No Sleep
3 02| mansão do tártaro
Notas iniciais
Sabe aquela vontade quase que incontrolável de querer ficar sozinha, isolada e esquecida em um lugar escuro qualquer do mundo? Pois é exatamente isso que estou sentindo agora
Não seria surpreendente se eu própria fizesse um buraco no meio do nada e jogasse a mim própria viva dentro dele. Seria um alívio até, uma eternidade de paz que se instalaria em mim. Pena que isso não é possível, pelo menos, não humanamente na minha concepção
Talvez eu tivesse nascido com karma ou alguma maldição em mim jogada: passar a vida sendo perseguida por monstros com a própria mãe achando que você é uma doente mental. Com certeza não seria a vida que pediria para Deus
Desde pequena aprendi a reprimir meus medos e vontades, nunca fui uma criança normal, pelo menos não julgo algo 'normal' está brincando na presença de espíritos de pessoas mortas ou a própria face do diabo acompanhado seus movimentos e sinceramente foi nessa época que comecei a nutrir um certo ressentimento acerca dos psiquiatras que me falavam que o que eu via ou presenciava 'era da minha cabeça' e que 'não era real, eu estava imaginando' meu saco pra esse tipo de conversa estourou-se cedo
O meu caso, se mantém em segredo, o que agradeço internamente. Se na escola sou considera 'a esquisita' sendo alvo de fofocas e zoações por não me enturmar em nenhum dos grupos imbecis que criam e não ser social, imagine o que fariam se soubessem que sou essa 'aberração humana' como minha mãe mesmo me jogou na cara uma vez. Creio que já tinha sido lixada em praça pública ou o pior: queimada viva enquanto sou apedrejada, do jeito que são, não ficaria surpresa se isso realmente acontecesse
Ainda não fazia sentido na minha cabeça como tem se a coragem de largar tudo pro alto (sim, porque foi exatamente isso que minha progenitora fez) deixar todas as conquistas de sua vida pra trás: casa, emprego e amigos, tudo isso pra que? pra casar se com um homem que conhece a pouco mais de dois meses. Detalhe: um viúvo com três filhos em cima de suas costas, desculpa mas na minha teoria isso é um pouco apressado demais
Talvez possa estar sendo egoísta, afinal, deveria ficar feliz pela minha mãe já que ela própria o está. Mas... Não consigo está minimamente contente em meio a esse caos ou pelo menos, fingir sentir isso. Não funciono sobre pressão ou a base da hipocrisia, não sou desse modo, mas bem, isso já era de se esperar: nasci com defeito de fábrica, mas isso tem seu lado positivo creio eu, já que na vida que levo, de tédio não morro
Alguns minutos se passaram desde que chegamos no aeroporto do Canadá, ficar dez horas com a bunda grudada na poltrona do avião não é muito confortável, ainda mais com a presença do mostro aéreo que os dubhin's me falaram. Porém, ainda sim preferia está lá do que aqui esperando o demônio maior e as suas crias que estão encarregados da minha morte. Ainda bem que está preso no trânsito, o que dá tempo de me controlar pra quando ele aqui chegar não pular em seu pescoço e esgana-lo ou a melhor das hipóteses, fazer minha mãe desistir dessa idéia estupidamente idiota, isso sim, seria prefeito!
Durante o voo passei quase toda a viagem me certificando que o mostro aéreo não resolvesse dar as caras, o que não aconteceu e por fim, consegui dormi algumas horas, já que, minha mãe estava em um sono profundo onde parecia não se importar se isso acontecesse, mas também: ela não sabe metade das coisas que sei
"Ackalia? Eu vou comprar um mananá de uva, você não quer que eu traga alguma coisa pra você?" a voz da minha mãe tirou me do transe, cogitei a idéia, já tínhamos feito o almoço e a janta na viagem. Levanto um pouco meu olhar, dando de cara com a sua face apressada
"Chocolate seria bom." eles tinham um estranho dom de me acalmar
"Tudo bem, fica de olho nas nossas malas enquanto eu vou comprar." assenti e observei sua figura desaparecer do meu campo de visão
Corro lentamente os meus olhos pelo vasto espaço a minha frente. Havia muitas pessoas, desde de crianças e bebês à adultos e velhos de terceira idade, todos apressados com os seus afazeres. Menos as crianças claro, essas estavam se divertindo bastante com o carrinho das malas. E as vezes me pego desejando ser como elas por algum momento: inteligente, pura e feliz
Vejo algumas famílias passarem por mim enquanto sorriem abertamente um para os outros o que me dá inveja. Queria que meu pai estivesse aqui comigo agora, que essa viagem fosse apenas uma tomada de férias, que eu não fosse essa pessoa problemática que sou e que minha mãe, não estivesse prestes a se casar. Pena que isso não passa de um sonho meu que nunca será realizado: minha família reunida de volta. Como se precisando de apoio, passo de leve minha mão sobre o pingente da corrente que meu pai me deu
"Ah, minha sorte que a fila não estava enorme igual a vejo em filmes.") volto a minha atenção pra minha mãe depois dessa fazer o cometário rindo (Aqui, espero que goste de chocolate belga." deu me uma barra e conti-me para não dar lhe um bote. Ainda era uma pessoa civilizada ou pelo menos tento passar essa impressão
"Bem, é chocolate, já basta." falei pegando de sua mão não perdendo tempo para o apreciar.
Assim que seu gosto estala em minha língua. Fecho os olhos contendo um suspiro. Eu realmente amo esse pedaço de céu. Ainda escuto uma pequena risada vindo da minha mãe permitindo me sorri um pouco, o que não dura muito. Assim que sinto mãos em meus ombros, viro — me apressadamente revelando o pequeno ser que possui um rabinho vermelho saindo de sua bunda juntamente com um triângulo na ponta, recuo com o seu toque
"Aaron. Que bom que já chegou." minha mãe que estava tomando seu sumo joga — o em algum lugar na cadeira. Abraçando de seguida o ser de cabelos cavados. Então era esse o nome do miserável, Aaron? A sério?
"Consegui contornar o trânsito um pouco mais rápido. Chegaram bem de viagem?" perguntou largando (finalmente) minha mãe
"Um pouco cansativa, verdade. Mas estamos bem sim." obviamente que a pergunta foi dirigida a nós duas pelo seu uso do plural, porém, só minha mãe respondeu. Quanto menos idéia eu tiver com esse cara, melhor
"Vocês passaram dez horas confinadas no avião não é pra menos, mas fico feliz que estejam bem." sorriu e vi pela minha visão periférica ele beijar a mulher à sua frente. Tenho só uma palavra pra descrever esse momento: que nojo
Minha mãe sorriu envergonhada depois da sessão de afetos em público e dirigiu — se pra mim. Ah não, ainda tinha a intenção de ficar invisível aqui
"Aaron, essa é a minha filha Ackalia." falou pro seu 'noivo' porém, não dirigi meu olhar pra o próprio. Preferia evitar contanto ficando com a cabeça baixa praticamente pendurada em meu pescoço "E Ackalia, esse é meu noivo Aaron." voltou se pra mim. Sei que provavelmente conteve bufar em minha cara após ver a minha posição
"Prazer em te conhecer Ackalia, sua mãe falou me que você era bonita, realmente ela não estava exagerando." lá vinha ele com aquele papo típico de situações como essa. Consegui ver sua mão estirada em minha frente esperando meu aperto de mão, ele que espere sentado, isso não iria acontecer. Por fim abaixou a mão suspirando e foi a minha vez de conter algo: meu sorriso de vitória
"Bem, vamos? Os meus filhos estão esperando na nossa casa." falou fazendo minha mãe abrir um sorriso largo "Tenho certeza que estão cansadas." como ele deduziu isso? Será mágica ou bruxaria? Faça me um favor
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Chegamos ao destino final, vulgo a profundeza do Edem mais conhecido por tártaro ou inferno, como preferirem. Tinha vários apelidos capirotescos para descrever o lugar que a partir de agora passarei a viver e assim como qualquer lugar demoníaco o espaço era enorme poderia ser facilmente confundido com uma mansão. Tinha jardins com gramas verdes ao redor e na faixada, que possuía uma decoração chamativa
Toda viagem de carro até aqui o tal do Aaron tentou puxar uma conversa 'amigável' comigo mas só respondia as suas perguntas com murmúrios e leves assentir de cabeça. Acho que ainda não entendeu que não quero contato com ele e sinceramente estava torcendo para que eu não tivesse que desenhar
Minha mãe por outro lado, quando via que não respondia tratava de o fazer por mim, por vezes com olhares de irritação dirigidos para a minha pessoa. Ela me obrigou a sair da minha casa, não poderia fazer o mesmo pra que fosse simpática. Realmente é uma pena
Saio do carro enquanto os outros dois faziam o mesmo e minha mãe aproveita a distração de Aaron pra chamar minha atenção
'Filha, eu realmente iria apreciar a sua cooperação." falou aos cochichos
"O que quer que eu faça? Lamber os pés dele?" eu realmente estava irritada, o que ele era afinal? Jesus? Ou a versão demoníaca de Zeus?
"Não falei isso."
"Bem, se espera que eu seja simpática com o cara que inutilmente está tentando roubar o posto do meu pai. Isso é pedir mais do que posso oferecer." faltava agora ela dizer que não era isso que ele queria, ela sempre mente pra mim, eu sei
"O que? De onde você tirou isso Ackalia? Ninguém aqui quer tirar o lugar do seu pai." não falei... No final eu era sempre a maluca que viajava demais nas suas ilusões
Não respondi e mesmo se quisesse não tinha tempo. Logo Aaron chegou tombante com nossas malas, peguei a minha e minha mãe tentou ajudar pegando a dela, mas ele não deixou, que cavalheiro não? Deixa ela sonhar. Só espero que o tombo não seja maior do que aquilo que prevejo
Atravesso o jardim com uma distância plausível dos dois pombinhos que estão tendo uma conversa que não faço o mínimo esforço para participar. A única coisa que gostei daqui, com certeza foi o jardim, não cansava de observar as variedades de flores contidas nele. Tive uma leve impressão de ver algo flutuante de asas por cima de uma muda de orquídeas mas assim que pisquei. Sumiu de minhas vistas, estranho
Assim que Aaron abre a porta de sua mansão do tártaro, sou recebida por uma figura de cabelos brancos com terno social e postura ereta. Isso só pode ser brincadeira
"Boa tarde senhoritas." sua voz soou cortez. No que esse homem trabalha? Sequestros? Assalto a bancos? Mercado negro de órgãos?
'Oh, que isso Marcus já nos conhecemos não precisa disso." minha mãe sorriu abraçando de surpetão o mesmo "E essa é minha filha Ackalia." apontou em minha direção. Assenti, logo senti as malas sendo arrancadas de minhas mãos, lutei início mas assim que percebi que era uma das empregadas a deixei levar para o lugar que pretendia a deixar
"Esse é Marcus o mordomo da casa, trabalha à muito anos comigo. É de confiança." sorriu Aaron
O Marcus não teve tempo de responder, pois assim que ele abriu a boca, do nada, apareceu uma garotinha que aparentava ter cinco anos apareceu no hall da sala com seus cabelos loiros em sua face enquanto corria para os braços de Aaron.
"PAPAI, PAPAI. VOCÊ DEMOROU." gritou assim que viu seu suposto pai que a levantou no ar depois dessa pular em seu colo. Por um milésimo de segundos essa cena dolorosamente me fez lembrar de mim e o meu pai
"Eu sei querida, desculpa sim? Mas eu fui buscar essas lindas moças." sorriu em nossa direção. Que falso
A menina que até agora não tinha reparado em nós, nos observou parando mais do que deveria na sua avaliação em mim, quebrei o contato dos olhares. Ela por outro lado pareceu não perceber, curvou se sobre seu pai e lhe sussurrou alguma coisa o fazendo rir e assentir
"Sim princesa, é ela." concordou com qualquer pergunta que lhe foi questionada pela pequena menina ao seu colo. Tenho que confessar, apesar de ser filha do demônio, ela parecia sair de livros da Disney, delicada e bonita. Achava ela fofa, principalmente com seus cabelos dourados em cachos que caiam em cascatas pelas suas costas
"Meninas, essa é a minha princesa, Alice." em vez de se encolher no braço de Aaron assim como eu pensei que faria, ela salta do colo do pai correndo pra minha mãe dando um abraço apertado em suas pernas
"Oh, querida, prazer, eu sou a Beatrice a noiva de seu pai, espero que não se importe com isso. Você é muito linda sabia?" minha mãe abaixou — se a sua altura
"Ah sua boba, eu sei quem você é. Papai não parou de falar de você." confessou rindo "Eu não me importo, na verdade eu acho legal.' eu estava estática olhando Alice. Como assim? Ela tava de boa com isso? Ela não pensa na mãe dela não? Quer dizer, eu sei que ela morreu assim como meu pai, não de câncer mas por falta de medulas ósseas compatíveis com as suas, mas essa criança não guardava nenhuma memória dela? Quer dizer, merda, estávamos falando da mãe dela
'Além de linda e esperta e inteligente." sorriu minha mãe. E era estúpido, mas acho que estava começando a sentir uma pontada de ciumes me invadindo
"Obrigada." falou mas assim que minha mãe levantou se, ela virou se para mim caminhando entre leve pulinhos ao meu encontro. Okay, é agora. Cadê o buraco que estava pensando em me enfiar mais cedo? preciso dele agora. Eu tava com medo de uma menina de cinco anos? Era isso mesmo?
"Oi." falou docente e não tive coragem de ficar calada. Ela não tinha culpa disso não é verdade
"Hey." sussurrei mas saiu mais forte do que esperava e assim como minha mãe fizera ajoelhei me pra ficar de sua altura
"Meu pai me falou bastante de você também. Que seríamos irmãs." sorriu visivelmente feliz com isso
"Aah... Eu acho que sim." ela era só uma criança, muito fofa por sinal, não merecia que eu usasse minha falta de simpatia perto dela. Já fui como ela uma dia. E estranhamente gostava de sua figura. Sorri
"Seu nome é Ackalia não é?" perguntou e assenti 'Eu acho bonito, assim como você, gosto de seus olhos, queria que o meu fosse igual ao seu." sua voz era tão angelical que tive que conter uma gargalhada
"Oh não.. Seus olhos são tão lindos e são azuis, você não queria ter o meu." ela sorriu
"Você acha eles bonitos?"
"Claro." quer dizer, quem não acharia?
"Vem pro meu quarto, quero te mostrar os meus brinquedos." tentou levanta — me puxando me pelos dados, o que foi inútil já que, ela quase não tem forças pra isso
"Agora não Alice, ela passou uma longa viagem pra chegar aqui, deve está cansada não concorda?" seu pai interrompeu e eu levantei me
'É, eu posso esperar." falou um pouco triste
"Não fica assim, prometo que depois eu vou jogar seu quarto pra você me mostrar, tudo bem? " estava me sentindo mal por estragar seu entusiasmo, mas realmente tenho que concordar com o ogro, estava cansada e apesar de senti um pouco de fome. Tudo o que eu queria agora era dormir
"Tudo bem." voltou a sorrir, olhei a minha mãe que tinha uma expressão estranha em seu rosto
Assim que ela falou, saíram do mesmo lugar que a pequena tinha surgido, dois rapazes, um que aparentava ter a minha idade com cabelos assim como o meu porém um pouco mais escuro, olhos iguais o de Alice. Já o outro, julgava ser dois anos a frente de mim, tinha cabelos loiros e olhos assim como os de Alice e o rapaz que estava ao seu lado, eram azuis, porém esses muito mais forte que os anteriores
"Pensava que não iriam mais dar as caras. pronunciou se Aaron." Devia ser seus filhos restantes
"Pois é, o Evan que não queria sair da cozinha." admitiu o mais novo
"Eu sou o Tristan." sorriu em direção da minha mãe
"Beatrice." retribuiu o sorriso, conseguia perceber que estava tensa. Tristan voltou seu olhar pra mim e se possível largou ainda mais o seu sorriso
"Maninho, essa é a Ackalia, ela não é linda. Quando eu crescer quero ser igual a ela." Alice falou ressurgindo do meu lado. A olhei séria, rezando pra que o quer que fosse que ela acabou de falar Deus não a ouvisse. Que ele a livre de ser como eu
"Sim, sim, ela é muito bonita." continuou com seus olhos cravados em mim, pena que não estava fazendo o mesmo. Nesse momento a miragem do carpete do chão está a ser mais interessante do que seu rosto sorridente. O que deu nele? Síndrome do gato de Alice do país das maravilhas? sério, é perturbador
Depois disso ouve se um silêncio ensurdecedor. Não durou muito já que a Alice 'tomou as rédeas da situação'
"Acho difícil o Evan se apresentar, mas eu faço por ele." Alice riu da sua própria fala "Aquele ali do canto é o chato do meu irmão Evan. Não liguem Beatrice e Lia, ele é legal. Só está rabugento hoje."
"Alice! Eu não sou rabugento." sua voz soou, algo como irriquetação
Tenho que admitir, essa Alice, está me saindo mais esperta do que eu
Depois de mais apresentações desnecessária entre os 'meninos' e minha mãe (já que eu voltei ao meu estado de muda) sai sorrateiramente da sala e Alice me mostrou meu quarto e quase tive um ataque cardíaco quando vi que o quarto era rosa? Porra, sério? Rosa? Eu quero morrer. Além de sentir um ódio em especial por essa cor. Sinto irritação mais por minha mãe. Quer dizer, ela sabe que preciso me manter escondida dos monstros, e isso só funciona com cores neutras, como preto e branco. Nada além disso. Porque ela acha que eu só uso só essas cores como guarda roupa, apesar do preto se sobrepor ao branco? Por moda? Fala sério.
Deito me na cama, tomando um remédio pra dormir logo em seguida, só consigo dormir se os tomar e antes de cair em um sono profundo, rezei pra que os monstros não invadissem o meu sonho. Mais uma vez, tudo graças a bendita cor da visão do Oasis: o maldito rosa empregnado nas paredes
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