No Other
19 Capítulo 19 - Angel On Fire
Notas iniciais
Fiquei cochilando, dando pescadas, durante a aula. Ali não parecia muito melhor. Duvido que ela tenha prestado atenção na aula.
– E, talvez, esse mês eu consiga uma excursão para vocês. Mas está difícil. – O professor falou, guardando o próprio material. – Um teatro ou uma orquestra. Que tal?
– Que tipo de peça? – Mel perguntou. Ela era uma garota pouco mais baixa que eu, com cabelos compridos e olhos cor de mel. Bonita, mas quase não conversávamos. Ainda assim, gostava dela.
– Comédia, acho que é o que vocês gostariam. Mas enfim, não se empolguem. Não prometo nada. – O sinal tocou. – Liberados.
Saí da sala me arrastando. Eu só queria dormir. Ali me alcançou no corredor, também com cara de sono.
– Eu devia ter dormido mais. – Ela falou, bocejando no final.
– Eu tentei dormir mais cedo, mas ALGUÉM não parava de falar do namorado. – Olhei para ela, fingindo que estava irritada.
– Ai, desculpa se eu queria compartilhar minha felicidade.
– Eu sei, mariposinha de fogueira.
– O que, cara? – Ela riu, franzindo o cenho.
– Não sei. – Dei de ombros. – De qualquer jeito, você ficou felizona com o Kyu.
– Eu sei, ele é lindo! – Ela agarrou a manga da minha camisa. – Quero ficar com ele de novo.
– Uai, fica. – Revirei os olhos. – Você vive lá em casa, ele também...
– Sério?
– Por causa de Kyle, ele tem jantado com a gente quase todo dia.
– Meus pais nunca deixariam eu jantar sempre com você.
– Que bom, senão ele vai acabar se assustando.
– Verdade. Mas ele é tão lindo!
– Já sei, pronto. – Fomos para as outras aulas.
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No fim de semana, nós marcamos de sair. Todo mundo do nosso grupo, que almoçava junto, ia e uma prima da Ali também.
Vesti uma camiseta, uma saia jeans e meus coturnos. Prendi meu cabelo num coque, para aliviar o calor que eu estava sentindo.
– Pegou dinheiro? E o celular? – Minha mãe me olhou, deixando claro que não gostou do jeito que me vesti.
– Já, mãe. – Tirei minha carteira de dentro da bolsinha que estava levando.
– Juízo, ok? – Ela me deu um beijo na bochecha.
– Sim, senhora. – Sorri e saí de casa.
Era a primeira vez que eu ia ao shopping, mesmo depois de morar ali por quase 5 meses. Era imenso, com três andares, todos eles enormes.
Depois de me perder umas três vezes, consegui achar a praça de alimentação, onde tínhamos marcado de nos encontrar. O cinema ficava logo em frente.
– Oi. – Senti um arrepio com o sussurro. Me virei, encontrando o dono da voz familiar. Duran. – Esperando muito?
– Não. Me perdi algumas vezes, então cheguei aqui agora mesmo. – Ele sorriu.
– E essa saia? Meio curta, não? Faltou pano? – Ele se sentou ao meu lado, inclinado para trás, olhando a saia com uma sobrancelha arqueada, sério.
– O que? Vai atacar de namorado ciumento agora? – Apertei meus olhos, como se o acusasse.
– Não. É melhor para mim, na verdade. – Sorriu.
Mostrei a língua pra ele, que só riu. Me beijou. Senti que alguém segurava minha cabeça, me impedindo de me afastar de Duran.
– Casal mais fofo, gente. – Louis. Dei um tapa pro lado, sem ver meu alvo. A mão me soltou.
– Seu desgracento. – Mostrei o dedo do meio pra ele.
– Quanto amor, gente. – Ele e a irmã se sentaram de frente para nós. – Cadê o resto?
– Ali vem com a prima, Annie, eu acho. Quando eu saí de casa ela disse que já tava saindo. – Respondi.
– Ah, Kim me mandou mensagem, disse que já vinha. –Duran olhou o celular. – Mas já tem uns 20 minutos.
– A Kim é lerdinha mesmo, tadinha. – Dei de ombros. – Shaun?
– Ele disse que não ia poder vir, não sei porquê. – Louis respondeu, se debruçando sobre a mesa.
– Quê que a gente vai fazer? – Perguntei. – Cinema mesmo?
– É. – Duran passou o braço sobre meus ombros. – Vamos ver o que?
– Sei lá. Alguma ideia? – Perguntei para todo mundo.
– Não sei de nenhum bom. – Lólli olhou para trás, vendo os cartazes. – Qual a sessão mais próxima?
– Gravidade. 3D. – Duran respondeu. – Será que é bom?
– Tá passando Dragon Ball também, mas é mais tarde um pouco. – Louis começou a tamborilar os dedos na mesa.
– Então? O que vai ser? – Lólli, que estava de costas, se virou enquanto falava.
– Podemos ver Dragon Ball, pra dar tempo das outras chegarem.
Vi Kim chegando como eu tinha imaginado: ofegante e segurando o cabelo, se abanando com uma mão. Parecia que tinha corrido uma maratona.
– Oi, gente. – Se sentou na cadeira do meu outro lado.
– Tudo bem? – Duran deu um sorriso para ela.
– Desculpa a lerdeza.
– Tudo bem. Ainda faltam Ali e a prima dela. – Dei de ombros. – A gente vai ver Dragon Ball, ok?
– Não era meu favorito, mas ok. Pode ser.
– Pronto. – Louis apontou alguma coisa atrás de mim. – Podemos ver Gravidade. Ali já chegou também.
– Então, qual vai ser? – Perguntei.
Ouvi um Gravidade quase em uníssono. Sorri em concordância. Me virei. A garota com Ali era só um pouco mais alta que ela, como os cabelos pretos com mechas azuis nas pontas onduladas, indo até sua cintura. Dava para ver que ela era muito branquinha, ainda mais contrastante com o cabelo escuro.
– Oi, gente. – Ali parou atrás de mim. – Annie, aqueles são Louis e Lólli. Esse é Duran, Kim e Megs. Foi nos apontando enquanto falava. – Galera, minha prima, Annie.
Todo mundo murmurou “oi” em resposta e acenou, sorrindo. Ela se sentou entre Kim e Lólli, um pouco sem graça.
– Vamos ver Gravidade. – Ali não ficou muito contente. – Cada um compra o que quer ou a gente divide?
– Vou comprar nossas bebidas. – Ali estendeu a mão sobre a mesa. – O que vocês querem? Suco ou refri?
Todo mundo pediu uma coisa e entregou o dinheiro. Ela apontou para Louis e Lólli.
– Não vou lá sozinha, não. Podem vir junto. – Os três foram para uma lanchonete ali perto.
– Pode ir com Kim pegar pipoca e bala? – Perguntei para Duran, pegando mais do meu dinheiro.
– Claro. Quer bala de morango? – Concordei. Ele pegou meu dinheiro e me deu um selinho, antes de sair atrás de Kim.
– Então, nós duas vamos pegar os ingressos, ok? Vamos. – Me levantei e caminhei até a bilheteria com Annie. Pedi os ingressos e fiquei esperando enquanto a mulher pegava meu troco.
– Legal seu cabelo. – Pela primeira vez na vida, eu estava puxando assunto. Tentei ser simpática.
– Ah, valeu. – Ela me deu um sorriso. Os olhos dela eram castanhos claro, quase mel.
Peguei o troco e fui para perto da sala de cinema. Tomei um susto com um grito que Annie deu. Me virei, tentando ver o que ela tinha visto. Um pôster de Catching Fire.
– Que foi? Não me assusta assim, não.
– Ai, eu amo Jogos Vorazes. A-MO. To muito desesperada por esse filme! – Ela falava rápido, segurando meu braço. Bem diferente da menina tímida de 5 minutos atrás.
– Eu to percebendo. – Sorri. – Eu também quero ver.
– Você já leu? – Ela sorria, entusiasmada.
– Já. – Ela era mesmo fofa, mas já estava começando a ficar meio histérica. – Então, quanto tempo você vai ficar por aqui?
– Ah, eu vim antes, mas vamos nos mudar pra cá. Minha família ficou para vender nossa outra casa. – Ela deu de ombros.
– Vai estudar com a gente, então? – Perguntei.
– Acho que sim, mas não sei se serão os mesmos horários. Espero que sim.
– Eu também. – Ela me deu um sorriso em resposta.
O resto da galera voltou com a pipoca, refri e bala. Ali e eu pegamos o sucos e entramos na fila, vazia naquela hora.
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Não me deixaram sentar perto de Duran. Fiquei numa ponta da fileira, ele na outra. Eu podia até não ver o filme perto dele, mas com Ali do meu lado, falaria o tempo todo. Rindo de tudo.
Dito e feito. Annie chegou a me xingar de tanto que eu ficava falando. Não tenho certeza se ela ficou muito irritada, mas minha única reação foi rir.
Ficamos no shopping depois do filme, pra lanchar. Fui com o resto do povo até o Burguer King, pedi um combo e me sentei, do lado de Duran. Ele ficou roubando minhas batatas.
– Gente, vocês são muito shippáveis. – Annie falou, bem mais a vontade. Já conversava bem mais com a gente. Percebi que ela era meio lerdinha, mas muito legal. Adorável, em resumo.
Já eram quase 7 da noite quando fomos embora. Ali e Annie foram me acompanhando até minha casa, conversando.
Annie era uma graça. Ela era bem tímida, mas às vezes falava alto demais. E depois, claro, ficava com vergonha. Parei na frente da casa, pegando minhas chaves.
– Sua casa é tão legal. – Ela falou assim que peguei o chaveiro.
– Valeu.
– Eu também acho. – Ali falou, como se precisasse confirmar. Pegou o braço da prima. – Mas temos que ir. Até mais, Megs.
Ela me deu um abraço e saiu arrastando Annie consigo, pela rua levemente movimentada.
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Annie tinha os mesmos horários que Ali e eu. O professor a colocou bem do meu lado quando ela chegou, na quarta feira. Não demorou muito para se enturmar.
Em 3 dias, ela já era da nossa turma. Parecia até que ela era bem mais amiga de todo mundo do que eu, que estava lá a mais tempo. Sempre lerdinha, sempre fofa.
O último horário na sexta feira se arrastou, me matando de preguiça. Assim que o sinal tocou, me levantei e saí da sala correndo até meu armário.
– Tá com pressa? – Senti um braço na minha cintura, me abraçando por trás. Sabia que era Duran. Virei com um sorriso. Ele sorriu de volta.
– Não. Só pra sair daqui logo. – Respondi, fechando o armário.
– Quer dar uma volta? – Pegou minha mochila. – Sei lá, tomar um frozen...
– Pode ser. – Dei de ombros. – Pode devolver a mochila, anda.
– Não, vou carregar para você. – Pegou minha mão. – Vem.
Saímos da escola sem nos despedirmos de ninguém. Só nós dois, sorrindo feito idiotas.
Ele pegou um frozen pra nós dois. A tarde estava quente, mas não fosse o sol, estaria perfeita. Percebi que Duran parecia um pouco distante, mesmo conversando comigo.
– Ei. – Ele me olhou, como se acabasse de lembrar que eu estava ali. – O que houve?
– Nada. – Ele deu de ombros. Cruzei os braços, com aquele olhar de quem diz “E eu sou um alien de Urano”. – É meu pai.
– Ah. – Dei um suspiro. Não sabia mais o que dizer.
– Bem. Eu devia te levar pra casa agora. – Ele se levantou da mesa. – Vamos?
– Precisa ser pra minha casa? – Ele arqueou uma sobrancelha com minha pergunta. – Sei lá, não quero ficar em casa sozinha. – Dei de ombros.
– Sobra minha casa. Serve? – Ele estendeu a mão pra mim. Concordei, segurando sua mão e me levantando também.
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A casa dele era grande, mesmo sendo de um andar só. Era verde claro por fora, com paredes brancas por dentro. Confortável.
O quarto dele era branco também. Tinha um móvel num canto, com um notebook preto a alguns livros espalhados. Três porta retratos: Um com a foto dos pais, um dele com uma senhora e um com uma foto minha.
– Como conseguiu isso? – Peguei o porta retrato, vendo minha foto. Eu estava na aula, com um sorriso no rosto. Não olhava para a câmera.
– Pedi Louis pra tirar quando você não estivesse vendo. Uma aula de literatura, eu acho. – Ele deu de ombros, tirando a camisa. Tentei disfarçar, mas fiquei encarando seu peito nu.
Coloquei a foto no lugar e olhei ao redor mais uma vez. Ele vestiu uma camiseta qualquer. A cama dele ficava embaixo da janela, com um criado mudo do lado. O guarda roupa ficava na parede oposta, do lado da porta. Parecia meu próprio quarto.
– Sua mãe trabalha? – Perguntei, cruzando os braços.
– Não, ela deve ter saído com alguma amiga. Quer dizer, ela trabalha aos fins de semana. Organiza festas.
– Ah. – Não que eu estivesse pensando em fazer nada, mas só de pensar que estávamos sozinhos numa casa vazia me fez corar. Ele tinha que perceber, claro.
– O que foi? – Ele franziu o cenho, sorrindo.
– Nada. – Sentei na beirada da cama, com as mãos sobre os joelhos. Ele se deitou, escorando a cabeça na cabeceira da cama.
– Ok, se você diz... – Ele arredou na cama, colando as costas na parede ao se virar. Então me puxou, me forçando a deitar ao seu lado. – Agora me fala, no que estava pensando pra ficar vermelhinha daquele jeito?
– Nada, já te falei. – Me virei pra ele. – É só que...
– Nós dois sozinhos num quarto, numa casa vazia... – Ele deu aquele sorriso provocativo dele. Maldito.
– Se você pensou nisso também, riu de mim por quê? – Tentei me soltar do abraço dele. – E isso aqui é estupro.
– Ainda não. – Ele falou casualmente, me apertando de leve. Arregalei os olhos, surpresa. Nunca pensei que ele responderia aquilo. – Megs, para. Acha mesmo que faria isso?
– Não. Espero que não.
– Que bom. – Ele riu. – Só ri de você pra te deixar sem graça. Ridícula. – Deu um beijo no meu nariz. – Mas, se você quiser...
– Agora não, muito obrigada. – Me aconcheguei nele, com a cabeça em seu peito. Ele deu uma risada fraca, passando uma mão pelo meu braço.
– Por que não?
– Porque não. – Bela resposta. Sou mestre em convencer os outros. Ele ainda esperava uma resposta. – Não é uma coisa assim, ok? Quer dizer, eu...eu nem sei...se...
– Calma, não precisa gaguejar. – Falou sério. – Só perguntei. Não quero que você faça nada assim por mim. Até porque, eu também não sei se eu teria coragem agora.
– Coragem? – Franzi o cenho.
– É, coragem. É meio vergonhoso, sabe? Só minha mãe e minha avó já viram.
– Ah. – Travei. Queria rir, mas nem isso eu consegui fazer pra quebrar aquele gelo. Respirei fundo. Ficamos em silêncio por algum tempo.
Tomei coragem e olhei pra cima, encontrando o olhar dele. Distante, de novo. Suspirei.
– Não quer mesmo me contar o que houve? – Ainda estava sem jeito, pelo assunto anterior e pelo novo. Ele se mexeu, desconfortável.
– Vai ficar com raiva se eu não falar? – Deu um sorriso fraco, quase forçado.
– Não, mas vou ficar preocupada. – Ele deu um suspiro.
– Bem, meu pai tem sido um idiota completo. – Ele de ombros do melhor jeito que pôde. – Ele anda com uma ideia retardada de me mandar pra casa da minha avó.
– Não gosta da sua avó? – Franzi o cenho.
– Gosto. Aquela velha é louca. – Deu uma risada fraca. – O problema é que a casa dela fica na Dinamarca.
– O quê? – Tentei me sentar, mas ele ainda me segurava. – Seu pai quer que você se mude pra Dinamarca. Por quê?
– Não sei, ele não me explica direito. Nem me ouve também... – Ele desviou o olhar do meu por um segundo, passando a mão pelo rosto. – Olha, deixa pra lá. Não vou me mudar e é isso.
– Ok. Não vou falar mais nada. – Voltei a me aconchegar em seu peito. Podia sentir seus músculos tensos, mas fiquei quieta.
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Pisquei, meio sonolenta.Gastei alguns segundo pra conseguir entender aonde estava. Duran ainda me abraçava.
Me soltei dos seus braços, agora menos firmes, e me sentei, passando as mãos pelo rosto. Olhei pela janela. Minha mãe ia me matar. Já estava escuro lá fora.
Duran ainda dormia. Me levantei devagar, tentando não fazer barulho. Mas meu pé agarrou na alça da mochila. Não cheguei a cair, mas joguei alguma coisa no chão quando me apoiei no criado mudo.
– Desculpa. – Peguei o enfeite e o coloquei de volta no lugar, enquanto Duran piscava, bocejando.
– Por que não me acordou antes? – Esfregou os olhos. – Fugindo de mim?
– Talvez. – Falei com uma voz brincalhona. Ele riu. – Só não queria te incomodar. Realmente preciso ir agora.
Peguei a mochila e fui até a porta. Ele me seguiu, ainda bocejando.
– Quer que eu te leve? – Ele me segurou no vão da porta, olhando a rua lá fora.
– Não precisa. – Apesar de não ser uma diferença gigante, eu ainda tinha que me esticar um pouco pra ficar da altura dele. Fiquei na ponta dos pés e dei um selinho nele. – Até amanhã.
– Me liga quando chegar lá. – Sorri, anuindo.
No exato momento em que pisei do lado de fora, esbarrei em alguém. Me virei, encarando a mulher. Baixinha, com os cabelos negros e os olhos azuis, muito parecidos com os de Duran. Se alguém me falasse que ela era modelo, não duvidaria.
– Ah, oi. – Ela deu um sorriso. – Deus, eu não posso acreditar.
– Oi, mãe. – Duran cruzou os braços, se recostando no portal.
– A casa vazia, você traz uma garota e dorme? Que tipo de casal é esse que só dorme?
– Nós, mãe. Devia se orgulhar, sabia? – Ele deu de ombros. – Ela não quis, deixa ela.
Aquilo quase me matou de vergonha. Dei um sorriso sem graça pra mãe dele e murmurei.
– Bem, eu já estava de saída. Prazer.
Saí correndo. Talvez ela achasse que eu fosse mal educada pelo jeito que saí, mas não podia ficar mais um segundo que fosse ali. Eu ficaria escarlate.
As ruas estavam movimentadas, pelo calor. Ainda assim, tive uma sensação ruim. Como se aquelas pessoas não estivessem mesmo ali. Me abracei, como se estivesse com frio.
Foi então que aconteceu, de repente.
Eu já estava quase chegando em casa. Só mais um quarteirão. Já estava na pracinha perto da minha casa. Passei perto dos balanços, onde uma mãe empurrava a filha, observando os rapazes jogando futebol na quadra logo atrás. Foi quando a sensação piorou.
Um carro surgiu do nada. O cara saiu, sem sequer desligar o veículo e ergueu o braço. Paralisei.
Todos se jogaram no chão, ou simplesmente caíram com os estouros. Que som era aquele? Olhei para meu lado, onde a garotinha caíra. Ao seu redor, uma mancha escura se formava. A mãe dela rastejava, chorando.
Só então meu cérebro entendeu aquilo tudo. Eu estava parada no meio de um tiroteio, um massacre. Não sabia o porquê ou como aquele cara estava ali.
Entrei em desespero, mas já era tarde. Quase pude ver a bala vindo na minha direção depois de ouvir mais um estalo. Meus sentidos se apagaram. Por último, fechei os olhos.
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