No Universo de Anna
6 Capítulo 6
Notas iniciais

Capítulo 6 — Lua Minguante
Naquela noite, observei o céu da janela do meu quarto. Sereno, mas bem estrelado. Como se uma criança tivesse pegado uma canetinha cinza e uma cartolina azul marinha (quase preta) e começasse a bombardear o papel com a ponta da caneta.
Eu diria que o céu é perfeito, mas acho que essa simples palavra não é grandiosa o suficiente para defini-lo.
Conseguia observar poucas constelações, o céu da cidade não contribui muito para se contemplar o céu noturno. As minhas constelações favoritas são a da águia, cão maior e o cinturão de Orion.
Levanto do chão do meu quarto, que estava muito gelado, e volto para a minha escrivaninha. Encaro aqueles problemas de matemática enquanto dou um longo suspiro. Eu devia estar estudando geografia, mas estou ferrada em matemática então... acho melhor dá prioridade a ela.
Coloco os fones para ouvir música de orquestra. Pode parecer um hábito estranho mas se eu estudar ouvindo música, só me concentro com orquestras. Beethoven ou até mesmo a trilha instrumental de Como treinar o seu dragão.
Deito na cama com o celular na barriga. Sunny me observa deitada na sua caminha. Tento me contagiar com a música só que não funciona muito quando já se sabe mais ou menos a nota que você vai tirar daqui à alguns dias.
As provas de geografia e sociologia irão ser na quarta, de português quinta e sexta................. MATEMÁTICA!
Não preciso nem escrever aqui a minha preocupação. Não sou uma aluna ruim em matemática. Tenho até um ritual para estudar essa matéria. Ler os capítulos, fazer resumos no cadernos, fazer os exercícios do livro e refazer os que o professor como tarefa de casa, os que julgo serem mais “importantes” para a prova.
O problema é que tem mais de cem questões por capítulo, e a escola não modera na questão conteúdos abordados em provas. E vem um avizinho no fim do roteiro que diz: OUTROS CONTEÚDOS PODEM SER ABORDADOS NESSA PROVA. E encerando com essa observação que sempre tira o meu tão cobiçado 10,00.
Pode parecer besteira eu querer tirar um dez travado mas eu sou assim. Coisas que não dá pra mudar. Mas seja sincero, você não fica com uma vontade de se espancar quando só erra um escore ou tira um 9,8?
Sim, não precisa mentir. Eu sei que já passou por isso. Todos já passamos.
Esse ritual antes da prova é tão bonitinho. O meu caderno fica lindo com as contas perfeitamente arrumadas nas suas folhas. PORÉM..... Sabe o quê ocorre?
Ao chegar na sala de prova. Sentar na sua cadeira e abrir a sua provinha... Não tem quase nada que você estudou. E se tem, é um daqueles três que você não conseguiu resolver e deixou pra lá porque já era muito tarde.
Essa situação sempre acontece comigo.
Não vou mais pensar isso. Eu vou conseguir. Só tenho que bolar uma maneira de me concentrar.
Lembrei da aula de filosofia que tivemos no ao passado quando o professor fez tal pergunta para a turma:
“Vocês preferiam tirar um nove e o resto da sala INTEIRA tirar um dez ouuuu tirar você tirar um sete e o resto INTEIRO um quatro?”
Até hoje não tirei uma conclusão...
“Sunny! Quer passear?”, digo enquanto dou um pulo da cama para pegar aquela lindinha no meu colo.
Ela assim que escuta a palavra ‘PASSEAR’, ela começa a abanar o rabinho e a dá um latidinho de felicidade.
Pego uma das coleiras dela, e me esforço para conseguir prender a alça no peitoral dela, já que ela não parava de pular.
Eu deveria estudar. Mas ainda e sete e meia da noite, tem tempo de sobra. Não tempo de sobra para oito capítulo de matemática mas, acho que isso vai me concentrar. Estava chateada com aquela situação. Talvez um professor particular ajude... Vou sugerir essa ideia para os meus pais.
Sem mencionar que a Sunny não deu seu passeio matinal hoje. E o sedentarismo está aí batendo na porta.
Pego o saquinho para recolher o cocô enquanto a Sunny me puxava para a frente com uma força quase que inacreditável considerando o tamanho dela.
“Mãe! Vou levar a Sunny para passear!”, grito para que minha mãe escute da cozinha.
“Não demore!”, ela retribui o grito.
Chamo o elevador de serviço, por que não se pode levar cachorros no social. Nem mesmo se eles estiverem nos seus braços! Essa regra é muito chata, porque sempre o elevador de serviço está molhado já que as crianças sempre voltam molhadas da piscina e também não podem usar o social.
A porta do elevador abre, observo o chão. Seco.... Isso é muito suspeito. Sunny me puxa novamente. Aperto o T (térreo).
Quando as portas se abrem de novo vejo que um grupo de crianças estão super animadas enquanto observam uma partida de UNO entre elas.
Dou uma corridinha rápida com a Sunny pra ver se ela gasta pelo menos um pouco da energia que ela estava usando para me puxar. Ela para dando cheiradinhas no capim. Ao achar o lugar ideal, ela faz seu cocô. E logo após ela olha pra mim como se dissesse: “O quê está esperando para apanhar isso?”
Dou uma volta completa no condomínio. O quê não é uma tarefa rápida visto que a volta completa é exatamente um quilometro. E se torna uma tarefa mais demorada com uma cadelinha como a Sunny,preguiçosa. Todo tempo com a língua de fora para mostrar como está cansada.
Sento em um banco perto da área infantil que estava vazia.
Coloco a Sunny no colo e fico acariciando a sua cabecinha e coçando a sua orelha. Olho para o céu. A visão dali é pior que a do meu quarto. Podia contar o numero de estrelas visíveis ali.
Nenhuma constelação à vista. As luzes da cidade sufocam o brilho das estrelas. Mas não pense que isso é um prejuízo para elas, e sim nosso que ficamos sem o prazer de contemplar tal beleza. Acho que bolas de gases em constante explosão não se importam de serem observadas ou não por meros mortais.
Mas havia uma gigante que eu sempre observava da janela do meu quarto e que agora, sentada naquele baquinho de madeira, eu tinha a visão perfeita. A Lua. Como eu amava aquele satélite sem brilho próprio! Podem dizer o que quiserem da lua, mas eu sempre vou adorar aquela minha redonda prateada. Podem falar o que quiserem da lua, mas eu sempre vou admira-la. E daí que o brilho não é dela é a reflexão da luz solar? E daí que ela seja bem menor que a Terra? E daí que ela esteja a cada dia mais longe do nosso planeta?
Não me importo!
De todos os corpos celestes dessa galáxia a lua sempre foi a mais próxima da gente! Ela que dá o toque perfeito no céu estrelado, as estrelas fazem um papel de fundo para a verdadeira ‘estrela da noite’ chegar! Não que eu ache que as estrelas tem um papel menor que a lua, muito pelo contrário. Quer saber de uma coisa? Pra mim não é possível comparar! É a mesma coisa de pedir: Céu ou Mar? Cada um tem algo especial, diferente! Algo que o faz únicos, então porque comparar?
Despertei dos meus pensamentos com um latido alto. E não era o da Sunny...
“Oi Anna! Como vai essa pequena”, vejo um Tapioca bem feliz e um João que tentava controlar o seu cão.
“Acho que cansada.”, digo rindo enquanto Sunny balança fortemente o rabo... não sei como não doi...
***
Eu moro no último andar, décimo nono, e o João no de baixo. Quando ele se mudou para o apartamento 183 eu e meus pais fomos fazer uma visitinha de boas vindas. Eu tinha oito anos na época, e estava viciada com o jogo de tabuleiro Detetive, e meus pais tinham levado uma torta de morango. E esse era o sinal que a visita iria demorar.
Quando entrei no apartamento fiquei impressionada como havia poucos dias a mudança de casa e tudo já estava arrumadinho. Sem nenhuma caixa no meio da casa, todos os móveis perfeitamente decorados com o estilo vitoriano.
Fiquei entredita. Apenas eu e meus botões.... Literalmente meus botões, em vista que eu sempre era obrigada a colocar o mesmo vestido de tecido grotesco e áspero com enormes botões marrons para fazer as visitas de boas vindas.
Estava morrendo de vontade de comer aquela torta, ou até mesmo meter o dedo só o recheio pra mim seria o suficiente. OU A COBERTURA!
Ao tocar a campainha fomos recebidos por latidos. Já fiquei embolcada com a ideia de poder brincar com um cachorrinho.
“João coloque o Tapioca no quarto!”, escuto uma voz feminina gritar do outro lado da porta.
Barulhos de chaves se batendo e maçanetas girando me fazem odiar ainda mais aquela maldita visita! Porque eu não podia simplesmente ficar em casas solucionando mistérios com o jogo Detetive?
E porque não podia brincar com o cachorro que ouvi latir?
Ao abrir a porta vi uma mulher com um vestido vermelho e cabelos curtos e pretos. Era jovem, lhe daria 26, mas logo descobri que tinha 30.
“Olá como vai?”, ela diz sorridente.
Minha mãe a abraça e lhe dá a torta. A mulher parece surpresa, e de repente parece que nota que eu estava ali.
“Então essa é a sua garotinha”, ela diz com um sorriso enorme no rosto.
“É sim. Essa é a Anna. Anna essa é a Isabelly”
Só depois descobri que a Isabelly e a minha mãe foram colegas de escola. Não amigas, só colegas. Mas só a ideia de minha mãe ter ido a escola me deixava arrepiada. Minha mãe frequentou a escola?
Você pode me dar um crédito? Eu tinha 8 anos.
Enfim, meu pai não gostava daquelas visitas tanto quanto eu. Mamãe também o obrigava a usar umas calças feias e umas alças elásticas vermelhas nos ombros. Me lembrava um palhaço.
“Entrem por favor!”, a mulher diz dando espaço para entrarmos.
A casa era bem aberta e iluminadas. Mas estilo bem romântico. Ela diz para ficarmos à vontade então sentamos. Ela vai até a cozinha fatiar a torta.
E não simpatizei com os atos daquela mulher... Ele me deu um pedaço bem pequeno em comparação com a dos meus pais. Assim que papai viu minha expressão ele trocou imediatamente os nossos pedaços.
Após acho que quarenta minutos de conversas chatas: fofocas de ex-colegas e o quê estavam fazendo atualmente, como a casa tinha ficado bonita, como estava o divorcio dela. Blá Blá Blá...
Cansada daquele papo chato, percebi quando encontrei a oportunidade perfeita. Os meus acompanharam a mulher, descobri mais tarde que seu nome era Sara, para mostrar um encanamento que estava quebrado na cozinha então corri para o corredor.
Minha missão era descobrir em quais dos quartos estava o canino! Um mistério para uma Detetiva, eu inventei o termo.
Tinha exatamente quatro portas no corredor, e em uma delas estava o peludinho. Eu fiz o que qualquer detetive faria: ABRI PORTA POR PORTA. Não usei a ciência da dedução do meu querido Sherlock... ele ficaria decepcionado.
Comecei pelas portas da direita.
A primeira dava para um banheiro. Bem bonito por sinal. Todo em vidro, leds por todo lado. Acho que a Sara arrancou até o quê o ex marido não tinha mais pra dar.
A Segunda dava para um quarto. Provavelmente o de Sara. Todo Branco com uma enorme cama: com apenas 8 anos eu teria que pular e subir escalando os lençóis.
Terceira porta. Quando eu abri uma enorme coisa dourada pulou em cima de mim.
“Tapioca para!”, escuto uma voz de menino falar enquanto puxava pela coleira o tal Tapioca, “Desculpa, ele não é sempre assim”
Um garotinho com sardas e de cabelo castanho escuro fala. Assim que eu o vi, fiquei sem ar. Juro que escutei uma música bem romântica tocar ao fundo (pelo menos tocou na minha cabeça).
“ Você está bem? Por favor não conta pra minha mãe, se não ela vai querer devolver o Tapioca”, ele disse enquanto pegou meu braço e me colocou pra dentro do quarto.
Eu não conseguia parar de olhar para aqueles olhos castanhos. Tão fofinhos.
“Por favor!”, escuto.
“O quê?”, digo.
“Por favor, não conta pra mamãe!”, ele diz desesperado.
“Não vou contar”, eu garanto à ele.
“Obrigado”, ele se agacha e envolve o cão nos seus braços.
“Ele não é um poodle, nunca vi poodles dourados... E também é grande pra ser um poodle. Pitbull?”
“Não!”, o garoto parece decepcionado, “É um Golden retriever!”
“Ah”, falo sem surpresa mas eu estava. Eu só conhecia a raça poodle. E Pitbull vi em um filme. Nunca tinha suspeitado que tinha outras raças. E as outras diferentes que eu via quando as vezes passava na rua, deduzia que eram mutantes ou espécies geneticamente modificadas. Sim, para uma crianças eu tinha sérios problemas de comportamento.
Fico com receio de colocar a mão na cabeça dele.
“Ele não morde!”, o garoto diz rindo. Ele pega a minha mãe e me força a pô-la na cabeça do Tapioca. Pelo macio. Ela lambe a minha mãe e começa a abanar o rabo.
“Ele gostou de você!” , o garotinho diz feliz.
“Como sabe?”, digo curiosa.
“Eu e o tapioca somo parceiros? Só parceiros entendem parceiros. Se ligou no esquema?”, okay... eu achei ele meio idiota no começo.
Eu teria mantido a minha paixão por aqueles garotinho se eu não tivesse lembrado da minha política contra garotos. Eles eram nojentos, chatos, implicantes.
“Não”, digo séria.
“Ei! Você tá afim de jogar Quest? Ganhei faz umas semanas e só pode começar uma partida com dois, e a mamãe não gosta de jogos.”
“Não obrigada. Talvez uma outra hora, vou subir e jogar Detetive. É o melhor jogo desse mundo inteiro!”
“Você joga detetive?”, ele parecia surpreso.
“Jogo sim. Algum problema?”, eu sei. Eu era uma criança muito desaforada.
“Mas você é uma menina!”, ele diz apontando pra mim.
“E daí? Sou uma detetiva, na verdade a melhor da liga. Só não melhor que o Holmes, que é o meu mestre e companheiro de laboratório.
“Primeiro: Não existe essa palavra Detetiva é DETETIVÊÊÊ”
“ Existe sim, eu mesma criei.”
“Segundo”, ele diz apontando o indicador para o teto, “Eu sou melhor que esse tal Holmes”, ele diz com ar de desprezo.
“Você não sabe de nada! O Sherlock é o melhor de todos nesse mundo. O melhor!”
“Não é nada!”, ele diz raivoso.
“Não vou discutir com você”, digo.
“Não vai porque sabe que eu tenho razão!”
“Não mesmo garoto. Você é um menino. É uma perca de tempo discutir com um cérebro tão minúsculo como o seu...”, digo me virando para abrir a porta e sair daquele quarto.
“Espera...”, ele diz me puxando, “Quer jogar Super Mario?”
Ele corre para uma estante branca que estava no canto do quarto. Então apenas naquele momento comecei a repara naquele quarto. Tinha várias cortinas azul marinho, uma estante com uma TV tela plana de acho que trinta polegadas, um vídeo game e vários discos no chão. Uma cama de casal toda desarrumada com lenços azuis e com o desenho de Pokemons. Reparei que ele tinha uma varanda só pra ele.... Fiquei com inveja, confesso. A cama do Tapioca era grandinha... verde e por incrível que parece acho que fazia parte da decoração.
Tinha um skate jogado ao lado de uma bicicleta com adesivos de caveiras. E um violão jogado em um canto do armário que estava com a porta aberta.
“Não gosto de vídeo game”, digo.
“Você pelo menos já jogou?”
“Não... por isso que eu não gosto”
“Viu! Diz que não gosta de coisas que nunca fez, típico de menina”, ele diz pegando uma bola.
Acho que eu estava descobrindo o universo masculino e ele o feminino. Como se menino e menina fossem aliens de planetas diferentes.
“Vou jogar Detetive quando chegar em casa... Agora tenho que ir”
“Posso jogar com você?”, tenho que admitir que fiquei surpresa.
“Acho que sim”, digo. Estreito os olhos enquanto ele arremessa a bola e acerta a cesta que estava na porta do armário.
“Agora?”, ele diz sorrindo e irônico. Espertinho...
“Tudo bem, agora”, digo. Não queria demonstrar mas eu estava feliz.
“E depois você vem aqui jogar Super Mario?”
“Venho. Mas não só pra ti provar com esse jogo é beste!”, digo apontando o dedo pra ele.
Caímos na gargalhada.
“Alias meu nome é João”, ele estende a mão e eu a aperto forte
“E eu sou Anna”, digo com um sorriso enorme no rosto.
***
“Como anda as provas?”, o João diz sentando ao meu lado.
João estuda no Colégio Militar, algo que eu odeio. Desde pequena sou a melhor amiga dele e sempre quis (após os meus anos....) estudar com ele. Mas desde a quinta série ele estuda lá. Acho super legal os eventos: desfiles, olimpíadas internas (no meu colégio também tem mas não chega nem aos pés da Militar...). E digamos que o João é meio esportista então ele adora participar de tudo que ocorre no seu Colégio.
“Já ia falar com você! Preciso da sua ajuda em matemática. Por favor!”, faço cara de desesperada.
“Como deseja, Madame.”, ele diz fazendo uma reverencia, “Quando?”
“Amanhã duas horas está bem pra você? É que eu tenho prova de geografia e sociologia amanhã sabe?”, digo rindo, “Enfim... não quero me ferrar nas três de uma vez então estudamos mais na quinta, ok?”
“Claro. Eu preciso da sua ajuda em história, pode ser?”, ele diz envergonhando.
“Óbvio que pode seu bobo! Quando é a prova?”, digo dando um soquinho no seu ombro.
“Já é nessa terça que vem”, ele diz olhando para o chão.
“Já? Tem tempo de sobra!”, o Tapioca solta um latido como se concordasse comigo.
“Não pra mim. Eu simplesmente odeio história!”, ele diz levantando, “Vai subir?”
Olhei a lua uma última vez.
“Vou”, digo sorrindo enquanto ele pega a Sunny nos braços e eu a coleira do Tapioca. As vezes quando levamos os cães pra passear, trocamos de cachorro. O Tapioca já tinha cinco anos quando eu ganhei a Sunny.
O João é acostumado com a minha mania de olhar o céu.
“Lua minguante”, ele diz com aquele sorriso sem aparecer os dentes, ao qual eu me derreto toda.
O Tapioca apesar de ser seis vezes maior que a Sunny, é muito mais calmo do que ela. Ele não puxa e não rasga a coleira. Uma vez a Sunny fez a proeza de rasgar a coleira e sair correndo pelo condomínio. Sai correndo atrás dela, mas nunca ia conseguir alcança-la. Uma mulher que estava indo no sentido oposto ao meu viu e pegou aquela cadelinha travessa.
“Ela é linda”, digo sorrindo.
A gente subiu no elevador batendo papo e quando chegou no dezoito nos despedimos com uma abraço. Esperei o elevador me levar para mais um andar.
Ao ouvir a porta se abrir minha mãe correu do escritório para a sala.
“Que passeio demorado”, ela diz desconfiada.
“Mãe, sabe quanto tempo demora pra subir nesse elevador?”
“ A culpa é do elevador agora ANNA? Você tem várias provas. Acorda menina! Se eu buscar o seu boletim e tive alguma média abaixo de oito e meio você vai estudar tudo do primeiro semestre.”, ela me olha indignada, “Tá me ouvindo ANNA?”, porque ela sempre tem que gritar quando pronuncia o meu nome?, “O Vestibular tá aí. Falta menos de dois anos menina! Vê se cresce!”
Meus olhos se enchem de lágrimas. Sei que ela fala aquilo para o meu bem. Mas magoa. E magoou.
“Abre os olhos mãe. Acha ainda que eu não cresci?”, digo quase sem voz.
Passo rápido por ela e corro para o meu quarto. A Sunny vai logo atrás de mim.
Me tranco no quarto e caiu na cama. A Sunny pula e caminha entre os lençóis até acha o meu rosto. Ela lambe minha bochecha como um gesto de ‘Eu te amo’. Sento e à abraço.
“Será que ela não consegue ver, Sunny? Será que ela não vê que eu estou tao preocupada com o ENEM quanto ela? Eu me importo. Talvez até mais. E eu vou passar para qualquer uma que eu escolher. Porque...”, as lágrimas começam a escorrer pela minha bochecha, A Sunny observa triste aquela cena, “Porque eu sou Anna Joseph. E eu sou capaz disso”. Digo caindo no choro. Porque eu não acreditava no que eu tinha falado.
EU NÃO SOU CAPAZ DISSO.
Lembrei da noite que tinha guardado a foto que o Harry W me deu, estava em um porta retrato escondido na gaveta do criado mudo. Nas férias fiquei mais de uma semana melancólica por causa do ocorrido na festa do Pub. A festa tinha sido maravilhosa, mas queria ter tido mais tempo com o Harry W. E o que esse W significa? Adoraria saber as letras posteriores à ele. Minha mãe pensou que eu estava de TPM prolongada, o quê atribuiu o nome frescura. Uma semana depois me tranquei no quarto para olhar a foto, a distância entre a superfície da foto polaroid comigo estava muito grande com aquele vidro do porta retrato.
Eu a tirei a foto de dentro dele, e qual foi a minha surpresa ao ler o que estava escrito lá e nem sequer havia notado nas vezes que eu havia manuseado.
“Que você me guarde na memória, mais do que nessa foto.”
Uma pena você ir tão cedo e não poder ficar para o show. Você não é tipo aquelas garotas do sonho que aparecem uma noite e de repente desaparecem, né? Pra registrar que isso não foi um sonho ou delírio meu bati essa foto. Espero que você seja mais pra mim do que apenas a garota do delírio.
Harry.
Quase gritei quando li aquilo. Hoje, sei que aquilo foi realmente um sonho ou delírio. Nunca mais vi Harry W. Nunca saberei o que vem depois do W. Se ele é fotografo ou não. Se era playboy que tava precisando de grana ou simplesmente um rapaz trabalhador.
A confirmação pra mim foi quando se passaram dois meses. Não que eu tenha ficado melancólica depressiva por dois meses. Mas ainda tinha a esperança de ver ele em um shopping ou qualquer coisa do tipo. Jurava que era o destino, sei que é bobagem, mas se o destino permitiu esse encontro no Pub era porque eu o veria novamente e algumas semanas. Mas se passaram mais de um ano, e o Harry W tinha sido esquecido. Virado lembrança, e sua única recordação se sua existência era aquela foto que eu fazia questão de guardar.
Abri a gaveta do criado-mudo e vi uma foto. Não a que eu estava com o Harry, porque aquilo já tinha perdido o significado. Mas a foto dos meus quinze anos, quando eu estou com um buquê enorme de rosas dado pelo João no meio do cerimonial.
Ela estava tão lindo de smolking. A Marina dizia que ele parecia um pinguem ou garçom com aquilo. Mas todos os homens estavam assim, então foi a festa do garçom...
Não, ele não parecia um pinguem ou garçom. Ele parecia o meu João.
Desperto dos meus pensamentos com a minha escrivaninha me encarando, sei que ela não pode encarar mas... ela estava de uma forma com todos aqueles livros empilhados. Prontinhos para serem lidos e resolvidos. Eu ouvi essa porcaria de escrivaninha falando: ‘Vai ficar aí sonhando ou vai vir logo estudar?’.
Como resposta eu disse eu já vou.
Levantei da cama e fui para a zona de guerra, onde não tem morte ou fuzilamentos, mas conhecimento sofrido.
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