No Other
50 Capítulo 50 - Mirrors
Notas iniciais
Acordei com o som baixo do rádio, reconhecendo a música. Sentei na cama, dando um bocejo. O ar estava gelado, como eu já devia imaginar. Peguei o robe pendurado na cabeceira da cama e me enrolei nele, amarrando as cordas enquanto calçava as pantufinhas.
─ Bom dia, linda. ─ Duran fechou a forma de waffles antes de se virar para mim, sorrindo. ─ Dormiu bem?
─ Como de costume. Você?
─ Como o dia em que você entrou por aquela porta definitvamente. ─ E ganhei um belo beijo de bom dia.
Definitivamente. Aquele dia tinha realmente mudado muita coisa. Ali, An e eu já estávamos morando por um tempo nos dormitórios, quando ele nos ofereceu morar com ele. Kyu e Leh também, já que o alojamento era um pouco longe dos respectivos empregos.
─ Duran, você mora com sua avó, ela não merece essa zorra na cabeça o dia inteiro.
─ É brincadeira, né? Aquela mulher adora uma bagunça. Além disso, tem espaço demais lá. E é melhor do que esse lugar horroroso. E…
─ Ok, eu entendi. Tem certeza? Quer dizer…
─ Megs, não é nosso casamento. E sempre pode pedir abrigo aqui se quiser voltar, o colégio te pede só uns dias para encontrar vaga.
O jeito que ele tinha pedido fez meu coração sorrir e eu acabei concordando sem pensar muito mais. Além disso, An e Ali iam acabar ficando no quarto comigo. Anuí, sorridente.
─ Tudo bem.
─ Sério?
─ Uhum. Ali e An devem concordar também.
Pisquei, encontrando Duran me entregando os waffles e pondo mais da mistura na forma. Peguei o garfo enquanto ele me entregava o pote de mel que tinha deixado na pia. Annie entrou no exato momento e comentou.
─ Nossa, que romântico. Bom dia.
─ Bom dia, querida. Como se sente?
─ Nervosa. Eu já conferi tudo noite passada, mas você me conhece, a chance de alguma coisa dar errado…
─ Annie, relaxa. Você vai estar linda. Waffles?
─ Obrigada. Ah, quero.
─ Kyu e Leticia conseguiram a folga no emprego?
─ Pelo que ela me disse ontem, sim. ─ Annie pegou o waffle que Duran estendeu para ela no prato e sorriu. ─ Gente, conseguem acreditar que já estamos nos formando?
─ Pela segunda vez.
─ Uhum. Sete anos desde que viemos para cá. ─ Completei, comendo mais. ─ Está mesmo indo de volta para California?
─ Ele não quis se mudar para cá. E eu até que sinto falta de lá. E eu não aguento mais estar longe. Não funciona.
─ O que?
─ Bom dia, Ali. ─ Era engraçado como anos haviam se passado e Ali continuava com sua figurinha infantil parada na porta da cozinha. ─ O relacionamento da Annie.
─ Eu não entendo até hoje como esses dois se aproximaram em um mês. ─ Duran falou e voltou a fazer waffles. Ele estava realmente animado naquela manhã.
─ Por falar em California, nós vamos passar quanto tempo lá? ─ Ali perguntou, pegando seu prato.
─ Nessa vez, dez dias. ─ Respondi, levantando para atender o telefone, pendurado na parede da cozinha. Assim que Duran me ouviu chamar o nome do pai, ele me perguntou se queriam falar com ele. Estiquei a mão, rindo com meu sogro.
─ É, Albert, casamento por agora, só o da An e do meu irmão. Sorte dele, só ela para aturar aquela criatura. Sim. Ok, até mais. Tchau. Du.
Ele desligou a forma e atendeu, enquanto Annie me fuzilava com o olhar. Ela defendia o noivo com toda sua força de vontade.
─ Elijah é um amor.
─ Só com você. Não vai me convencer, conheço ele há quinze anos a mais que você. Bom, eu vou me trocar e vou cortar meu cabelo. Tchauzinho.
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A nossa formatura foi uma celebração formal e sem muitas delongas. Não fui para a festa da turma. Primeiro porque eu não era próxima de quase ninguém, segundo porque viajariamos logo cedo na manhã seguinte.
─ Enfim, formados. Como se sente? ─ Ele parou ao meu lado, nós dois encarando o pinheiro imenso no centro do campus. Sorri, redirecionando o olhar para o céu.
─ É, acabou. Nada de salas de aula e professores chatos. Finalmente vamso fazer o que sempre sonhamos. O que vamos fazer? Continuamos por aqui?
─ Quer ir para casa?
─ Não é aqui?
─ Para mim é onde você estiver. ─ Sorri, olhando para ele agora. Duran conseguia manter meu coração batendo rápido mesmo depois de anos.
─ Não tenho pressa em decidir.
─ Nem eu. ─ Voltamos a olhar o pinheiro decorado para o natal. Pelo céu, nevaria logo. Meu vestido de mangas ainda estava conseguindo me deixar aquecida. ─ Quer ir agora?
─ Vamos. ─ Segui-o, entrelaçando nossos dedos e caminhando até o Chevy Truck azul estacionado na rua. Eu tinha suado para comprar aquele carro, e ele acabou tendo que me ajudar nas parcelas. Nossa primeira conquista.
A casa estava vazia. Ali ia comemorar com Kyu, Leh com Pablo e Pedro, Annie ia para sua última festa de turma e a avó de Duran tinha ido passar um tempo com uma velha amiga em outra cidade.
Tirei meu vestido e deixei-o pendurado na porta do guarda-roupa. Duran parou atrás de mim, já sem os sapatos e o cinto e começou a desfazer a trança no meu cabelo comprido. Eu só tinha tirado as pontas e ele estava batendo na minha cintura.
─ Quer aproveitar e comemorar?
─ Não ficou cansado?
─ Para você, nunca. ─ Ele me virou pela cintura, sorrindo. Ri também, aproveitando a deixa e começando a desabotoar sua camisa. Aquilo me lembrou a primeira vez fazendo aquilo.
Alguns meses depois de ter me mudado para o país e termos reatado a relação, ele me levou para jantar na casa dele. Estranhei, mas me enfiei numa roupa bonita e fui para lá. Quando ele abriu a porta e o silêncio me alcançou, meus nervos começaram a se mostrar. Ficarmos a sós nunca tinha sido um problema até aquele dia.
Comi tentando não mostrar muito o que eu realmente estava imaginando, mas não adiantou muito. Ele parecia não estar mais tão certo de si, ficando mais calado e enfiando as mãos nos bolsos, mesmo quando estava sentado.
Mesmo tremendo nas bases, a iniciativa depois foi minha. Tomei o último gole do meu copo e limpei a boca com o guardanapo antes de falar.
─ Du. Eu não estou assumindo nada, mas...eu confio em você. Eu realmente confio.
─ Isso me deixa imensamente orgulhoso de mim mesmo. ─ Sorriu, mais confiante. ─ Na verdade, eu...Vem comigo.
Tomei a mão e levantei da mesa, seguindo-o pelo corredor. Ele abriu a porta e esperou minha reação quando eu vi o quarto. Sorri, o estômago prestes a sair voando carregado pelas borboletinhas.
─ Megs. Eu te amo. De verdade.
─ Eu te amo também.
E senti pela primeira vez o que eu nunca achei que seria possível. O que eu estava prestes a sentir mais uma vez, anos depois.
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Apesar de toda a neve, nosso voo sofreu pouco atraso. Enrolei mais uma vez o cachecol e esfreguei as mãos cobertas pelas luvas. Estava frio. Minha mãe acenou para nós de longe, mas An já tinha achado Elijah logo ao lado e correu naquela direção. Segui, o abraço direcionado para outra pessoa.
─ Mãe. Ah, como eu senti sua falta. Como se sente?
─ Melhor com vocês aqui. As sessões acabaram, meu bem.
─ Que ótimo. Eu me senti tão mal em largar a senhora aqui nesse estado, com dois marmanjos.
─ Oi, você também está ótima, Zinha.
─ Elijah, como está? Espero que tenha tratado sua mãe melhor que uma rainha.
─ Estou ótima, amor. Seus irmãos tomaram conta de mim, me levaram para a quimioterapia e tudo mais.
─ Excelente. Bom, vamos, está congelando aqui.
─ Claro, eu quero ouvir todas as novidades? Já vou ser avó? Como Ali e Kyu estão? Leh e aqueles dois amigos do Duran, finalmente desenrolaram? Ai, que saudades das notícias.
Apanhando todas as malas e reunindo todo mundo, fomos até os dois carros. Elijah levou metade de nós e minha mãe a outra metade. O trânsito estava um inferno, tanto pela neve que caía quanto as liquidações de natal que lotavam as ruas.
─ Ah, antes que planejem qualquer coisa, vão passar o natal conosco. Todos os pais inclusos. Kyle está louco de saudades.
─ Tudo bem. É bom para reunir muita gente, eu amo natal. ─ Ali concordou do banco ao meu lado.
Foi uma luta para chegarmos em casa, mas finalmente conseguimos. Jack estava com Kyle no sofá, os dois jogando videogame. O resto da banda devia estar na rua, gastando o dinheiro sem freios. Meu irmão ficou de pé e veio me abraçar.
─ Ei, garotinha.
─ Olha esse cabelo. Eu não estou ganhando mais.
─ Anos de cultivo. Faz parte da “fase” de metaleiro que eu nunca passei.
─ É, e a fase dos amores?
─ Não precisa me lembrar que fiquei para titio, obrigado. Sua mãe quase infartou quando eu terminei com a Violet.
─ Oh, ela era tão legal. Não funcionou?
─ É, perdi meu tato com outros seres vivos.
─ Bobão. Você é novo.
─ Mais ou menos.
─ Se até o Elijah vai casar, você ainda pode ter esperanças.
─ Oi gente. ─ An apareceu ao nosso lado, sorridente. ─ Ei, Jack. Como vai a banda?
─ Você sabe, criando e gravando. Tocando em alguns concertos, e é isso. Pelo menos banca nossa canalhice.
─ Idiota.
─ Bom, sempre bom rever você, lindo, mas eu ainda tenho que falar com Kyle antes de subir e deixar essa tralha lá em cima.
Kyle estava falando animado com Kyu, que sorria tão entusiasmado quanto. Sentei no sofá junto a eles, sorridente. Kyle passou uma mão nas minhas costas.
─ Está deslumbrante, minha querida. Como foi a viagem?
─ Também está muito bem, Kyle. Foi boa, mas cansativa, como de costume. Bom, vou subir com minhas coisas. Licença.
Duran me ajudou com as malas antes de se despedir e ir para a casa dos pais, levando Pedro e Pablo junto. Sorri, deixando a mala debaixo da janela. Meu quarto estava intacto, depois de anos. Inclusive minha cama. Troquei de roupa e me joguei no colchão.
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O natal realmente foi lotado. Kyle tinha a casa toda decorada, do jeito que Ali gostava. Íamos passar a véspera ali e depois visitar outros parentes no natal mesmo. Foi bastante agrádavel. Passei a primeira meia hora conversando com a mãe de Duran sobr eu futuro.
─ E planos de se casarem? Já faz tanto tempo…
─ A gente quer arrumar pelo menos um emprego antes, para podermos manter a casa por conta própria. A gente acabou de se formar, então…
─ Sei como. E filhos?
─ Dois, talvez? Eu adoraria ter um casal.
─ Menina nova que quer ter filho está virando raridade. Fico feliz que vou ter netos.
Depois de tomar bastante refrigerante e comer numa ceia imensa, Kyle me chamou na varanda. Segui, sentindo o vento gelado que vinha do mar. Ele tirou duas caixas do bolso do paletó. Bom, pelo menos a menor saiu dali, a maior eu já não tinha visto.
─ Megs, queria te entregar seu presente e pedir um favor. Aqui, o seu. ─ Ele me estendeu a caixa de veludo maior. Vindo de Kyle, podia ser todo tipo de coisa cara. ─ Vamos, abra.
─ Tudo bem, senhor. Vejamos.
Abri a caixa, acertando de primeira o lado que realmente abria. Perdi o ar. Era tão simplório e tão maravilhoso. A correntinha prateada ostentava a única pérola do colar. Sorri, agradecida.
─ Que bom que gostou. Bom, o favor. ─ Esticou a outra caixinha, menor. Preciso que esconda com você até o dia em que for embora. Leve para o aeroporto, sim?
─ Hum, vou ser parte de uma surpresa, sim? Tudo bem, pode contar comigo.
─ Obrigado. ─ Ele então me deixou voltar para a sala, com meu colar e o sorriso. Duran me interceptou no caminho, levemente alcoolizado.
─ Posso saber onde a senhorita esteve a noite toda?
─ E eu posso saber do senhor? Bobo. Pode prender para mim? ─ Mostrei o cordão. Ele deixou o copo em algum móvel antes de vir me ajudar.
Mais um pouco da madrugada passou. Falei com Elijah do casamento, marcado para o meio de março, conversei com Ali e An, com Albert. Foi uma noite incrível. Nos despedimos todos, minha mãe decidiu ficar por lá, estava cansada. Concordei, dando um beijo nela e indo embora com Jack.
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