrava dor em sua fisionomia, seu rosto refletia a mesma expressão de sempre, um tédio doloroso.

A garota repete esse mesmo ritual todos os dias, até que no meio de um sono calmo e profundo, mergulhado na luz azul refletindo brilhos em sua pele, não desperta com os sons dos pássaros como todos os dias, seu despertador, o sinal de que o perigo se aproxima, não foi o suficiente para acordá-la.

O calor aos poucos deixa o quarto abafado e expulsa a brisa fria da noite, e a luz clara e forte do sol começam a invadir o quarto e em segundos alcança o corpo nu sentado em uma cadeira vermelha. A calma e serenidade estampada no rosto da garota agora não passa de desespero e dor profunda. Sua pele branca, que por muito tempo não recebeu luz solar, arde e queima, não mais branca, a garota agora está vermelha. Sem conseguir reagir por estar tomada de surpresa pela dor intensa, , a sensação da luz penetrando seu corpo é pior do que a de seus ossos se chocando com o chão. Sua boca elimina gritos apavorantes, perde as forças e não consegue se mover, não consegue achar seu casaco para tapar a luz, não enxerga nada, apenas uma luz que faz seus olhos arderem de forma que se torna impossível deixá-los abertos.

Sem conseguir reagir, passa todo o dia gritando e se contorcendo em sua cadeira vermelha, banhada com os raios brilhantes do sol. Quando a noite chega e o quarto se afunda na escuridão o corpo, agora sem forças, apenas relaxa e da boca seca e rachada da garota gemidos ecoam sincronizados com as ondas do mar, que batem na parede de sua vazia casa que se encontra cheia de dor.

Depois de algumas horas se banhando do luar, a garota analisa seu corpo queimado e machucado, seu pele fina se rachou com a temperatura elevada do dia, sua cadeira vermelha ganha manchas num tom mais escuro, o sangue da garota mancha todo seu conforto. Não está mais segura. Seu ritual, seus cuidados, sua apreensão não foram suficientes para sua proteção. Ela precisava sair e se livrar daquele quarto que a feriu tanto, não podia mais arriscar de se expor ao sol. Olhou para fora e a única coisa que avistou foi a lua no céu, e desejou poder voar para alcançar sua proteção. Com gemidos, se apoiando nas paredes, chegou até à janela e olhou o mar que estava calmo.

Não existia apenas uma forma de proteção. A tão desejada luz sombria, da lua, que fazia seu corpo brilhar e relaxar também estava presente na água. Não era preciso saber voar, apenas conseguir pular, e então mergulharia na proteção e calmaria que tanto desejava. Seu corpo, que há tempos não recebia nutrientes, estava magro e passava tranquilamente pela janela pequena. Sem pensar duas vezes, decidida, salta em direção à lua submersano mar. Seu corpo queimado, em contato com o vento, se congela e traz o conforto do frio a garota, que antes de seu corpo atingir a água, solta um sorriso que nunca havia expressado antes. E no momento mais feliz de sua vida, o corpo fraco e sensível estala na água. Finalmente a garota alcançou toda calma e proteção que tanto ansiava.

Notas finais
O que acharam?!?! Espero de verdade que tenham gostado, esse texto é muito importante pra mim... Obrigada!!!! E milhões de obrigadas para a fofa da Shadow Girl, me ajudou muito betando minha fic, sendo um doce e tendo muito paciência comigo!! ♥
XoXo
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!