No batuque do coração
2 Desfile
Os dois se afastaram um tanto relutantes, mas ambos sabiam que era preciso. Era a sirene indicava que a Portela poderia fazer o esquenta da bateria em frente ao setor um.
— Eu tenho que ir, morena. Na verdade, eu quero ficar com você, mas...
— Nós temos um desfile pela frente. E, com certeza, vamos fazer a nossa Portela campeã — comentou Cátia, passando a mão pelo rosto de Fabrício.
— Isso não vai ser apenas um beijo de carnaval, morena, vai? — suplicou Fabrício, olhando fixamente para a mulher.
— Claro que não. O nosso carnaval só está começando, Brício.
— Te encontro na dispersão, do lado do relógio.
— Sim, como da primeira vez.
Os dois haviam se conhecido em um desfile, há quinze anos. Ela vestida de índia, componente do primeiro carro alegórico, e ele, na bateria, tocando repique. Na época, apenas ficaram. Foram uns dez anos de uma amizade colorida até assumirem namoro, que durou apenas dois anos.
— “Meu coração está em festa/Enlouqueceu/No seu rio mar” — cantarolou Fabrício o samba portelense de 2002, ano do primeiro encontro do casal.
— “Meu rio azul vai desaguar/Sob o verde desse olhar/O Ajuricaba seu canto ecoou” — completou Cátia, dando um selinho antes de se afastar do homem.
Fabrício colocou o chapéu e foi em direção à bateria. Foram apenas alguns passos para ele ser engolido pela multidão e sair das vistas de Cátia. Um pouco depois, ela viu a amiga correndo em sua direção:
— Amiga, que beijão foi aquele? — falava animada Mariana.
— Foi daquele de abalar as estruturas, isso sim.
— Me agradeça, Cátia. A Mari, tapada, nem tinha visto o Brício e ia interromper vocês — esclareceu Fernando.
— O que seria de mim sem você, Nando. Ganhei meu carnaval — Cátia abraçou o amigo, ou, pelo menos, tentou, pois os dois ficaram presos por causa dos esplendores.
— Mari, solta a gente! — implorava Fernando.
— Quem mandou me chamar de tapada, Nando? Isso é castigo divino.
— ‘Bora, Mari, a escola já vai andar — suplicou Cátia, sendo atendida pela amiga.
O trio voltou para o lugar correto deles no desfile, recebendo uma bronca do diretor de harmonia, mas nada disso tirava o sorriso do rosto de Cátia. Agora era o momento de ela aproveitar o samba, mas pensava que nunca na vida quisera tanto chegar à Apoteose e encontrar determinado ritmista ao lado do relógio.
A escola ganhava vida ao virar o joelho da Presidente Vargas. Só quem desfilava sabia qual era a sensação ao cruzar a Avenida Marquês de Sapucaí. Existia algo além da nossa compreensão que ocorre naqueles setecentos metros. Um ano de trabalho é posto à prova na pista de desfile e vitórias e derrotas ocorriam ali dentro: efeitos planejados que saíam conforme o estipulado, carros que não queriam fazer a curva, casais de mestre-sala e porta bandeira dançando divinamente, componentes de comissão de frente que caíam na apresentação do jurado. O desfile de uma escola de samba era um caleidoscópio de emoções.
Cátia se benzeu quando fez a curva, lembrando-se do que sua mãe dizia, era preciso pedir às forças divinas por um excelente desfile. Ela olhou para o setor um e sentiu o corpo arrepiar ao perceber que estava de novo em seu lar. Sim, ali fora seu lar por muito tempo e agora ela estava de volta para casa. As emoções eram conflitantes, queria chorar, sorrir, gritar, rir. Como ela pudera ficar tanto tempo longe daquele mundo.
A mulher acenava para o setor um, mesmo não tendo ninguém conhecido por lá, mas o fazia, pois sabia que ali estavam alguns daqueles que amavam tanto o samba quanto ela. Os ingressos do setor um eram distribuídos gratuitamente para as comunidades das escolas de samba. Na prática, alguns revendiam esses ingressos, mas aqueles que compravam também eram aficionados pelo mundo do samba. Ela muitas vezes assistiu os desfiles naquele setor do povão com sua família.
O samba portelense ecoava na Avenida e enchia o coração de Cátia de alegria, ela olhou para o lado e viu os amigos chorando e rindo. Sim, era emocionante vivenciar aquele momento:
“Cantam pastoras e lavadeiras pra esquecer a dor/
Tristeza foi embora, a correnteza levou/
Já não dá mais pra voltar (ô iaiá)/
Deixa o pranto curar (ô iaiá)/
Vai inspiração, voa em liberdade/
Pelas curvas da saudade”.
A ala do Rio Nilo agora passava em frente ao primeiro recuo de bateria e Cátia conseguiu ver o intérprete Gilsinho, com seu terno cinza elegante, acompanhado da equipe do carro de som cantando bravamente o hino da Portela. Pôde sentir o suingue da Tabajara do Samba, alcunha dada para a bateria da Portela. Infelizmente, não conseguiu ver quem ela mais queria. Afinal, Fabrício tocava repique e esse instrumento não ficava na dianteira da bateria.
Cátia resolveu se entregar ao cortejo carnavalesco cantando a plenos pulmões o samba-enredo e sambando como se fosse a própria rainha de bateria. Ela interagia com as frisas e as pessoas das frisas com ela. Eram acenos e beijos jogados aprovando sua performance sambista. Mariana e Fernando também dançavam com bastante alegria e esse momento era de consagração da amizade dos amigos. Quando a apoteose se aproximava, Cátia sentiu a tristeza do desfile terminar e a alegria do reencontro com Fabrício começar. Ao mesmo tempo, queria ficar mais na avenida e também correr para alcançar o relógio da dispersão.
“Vem conhecer esse amor/
A levar corações através dos carnavais/
Vem beber dessa fonte/
Onde nascem poemas em mananciais/
Reluz o seu manto azul e branco/
Mais lindo que o céu e o mar”.
Esses foram os últimos versos ditos por Cátia ao ultrapassar a faixa de fim de desfile. Os diretores de harmonia indicavam que os componentes de alas fossem para o lado esquerdo da dispersão, mas ela puxou os amigos e ficaram em frente ao setor treze, ainda na Praça da Apoteose, para curtirem mais um pouco do desfile. Mariana aproveitou e pegou um copo de água com os caras da CEDAE que a distribuíam após o desfile. Eles viram um pouco do desfile da agremiação até serem gentilmente retirados do local.
— Amiga, você vai embora com a gente ou já tem outros planos? — perguntou Mariana, dando um sorriso maldoso.
— Mari, depois você não quer ser chamada de tapada, é claro que ela vai esperar o Brício!
— Tudo bem, eu só quis ser educada, amor. Aonde vocês vão se encontrar?
— No relógio.
— Como na primeira vez? Ai, que romântico! Nando, por que você não é assim?
— Porque a gente se conheceu no fórum. Você quer marcar um encontro lá? — Fernando e Mariana eram advogados.
— Nando, você é o melhor. Amigos, amo vocês, podem ir tranquilos, pois meu carnaval apenas começou.
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