No Other

35 Capítulo 35 - Paradise


Notas iniciais
Oi, pessoas :) Paradise é a do Coldplay mesmo, espero que gostem :3

Eu estava com aquela sensação de que tinha alguém ao meu lado. De novo. Era a voz de uma criança, conversando sozinha. Minha visão até tinha se acostumado ao escuro, mas não fazia muita diferença. Eu jurava que estava vendo um vulto sentado no canto do cômodo.

Fechei os olhos com força e abraçei os joelhos, tentando não chorar e falhando pateticamente. Nem ficar recitando mentalmente o “é só alucinação sua, calma” adiantava.

– Megs? – Quase pulei quando a mão fria enconstou no meu braço nu. Abri os olhos, encontrando os verdes de Klaus. – Está tudo bem.

– Meu Deus, Klaus. – Eu me joguei nele, desesperada por algum contato com alguém além de mim mesma e a parede fria. – Por que estão me torturando?

– Ei, calma. – Ele segurou meu rosto, me forçando a ficar olhando no fundo de seus olhos. – Não é real, viu?

Olhei de soslaio para o canto e, de fato, estava vazio. Ainda assim, lágrimas não paravam de brotar dos cantos dos meus olhos.

– Ficava cantando e sussurrando. Pelo amor de Deus, me tira daqui. Por favor!

– Vou pensar em algo, prometo. Fica calma. Toma, come.

Ele me entregou um pacote de bolachas pela metade. Eu estava faminta, mas não queria comer. Nem fazia mais sentido o que eu pensava. Forcei os biscoitos a descerem pela minha garganta, pensando em quanto tempo se passara.

– Há quanto tempo eu estou aqui? Sozinha...

– Menos que dez horas. Megs, preciso ir. – Acho que ele percebeu o medo nos meus olhos. – Não é real, Megs. É só seu medo te controlando.

Ele saiu, a luz ficou acesa. Pensei comigo mesma que da próxima vez eu só teria que ficar de pé e apertar o interruptor. E ai aquela criatura do meu lado ia sumir. Consegui dormir, me acalmando assim.

Acordei com a porta batendo. A luz continuava acesa e um sujeito que eu nunca tinha visto antes estava lá. Apertei os olhos. Ele era muito parecido com Klaus, só que de cabelos curtos e rosto mais jovem.

– Bom dia, linda. – Ele sorriu, escorado na porta fechada. – Dormiu bem?

– Quem é você? – Com a boca seca, ficar respondendo perguntas idiotas não era prioridade.

– Julian Hertz, o mais novo e mais bonito dos irmãos. – Ele deu aquele sorriso de novo. – Bom, Klaus também é um galã, mas Alan, coitado...

– São irmãos?

– É. Do mais velho ao mais novo, Alan, Klaus e eu. – Ele se deixou escorregar pela porta, até estar sentado no chão, de frente para mim. Meus pés estavam entre os deles. – Que lugar horrível.

– Vocês é que me jogaram nesse buraco. – Lancei um olhar que, na minha cabeça, seria cortante. Ele só parecia estar se divertindo me olhando.

– Fofa. Não está em condição de tentar ser firme.

– É, foda-se. – Encostei a cabeça na parede, fechando os olhos. – O que você quer?

– Sabe, Hye-In tem umas ordens esquisitas.

– Quais?

– Já vai saber. – Ele foi parar do meu lado, mexendo no meu cabelo. – São agradáveis, no mínimo.

– Oh ho, vai fazer que? Me estuprar?

– Estupro tem um peso a mais aqui, rude. – Com uma mão na minha coxa e a outra pousada na minha nuca, ele ia se aproximando. Eu retesei meus músculos, já ouvindo o som do nariz dele debaixo dos meus dedos fechados em punho. – Se eu quisesse já tinha te deixado na minha mão, garota.

– Ah, claro. Não viaja. – Tirei a mão dele da minha nuca, virando o rosto.

– Hum, ok. Ao trabalho. De pé. – O sorriso dele era estranho. Ele me deixou de costas para ele e apontou uma câmera no teto. – Viu? Alan instalou enquanto você dormia. Sua parte, meu bem, é simplesmente resistir.

– Resistir ao que? – Ele juntou todo o meu cabelo e o deixou sobre meu ombro esquerdo, respirando na minha nuca.

– Diga oi pro seu amado. – Ele trilhava círculos invisíveis com as pontas dos dedos no meu ombro exposto, sorrindo.

O plano era me humilhar para Kyu ceder. Eu não podia ajudar, mas a cada segundo Julian ia ficando mais convincente. Eu tentei me soltar quando ele começou a descer a alça do sutiã.

– Solta. – O plano de não ajudá-los estava indo pro brejo. Tentei me soltar de novo. – Julian, sério, eu nem me aguentando direito estou.

– Já te disse que não vou fazer nada sério.

– Então eu tenho plano melhor. Me grava sozinha no escuro, eu fico ridícula.

– Com medo?

– Pavor.

– É, parece um bom plano. – Ele subiu a alça de volta. Escuro sempre foi uma prática de tortura. Tchau, linda.

Consegui me sentar de volta enquanto ele saia cantarolando. Podia ser paranóia, mas acho que era a música daquela criança do escuro. Fiquei arrepiada. Ele apagou a luz.

Aquele plano de ficar de pé e reacender a luz deu errado, claro. Eles desligaram a chave de energia do cômodo, a câmera tinha baterias imbutidas. Saco.

Só o que eu conseguia era tentar me convencer de que eu estava delirando. O que era muito provavelmente a realidade. Culpa dos filmes de terror asiático que me deixaram tão sensível.

– É da minha cabeça, não é? Então eu te controlo. – Resmunguei, olhando na direção do vulto. – Então, some. Anda, sai! Desaparece.

Pareceu funcionar. O frio continuava incômodo, mas pelo menos eu me senti sozinha no quarto de novo. Consegui dormir, depois de assumir o controle.

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– Megs. – Acordei com a voz de Klaus me chamando. – Trouxe comida.

Agradeci e peguei a marmita com o garfo, sorrindo. Klaus também notou que eu não estava tremendo.

– Falei para sumir, e funcionou. Consegui dormir. – Olhei na direção que o vulto normalmente ocupava. Um monte de caixas de madeira. – Por que é tão frio aqui?

– Ah, o sistema de refrigeração funciona bem. Megs, tenho que voltar.

Olhei a grade dos dutos que ele tinha indicado com a cabeça. Klaus parou na foto e falou com a voz baixa, jogando sua jaqueta para mim.

– Ninguém vai vir te checar nas próximas seis horas. E sou eu quem vigio as câmeras hoje. Tem uma caixa de ferramentas por aqui e o sol está radiante.

– Vai ficar bem? Klaus...– Ele sorriu, concordando. Sorri de volta, emocionada. – Obrigada.

– Até mais, Megs. – Ele acenou e fechou a porta. A luz continuou acesa. Fiquei de pé e vesti a jaqueta. Determinada, comecei a agir. Peguei as caixas e as empilhei. Não eram muito fortes, mas alcançavam a grade.

Sorrindo, fui mexer na caixa de ferramentas. Peguei uma chave inglesa e uma chave de fenda, guardei nos bolsos internos da jaqueta. Mesmo com o que Klaus me dissera, eu ficava vigiando a porta. Arrumei as caixas e, com cuidado, subi.

A chave de fenda soltou os parafusos da grade, enquanto eu ainda olhava para a porta. Virei o rosto e vi a câmera. Fechei os olhos com força. Klaus podia ser quem vigiava, mas Hye-In ia ver. Peguei a chave de fenda pela ponta e quebrei a lente. Klaus poderia dizer que chegou aqui tarde.

Subi para a passagem quadrada e respirei fundo. A ideia de estar num lugar tão apertado me sufocava, mas era para um bem maior. Fui engatinhando pelo duto, tentando não fazer muito barulho.

Próximo passo, encontrar Ali. Ia olhando pelas grades, tentando ver se ela estava por lá. Quando a encontrei, já estava suando. Ali estava bem quente.

Alan estava lá, com a arma. Que merdinha. De costas para mim, fiquei menos temerosa de que ele me visse. Observei a cena, quase sem respirar.

– Sua putinha. – Ele agarrou Ali pelo braço e a jogou para o outro lado da sala, na minha direção. Ela ficou debaixo da grade, fora do meu campo de visão. – Gostou?

Ele atirou para o alto. O som deve ter assustado Ali, mas o que me assustou foi a bala batendo na grade. E eu que achava que isso era bobagem de filme. Meu coração só faltou pular para fora da boca.

– Sorte sua que eu não posso te matar, garota. Ainda posso... – Ele gritou e se afastou, com a mão sangrando. – Sua...

– Melhor cuidar disso, pode infeccionar. – Ouvi o tom irônico e sorri. Alan resmungou e trancou a porta, saindo. A grade era parafusada por fora, ela ia ter que dar um jeito.

– Ali. Ali. Alice. – Ela finalmente começou a me procurar. – Na grade, aqui em cima.

– Megs?

– Branca de neve. É, né? Ali, você tem que dar um jeito de sair dai, rápido. Consegue arrastar as caixas?

– Consigo, estão vazias. Como eu solto essa grade?

– Usei uma chave de fenda. Sei lá, usa uma faca, um garfo. Tem algo assim?

– É, ok. Já vou. – Ela ficou de pé e foi arrumar a pilha de caixas para poder subir. Esperei, verificando a porta.

Sai do caminho e andei um pouco para abrir espaço para minha amiga. Ela entrou no duto. Voltamos a nos mover pelo labirinto de dutos. Parei de repente antes de uma grade. Respirei fundo e passei, mandando Ali esperar.

Hye-In estava logo embaixo, falando em japonês. Klaus estava com ela, respondendo sem convicção. Não entendi o que estava sendo dito, mas ela parecia irritada. Ou “triste”.

– Desisto. – Ela falou, ficando de pé. Voltei a engatinhar, quieta. O importante agora era sair. Paramos na última grade, depois de descermos uma parte inclinada do duto.

– Como soltamos a grade? Por dentro.

– É, por dentro. No chute. – Estiquei os pés descalços e forcei a grade com as pernas. Ali me imitou e veio ajudar. Apertadas uma ao lado da outra, fizemos a força necessária para soltar um dos parafusos. Continuei empurrando, até a grade ceder.

Abaixadas do lado de fora, respirando fundo e escondidas atrás de uma moita. Ali olhou o jardim, enquanto eu sentia as pernas doendo. Ela apontou para o Jaguar do outro lado da rua.

– Como chegamos lá? Tem dois guardas aqui. Caramba.

– Vai rir da ideia, mas o plano é correr. Muito.

– Tudo bem. No três. Um, dois... – Ali ficou de pé e correu, gritando Kyu. O menino saiu do carro, junto com Annie.

Os dois homens tinham nos visto. Um deles pegou Ali por trás e tentava tampar sua boca. Shaun, que eu não tinha visto, alcançou o outro sujeito, jogando-o no chão.

– Me sotla, seu rato, imundo, fedido! – Ali se debatia. Parei atrás do homem e, com a chave inglesa, dei-lhe uma bela cacetada na cabeça. Com força. – Megs!

– Puta merda, ele morreu? – Não consegui checar se ele ainda respirava. Alice me agarrou pelo pulso e me puxou até o carro.

Olhei para o céu quando ela parou, ofegando. O sol finalmente me alcançava, a jaqueta me deixou suando. Respirei fundo. Soltei a chave inglesa suja de sangue e deixei de lado aquela questão de ter matado alguém. Ou não.

Kyu deu um abraço em Ali, com os olhos cheios de lágrimas. Annie veio na minha direção, me dando um abraço, chorando horrores.

– Solta, Kyu! – Ali ainda tentava se fazer de difícil, mas eu não me importava mais. Estava debaixo do sol, sentindo calor. A sensação que achei que nunca mais ia sentir.

– Megs, minha nossa. – Shaun tinha voltado, me segurando. Sorte a minha, ou teria caído no asfalto.

– Megs, Ali, eu fico tão feliz de ver vocês bem. – Annie nos deu um abraço, tentando secar o rosto. Kyu sorriu e puxou Ali de novo, perguntando se eu estava bem.

– Fiquei preocupado depois do dia no parque.

– Vou ficar bem, agora. – Comentei, com o rosto apoiado no ombro de Shaun. Minhas pernas estavam prestes a me derrubar.

– Eu preciso de um banho e pronto. Megs precisa ir para um hospital.

– Eu achava que era impossível perder cinco quilos em uma semana.

– Quantos dias se passaram.

– Quase uma semana. – Annie deu de ombro, abrindo a porta do carro. – Vamos, depois falamos disso.

Entramos no carro, eu atrás com Shaun e Annie, Ali na frente. O cansaço me dominou e, assim que Kyu arrancou, eu apaguei encostada em Shaun.

Notas finais
Espero que tenham gostado, o fim de mais uma fase de problemas hahahahah Bjs