No elevador
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Notas iniciais
“Informamos com pesar a morte do nosso porteiro noturno Pete Pinheiro Pimentel, o qual trabalhava conosco desde 1997”, lia-se no papel colado na parede do elevador do prédio. Estava lá para informar a todos do condomínio o porquê da mudança de porteiro, claro, mas eu soubera da notícia de outro modo.
Tendo conhecido-o há apenas seis meses e já me tornado sua amiga íntima, lamentara quando a sua família me ligara, explicando que morrera sendo ironicamente atropelado por uma ambulância; relembrando o dia em que nos conhecemos – ele estava cabisbaixo, tentando esconder o choro ao tampar seus olho esquerdo e bochecha com sua franja. Tomando parte do meu tempo, perguntara-o de forma um tanto idiota se ele estava mal, secando suas lágrimas por ouvir seu desabafo.
Desviei o olhar, procurando não pensar em Pete, e apertei o botão “8” do elevador, suspirando e tentando aliviar o estresse acumulado após mais um dia na sociedade em que vivia. Estalando os dedos da minha mão,fui acompanhando no visor os números vermelhos que indicavam em que andar estava: segundo, terceiro, quarto...
Por um motivo indeterminado, ao alcançar o sexto andar, o elevador deu meia-volta e começou a descer, todo o caminho até o térreo. Isso, no meio do percurso, arrancou de mim um de meus típicos comentários sarcásticos:
— Talvez ele tenha criado consciência e decidido que quer ficar na portaria... — eu sabia que metade das pessoas do prédio sussurravam por aí que eu era louca, justo por estar sempre soltando essas frases para mim mesma, falando sozinha. Mas não me importava tanto assim – Ou talvez tenha decidido me dar um tour, parando uma vez em cada andar.
Insisti meio que sem pensar e apertei o botão novamente, vendo os dígitos no visor mudarem, de “1” para “2”, para “3” e “4”, sem parar.
Sem parar mesmo. Confusa eu estava quando, de números, os caracteres mudaram para uma mistura de símbolos. Tentava interpretar F£ e descobrir o que significava quando estiquei o meu braço e pressionei “alarme”, botão que estava lá para qualquer um que se descobrisse preso.
Xx – xX
— Não precisava ter apertado isto, eu já vou lhe deixar sair. — a voz soou, vindo do meu lado, o que era incompreensível, já que ninguém entrara no elevador comigo; não me surpreendi, porém.
Uma figura humana alta estava parada ao meu lado, braços cruzados e um meio sorriso no lado direito de seu rosto. Batia seu pé no chão repetidas vezes e balançava sua cabeça da direita para a esquerda, e vice-versa, de modo que seu cabelo liso castanho caísse e tampasse seu olho direito. Fiquei em silêncio e acompanhei uma cor avermelhada se espalhar pelo seu rosto, tentando encobrir que não sabia o que falar com um aceno de mão.
— Pete – sussurrei, baico demais para que me ouvisse, pareceu ler meus lábios, contudo. Eu sabia muito bem que não era louca, e mesmo assim não me impressionei ao... Ver um fantasma?
Ele suspirou ao mesmo tempo em que eu bufei. Procurei algum ferimento nele – se estava morto, né –, mas seu rosto estava normal, e, caso houvesse algum machucado em seu corpo não muito forte, mas com músculos definidos por ser magro, a camisa azul clara e sua calça preta encobriam-nos bem. Na verdade, era como uma cópia perfeita dele antes de ter sido atropelado.
Iniciei o nosso breve diálogo com a questão mais simples, complicada, inteligente e besta o possível:
— O que você está fazendo aqui?
Hesitou, em seus velhos movimentos nervosos: balançou a mão,bateu o pé no chão, olhou em volta. Quase como se conversar com um vivo fosse aterrorizante.
— Ótima amiga... Você. É uma ótima amiga, e eu queria te falar algo... — minha maior vontade era revirar meus olhos, como fazia com todo mundo, “então fala”, mas Pete era uma exceção. Eu tentava ser legal com ele.
— Sério? — com a minha melhor cara de interessada, uma sensação espontânea de surpresa me invadiu, atrasada – Me dizer o quê?
— Bem, lembra da noite em que nos conhecemos? — nem hesitou. — Meu primeiro dia de trabalho neste prédio, e lá estava eu, mais uma vez, a chorar. Você foi a única que veio falar comigo, tipo, de verdade. E de uma maneira gentil. Ficou me chamando, depois disso, pra ver se eu consegui superar o momento em que quebraram o meu coração, e eu fui te contando sobre as diversas maneiras que o fizeram. Pude confiar em você, já que, na real, queria o melhor para mim. — como fazia nas outras vezes em que ficava nervoso, começou a rir de forma aguda (e ridícula), mas que não me incomodava, uma vez parecida com a minha. — E... Me fazia rir, conseguir, por felicidade de verdade; me fazia rir de modo que nem eu entendesse... É por isso que...
Sorri, tão boba, e – ainda bem – esticou seu braço, agarrando com pouca força minha cintura, Pete foi se colando em mim. Desajeitado. Percebi que o homem, mesmo tendo namorado por dois meses antes, não entendia do que estava fazendo. Não sabia como beijar de boca de forma prazerosa, era como se sua língua estivesse tentando lutar boxe. Não fora o melhor em me acariciar naquele momento, mostrar afeto. Ou então situações românticas fossem assim mesmo – o prazer nascesse da esquisitice. Eu não saberia dizer: nunca havia tentado...
Rindo, de forma tão fraca e tímida, não sei o momento exato em que sumira, mas Pete se foi inusitada e repentinamente, como chegara.
Também não entendo quanto tempo se passou até que as portas do elevador se abrissem no oitavo andar. Mas a minha imaginação não é fértil a ponto de criar cena tão realista.
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