No erro, o acerto [Hiatus]
3 Melissa: a Humana
Notas iniciais
Encarei o escuro após acordar chutando a coberta. Meu coração disparado no peito informava que eu acabara de ter um pesadelo. Uma queda, conseguia me lembrar. Resmunguei qualquer coisa, enquanto me sentava e passava a mão pela boca, limpando a baba.
Soltei um bocejo, me lembrando vagamente do sonho. Havia um cara, isso mesmo. Ele tinha os cabelos prateados e olhos cor de mel. As feições delicadas o tornavam quase um andrógeno. Os músculos do peito nu e dos braços eram firmes contra mim. E também… asas, prateadas como seus cabelos, exuberantes contra a noite.
No sonho, o garoto parecia que me deixava cair de forma desajeitada, se inclinando inutilmente na minha direção. Mas que grande idiota.
Poderia ter sonhado com um homem ao menos útil. Sorri sozinha. Muita imaginação deveria ser efeito do cansaço.
Levantei-me e fui até a cozinha, virando um copo de água gelada no mesmo instante em que a porta da frente se abriu, revelando uma figura cansada, que arregalou os olhos em surpresa.
— Acordada a essa hora, Mel? — indagou meu pai.
— Algum problema com isso? — indaguei rispidamente enquanto deixava o copo na pia e ia até ele.
Peguei a mochila pesada que carregava, e levei até o escritório.
— Eu não vou ficar! — ele gritou do outro cômodo.
Caminhei de volta para a sala a tempo de vê-lo colocar um pequeno bolo de dinheiro sobre o balcão da cozinha. Cruzei os braços e me recostei na parede, o encarando.
— Vou para a casa de Sílvia. Seus irmãos estão bem?
— Ótimos. Como se isso fizesse alguma diferença para você.
— Não seja rude quando é tão tarde — comentou, completamente alheio enquanto saía. — Amanhã eu trago mais. — Terminou, se referindo ao dinheiro, e fechando a porta.
Fiquei parada ali por um instante. Era um momento raro em que via meu pai. Ele trabalhava como taxista, de forma que ficava fora desde cedo até bem tarde da noite, e às vezes recebia ligações de clientes no meio tempo que sobrava da madrugada ou então ia para a casa de Sílvia, sua namorada.
Caminhei pela casa até o quarto dos meus irmãos e os observei da porta aberta. O abajur em formato de bola de futebol iluminava o rosto adormecido de Cecília, e Ícaro estava amontoado sobre ela, a boca babando no braço da irmã o qual deveria estar mordendo antes de apagar.
Atravessei o quarto e ajeitei Ícaro, que resmungou e abriu um par de grandes olhos pretos na minha direção.
— Mamãe — ele murmurou, segurando minha mão, e eu nem me dei ao trabalho de corrigí-lo. Nossa mãe havia nos deixado assim que ele nasceu, de forma que Ícaro havia crescido vendo uma espécie de figura materna em mim, e muitas vezes eu acabava fazendo juz à isso. Na minha cabeça, Ícaro era meu.
Suspirei, me metendo entre eles no colchão, e sentindo meu irmão mais novo agarrar-se a mim para dormir.
Fechei os olhos, acariciando de leve o cabelo dele, e, por trás das minhas pálpebras, tudo o que vi foi o rosto de um anjo.
—Cecília, você está atrasada! — gritei da cozinha, arrumando a lancheira de Ícaro, que me encarava do outro lado do balcão com cara de sono.
— Eu quero dormir! — ela bradou.
— Você vai pra escola! — rebati.
— Não quero!
Fechei o zíper e respirei fundo.
— Ícaro — murmurei, observando-o entender meu pedido implícito e ir atrás da irmã.
Olhei meu celular, ela ainda tinha algum tempo, mas ultimamente era sempre a mesma ladainha para fazê-la se levantar. Eu deveria descobrir o que a estava fazendo não querer ir à escola, mas sempre me esquecia pelo cansaço e por vê-la normal na volta. Deveria ser apenas problemas para acordar mesmo.
Alguns minutos depois, ela apareceu junto de Ícaro, já com o uniforme e os cabelos penteados — havia puxado os do pai, de forma que eram ondulados e fáceis de desembaraçar; ao contrário do nosso irmão mais novo, que para sorte dele eram curtos, e dos meus, que sempre demandaram algumas horas de atenção para se alinharem.
Terminei de aprontar as coisas de ambos, esperei que tomassem café e saí de casa com Ícaro agarrado à uma das minhas mãos; já que acabara de completar quatro anos, eu o levava à escolinha. Observei Cecília se distanciar em sua bicicleta, ela ia sozinha para a escola desde que completara oito anos, agora já tinha dez.
Deixei meu irmão mais novo a duas quadras de casa, como sempre, no prédio de tijolinhos coloridos, e me dirigi para a faculdade. Tudo ficava muito perto, então não tínhamos necessidade de carro ou o que fosse, mas era um luxo que eu me via desejando sempre que acabava debaixo do sol quente.
Passei pelo fluxo de alunos que entravam e saíam da faculdade, mesmo sendo tão cedo, e continuei caminhando pela área gramada por mais ou menos um quilômetro até a caixa de vidro que era o banco.
Recebi o ar condicionado lá dentro de bom grado, e peguei o dinheiro da carteira para depositar.
— Seu pai deu as caras de novo? — a voz de Gabriela preencheu o local silencioso.
— Sim. Parece que a semana foi boa dessa vez — comentei, ignorando sua entrada silenciosa.
— Você conseguiu fazer o trabalho ontem?
Virei a cabeça na direção dela, que estava de braços cruzados a alguns passos de mim. Os cabelos castanhos caíam em ondas até sua cintura, e ela vestia blusa e regata comuns com um tênis de corrida.
— Não. Aquelas coisas não fazem muito sentido pra mim.
— Qual a primeira aula hoje? Introdução? — indagou pensativa, ao que confirmei com um movimento de cabeça. — Então vamos para a biblioteca, vou te ajudar com o trabalho.
Sorri para o caixa eletrônico que engolia o envelope e retirei o comprovante. Já havia perdido a conta de quantas aulas havíamos matado só para que ela me ensinasse as coisas.
Gabriela havia estudado matérias especiais em seu ensino médio, em alguma escola distante de gente rica; portanto, eu contava com seu conhecimento para não precisar pegar dependência de cálculo, álgebra ou programação. Havia sido uma sorte esbarrar com ela no primeiro dia de aula.
— O que vai fazer hoje à tarde? — ela perguntou, enquanto sentávamos em uma das mesas de computador da biblioteca.
— O de sempre.
— Aquele povo do orfanato não cansa de você? — Gabriela sorriu.
— As crianças perguntam por mim, e eu gosto de ajudar. Eles não querem colocar gente desconhecida para trabalhar por lá com as coisas como andam. Depois é alguém que maltrata ou algo pior… — murmurei, abrindo o Codebox.
— Daniela podia ao menos te pagar melhor, então — ela rebateu, se referindo à dona do lugar. Parecia haver alguma afeição entre as duas, coisa de tia e sobrinha ou algo assim que eu não entendia direito.
Abanei a mão, olhando as linhas de código, que para mim não tinham sentido, mas que no final se tornariam um programa para calcular o orçamento de obras.
— Prefiro que ela gaste com a manutenção da casa. A prefeitura não está ajudando, e está difícil conseguir doações. Além disso, não é como se eu precisasse, papai deixa dinheiro o suficiente para meus irmãos… O que é esse “if” aqui? Não me lembro de ter colocado isso… — murmurei, fitando o programa com as sobrancelhas franzidas.
— Sinceramente, por que engenharia civil, se você não consegue entender nem mesmo as coisas mais simples? — Havia um misto de piada e seriedade em sua pergunta.
Eu me virei para ela, me esquecendo do programa por um instante.
— Vai saber quando meu pai vai sumir, ou parar de trabalhar. Com isso vou ganhar dinheiro. Não seria tão fácil se eu fizesse Letras, como queria.
— Certo… — Gabriela murmurou, antes de se aproximar e começar a me explicar as coisas do trabalho.
— Eu estava pensando… — disse, de repente, enquanto dávamos uma pausa. — Se eu morresse, como ficariam meus irmãos?
Gabriela ficou parada por um momento, havia prendido a respiração, antes de se virar para mim. Eu ri, era para ter sido uma piada, mas devia ter acabado falando com muita seriedade.
— Não diga essas coisas! Você está aqui, não está? Eu ein… — E continuou a resmungar coisas ininteligíveis.
Eu a olhei de esguelha, antes de abraçá-la lateralmente e ficar assim por um tempo. Gabi era uma boa amiga, era sim.
Depois das aulas, desci para o orfanato, que também ficava bem próximo. As crianças pularam aos montes ao meu redor, surgindo de todos os cantos. Eu me agachava entre elas, e contava histórias a alguns, enquanto outros divertiam-se com as molas dos meus cabelos.
Daniela apenas observava de canto por um tempo, antes de ir cuidar das papeladas do lugar, deixando por minha conta com as duas outras educadoras que trabalhavam ali naquele período.
A minha história naquela tarde? Era uma comédia sobre um anjo. Um lindo anjo prateado, que era tão atrapalhado, que sempre acabava fazendo tudo dar errado.
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