No Universo de Anna
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Sentei na cama do João que estava desarrumada. Provavelmente ele estava deitado nela antes de eu tocar a campainha, sei que ele tem o apto de escutar música deitado na cama. Os lençóis eram azuis e a colcha e edredom azuis marinhos. Aquilo me lembravam a maresia.
Minha mochila está jogada perto do móvel com os inúmeros eletrônicos dele. Encaro um pôster do Super Mario. Não consigo conter a vergonha e sinto minhas bochechas queimarem. Foi muita falta de consideração eu não ter nem pelo menos ligado para ele. Uma ligação! Era só isso. Mas não... eu fui uma idiota completa. Sei que a culpa nem é minha. Mas eu podia ter evitado isso.
Quando cheguei no apartamento dele fui direto para o quarto e ele foi para a cozinha. Já sabia o quê ele iria fazer.
Escuto uma batida na porta e quando olho vejo o João com duas tigelinhas de porcelana. Como sempre ele trás algum doce. Dessa vez as tigelinhas vinha com uma bola de sorvete de flocos.
“Obrigada”, digo baixinho, “Mas você sabe que estou de dieta”
“Você sempre está”, Ele meio que sorri mas sei que está chateado.
Ele senta na escrivaninha e liga a tela do notebook e começa a digitar alguma coisa no Microsoft Word.
Tiro o sapato e me encosto nos travesseiros dele. Me embriago com o cheirinho do João. Dou uma colherada na bola de floco e coloco na boca.
Me endireito na cama.
“É sério João. Me desculpa. Eu esqueci completamente”, digo isso olhando para a porcelana com o sorvete porque sei que não vou conseguir encarar as costas dele.
“Tudo bem Anna. Sei que não foi sua culpa. As pessoas esquecem, não é como se estivesse acontecendo o apocalipse”, ele diz virando a cadeira giratória.
“Eu sei. Mas só que...não quero que pense que foi de proposito”, digo corando.
“É sério, está tudo bem. Sei que não foi. Até foi melhor porque eu li o livro de História Geral”, ele diz rindo, “ Uma prévia da sua aula”
Eu rio mas minha vontade era de chorar. Queria enviar minha cabeça dentro de um buraco e me esconder.
Coloco a tigelinha no criado mudo e caminho até a mesa que ele estava.
Trabalho de História
Estava escrito em negrito na tela do notebook.
“Você ainda não escreveu nenhuma palavra”, digo sussurrando.
“É que a minha professora não pode me dar aula hoje. Preciso de uma ideia.”, ele diz olhando para a tela.
A tigela dele já estava seca, só tinha um pouco de sorvete derretido.
“É pra quando?”
“Próxima quinta. Vamos receber o resultado na primeira semana de férias”
“ Posso te dar uma ideia no sábado. Juntamente com uma longa aula de história”, digo me agachando para olhar mais perto o rosto dele.
“Você não tem nenhuma prova importante para estudar? Não quero atrapalhar seu horário.”
“Tenho provas sim. Mas vou adorar te ajudar. Que tal às 10 horas?”
“Beleza.”, ele diz. Mas estar todo sem jeito, posso notar.
“E sei que você ainda vai me ensinar matemática não é? Não teria me mandado para o seu quarto se não fosse.”
“Além do livro de historia, andei marcando uns exercícios no meu caderno de matemática...”
“Tá louco?”, digo rindo, “Mal consigo resolver os do meu livro, imagine do teu que é do Militar”
“É fácil. Probabilidade é moleza. E você me disse que sequencia também iria cair né?”
Confirmo com a cabeça.
Apesar de eu ter feito ele perder uma tarde (mesmo não sendo a minha intenção), mesmo tendo feito isso. Ele ainda vai me ensinar. Como eu AMO o João.
Ele tira o all star e senta ao meu lado da cama. E começa a comparar os exercícios do meu livro com os do dele. E alguns são mais fáceis que outros...
O João pega umas vinte folhas de oficio e grampeia. Ele começa a fazer um resumo e enquanto escreve vai explicando cada detalhe. O rosto dele não muda nem um segundo de expressão como sempre.
As vezes quando vou estudar com a Micaela ou Thomas ou até mesmo a Fernanda. Fica meio difícil de estudar. Sempre a gente ri de tudo, ou reclama. Ou simplesmente desistimos e assistimos à um filme. Mas com o João é diferente. Simplesmente porque o João leva os estudos muitoooo a sério. MUITO MESMO. Quando começamos a estudar, devemos dizer adeus para o João e Anna brincalhões, porque o João se torna um verdadeiro professor. Professor muito sério. Aqueles que repreendem quando você está olhando para a janela. Mas eu não reclamo porque eu admiro muito isso nele. E eu não gostando dessa postura ou não, eu aprendo muito rápido com ele. E sim, eu amo essa postura porque me força a ficar concentrada.
Sem falar que acho lindo o semblante dele sério...
Quando me dei conta já era dez e meia. E minha mãe não parava de ligar para o meu celular.
“Alô?”, digo.
“Você tem dez minutos Anna! Dez minutos para chegar aqui! Isso é hora de estar nas casas dos outros Anna?”
“ Tô indo”, e desligo o celular.
O João coloca os sapato. E o Tapioca passou a aula toda dormindo. E assim que ele escuta a porta do quarto do João abrir ele acorda e caminha até nós.
“Espera!”, ele diz, “Minha prova de álgebra é só na sexta. Então fica com o meu livro. Edentro dele tem uns exercícios que peguei de um site aí”
“Obrigada.”, digo pegando a mochila e colocando nas costas.
Ele tira a minha mochila e carrega em um ombro. Caminho para a sala enquanto ele olha debaixo da cama procurando a coleira do Tapioca.
Espero uns minutinhos e de repente vejo um peludão dourado todo alegre com sua coleira vermelha.
“Queria poder dar o passeio com vocês mas minha mãe está um porre”
“Tudo bem. Temos ainda amanhã e depois de amanhã. E depois de amanhã o infinito”
Eu sempre amei o modo como ele usava a palavra infinito para mim homenagear. Sei disso porque ele pegou essa mania no meu aniversario de 10 anos.
Rio da piada dele.
“E sua mãe?”, pergunto para parecer interessada.
“Dormindo. Dize que está com enxaqueca. Para variar.”, ele diz sarcástico.
O João e a mãe dele não se dão muito bem....
Conversamos durante alguns segundos dentro do elevador. E me deixa na porta do meu apartamento me entregando a mochila.
Dou um abraço no Tapioca e um beijinho na bochecha do João. Ao abrir a porta sinto como se meu coração se quebrasse em vários pedacinhos. Escuto as portas do elevador se fecharem confirmando a ida do João.
Bato a porta de casa. E sou bombardeada com lambidas e um rabinho que não parava de balançar.
Explico para minha mãe que estava na casa do João estudando. Ela me olha desconfiada e diz que estava tudo bem.
Vou para o meu quarto acompanhada da Sunny.
Tomo meu banho que estava bem frio e coloco meu pijama.
Deito na cama e releio alguns capítulos para a prova de amanhã.
Quando já era umas onze e vinte quando chequei o whatsapp antes de dormir.
7:04 – Rafael: Oi Linda! Queria agradecer por hoje. E só uma dúvida... A Revolução Russa de outubro de 1917 foi liderada por Lênin e os revolucionários prometiam quais ações?
8:12 – Marina: ANNAAAAAAAAAA! Por favor assim que você ler isso me manda a foto da resolução da página 84.
8:23 – Thomas: PELO AMOR DE DEUS! Me explica o capítulo 13!
8:30 — Thomas: Essa prova amanhã vai me lascar geral...
Depois de ligar para Thomas e manda as resoluções para o Rafael e Marina.
Desliguei as luzes e deitei. Sinto um pesinho perto dos meus pés e sei que é Sunny.
Penso no dia de hoje. Porque aceitei ajudar o Rafael e ter magoado o João. Sinto um aperto no coração. E me chateio ainda mais quando lembro do estágio. Penso em tudo.
Pego no sono com tudo isso na cabeça. Com todos os problemas.
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