Eu estava olhando pela janela. As estrelas estavam brilhando deslumbrantes no céu. Cada uma com sua força. Cada uma com sua cor. Meu hálito colidia com o vidro frio, formando aquela fumaça densa que não permitia que eu conseguisse mais ver o que estava do lado de fora.

- Tudo vai acabar assim? – perguntou ele.

Meu coração disparou. Eu sabia que eu deveria lhe dar uma resposta muito convincente. Ele era tudo, menos bobo. Saberia muito bem se eu estaria mentindo ou não. Eu teria que dar uma de boa atriz. Era a única maneira de terminar aquilo tudo. Sem magoá-lo com a verdade.

- É a única maneira. Não posso ficar mais te enganando. Eu já não sinto mais nada por você.

Ele suspirou. Mas não foi um suspiro de desapontamento. Era um suspiro de tristeza. Acho que talvez aquelas palavras tenham lhe machucado mais do que a própria realidade. Mas era melhor assim. Vê-lo sofrendo por achar que eu não o amava. Do que fazê-lo encarar a minha realidade.

- Por que assim tão de repente? Achei que estivesse tudo bem entre a gente! Achei que fossemos um casal feliz! Achei que eu fosse tudo o que você queria. Do mesmo jeito que eu achava que era tudo o que você queria!

As palavras dele falhavam no meio de seus soluços. Ele me amava mais do que seu corpo poderia suportar. E eu sabia que meu amor por ele era tão grande quanto o céu. Tão brilhante quanto aquelas estrelas que estavam lá fora. Testemunhando nosso fim.

-Não posso continuar com essa mentira. Você não merece sofrer por causa de um amor não correspondido.

- O que eu fiz? O que eu não te dei? O que eu fiz para fazer você parar de me amar?

Ele perguntava de maneira aflita. Doía. Por isso eu não o encarava. As estrelas se tornaram meu maior conforto. Já que elas apenas assistiam silenciosamente a maneira fria e cruel com que eu acabava com o único relacionamento que tive que eu poderia considerar perfeito. Elas não davam opinião sobre. Isso me ajudava a ter forças para continuar a farsa.

- Não me deu as estrelas.

- Não... Não dei...

- Eu pedi para que as desse para mim. Mas você não o fez. Você prometeu me dar tudo o que eu quisesse. Você não me deu as estrelas. Elas estão lá. Independentes!

Fez-se um silêncio absurdo. Era ridículo. Que idéia a minha... Não me dar às estrelas? Isso é motivo para se terminar um namoro? Era egoísta. Mas acho que seria a melhor maneira. Ele achar que eu era mimada, egoísta. Não queria que ele sofresse. Não pelo que aconteceria comigo. Em breve.

- Eu não lhe dei as estrelas... Sabe o por quê?

Ele perguntou com um tom um tanto nervoso. Mas eu não sabia se era por minha causa ou se era por causa do choro que ele estava tentando conter dentro de si. Apenas fechei meus olhos tentando não imaginar seu rosto avermelhado, úmido pelas lágrimas. Não queria imaginar a expressão de dor que ele deveria estar sentindo.

- Por quê...?

- Porque elas sempre foram suas. Do mesmo jeito que você é delas. Você brilha como elas. Você é uma delas. Como vou lhe dar algo que já é seu? Como posso te dar algo... Que já está em seus olhos, em seu cabelo, no brilho de seus lábios, no bater do seu coração. Você é uma estrela que brilha, brilha dentro do meu céu. Talvez... Não. Talvez não. Você é a única estrela que há dentro do meu céu. A única que brilha tão forte quanto à lua. Que ilumina tudo. Como quer que eu lhe de algo que já lhe pertence?

Abri meus olhos. Cada palavra. Cada sussurro... Tocou tão fundo no meu coração que chegou a doer. Olhei de novo para as estrelas, vi que tudo estava manchado, borrado. Por quê? Logo vi tudo ficar normal, as estrelas não estavam borradas, meu rosto estava úmido. Eu chorava. Por quê? Por que era tão difícil falar a verdade? Eu queria gritar! Eu queria pular por aquela janela, correr em linha reta até que em algum momento eu conseguisse subir aos céus e ficar onde eu queria estar. Ao lado das estrelas. Silenciosas, frias, quentes. Apenas ali. Com elas.

- Quer saber por que eu amo tanto as estrelas?

Agora eu tinha certeza. Eu tinha de contar a verdade para ele. Seria melhor. Melhor ele saber que eu o amo. E que não era por causa das estrelas que eu o estava deixando.

- Quero...

Ele falou quase num sussurro. Mas eu sabia que ele estava desconfiado. Ele não acreditou muito nas minhas mentiras. Todas as que eu fiz durante os últimos dois dias tentando fazê-lo se afastar de mim. Ele sabia que não era verdade. Sendo que nos últimos nove meses eu apenas repetia que a única pessoa que me fazia feliz era ele. Que a única pessoa com quem eu queria ficar era ele. Que a única coisa que me importava na vida, era o amor... Dele.

- Porque mesmo depois de morrerem... Elas continuam ali. Podem nem existir mais... Mas seu brilho continua aparecendo para nós. Por muitos, muitos e muitos anos. Nunca serão esquecidas. Nunca serão apagadas. Sempre poderei olhar para elas. Por que todas as noites elas estarão lá. No mesmo lugar. Brilhando. Lindas. Intocáveis. Imortais. Deixando tudo mais belo. Trazendo sorriso para o rosto de todos. Por isso que eu amo tanto as estrelas.

- Você... Acha que vai morrer?

Aquelas palavras saíram com muita dificuldade para ele. Mas sim. Eu sabia que uma hora ele acabaria descobrindo. Ele me perguntaria isso. Eu achei que estaria preparada para ouvir aquilo. Mas me enganei. Eu não estava preparada. Doeu mais do que as agulhadas que levei em meu tratamento.

- Eu não acho...

Ele suspirou aliviado.

- Eu vou morrer. Já foi confirmado pelo médico. Eu o escutei. Vou morrer em dois meses no máximo. Então... A minha luz... Vai se apagar. Eu não vou mais brilhar no seu céu. Não poderei trazer sorriso aos seus lábios. Não poderei tocá-lo. Nem poderei fazê-lo feliz. Seu céu ficara escuro... Aos poucos meu brilho que tem se apagado... Agora se apagará de uma vez... Em menos de dois meses. Por isso... Que eu quero que me odeie... Esqueça que eu existo. Não quero que sofra... No dia em que eu apagar.

Novamente o silêncio invadiu o quarto. De repente o brilho das estrelas estavam numa tonalidade triste, como se chorassem junto a nós dois. Como se acompanhasse nossa historia triste chegar ao fim. Ao fim do último capítulo. De nossa última página. O último parágrafo. Esperando apenas a palavra Fim no final da página.

- Eu não vou te abandonar agora.

- Por quê? Vai ser mais difícil para você. Não suportaria saber que quando eu partisse você choraria até suas lágrimas não saírem mais.

- Não posso simplesmente apertar um botão e apagar o brilho da única estrela que brilha no meu céu. Fingir que a estrela mais brilhante nunca tivesse existido. Não. Vou ficar ao seu lado até o último instante. Você foi quem eu escolhi, foi quem meu coração escolheu para amar e cuidar até que a morte nos separasse. Mas não creio que a morte nos separe. Nosso amor pode muito bem ir além dela. Nosso amor é que nem as estrelas. Mesmo que nós dois morramos... Nosso amor vai continuar brilhando no céu. E todo mundo irá ver.

Senti suas mãos envolverem minha cintura, senti-o beijar meu pescoço. Eu não conseguia acreditar. Ele me amava a ponto de suportar a tristeza de um adeus para sempre.

- Um adeus para sempre...

- Não é para sempre. É só até anoitecer.

- Por que só até o anoitecer?

- Por que você vai se tornar uma estrela. E todas as noites eu vou ficar te olhando. Vou sempre ter você perto de mim. Todas as noites. Você vai estar cuidando de mim. Seremos sempre um casal. Seremos sempre eternos namorados... Eu vou sempre te amar. Sempre serei seu. Somente seu. Isso nunca vai mudar.

- Serei sua estrela guia. Pelo resto de sua vida. E eu estarei então... Esperando-te... Até o dia em que você se tornar uma estrela e vir para ficar ao meu lado. Mas... Até lá... Será que você não vai me esquecer?

- Eu só vou te esquecer... No dia que todas as estrelas do céu pararem de brilhar ao mesmo tempo...

Eu senti um grande alivio. Um amor cresceu dentro do meu peito. Dando-me mais energia para viver... Afinal, eu achando que havia acabado nossa história de amor, fiquei procurando a palavra fim no final da página, mas o que eu encontrei então foi um continua.

Até meus últimos momentos de vida, ele passou ao meu lado, segurando minha mão, repetindo sempre... Que apenas me esqueceria quando todas as estrelas do céu parassem de brilhar... Quando não sobrasse nada no céu a não ser... Uma escuridão infinita...

Até meu ultimo suspiro, eu escutei ele sussurrando ao meu ouvido... Que seriamos estrelas... E que para sempre brilharíamos...

Quando a última batida do meu coração se esgotou em meu peito. Eu sabia que naquele momento eu não havia parado de brilhar. Eu continuaria brilhando e vivendo. Dentro do coração dele. Eu seria a única estrela brilhante no seu pequeno céu azul marinho.

Mas o que importava... Não era apenas ser a estrela... E sim... Ser a única que conseguia trazer um sorriso aos seus lábios... Graças eu meu pequeno e tímido brilho estrelar... Que agora viveria em seus olhos... Para sempre...

O melhor de tudo... Era saber... Que nunca chegou o dia em que... As estrelas pararam de brilhar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!