No Quinto Andar
2 Realmente eu estou numa fria.
Notas iniciais
POV'S Christopher
Acordei com o despertador indicando que era sete horas. Espreguicei-me ainda sonolento e então me toquei: tinha uma maníaca dormindo no sofá da minha casa.Pus-me de pé em um pulo e corri até a sala. O sofá estava vazio a não ser por algumas roupas e cobertores jogados. Então um cheiro estranho invadiu minhas narinas.
— Fogo! – disse correndo até a cozinha.
— Ah! — a garota gritou assim que eu adentrei à cozinha e acabei escorregando caindo de bunda no chão.
— O que pensa que está fazendo? — falei tentando me levantar.
Ela me encarou e arqueou uma sobrancelha. Que merda era aquilo no cabelo dela? Fui me aproximando e quanto mais chegava perto o objeto ficava nítido.
— Ei! — ela disse me encarando. — Ei, você tá de cueca, não chega perto de mim vestido desse jeito! — ela se levantou andando para trás.
Ri sarcasticamente. Ela tinha razão. Eu usava apenas cueca e uma camiseta. Mas isso não disfarçava o fato de que ela tinha um garfo na cabeça. Sim, um garfo! Quem em sã consciência usaria um garfo pra prender o cabelo?
— Que cheiro de queimado é esse? — perguntei procurando algum foco de incêndio.
— Fiz torradas, oras. — ela desviou o olhar e voltou a se sentar em uma cadeira em frente a bancada.
— Precisava queimar o pão? — perguntei encarando o quadrado preto que ela comia com requeijão.
— T–o-r-r-a-d-a– ela soletrou. — Não é obvio que seja queimado?
Rolei os olhos e continuei encarando o garfo no seu cabelo. Um tanto exótico, pensei hipnotizado. Ela se levantou e abriu a geladeira e ficou um tempo encarando seu conteúdo.
— Só tem coisas saudáveis aqui. — ela fechou a porta e foi em direção aos armários e começou a revirá-los. — Não tem refrigerante?
Passei minha mão pelos cabelos. Não era possível. aquilo era um pesadelo! aquela... usurpadora. Está na minha casa alegando que alugou e está dormindo no meu sofá e comendo da minha comida e ainda exige uma garrafa de refrigerante.
— Você acha que alguém com um corpo como o meu toma esse tipo de coisa? — disse enquanto gesticulava em direção aos meus músculos.
— Ah! — ela gritou novamente e jogou a torrada que tinha nas mãos acertando meu rosto. — Vai colocar roupa seu pervertido!
Ela escondeu o rosto entre as mãos e saiu da cozinha. Eu realmente estava fodido. Tinha uma garota desconhecida morando no meu apartamento. Eu havia perdido toda minha privacidade. Adeus andar de cueca. Adeus mijar de porta aberta. Adeus festinhas particulares. Adeus vida. Não. Eu ainda podia me livrar dela. Chamar a polícia ou algo do tipo. Ou melhor, eu só tinha de pedir para ela se retirar de uma forma doce e educada.
Andei até a sala e a vi sentada no sofá colocando alguns livros na mochila. Ela não tinha mais um garfo na cabeça. Agora seu cabelo eram ondas soltas e com bastante volume.
— Será qu... — comecei falando e ela ergueu a mão em sinal para que eu parasse.
— Shhh. Não fale comigo nessas condições! — ela ficou de pé colocando a mochila nas costas.
— Não me mand... — ela fez "shhh" novamente e foi em direção à saída sem olhar para mim.
A porta fechou em um estrondo e eu ouvi a chave sendo girada na fechadura. Chutei o ar com raiva. Uma intrusa na qual eu nem sequer sabia o nome me mandara calar a boca na minha própria casa.
Voltei meu olhar para a sala: aquilo estava um albergue. Roupas jogadas por todos os cantos e alguns livros também. Suspirei. eu definitivamente não ia arrumar aquela bagunça. Por mais que me incomodasse eu não tocaria em nenhum objeto dela.
Não eram nem oito da manhã e eu já estava irritado. Perdi a primeira melhor hora da manha para exercícios físicos por culpa de uma invasora de privacidade.
Fui até o banheiro e tomei uma ducha quente bem rápido e fui em direção à sala pensando numa maneira de me livrar daquela bagunça sem tocar naqueles objetos.Em poucos minutos eu tinha um rolo de fita zebrada nas mãos que consegui com o zelador do prédio e isolei a área em que ela havia dormido. Fiz questão de fazer uma placa escrito "cuidado" em letras grandes, garrafais e em tinta vermelha. Trabalho concluído. Bati uma mão na outra a fim de me livrar de poeiras invisíveis.
Fui à cozinha e limpei toda a desordem que ela deixara há alguns minutos atrás. Como podia fazer tanta bagunça com pão e um pote de requeijão? Balancei a cabeça para afastar tosos os pensamentos sobre aintrusa que invadiu meu apartamento na noite passada.
Já que na segunda feira eu não trabalhava, decidi fazer meu treino de tênis na parte da tarde. De segunda até quinta era a minha "folga". As casas noturnas onde eu desempenhava meu árduo trabalho de ser sexy, abriam somente de quinta a sábado, então o resto da semana eu fazia as atividades que mantinham meu material de trabalho em forma.
Cheguei ao clube onde eu treinava tênis pouco depois das três da tarde. O sol estava alto, mas não era quente. O outono não havia terminado mas já sentíamos os impactos do inverno chuvoso.
Inverno chuvoso. Só de pensar nisso eu já tinha calafrios. Não é muito aceitável socialmente um "brutamontes" como eu com quase um e noventa de altura ter medo de simples tempestades. Mas quando o céu escurecia-se bruscamente e os raios rasgavam o céu, eu não tinha controle sobre meus sentidos. Meu músculos fraquejavam e eu não tinha outra ação a não ser gritar como uma garota de dez anos. Lamentável, eu sei.
Concentrei-me no treino sem me incomodar com o fato de que quando eu voltasse para casa haveria algo indesejado lá.
No primeiro saque senti uma fisgada de dor no ombro direito. Era o corte que a maníaca havia feito no meu braço usando uma faquinha de pão.
Quando recebi a bola novamente a dor não foi tão significante. O corte havia sido superficial mas incomodava com movimentos muito bruscos.
Como sempre, ao fim da partida a vitória havia sido minha. Treinei com vários adversários diferentes até sentir o cansaço tomar conta de mim. Tomei um banho no vestiário do clube, já que teria de passar em um supermercado para comprar algo pro jantar.
Coloquei minha mochila de equipamentos no porta-malas e dirigi até o supermercado mais próximo.
Era início de noite e em pouco tempo o local estaria lotado. Me apressei para pegar tudo o que precisava. Legumes, verduras e algumas carnes. Dirigi-me ao caixa e fiquei distraído com a gondola de revistas que havia ali.
Quando se está em um lugar com muita gente é inevitável reparar nas coisas. A mulher à minha frente passava no caixa dezenas de copos de macarrão instantâneo. Daqueles que você acrescenta água e seu macarrão artificial está pronto. Além de algumas caixas de hambúrguer e pizza congeladas. Fiquei me perguntando como uma pessoa conseguiria ingerir tudo aquilo de sódio e gorduras.
— Noventa e seis reais e vinte cinco centavos. Dinheiro ou cartão?– a moça do caixa perguntou.
— Dinheiro. — a cliente respondeu.
Já que a compra da pessoa a minha frente já tinha sido passada, comecei a colocar meus produtos na mesa do caixa. Voltei minha atenção à cliente anterior que agora estava empacotando centenas de gramas de gorduras e sódio. Eu conhecia aquela cara fechada e adereços estranhos para segurar o cabelo. Sim, era ela. A usurpadora que invadiu minha casa.
— Você! — disse apontando para ela.
Ela desviou o olhar das sacolas e me encarou. Sua franja cobria as sobrancelhas e subiram instantaneamente quando ela bufou.
— Seu perseguidor! — ela disse em tom alto praticamente jogando os potes de macarrão instantâneo dentro de uma sacola ecológica.
— Setenta reais de sessenta centavos. Cartão ou dinheiro? — ouvi a moça perguntar.
— Estou fazendo compras, sua maluca. — disse à louca no mesmo tom que ela usou contra mim.
Ela não respondeu. Apenas rolou os olhos e soltou um som parecido com um "Tsc, tsc, tsc" balançando a cabeça negativamente. Terminou de colocar os produtos na sacola e saiu empurrando um carrinho.
— Não faça "tsc" pra mim! -gritei já enfurecido. Como ela podia me tirar do serio com apenas um rolar de olhos?
— Setenta reais de sessenta centavos. Cartão ou dinheiro? — a moça do caixa perguntou e dessa vez num tom mais alto fazendo com que todos do mercado olhasse para mim.
— Cartão — respondi cabisbaixo.
Dirigi com raiva. Eu sempre fazia tudo com raiva quando estava com raiva. Abri a porta do apartamento com raiva. Depositei as compras na bancada com raiva e me dirigi à ela com raiva.
— Tu é maluca? — perguntei enquanto guardava, com raiva, os mantimentos na geladeira e separava os que eu ia usar no jantar.
— Não tão maluca quanto a pessoa que isola a própria sala com fita zebrada. Que infantil — ela disse sem desviar o olhar de uma panela no fogão.
— O que está fazendo? — perguntei me aproximando. — Esse fogão é meu! Por que raios está fervendo água? — encarei a panela.
— Estou fazendo minha comida. Não se aproxime. Odeio que fiquem perto enquanto estou cozinhando.
Gargalhei o mais alto que pude. Coloquei as mãos sobre a barriga para dar ênfase no ato.
— Cozinhando? — indaguei ainda tentando controlar o riso. — Essa eu quero ver!
Ela sorriu com desdém e me encarou.
— Então preste atenção que eu só vou ensinar uma vez.
Ela abriu uma das portas do armário onde estavam os seus recém comprados potes de macarrão instantâneo. Pegou um, abriu a embalagem plástica e tirou a tampa de alumínio até a metade. Com uma das luvas protetoras térmicas, ela pegou a água quente e despejou no copo. Fechou a tampa e cobriu com uma das mãos. Encarou o relógio que havia acima da pia e três minutos depois abriu dando uma garfada e colocando na boca.
— Prontinho! — disse ela com a boca cheia de macarrão e sorrindo logo em seguida.
Ignorei o ser estranho deitado no sofá da minha sala e fui preparar meu jantar. Em poucos minutos eu tinha frango grelhado e uma salada de folhas. Comi ali mesmo na cozinha. Não queria ir até a sala e fazer minha refeição ao lado de uma pessoa que come macarrão sugando os fios. O barulho era nojento.
Quando havia terminado de comer a louca adentrou a cozinha trazendo o pote de macarrão vazio. Ela jogou o pote plástico no lixo e em segundos lavou o garfo que usara secando e guardando-o na gaveta. Ela deveria pegar o hábito e ter o mesmo cuidado com o lugar onde dorme, pensei encarando-a.
— O que foi? — ela perguntou me tirando dos devaneios. — Não está esperando que eu lave a sua louça, não é?
Ela gesticulou em direção à pia cheia de utensílios que usei para fazer meu jantar. Tinha de confessar, macarrão instantâneo era convidativo no quesito limpeza. Eu podia até beber o macarrão para evitar de sujar um garfo que seja.
O que diabos está pensando, idiota? Perguntei a mim mesmo. Acho que era contagioso. A preguiça daquela intrusa estava me afetando.
Fui até a sala e ela era parecia fazer parte da mobilha da casa. como sempre estava sentada no canto do sofá e tinha as pernas apoiadas sobre a mesa de centro e ela bebia uma latinha de refrigerante na qual quando colocava na mesa não usava o descanso de copo. A latinha suada fazia uma marca circular no móvel.
— Use isso — disse atirando um guardanapo de papel para forrar a mesa.
Ela alternou o olhar entre o papel e meu rosto. Ficou assim em alguns segundos e depois assoou o nariz em um barulho alto e desagradável.
— Obrigada — disse ela em tom fanho.
Encarei sua face e pousei a cabeça sobre uma das mãos pensando: eu realmente estava fodido, duplamente fodido.
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