No Regrets
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Puta merda. Pensou Melissa
Ele me reconheceu.
Melissa girou sobre os calcanhares e o fitou da porta da cozinha.
Ele a olhava de uma forma intensa e isso a fez ruborizar.
Ele sempre causou isso nela, era como se nada tivesse mudado. Os olhos dele não mudaram, eram as mesmas pedras verdes esmeraldas que ela se lembrava e causavam o mesmo efeito de desconcentração nela. Ela odiava isso.
— Benjamin, está ficando tarde, eu preciso ir para minha casa, outra a hora a gente se fala melhor e coloca os papos em dia, agora tchauzinho!
Melissa falou isso após quase uma eternidade de silêncio e foi se virando mais uma vez em direção a saída, tudo que ela queria naquele momento era evitar qualquer conversa com ele, ela só queria ir pra sua cama e tentar não pensar em mais nada.
— Espera. — Disse Benjamin rapidamente segurando o braço de Melissa com mais firmeza do que ele gostaria, impedindo que ela saísse do lugar. — Onde você mora? Me deixe acompanhá-la.
Melissa suspirou e falou sem olhar em seu rosto:
— Eu moro na casa dos fundos. E não, não precisa me acompanhar, eu consigo chegar lá sã e salva. Agora me deixe ir, eu realmente preciso ir.
Melissa saiu pela porta andando o mais rápido que pôde, mas nada disso adiantou porque logo Benjamin a alcançou e começou a andar junto a ela.
— Melissa, espera, eu quero conversar com você.
— Eu acho que a gente não tem nada para conversar.
— Não, a gente tem sim, você sabe muito bem disso.
Quando eles já estavam perto da piscina gigante da mansão, Melissa parou de andar, olhou nos olhos de Benjamin e falou:
— Fazem mais de cinco anos que a gente não se fala, muitas coisas em nossas vidas mudaram e eu não acho que a gente tenha algo para conversar ainda, o passado ficou no passado e pronto, agora, por favor, me deixa ir para minha casa.
— Tá, tá bom, eu não vou mais te atrapalhar... Mas essa conversa não acabou aqui, eu quero conversar com você e explicar tudo que aconteceu.
Melissa apenas assentiu e saiu quase correndo em direção a pequena casinha que ficava nos fundos da área externa, divida apenas por uma parede.
Melissa entrou em sua casa, que era bem simples, porém bastante confortável para ela e para a sua família. A sala e a cozinha eram interligadas e o que dividia os ambientes era a pequena mesa de jantar de quatro cadeiras. Na sala havia um sofá pequeno, um tapete e um móvel com a televisão em cima e a cozinha era bem menor. A casa possuía três quartos pequenos, um era dos seus pais, Magda e Roberto, outro do seu irmão mais velho, Davi, e o menor era o seu. O seu quarto era bem apertado, cabia apenas um guarda-roupa pequeno, uma cama de solteiro e uma escrivaninha com um espelho redondo na parede, que também servia de penteadeira. Melissa gostava da sua casa, e era muito grata a Dona Beatriz por ter ajudado sua mãe lhe oferecendo um emprego, juntamente com a casinha dos fundos para que eles pudessem morar lá. Sua mãe que também é cozinheira, é a melhor amiga de Beatriz. Na época antes disso tudo acontecer, a família de Melissa estava enfrentando muitos problemas financeiros, chegando a quase ser despejados, pois seu pai estava impossibilitado de trabalhar devido um problema de hérnia de disco na coluna, e sua mãe havia perdido o emprego. Quando Beatriz ofereceu o emprego a sua mãe as coisas melhoraram e hoje ela também podia ajudar nas despesas da casa e no tratamento do seu pai, já que também trabalhava para Beatriz como babá de um dos seus filhos. Melissa planejava economizar para estudar fora, ela queria fazer arquitetura e urbanismo.
Melissa se deitou na cama e não conseguiu parar de pensar naqueles olhos.
A história deles começou quando eles eram ainda crianças, devido à proximidade de suas mães. Beatriz, que na época era casada com o pai de Benjamin, sempre pedia para Magda ficar com Benjamin enquanto ela ia trabalhar, então eles acabaram crescendo juntos e se tornando melhores amigos. Todos diziam que eles eram carne e unha, e mesmo quando eles brigavam devido o temperamento forte de ambos, não passavam mais do que cinco minutos sem se falar. Quando Benjamin completou onze anos, ele perdeu seu pai devido a um trágico acidente de carro. Aquele período foi muito difícil para Benjamin pois ele era muito apegado ao seu pai e culpava a sua mãe pela morte dele, pois no dia que aconteceu o acidente, seu pai pegou sua mãe no flagra na cama com o seu atual marido (que na época era amante), Henri Castelli. Dois meses depois da morte de Felipe, Beatriz se casou com Henri e isso gerou uma grande revolta em Benjamin. Benjamin não gostava nem um pouco do marido de Beatriz e sempre fugia para a casa de Melissa, ou para o esconderijo secreto deles dois. Na última vez que eles se viram, Benjamin e Melissa fugiram para lá e passaram um dia sem ser encontrados. Foi o melhor dia da vida dos dois. O esconderijo deles ficava em um matagal escondido, e era um pequeno barraco que eles usavam para brincar. Naquele dia, Benjamin beijou Melissa e esse foi o único beijo deles. Benjamin prometeu que iria cuidar de Melissa e que eles dois iam se casar quando se tornassem adultos. E aquele foi o último dia que eles se viram.
Alguns dias depois Melissa recebeu a notícia que Benjamin tinha se mudado e que não iria mais voltar. Ela chorou muito pois não pôde nem dar um último abraço no seu amigo. Na escola, ela ficou isolada pois não tinha mais nenhum amigo e todos a desprezava devido sua classe social. E para completar a tristeza e decepção de Melissa, Hanna, sua maior rival inventou para escola toda que Benjamin tinha traído Melissa com ela. Melissa acreditou naquela mentira e naquele dia em diante decidiu que iria esquecer tudo que ela sentia por Benjamin.
O tempo passou e ela fez duas boas amizades: Alice e Enrico, com quem fazia todos os trabalhos da escola. Alice era sua melhor amiga e sabia tudo sobre ela, e Enrico, que sempre foi apaixonado por ela, anos depois veio a se tornar seu namorado. Ela gostava de Enrico, mas sabia que não era amor verdadeiro. Ele era lindo, atencioso, mas tinha uma personalidade forte e um ciúme possessivo que a deixava incomodada.
Naquele momento ela queria esquecer o que tinha acontecido com Benjamin, então ligou para Enrico.
" — Alô? Mel, tá tudo bem, meu anjo?" — Disse Enrico com voz de sono.
" — Está sim, meu bem. Eu só queria ligar para você e ouvir sua voz antes de dormir."
" — Haha, tá com saudades de ouvir minha voz no seu ouvidinho? Que tal se a gente dormisse juntinho? Aí eu poderia falar várias coisas ao pé do seu ouvido que te deixaria arrepiada."
" — Enrico... eu já disse, eu não me sinto pronta para dormir com você." — disse Melissa sussurrando no celular com medo de alguém escutar sua conversa.
" — Ah, qualé, Mel. Já faz um ano que a gente namora, eu tenho esperado com paciência, mas você sabe que eu sou homem e tenho minhas necessidades."
" — Você me ama, Enrico?"
" — É claro que eu te amo, bb. Por isso que eu quero que você seja minha."
" — Se você me ama, então você será paciente e entender meu tempo. "
" — Puft, é claro que eu serei paciente, amor. Mas você precisa se colocar no meu lugar também. Se você me ama de verdade, você me dará essa prova de amor."
Melissa parou de respirar na mesma hora e arregalou os olhos
" — Enrico! Claro que não, você não pode tratar a minha virgindade assim."
"- Amor, espera, eu sei..."
" — Eu vou desligar."
" — Espera, Melissa, deixa eu fal..."
" — Tchau, Enrico, boa noite!"
E Melissa desligou o telefone.
Já fazia alguns dias que Enrico insistia para eles transarem, e quando mais ela resistia mais ele queria. Já estava ficando chato.
Melissa gostava de Enrico, mas não se sentia pronta para se entregar a ele. No fundo ela sabia que ele não era a pessoa certa.
Logo depois da ligação, Melissa se ajeitou e foi dormir, e quando caiu no sono profundo, seu inconsciente a desobedeceu e ela sonhou com aqueles lindos olhos verdes...
...
Benjamin voltou a cozinha e apenas tomou um suco. Ele ficou pensando em Melissa e no quanto queria correr atrás dela só para vê-la mais uma vez. Ela estava linda, linda não, linda é pouco, ele ficou completamente abismado com sua beleza e ele sentiu aquela velha sensação de formigamento que há muito tempo não sentia. Enquanto tomava seu suco encostado na bancada da pia ele deixou escapar um sorriso bobo. De repente ele escuta o barulho da porta se abrindo. Era Henri, o marido da sua mãe, ou melhor, o amante da sua mãe, o cara que roubou sua mãe de seu pai, e que provocou o mais desastre da vida dele. Todos os pensamentos bons que ele estava tendo acabaram quando ele olhou nos olhos daquele homem, que ficou surpreso quando o viu.
— Benjamin, oi. Você já chegou... hmm.. é.. como foi de viagem?
Benjamin apenas o encarou e tentou deixar bem claro a mensagem de que odiou tê-lo visto.
Ele guardou o copo na pia, ignorou-o completamente e saiu calado em direção ao seu quarto.
Henri que ficou sozinho na cozinha apenas falou: — “Hmm.. Moleque mal criado”
Benjamin tremia de ódio daquele homem, mas preferiu não se desgastar com ele.
Naquele momento ele só queria pensar em uma coisa...
Benjamin entrou em seu quarto de jogou na cama e cobriu o rosto com o travesseiro. Ele se sentia cansado, queria dormir, mas não parava de pensar. Ele não conseguia acreditar que tinha demorado tanto para a reconhecer. Melissa era o amor da sua vida e de repente ela estava ali na sua frente e ele não a reconheceu de imediato.
— Burro, burro!
Melissa e Bella eram suas maiores saudades do Brasil, não teve um dia sequer que ele não tenha pensado nelas duas. Com Bella ele falava praticamente todos os dias, mas com Melissa o contato não foi possível, ele até que tentou, sempre que dava ligava para a casa de Melissa e mandava mensagens para ela, mas ela nunca respondia as mensagens e nunca queria falar com ele por telefone, até que chegou um tempo que ele simplesmente parou de tentar fazer contato.
Em Londres Benjamin só tinha se envolvido com uma menina, a Alana. Ela era muito bonita, só usava preto, gostava de piercings e tatuagens, e tinha um cabelo vermelho que chamava atenção por onde passava. Com ela, Benjamin perdeu a virgindade e também aprender a fumar e beber. Os amigos dela eram da barra pesada, logo ele começou a andar com eles e viver algumas “adventures”, como eles chamava. Benjamin vivia em festas, baladas, bebia muito e também usava algumas coisas. Após a última festa que Benjamin foi, ele e seus amigos foram parar na delegacia por terem tido a brilhante ideia de furtar um carro. Nesse dia, Benjamin ficou detido esperando sua avó vim buscá-lo e ele não aguentou nem olhar nos olhos dela. Quando chegaram em casa, sua avó falou que iria mandá-lo de volta para o Brasil. Era isso ou rua.
Ele até tentou fugir, decidiu que ia morar com Alana, mas com dois dias de convivência com ela desistiu. A vida que ela levava era demais para ele, além do mais ele sabia que ela era infiel a ele, e que ele tinha mudado muito desde que começou a se relacionar com ela. Então ele voltou para a casa e naquele mesmo dia ela comprou a passagem para ele vim para o Brasil passar “uns dias”.
Ele queria mudar, queria ser um homem como o seu pai e sabia que não ia conseguir fazer isso com aquelas companhias. Vim ao Brasil e reencontrar sua mãe significava provar pra sua avó que ele se esforçava e que merecia uma segunda chance para mostrar que ele pode ser bom.
Já passava da meia noite e ele não sabia o que o aguardava na manhã seguinte, sabia que provavelmente a mãe iria insistir no papo deles conversarem, e que talvez ele fosse para o colégio, mas tudo que ele queria era vê-la de novo e conversar com ela. Naquela madrugada ele sonhou com uma lembrança, o primeiro e único beijo deles e acordou ansioso para olhar para ela mais uma vez.
Na manhã seguinte de sua volta ao Brasil, Benjamin acordou, tomou um banho e vestiu uma camisa xadrez, com uma calça azul clara e um tênis preto. Ele desceu para o café da manhã e viu que todos já estavam na mesa, “menos o mala do Henri’, pensou.
— Bom dia, Benjamin, dormiu bem? — Perguntou Beatriz
Benjamin se aproximou de sua irmã Bella e lhe depositou um beijo no rosto.
— Dormi bem sim, dona Beatriz.
— Hmmmm... Vejo que acordou com um bom humor
— Acordei e espero continuar com ele, portanto vamos tentar fazer aquele lance de “comer na santa paz do Senhor” ok, Beatriz?
— Benji, você vai para a escola com a gente? — Perguntou Bella
— Sim, sim, já falei com a diretora para encaixar ele. Não vai ter grandes dificuldades já que ainda está no início do ano letivo, irei pedir a Melissa para te apresentar a escola, vocês irão estudar juntos, como nos velhos tempos. — Falou Beatriz
— Hmmm... pelo menos uma coisa boa. — Sussurrou Benjamin baixinho.
— Bom dia, pessoal. — disse Magda, Benjamin logo a reconheceu.
Nesse momento Melissa entrou na sala de jantar onde a família tomava seu café da manhã, e no colo trazia uma bebezinha que parecia ter uns dois anos, tão loirinha quando os gêmeos. Essa deve ser a Bianca, pensou Benjamin. A menininha era muito fofa e simpática e sorriu e acenou para ele. Ele sorriu de volta, adorava criança, e logo se levantou para pegar ela nos braços e, claro, falar com Melissa.
— Então essa deve ser a minha irmãzinha mais nova – Disse Benjamin com muita animação
Todos na sala de surpreenderam com a atitude de Benjamin, visto que não era comum vê-lo animado e sorrindo assim.
— Vem cá, Miss coisinha fofa, vem com o irmão.
Benjamin pegou Bianca no colo e fez questão de tocar nos braços de Melissa e olhar bem nos olhos dela. Ela ruborizou. Ele riu.
— Melissa, minha flor, eu estava falando em você agora mesmo. — Disse Beatriz – Hoje será o primeiro dia de Benjamin na escola nova, e eu achei que você poderia acompanha-lo, como nos velhos tempo, o que acha?
Melissa olhou para Magda depois para Benjamin (que não tirava os olhos dela), e depois para Beatriz, sentiu suas bochechas esquentarem e não teve muita escolha:
— Tudo bem.
Benjamin devolveu Bianca para Melissa e tomou seu café da manhã.
— Então quer dizer que iremos todos juntos para o colégio? — disse Benjamin olhando para Melissa.
— Na verdade, eu irei de ônibus, inclusive terei que sair para o ponto agora, antes que eu perca. Licença e bom dia a todos. — Disse Melissa entregando Bianca e a mochilinha dela para Beatriz, que todos os dias a levava para a creche naquele horário.
— Eu vou de ônibus com você. — Disse Benjamin. Melissa arregalou os olhos e pensou: O que é que esse menino quer comigo?
— Benjamin, que tal todos irem no carro? É mais seguro. — Disse Beatriz
— Não precisa se preocupar, eu posso ir sozinha. — Disse Melissa, já se aproximando da saída. — Licença, tenham um bom dia.
Benjamin vendo que ela já estava indo, limpou a boca com um pano e saiu correndo para alcançá-la sem dar a chance de Beatriz falar mais nada. Bella já estava se levantando para acompanhar o irmão quando Beatriz disse: — Bella, você não vai, tome seu café da manhã e deixem eles irem. — Beatriz falou isso olhando diretamente para Magda.
— Melissa, espera! Eu vou com você.
Melissa parou no caminho, se virou e falou:
— Olha, Benjamin, eu não sei o que você quer falar comigo e nem porquê dessa insistência em me acompanhar... Eu vou fazer o que sua mãe me pediu, vou te apresentar o colégio. Mas é só isso, não espere muito de mim.
Benjamin ficou surpreso com a fala de Melissa e falou:
— Eu quero ir de ônibus para me enturmar com o pessoal, só isso.
Ela o olhou com os olhos cerrados e falou: — Vamos antes que cheguemos atrasados.
— Só um minutinho.
Ele subiu as escadas correndo e rapidamente voltou trazendo uma mochila que Alberto tinha colocado em seu quarto com alguns materiais escolar.
Melissa já estava na entrada da casa impaciente, com medo de perder o ônibus, quando de repente ele chegou.
Ele foram caminhando até o ponto em silêncio.
Quando eles estavam se aproximando ela viu seu ônibus indo embora.
— AHHHH não véi. Perdi o ônibus!! E a culpa é sua. – Disse ela olhando para Benjamin e cruzando os braços.
ÓTIMOOOOO. Pensou Benjamin. E ele falou: — Quando que passa o próximo?
— Daqui 20 minutos. — disse Melissa, chateada em saber que chegaria atrasada e ainda teria que ficar aquele tempo com ele.
— Ah, então vamos nos sentar e esperar.
Melissa não fez questão de esconder sua chateação e sentou-se a contragosto. Depois de um tempão em silêncio, Benjamin disse:
— Melissa.. Me desculpa, eu juro que não fiz de propósito
— Hmm.
— Mas confesso que não estou achando ruim. Eu realmente quero conversar com você.
— A gente não tem nada para conversar, Benjamin.
— Temos, temos sim.. Primeiro, me responda: Porque você ignorou todas as minhas mensagens e ligações?
Melissa ficou surpresa com aquela pergunta, e não soube o que responder direito.
— Eu... Eu não sei, eu só não queria falar com você.
— Por que? — disse Benjamin levemente se aproximando dela no banco.
— Eu não sei, eu só não quis.
— Eu senti sua falta, Mel...
Quando ele falou Mel, ela fechou os olhos.
— Por favor, me chame de Melissa.
— Ah... Tudo bem, mas você gostava que eu te chamasse de Mel... Olha só, mais uma coisa que mudou.
— Muitas coisas mudaram, Benjamin...
— Pra mim não, Melissa.
Melissa desviou os olhos e focou o olhar em uma árvore que tinha em frente ao ponto de ônibus, em silêncio.
— A gente pode pelo menos tentar ser amigos? — Disse ele
— Como antes?
— Para mim seria maravilhoso, mas eu já entendi que você não quer... Olha, eu vou passar pouco tempo no Brasil, logo, logo eu estarei indo embora, e você não terá mais que me ver, mas por enquanto, vamos tentar?
— Não sei, Benjamin.
— Você tem namorado?
Antes que ela respondesse o ônibus que eles aguardavam chegou.
— Vem, vamos. — disse ela levantando-se e entrando no ônibus.
Estava lotado, e eles tiveram que ir em pé assim como outras pessoas.
— Você ainda não me respondeu.
— Benjamin, vamos dar continuidade a esse interrogatório outra hora, ok?
— Hm..
O resto do caminho foi em silêncio.
Eles chegaram no colégio. Era um colégio de elite, com uma fachada muito bonita. Não tinha muitos alunos andando pelos corredores pois o horário de aula já tinha começado. Melissa tinha conseguido uma bolsa para estudar lá.
— Vamos a diretoria, saber em que sala você vai ficar.
Eles foram, e para não exatamente alegria de Melissa, ela e Benjamin tinham todas as aulas juntos. Obra de Beatriz, pensou ela.
— Então agora nós temos aula de Biologia, como já está encerrando eu sugiro que a gente só entre na próxima aula, que será no laboratório de química, e por enquanto eu te apresento um pouco do colégio.
— Por mim tá ótimo, mas eai, que horas você vai responder minha pergunta de mais cedo?
Mano que garoto insistente, pensou Melissa.
Ela cruzou os braços, ficou de frente pra ele e falou: — Eu tenho sim. Satisfeito agora?
Benjamin olhou sério pra ela e também cruzou os braços: — Ele estuda aqui? Como é o nome dele?
Melissa revirou os olhos e falou: — Benjamin, minha função aqui é te apresentar o colégio e não de dar detalhes sobre minha vida amorosa. Mas sim! Ele estuda aqui também... agora por favor, vamos logo.
Antes que ele pudesse falar qualquer coisa Melissa saiu andando e Benjamin foi atrás dela. Eles passaram pela biblioteca, pelos laboratórios, o refeitório, ginásio e vestiário. Benjamin ficou o tempo todo sem silêncio e Melissa ficou grata por isso. Quando deu o horário, eles foram para aula de química, no laboratório. Como eles chegaram um pouco atrasados, Benjamin e Melissa tiveram que formar uma dupla. Eles foram para o balcão e ficaram analisando algumas coisas que estavam dispostas no balcão através do microscópio.
— Você não vai dizer quem é o seu namorado? — Falou Benjamin, sussurrando para Melissa.
— Por que você quer tanto saber
— Por que você não quer que eu saiba?
Melissa olhou incrédula para ele.
— A minha vida particular não dizer respeito a ninguém, muito menos a você. Você pode até meu “patrão”, mas não tem porquê saber disso.
Benjamin revirou os olhos e disse:
— Primeiro que não sou patrão de ninguém, e segundo, no ponto de ônibus nós combinamos que iriamos tentar ser amigos, amigos contam isso, certo?
Melissa impaciente alterou um pouco a voz
— EU NÂO COMBI...
— XIIIIUUUU! Vocês podem trabalhar em silêncio, por favor? — Disse o professor de química
— Desculpa, professor, será que dá pra eu trocar de dupla? — Disse Melissa, e Benjamin riu baixinho.
Não, Melissa. AH, inclusive turma, na sexta-feira faremos aquele nosso passeio e as duplas da atividade de hoje deverão ficar juntas no dia. Vocês terão que analisar o ambiente que iremos e me trazer um relatório escrito, essa é a nota da primeira unidade, e NÃO, antes que vocês perguntem, ninguém vai poder trocar de dupla, vocês precisam aprender a trabalhar com diferentes parceiros. Levem água, lanche e também guarda-chuva. Não se atrasem, o ônibus que levará vocês sairá daqui às 07h30.
Pela sala toda ouviu-se barulho da turma, uns mais eufóricos e outros reclamando com o professor.
— Humm, então você estará presa a mim amanhã, o que seu namorado acha disso? — Disse Benjamin, baixinho, e bem próximo ao ouvido dela, causando assim um arrepio. Ele riu e ela ficou vermelha.
— Estou atrapalhando algo? — Disse Enrico que se aproveitou do momento de euforia da sala para se aproximar da dupla.
— Enrico? Não.. Nãoo, imagina. — Disse Melissa, extremamente sem graça com Benjamin e com receio dos dois fazerem alguma cena ali.
Benjamin olhou para Enrico, depois para Melissa e entendeu que Enrico era o namorado dela.
— Na verdade, está atrapalhando sim, estamos discutindo a atividade, pode nos dá licença, por favor?
— Não é possív..
— Enrico, por favor, volte para a sua mesa. Pessoal, vamos terminar a aula, depois vocês conversam entre si, prestem atenção aqui – Falou o professor antes de Enrico terminar.
Benjamin riu baixinho, Enrico o encarou bufando de raiva e foi para a sua mesa e continuou observando Benjamin e Melissa, tentando ouvir a conversa dos dois.
— Acho que seu momolado tá putinho, Mel, hahaha
— UURGH. O que você quer, em garoto? Me causar mais problemas? Me deixa em paz e volta lá pra sua Londres amada. — Disse Melissa, que se controlava para não voar no pescoço de Benjamin.
Benjamin ficou olhando para Melissa e pensou: Ela continua a mesma, e ela vai ser minha de novo.
— Você fica linda irritada. — Disse ele baixinho
Ela o ignorou.
O sinal para o intervalo tocou e todos saíram da sala.
Melissa saiu praticamente correndo da sala, antes que fosse mais uma vez perseguida por Benjamin ou por Enrico, naquele momento ela queria distância dos dois, pois sabia que assim que Enrico tivesse a chance iria perturbá-la com inúmeras perguntas e confrontá-la com seu ciúmes besta, e ela ainda estava com raiva da conversa do dia anterior.
VEM PRO BANHEIRO AGORA. É URGENTE. SOS – Essa foi a mensagem que Melissa mandou para Alice, sua melhor amiga.
Alice chegou em menos de 1 minuto e Melissa contou tudo a ela, desde o reencontro com Benjamin até o momento da aula de química.
— Eu estou passada, chocada amiga! — Disse Alice. — Como você tem a audácia de demorar tanto para me contar uma coisa dessas.
— Será se eu posso ficar aqui trancada e nunca mais sair? — Choramingou Melissa.
— Não, minha filha, tem dois meninos gatos te disputando, o mundo tá desabando lá fora e você tem é que aproveitar. Aiai, que mundo injusto, você com dois gatos daqueles te querendo e eu aqui sem nada.
— Haha, não ajudou. Primeiro: meu namorado é o Enrico, e apesar de tudo, é com ele que devo continuar. O Benjamin é um estranho para mim, então não muda nada. Eu quero é que ele esqueça que eu existo e me deixe em paz. Segundo: E eu tô com cara de trofeu de macho, garota?! — Disse Melissa, e Alice riu.
— O Benjamin não é um estranho, Melissa. Vocês se conhecem desde que se entendem por gente, e não é possível que ele tenha mudado tanto. Uma coisa eu sei, tá na cara que você também sente alguma coisa por ele.
— EU? Tá doida, Alice? Claro que não. Eu amo o Enrico. — A palavra “AMO” saiu tão estranha da boca de Melissa que ela fez uma careta.
— Ah, Melissa, conta outra, nem você mesma acredita nisso. Sério, eu ainda não sei porque você está com ele...
— Alice, você veio me ajudar ou veio me deixar mais maluca?
— Te ajudar, amiga, sempre. Você sabe que eu só quero o teu bem, é por isso que eu te falo a verdade. Me ouve, pelo amor. — Disse Alice dando batidinhas no ombro de Melissa.
Melissa olhou bem para Alice, ela era alta, magra, loira, tinha os olhos verdes e tinha se tornado sua confidente desde que Benjamin tinha ido embora do Brasil.
Ela era sua única amiga, na verdade.
— Acredite quando eu te falo essas coisas, Mel. Quem está de fora ver melhor as coisas, e eu vou te falar mais uma vez: Você merece coisa melhor. — Disse Alice abraçando a amiga.
Melissa não falou nada, apenas ficou pensando no que ela tinha acabado de falar.
As duas saíram do banheiro e foram até o refeitório.
— Melissa, em nome da misericórdia! Se você não quiser eu quero, viu? — Disse Alice para Melissa apontando em direção a Benjamin, que estava sentado em uma mesa isolado de todo mundo. — QUE GA-TOOOO – Completou Alice. Melissa concordava com aquela frase, mas revirou os olhos.
— Mel, acho que a gente deveria ir lanchar com ele, o que acha?
— Alice...
— Melissa, a gente precisa conversar. Agora. — Enrico chegou de repente e falou isso para Melissa de forma dura e em um tom de voz que chamou a atenção de quem estava por perto. Inclusive a de Benjamin.
— Enrico, agora não, por favor.
— Agora sim, Melissa. Vem comigo.
— Não, Enrico. Outra hora.
— Agora, Melissa. — Enrico pegou no braço dela e a puxou.
— Enrico, ela não quer conversar, você não está ouvindo? — Falou Alice tentando soltar a amiga da mão dele. Nesse momento muita gente já estava olhando para aquela situação e Benjamin começou a fervilhar de ódio. DESGRAÇADO, CRETINO, FILHO DA PUTA. Ele sabia que se fosse até lá as coisas não iam acabar bem.
— Esse assunto é entre mim e MINHA namorada, Alice. — Disse Enrico enfatizando o “minha”.
— Enrico, por favor, outra hora. Deixa de fazer cena, a escola inteira está olhando. — Disse Melissa extremamente envergonhada.
— VEM COMIGO, Melissa. — Disse Enrico, apertando a mão no punho de Melissa.
— Me solta, Enrico. — Disse Melissa assustada.
— Solta ela, seu filho da puta. — Disse Benjamin, que naquela hora já estava por trás de Enrico.
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