No Other
39 Capítulo 39 - Adrenaline
Notas iniciais
Evitei Shaun. Atitude infantil? Podia até ser, mas eu não tinha coragem pra encará-lo depois daquilo. Não que a gente fosse deixar de ser amigo, só preferi deixar a poeira abaixar. E, por sorte, ele não deu as caras no almoço.
– Vocês foram bem nesse semestre? – Louis se sentou de frente para mim e perguntou, deixando a mochila no chão. – Já estou prevendo que vou me ferrar em física.
– Eu já passei. – Ali deu de ombros, ainda tomando seu chá. Concordei, indicando que estava na mesma situação. A irmã dele suspirou e comentou.
– Sorte suas. Preciso de ajuda em literatura.
– É só ler.
– Tem que interpretar também, Ali. E você Leo?
– Eu odeio vocês duas.
– Você foi bem, Leo, para de reclamar.
– E você Annie?
– Eu fui bem, amém.
Ela ficava super fofa tão empolgada. O sinal tocou indicando o fim do almoço. Peguei minha mochila e esperei Annie e Ali, para irmos para a aula de redação. Eu não tinha como escapar agora. Shaun estava sentadinho no lugar dele, atrás de mim. Suspirei e fui me sentar.
– Anda me evitando? – Arrepiei quando senti ele brincando com meu cabelo, roçando os dedos na minha nuca. – Seu cabelo fica bonito assim.
– Eu só não te vi hoje, Shaun. – Mentiraaa. Janet ainda não estava na sala, então me virei para ele. – Você não foi almoçar.
– Estive na biblioteca. Faz um tempo que eu não leio nada, e me senti inspirado de novo.
– Inspirado? – Fiquei boquiaberta. Ele deu um sorriso torto e murmurou.
– Falo com você depois da aula. Aparece na piscina.
Não respondi. Endireitei o corpo na cadeira e passei a ouvir a voz de Janet. Ela pediu um texto falando sobre nossos gostos musicais e como nos encontrávamos nele. E como eu não dizer que estava ouvindo música melosa por uma leve confusão mental, escrevi uma baboseira qualquer e sai da sala.
Shaun já tinha saído quando entreguei meu texto. Impulsionada pela curiosidade, fui até a piscina, ansiosa. Ele estava de pé, encarando a água da piscina. Parei ao seu lado, esperando ele falar.
– O que foi?
– Sobre ontem...Ainda não me deu uma resposta.
– Resposta?
– Uhum. Se você gostou.
– Oh. – Cocei o nariz, olhei em outra direção. Que situação era essa, minha gente? Dei a melhor resposta que surgiu. – Não sei.
– Não sabe?
– Ah, não.
– Quero uma resposta decente.
– Eu acabei de te dar uma.
– Ok, se prefere assim. Peço que não me agrida.
– Por que eu... – Eu fiquei tão chocada que nem conseguiria batê-lo. Meu coração parecia um tambor dentro dos meus ouvidos, enquanto ele me beijava com firmeza. E então se afastou apenas um milímetro, pra conseguir falar.
– Então?
– Eu... – A pior parte é que eu não queria alimentar o ego de Shaun, mas mentir não era muito minha especialidade. Eu poderia dizer que não, mas ia começar a sorrir, desesperada. Então comecei a pensar em Duran. Era tão diferente, ele era sempre tão carinhoso, mas dava pra sentir o quanto ele me queria. Shaun era... – Ok, gostei.
Ele deu um sorriso triunfante. Eu nem sei qual cara eu fiz quando me soltei dele e sai dali o mais rápido que eu pude, pensando no que eu acabara de dizer. Duran tinha me dito para caçar outros caras, mas o amigo dele podia ocupar a lista? Que dor de cabeça. Acabei indo encontrar Annie e Ali na sala de estudos.
– Você sumiu, onde foi?
– Eu fui na biblioteca, tinha um livro para devolver. Química, Annie?
– Você ficou vermelha.
– Eu vim correndo para cá.
– Por que teve que correr?
– Só queria vir logo.
– Sério? Por que eu acho que você foi atrás do Shaun. – Como é que Ali notava essas coisas? O desespero começou a me possuir.
– De onde tirou isso? Eu o encontrei, mas...
– Encontrou?
– Não me olha assim.
– O que você fez?
– Talvez, e só talvez, exista a chance de Shaun ter me beijado. Parem.
– Você beijou Shaun? – Ali parecia a ponto de me bater. E eu só consegui me encolher. Annie parecia em êxtase com o novo romance. Romance não, para de pensar nisso.
– Chocada.
– Não foi nada, gente. Oh, o sinal. Vamos?
No corredor, encontramos os gêmeos com Leo. Eu tinha voltado a fugir de Shaun, mas ele decidiu aparecer entre os irmãos, sorridente.
– Uh, alguém está feliz.
– Oh, Louis, eu realmente estou muito feliz.
– A última vez que ele disse isso foi quando começou a namorar com...
– Lólli. – Ali estava irritada até então. Ainda assim, a situação toda divertia Annie.
– E quem é a felizarda da vez?
– Não vou contar, só para deixá-los com essa cara de bobo.
– Nossa, tchau.
Os gêmeos saíram, dando a deixa para Leo ir embora também. Ali agarrou Annie pelo pulso e inventou uma desculpa bem das esfarrapadas para sair de perto. Como é que ela podia ficar indignada comigo e depois me largar dentro da cova do leão? Evitando contato visual, abri meu armário.
– Então...
– Que foi?
Ele deu aquele sorriso vitorioso dele e ficou me encarando. Suspirei, encarando de volta.
– Qual o problema?
– Que problema?
– Você me agarrou duas vezes e sai dizendo que é o dia mais feliz da sua vida?
– Oh, isso. Não vejo muito como um problema, sabe? Eu estou afim de você, já faz um bom tempo, mas esperei Duran ir embora. E acho que agora é um ótimo momento pra te chamar pra sair.
– Hum, olha, eu não sei se...
– Megs, para. O que você tem a perder? Se der certo, deu, se não, continuamos amigos. Ninguém precisa saber.
– Ok, faz sentido.
– Sábado?
– Pode parar com esse sorriso? Está me assustando.
– Relaxa, eu não mordo. A não ser que me peça.
– Sábado, ok.
Ouvi o tchau murmurado enquanto eu deixava o prédio. Tirei o celular do bolso e disquei o abençoado número, esperando que ela atendesse.
– Oi.
– Eu te odeio, sua lixosa. Por que fez isso?
– Já formam um casal?
– Ali, qual seu problema? Brava, brincando, brava...
– Só responde.
– Vamos sair sábado. Não pode fazer mal.
– O que?
– Brava de novo.
– Eu não acredito. Vai ficar com ele?
– Não sei, Ali. E se for sim?
– Ele não presta, Megs. Acredite.
– Não pode ser tão ruim, pode?
– Vai descobrir logo.
– Fala por experiência?
– Não. – Silêncio. Ok, tinha algo ai. Ela continuou antes que eu insistisse. – Duran ia endoidar.
– Eles não eram tão amigos. E, eu não estou com ele mais, logo...
– Eu não acho que ele valha a pena. Você quem tem que saber, o rolo é seu.
– Tudo bem, obrigada pelo apoio. Te vejo depois.
Desliguei e acabei o trajeto até minha casa, com os fones ligados.
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A madrugada de sexta estava bombando. Só não era a minha madrugada. A casa da frente estava dando uma festa daquelas, só com música eletrônica. Ah, só música eletrônica ruim. Já eram três da manhã quando desisti de dormir. Liguei o Skype, irritada.
Quase na mesma hora, Duran chamou. Atendi e conectei o fone, tentando abafar a porcaria da música. Ele continuava com o mesmo sorriso doce de sempre, o que me fazia sorrir junto.
– Ei.
– Acordada tão tarde?
– Ouça a música. Quantas horas?
– De manhã. Madrugada ai?
– O meio dela. – Wake me up voltou a tocar, pela milésima vez na noite. – Vou matar alguém.
– Relaxa. Como anda, depois daquilo.
Aquilo se referia ao sequestro. Como num consenso geral, ninguém dizia aquela palavra perto de mim. Não que eu ligasse, a realidade continuava a mesma.
– O mesmo. Passei de ano, perdi meu trauma...
– Trauma?
– É, eu fiquei com pavor de escuro. Depois que eu viajei com a galera e me cortei tive que dormir acompanhada por um tempo. Graças ao Shaun.
– Shaun? – Vi a postura dele mudar, mas não comentei. – Quem mais foi?
– Hum, os gêmeos, Annie e Ali, Kyu, Leh, Lara. Só esses.
– E teve que dormir com Shaun?
– Ele se ofereceu depois que Lara deu a ideia. Annie estava no quarto, mas deixei ele sair do sofá.
– Nossa, fica cada vez melhor.
Sorri com a expressão de Duran. Eu nunca o vira naquele estado, mas era divertido. Ele me fitou, sério.
– Ciúmes? Achei que era para eu ir atrás do homem da minha vida.
– Não significava dormir com meu amigo.
– Duran, para. Você faz soar como se eu fosse alguma putinha qualquer.
– Não conheçe Shaun, Megs. Se ele te quer tanto, ele vai dar um jeito.
– Eu ainda precisaria dar a permissão, Duran. E você sabe muito bem que eu não sou assim.
– Já tirou a prova se ele é o cara ou não?
– Vamos sair amanhã. Cinema.
– Hum, que ótimo.
– Duran. E se eu te dissesse que ele é o cara?
Ele ficou em silêncio, olhando o teclado do computador. Não que fosse parecido com o que eu sentira com Duran, mas Shaun estava me deixando com uma sensação anormal.
– Eu sinto sua falta. Todo dia. – Olhei para ele, estudando seu rosto. E era o mesmo que o que eu sentia talvez. Medo. Suspirei.
– Eu também.
– Eu...preciso ir. Boa sorte.
– Tchau.
Aquela história de que distância nunca separava o amor talvez não fosse tão real assim. Nunca me senti tão afastada dele. Desliguei a chamada e fechei o computador, ouvindo uma sirene na rua. O fim da maldita festa estava próximo. Deitei-me novamente e fui dormir.
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– Ele disse mesmo isso?
– Estou dizendo, Louis.
– Minha nossa. Duran não era do tipo ciumento.
– Eu não sei, ele não era comigo.
Lólli e Louis ouviam meu desabafo, tentando entender. Naquele momento, eles eram os que me conheciam a mais tempo, e os que eu tinha certeza que não iriam reagir como Ali fez.
– E essa história com nosso deus dos olhos violetas, você acha que rola?
– Louis, eu não consigo pensar direito. Eu nem sei se eu gosto dele, porque minha consciência faz questão de ficar trazendo Duran à tona.
– Opa, então ainda tem um sentimento.
– Meio óbvio, não?
– Megs, vocês vão ficar anos sem se ver. Talvez até mais. Será que vale a pena continuar tão presa nele?
– Vocês estão me confundindo mais ainda.
– Desculpa, mas...olha, eu acho Duran um fofo. Vocês eram ótimos juntos e acho que se pudessem ficar juntos, deviam. Desconsiderando minha super crush em Shaun, ele talvez seja a sorte lhe sorrindo.
– Argh, que raiva.
– Vocês dois se deram bem desde o início. É raro alguém que lide tão bem com Shaun.
– Ou que parece lidar. Shaun é tão difícil quanto um bebê. Você nunca sabe mesmo o que vai acontecer.
– Olha, conselho de melhor amigo. Só vai e curte o dia. Duran não pode te julgar pelo que acontecer, nem você pode viver amarrada nele. Só sorria e acene se tudo der errado.
– Ok, melhor plano de ação até agora. É melhor eu descer e tomar café. Obrigada, amores.
– Fofa. Quero o relatório depois.
Ri e desliguei, finalmente saindo de baixo do cobertor. Prendi o cabelo e estava para descer, quando ouvi a voz de Kyle. Voltei pro quarto e troquei de roupa.
Kyu estava lá, caladinho no sofá. Até sorriu quando me viu, vindo puxar conversa comigo e me empurrando de volta pro quarto.Estranhei o desespero, mas só segui o fluxo.
– Que foi?
– Eu meio que estava de vela pra sua mãe. Ali me disse que ia sair com Shaun. O do olho violeta, né?
– Ela já deve ter feito um outdoor escrito isso. E vou.
– Ela estava meio indignada. Algo sobre ele não prestar. Devo me preocupar.
– Shaun pode ser meio difícil de conviver, mas não é essa monstruosidade.
– Pois bem. Por que ela diria isso?
– Dizem que eles namoraram antes. Deve ser disso.
– Ela não tinha me contado isso. Não que importe, se ele está atrás de você...
– Não sei o que aconteceu direito, sei que ela tomou raiva dele nesse ponto. Fora isso...
– Entendi. Bom, fica de olho e se precisar me liga.
– Hum, minha mãe já está fazendo o almoço?
– Saiu tarde da toca. Já são onze da manhã.
– Liguei para uns amigos e fui dormir tarde. Quer voltar lá pra baixo?
– Ok, vamos.
Ele foi falar com Kyle, enquanto eu ia atrás da minha mãe na cozinha. Ela sorriu e ficou esperando o beijo de bom dia. Antes de jogar a bomba, óbvio.
– Vai sair?
– Mais tarde.
– Com quem? O menino do olho roxo?
– Por um acaso, mãe, é. E não me olha assim.
– Sabe as regras. Antes das nove, dentro de casa. Vou ligar aqui em casa. E tome cuidado. Vou sair com Kyle, volto amanhã.
– Beleza. Estarei aqui para atender.
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A tarde custou a passar. Fiquei o tempo com Kyu, enquanto ele mexia no meu computador eu ia procurando uma roupa no meu armário. Eu queria ou não agradar?
– Está bom?
– Sim. Simples e bonito. Dez de dez.
– Ok. Vou tomar um banho.
Vesti o short jeans com a camiseta preta e penteei o cabelo, desfazendo os nós com cuidado. Achei Kyu dormindo na minha cama, com a boca aberta. Acredite, ele não ficava fofo dormindo. Joguei a toalha nele, assustando o coitado.
– Ali deve estar nervosa.
– Aish. Que droga.
Calcei meus amados coturnos e me sentei na beira da cama, rindo. Ele me mostrou a janelinha onde Ali quase paria um filho, se achando chata demais. Ri.
– Já vou descer, Shaun já deve chegar. Vai ficar ai?
– Hum, Kyle já deve ir também. Deixa eu me desculpar aqui e já desço.
– Não esquece de desligar.
Foi a conta de eu descer as escadas, minha campainha tocou. Abri, vendo o par de olhos violetas que derrubava qualquer guarda. Inclusive a minha. Respirei fundo, murmurando um oi.
– Vamos?
– Claro. Tchau, mãe.
Entrei no carro, evitando olhar o menino bem vestido ao meu lado. Com uma calça jeans escura e uma camisa branca justa, ele parecia um modelo Calvin Klein. Podia muito bem ser. Pisquei, tentando manter o controle. Ia ficar tudo bem.
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