No Words
1 Palavras não ditas...
Notas iniciais
No Words
Palavras não ditas...
Eu olhava as pessoas lá em baixo. Pareciam formiguinhas. O Sol quase a pico batia de frente com meus olhos e eu tinha que os cerrar para poder enxergar melhor. Ninguém podia me ver. Bom, até podiam se olhassem para cima, mas geralmente ninguém olha. Olham para frente para o seu futuro, para trás, para o seu passado, mas esquecem de olhar para cima, para o céu. O céu que nos faz entender como nossos futuros ou as nossas histórias passadas são coisas diminutas em comparação ao tamanho do universo lá em cima que não para de se expandir. Notório filosofo Gabriel. É por isso que Lena te enxotou da biblioteca. Bom, sinto que minha melhor amiga de infância não tinha a obrigação de me aturar no modo filósofo, então a dou um desconto. Pelo menos por hoje.
Hoje por algum motivo eu acordei feliz. Não dava para explicar. As vezes essas ondas de bom humor apareciam junto com as panquecas que minha madrasta preparava no café da manhã. Quando os dias amanheciam assim eu geralmente não parava de falar. Os professores atingiam seu ápice de paciência e me mandavam calar a boca sem a menor educação. Até Helena não me aguentava, e ela já era treinada desde criança para isso. Sendo assim eu me isolava no terraço para não incomodar ninguém.
Nesses dias basicamente eu tinha muita tendência a arrumar briga. Eu não conseguia entender, todos dizem que você deve ser sincero, mas quando você é com todas as letras, te chamam de grosso. É talvez eu seja. Mas não era minha culpa se Lorena da minha turma não escovou os dentes antes de vir para a aula. Ou se o babaca do Nicolas estava sendo babaca. Eu não merecia um soco. Aquilo realmente doeu. O pior foi não poder revidar. Minha psicóloga disse que violência não se paga com violência, se paga com palavras gentis, que com certeza irão desarmar seu oponente. No final Nicolas achou que eu estava tirando com a cara dele e eu recebi um chute. E mais no final ainda ele pediu desculpas e disse que foi errado. Me pergunto qual é o problema dele.
Minha psicóloga disse também que devemos medir as palavras para não machucar os outros. Mas era impossível. As coisas simplesmente saiam da minha boca, antes de eu poder doma-las. Não queria machucar ninguém. Mas parece que não nasci com o tal "filtro". De qualquer forma, ninguém leva tão a sério meus comentários. Não sei se deveria me sentir grato por isso.
Abro a próxima folha em branco do meu caderno vermelho e começo anotar. Me estico para observar melhor as formiguinhas que lanchavam lá em baixo. Eu achei esse caderno na gaveta do porão. Talvez fosse da minha mãe, mas nunca tenho certeza das coisas sobre ela. Não é como se meu pai a colocasse em pauta na mesa do jantar. Na verdade, eu nunca o ouvi falar dela. Por mais que eu saiba que ela estava ali a algum tempo atrás. Eu lembro de seu cheiro, mas não lembro de quando parei de senti-lo. O caderninho vermelho eu sinto que é o que ela deixou para mim. Talvez nem tenha sido dela, mas eu realmente não ligo, não sou tão apegado a objetos, memórias são mais importantes. Nessas linhas em branco eu escrevia sobre as pessoas. Sobre as pessoas da escola, as pessoas da rua, as pessoas que tinham algum tipo de influência na minha vida. Era um hobbie estranho. E bem legal diga-se de passagem.
{Não temos mais o tempo que passou} — Thomas
Eu olho para o alto. Geralmente não faço isso por causa da fotofobia, que faz meus olhos lagrimarem com a luz do Sol. De qualquer forma eu olhei, e vi a silhueta de um garoto no telhado do colégio. Faço uma careta para Gabriel, não que ele tenha visto, estava ocupado escrevendo em seu caderno que ele não desgruda. Por mais que estudasse com ele desde criança, nunca troquei mais de algumas palavras com o mesmo. Não que isso fosse algo anormal. Eu troco poucas palavras com quase todos da sala. É um defeito que veio comigo de nascença. As palavras não fluíam. Era como se elas se apertassem em minha garganta, mas não tivessem capacidade de fugir pelos meus lábios. Fico triste ao pensar que as pessoas me devem achar arrogante. Nicolas meu melhor amigo diz que elas não acham isso.
"Mas você é sempre tão legal com todo mundo! E as garotas vivem me pedindo ajuda com você."
Eu queria conversar com as pessoas, não uma namorada. Não é “bom dias” e sorrisos simpáticos que fazem amigos. Era chato... mas não é como se eu estivesse reclamando de Nicolas! Nós somos inseparáveis desde crianças. Mas só ter ele como amigo me deixava preocupado... mais por ele também. Não queria que ele sentisse que ficar comigo na hora do lanche fosse uma obrigação. Ele era aquele tipo de pessoa aberta que todos gostam, que param para ouvir suas histórias e lhe lançam sorrisos gentis quando chega em algum lugar.
Nunca fui assim.
Olho para Gabriel no telhado. As vezes eu pensava em como ia ser bom se só um pouco da tagarelice desse garoto passasse magicamente para mim. Suspiro e volto a ler meu livro.
{Veja o Sol desta manhã tão cinza...}— Gabriel
Puxo meus cabelos com força, e controlo a vontade de desabar.
— Não. Não. Não.
Lena me olhava interrogativa. Meu coração parecia que ia esfarelar a qualquer momento.
— O que houve? — Ela tinha parado de prestar atenção na aula do professor de física para me olhar, se isso estava acontecendo era porque eu devia estar deprimente.
Olho de novo para a mensagem de minha madrasta no celular de Lena. Eu não tinha celular. Achava inútil. Uma invenção medíocre. As pessoas podiam se comunicar por pombos. Mas naquele momento queria só que minha madrasta não tivesse pombo, celular, telégrafo nem nada. Porque mandar algo assim no meio da aula?
— Gabriel. Me diz logo que porra aconteceu.
Lena nunca falava palavrão. Ok, ela falava sim, mas só quando estava nervosa. Eu estava nervoso. Olho pela terceira vez para o celular quase em prantos. O professor me encara sério.
— Guarde seu celular Gabriel.
No momento eu não tinha nada para retrucar. Talvez em outro momento eu começasse a discursar como aquele celular não era meu, e que celulares são lixos eletrônicos feitos para os jovens alienados de hoje em dia, mas hoje eu só levanto da minha cadeira a fazendo cair. Acabo chamando a atenção de toda a turma. Realmente não era a intenção.
— P-posso sair?
Todos me olhavam como se eu fosse uma linda paisagem a ser admirada. Hoje eu realmente não queria esses olhares. Talvez outro dia. (Se eu falasse algo assim, Lena reviraria os olhos para mim, ela adora revirar os olhos)
Sinto uma lágrima escorregar pela minha bochecha.
— Claro. — O professor parecia impressionado também. Ele me dava aula desde o sexto ano, nunca dei indício de que algum dia choraria em sala de aula. Geralmente eu que fazia as pessoas chorarem. Sem querer é claro.
Eu saio me arrastando da sala seguido pelos olhares de todos. Caminho até o banheiro no final do corredor, não tinha ninguém. Olho no espelho minha cara patética e rio. Não queria rir. Queria chorar mais. Até acabar as lágrimas. A porta do banheiro se abre e vejo Lena entrando.
— Lena, é o banheiro masculino, você não pode fazer isso. — Digo rindo nervoso.
— Eu realmente não ligo. — Ela para ao meu lado com sua típica cara de preocupação. Que não era muito calorosa. —Agora me diz logo o que aconteceu.
Minha crise nervosa passa e eu entro no estado depressivo. Se pudesse descrever esse sentimento, eu diria que ele tem a cor cinza. Uma nuvem cinza carregada de chuva.
— O Blue morreu hoje de manhã. A Madrasta disse que ele foi envenenado por alguém.
Lena parecia não saber como agir. Não éramos muito adeptos de abraços reconfortantes, então ela permanece onde estava me olhando com os olhos preocupados
— Ele era um bom gato. — Ela diz com um tom melancólico.
— Eu gostava de o usar como travesseiro.
— Lembro quando você o achou na lixeira lá perto de casa.
— Ele estava totalmente acabado. Achei que não fosse sobreviver até chegar em casa.
— Ele gostava de pular no seu colo e me olhar como se você fosse propriedade dele e de mais ninguém.
— Era engraçado...
Acho que mais engraçado é como tudo que se referisse a Blue a partir de hoje teria que ser no verbo conjugado no passado. Trágico. Lena dá um passo para frente e me da um abraço meio errado. Nós não sabíamos dar abraços, nosso tipo de amizade não combinava com isso, mas fiquei um pouquinho mais feliz com esse esforço por parte dela.
Lena disse que precisava voltar para aula. Eu não precisava. Mentira. Eu só não queria. Na verdade, estava quase reprovando em física. E estou no início do ano... sim, muito tenso. Vou a passos lerdos para saída do colégio. Ninguém me impede. É uma cidade muito pequena. Uma escola muito pequena. Pessoas muito fechadas em seu próprio mundo Pessoas muito vazias, assim como eu estou me sentindo no momento.
{Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acessas agora} — Thomas
Depois da cena de Gabriel no meio da aula eu não conseguia me concentrar mais em física. As fórmulas eram confusas. Não mais que Gabriel. Não que eu o conhecesse de verdade, mas estudávamos na mesma turma desde sempre. Não tinha certeza se aquilo foi uma ceninha, ou se algo realmente sério aconteceu. Se foi algo sério, eu provavelmente mais tarde irei me sentir um lixo por ter achado que era só um teatrinho para chamar atenção da turma.
As aulas passaram bem rápido. Eu rabiscava desenhos onde devia estar as anotações das falas do professor. Não me arrependo. Nicolas para ao meu lado e observa o desenho.
— Você devia ser preso por desenhar tão bem. Nem sei porque ainda falo com um meliante.
Eu rio.
— Talvez porque esse meliante vai deixar você almoçar na casa dele.
— É talvez seja isso. — Ele se apoia na minha cadeira enquanto eu guardo o material. — Hm... O que você acha que aconteceu com o baixinho? — pergunta enquanto brinca com a minha borracha a jogando para o alto e a pegando novamente.
Eu o encaro surpreso por perguntar. O baixinho seria o Gabriel, com seus 1,60 de altura. Os dois já tinham se desentendido várias vezes. Mas como estudam na mesma sala geralmente mantém uma boa relação. É complicado, mas acho que Nicolas não desgosta de Gabriel.
— Não faço ideia. — eu realmente não fazia, mas estava bem curioso para descobrir. Já estávamos quase sozinhos na sala, tinha Helena que guardava seu material em uma cadeira mais a frente. Penso em perguntar, mas não acho que seria capaz. Suspiro aborrecido comigo mesmo. Término de arrumar as coisas — Vamos?
— Aham. — ele puxa a mochila por cima do ombro e começa a me seguir sala à fora. Caminho calado pelos corredores com Nicolas falando e falando ao meu lado. Ele cumprimenta algumas pessoas no caminho, e umas três garotas da outra turma o param para o convidar para uma festa no final de semana. Elas dizem que eu posso ir, mas eu recuso. Não posso ir em festas. Posso até buscar Nicolas, ele geralmente acaba a noite tão bêbado que não saberia nem em que carro está entrando. No caso é o carro velho emprestado do meu pai.
Quando sinto o cheiro de bebida vindo dele, tenho vontade de chorar, mas sempre me seguro, por mais que a dor no meu peito seja quase insuportável. Tinha medo que ele não voltasse de alguma dessas festas, assim como minha irmã não voltou a um ano atrás
Nicolas é realmente cruel.
Depois que chegamos em casa eu faço uma omelete para nos dois e assistimos as séries que gostamos a tarde toda. No final da tarde ele vai embora e me deixa sozinho.
Eu estava me sentindo estranho. Talvez tenha sido o convite para a festa. Saber que precisava lidar com a preocupação de saber que Nicolas esta naquele tipo de lugar me deixava mal. Ele dizia que eu parecia uma mãe. É talvez eu parecesse. Ele era meu melhor amigo. Talvez até algo maior como um irmão. O pior é que ele e minha irmã são extremamente parecidos.
Carolina se foi há um ano junto com o a paz dentro desta casa. Olho para minha casa velha de madeira. Tinha dois quartos e uma cozinha junto da sala, mas isso não impedia de minha mãe e meu pai não se olharem na cara. Combinado com a cama vazia ao lado da minha, a casa nunca pareceu tão velha. Tão sem vida. Eu abraço meus joelhos e me aninho mais no sofá que estava com metade do estofado a mostra. Meu coração doía um pouco, mas me faltava palavras para descrever essa dor.
Só precisava sair dali.
{Um dia pretendo tentar descobrir, porque é mais forte quem sabe mentir} — Gabriel
O sol se pondo brilhava. Ele sempre brilha na verdade, mesmo que não seja um dia bonito. Porque hoje realmente não era um dia muito bonito. Parecia que o clima não conseguia ler a depressão do momento. Fungo e enxugo as lágrimas que caiam. Sento na margem do rio de pernas cruzadas. Quando cheguei em casa, a Madrasta parecia ter chorado um oceano inteiro, fiquei feliz ao me tocar que ela realmente gostava de Blue. Não feliz de verdade, é só um modo de falar. Ela me levou até os fundos da casa onde meu gatinho estava deitado no chão como se tirasse um cochilo. Ele gostava de dormir. Sempre gostou.
Ela se recolheu para a cozinha onde começou a lavar a louça como se estivesse afogando as suas magoas. Aproveitei para enrolar o gato preto morto em um lençol e saí de casa. Acabei parando na beira do rio. Sempre gostei dali. Não tinha ninguém para mim magoar com o que eu falava. Eu podia falar comigo mesmo enquanto escrevia. Sempre achei que aquele lugar ia ser um ótimo lugar para fazer um filme.
Coloco Blue embrulhado no lençol ao meu lado, ajeitando para que ele ficasse em uma posição confortável. Blue... não ele não era azul. Nem seus olhos. Seus olhos eram pretos como carvão tirado das profundezas da terra. Mas agora não importa, ninguém mais poderia ver os olhos dele, pois agora estão fechados. Para sempre.
Ele foi um bom gato. Não falava só ouvia. Servia de travesseiro. Um travesseiro muito fofinho aliás. Parecia que fazia séculos que Blue era um filhotinho que achei no lixo. Lembro que eu nunca ia parar de chama-lo de "gato preto" por causa de minha imaginação maravilhosa. Até que decidi o nome. Provavelmente eu estava pensando na cor dos meus olhos. Sempre me perguntei se os de minha mãe eram iguais. Eu lembro vagamente que sim. Mas nunca tenho certeza de nada sobre ela. De qualquer forma minha mãe nem Blue irão voltar.
Vejo com o canto do olho um garoto parado ao meu lado. Ele tinha acabado de chegar pelo caminho secreto. Ele evitava me olhar e parecia aborrecido. Não vê que está acontecendo um funeral? Essas pessoas ignorantes... E nem tem a decência de vir a caráter. Pego meu caderno vermelho e o procuro. Hm... Interessante. Você é o Sr. Vazio. Bom ele até podia ter sido classificado como "no words" no meu caderninho, ou seja uma pessoa que não merece meus escritos, não é que não goste dele, só o achava desinteressante, mas qualquer um serve agora.
— Conhece David Bowie? — Pergunto com a voz embargada. O garoto leva um susto.
— E-eu? — Ele fez uma cara engraçada. Seguro minha língua para não falar algo como "Não, estou falando com esse pônei multicolorido ao seu lado não está vendo?" Ia ser uma resposta linda, mas não quero fazer piadinhas no funeral de Blue. Por fim o garoto responde. — Algumas só...
Começo a cantar Heroes. Todos conheciam essa música. Não sei porque, mas Blue sempre parecia feliz ao escutar. Acho que gatos não sorriem. Mas tem algo nos olhos deles. O garoto ao meu lado me olha confuso.
— Cante! — Digo e continuo a cantar. Achava minha voz bonita. Tinha uma boa afinação por causa das aulas de canto de minha madrasta. Ela sempre me acompanhava no piano. Não lembro se minha mãe também tocava piano. As vezes as memórias se embaralham. A minha linha do tempo fica confuso, e eu consequentemente fico confuso. A letra da música que eu já tinha decorado sai fluida de minha boca e preenche o ambiente. Não ligo se minha voz está embargada. Só quero que Blue ouça. Esse garoto podia ser menos inútil e me ajudar. Não está alto o suficiente. Paro bruscamente de cantar e encaro o garoto o olhando nos olhos.
— Da pra cantar também?
Ele cora e foge do contato visual, mas eu o encaro mais ainda
— Eu não sei cantar.
— Não conhece a música?
— Conheço.
— Então sua voz é uma merda? Não é como se Blue ligasse. Ele não é exigente.
— Eu só não quero! — Acho que o deixei meio bravo. Mas... Ainda não entendi.
— Por que? Por que não canta comigo?
Ele faz uma cara sofrida. E então senta ao meu lado.
— Ta bom. Comece. — Ele diz escondendo a face com as mãos. Satisfeito eu recomeço. Ele logo me acompanha. Sua voz me acompanhava perfeitamente. Gostei dele. Talvez devesse reconsiderar minhas anotações sobre ele no caderninho.
Eu me levanto e canto mais alto para todo o rio ouvir. Até que chego na parte que queria e pego o Blue enrolado no lençol no meu colo. Eu desenrolo meu gato e o seguro como um bebê acariciando seu pelo pela última vez.
O garoto provavelmente não tinha visto que era um gato, ele arregala seus olhos e me olha mais confuso do que nunca, mas continua cantando.
"I, I wish you could swim
Like the dolphins, like dolphins can swim"
Paro de cantar deixando somente a voz melódica do outro preencher o lugar.
— Adeus Blue. Nade com os golfinhos por mim.
Eu o seguro acima do rio e vou o soltando aos poucos.
— O que você está fazendo?!
Eu o encaro. O momento poético por algum motivo parecia ter se quebrado. Estou confuso agora.
— An?
— Você vai jogar um gato no rio! O que você tem na cabeça?! — Ele tinha se levantado.
— Estou dando adeus ao MEU gato. Ele está mortinho. Blue vai nadar com os golfinhos agora. Não tem nada de errado nisso.
— Claro que tem! Você está jogando um gato no rio! Esse rio abastece a cidade!
— Serio? — Eu não sabia se batia nesse garoto por ter atrapalhado o meu funeral ou se o agradecia.
— Sim! E... Desde quando um gato quer ser jogado no mar?
— O Blue ia gostar. Ele nunca tomou muitos banhos, mas na morte pelo menos...
— Não... Você não fala sério.... — Ele tapa a sua face com a mão em um gesto de reprovação. O encaro entediado. Intrometido.
Ele então parece ter lido meus pensamentos pois na hora ficou com um semblante irritado.
— Não se joga... Animais mortos no rio. — Mas então sua cara muda. E ele parece preocupado.— Desculpa estar me intrometendo. É o seu gato. Eu achei que não tinha ninguém aqui... Desculpa.
Garoto estranho. Mas de alguma forma ele não parecia uma má pessoa. Talvez se eu fosse hipócrita eu já o teria mandado para longe a algumas frases atrás. Mas quem sou eu para julgar alguém por esfregar a verdade na minha cara? Não posso jogar um gato morto no rio, por mais poético que seja. Então sinto vontade de chorar.
— Thomas.
O garoto me olha por cima do ombro, ele parecia triste também. Não entendo o porquê.
— O que foi?
Eu não sei o que falar. Abraço Blue. Não queria que ele fosse embora, nem Thomas. Não queria ficar sozinho. Olho para baixo melancólico. Posso dizer que naquele momento me faltou palavras. Isso geralmente não acontecia. Então Thomas se manifesta.
— Éé... Já que eu entreguei o momento, eu podia te ajudar a enterra-lo. Sem rios. Como se faz normalmente com os bichinhos de estimação.
— Serio? — Eu juro que odeio perguntar coisas óbvias. "Não, não é sério, eu só estou zoando a sua cara. Sai com esse bicho morto pra lá!" Espero algo assim, mas não vem, só um aceno com a cabeça por parte dele.
Esse garoto talvez tenha subido um pouco no meu conceito.
{Palavras são erros... E os erros são seus}
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