No Other
17 Capítulo 17 - Linger
Notas iniciais
Ali me ignorou. Assim que entrei na sala a vi, sentada no lugar de sempre. Ela me viu também, mas desviou o olhar.
Deixei minha mochila na minha carteira e fui até ela. Quando parei ao seu lado, ela simplesmente passou a mexer no celular, me ignorando.
– Ali, você vai me ouvir! – Me ignorou. Aquilo estava começando a me irritar. Muito. – Ali, para de drama.
Ela continuou olhando o vídeo que passava em seu celular. Apelei. Tomei o celular da mão dela e o levantei acima da minha cabeça, como se fosse tacá-lo no chão.
– Devolve. – Ela se levantou, tentando pegar o telefone de volta. Infelizmente, ao menos para ela, eu era mais alta que ela. Bem mais.
– Ah, agora você fala comigo? Então me escuta, ok? Foi um acidente! Eu sou o tipo de pessoa otária e retardada que não leva roupa pro banheiro e depois sai de toalha, no quarto que eu não tranquei.
– Acabou?
– Você só vai encostar de novo nesse negócio quando largar a mão de ser dramática.
– Gostou dele, não é? Já são “amigos”? – Ela cruzou os braços, tentando ser irônica.
– Ali, ele vai passar bastante tempo lá em casa. Mais cedo ou mais tarde vamos ficar amigos. Eu tenho Duran, idiota, quero ele com você.
– Meu celular? – Fofa de novo. Bipolaridade era mato naquele lugar.
– Toma. – Ela pegou e me deu um abraço, logo em seguida.
– Te amo de novo.
– Também. – Me soltei dela. – Meu Deus, que gay!
– Foi mesmo. – Ela voltou a se sentar. – Mas agora, fala da viagem. E dele também.
– Não sei muito de Kyu. Sei que ele tem 18 anos, é de Seoul, tem talento. Ao menos foi o que Kyle disse. Não sei pra que. – Dei de ombros. – Ah, e ele é tímido. Tipo eu, assim.
– Que fofo. Apesar de que você não é muito tímida comigo, não. E a viagem?
– Tirando meu pai ameaçando Duran, foi boa.
– Ameaçando pelo que?
– Acho que se ele me engravidar... Sei lá. – Ela olhava vagamente o celular. – Que foi?
– Tira foto dele pra mim? – Ela sorria, de um jeito sonhador.
– Vou ser trocada por um coreano que você nem conhece ainda?
– Vai ficar com ciúmes?
– Não, essa parte eu deixo pra você.
– Vai se fuder. – Grossa, por um minuto. – Se foi isso que você achou, eu fiquei foi com raiva.
– De que?
– De pensar que você trairia Duran depois do trabalho que eu tive.
– Fica quieta que quem fez tudo foi ele. E não sou assim, valeu.
O professor entrou na sala antes que ela pudesse revidar. Fui pro meu lugar. Nunca ache que Ali fosse fazer tanto drama. Mas, ao menos, agora estava tudo certo.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Ali foi pegar um caderno seu com alguém na hora do almoço, me deixando sozinha. Pelo que eu percebi, a história do carro daquela piranha já tinha sido esquecida.
Mas as pessoas me olhavam de um jeito estranho. E principalmente as que espalhavam boatos por ai. Não gostei daquilo. Ignorei o máximo que pude e fui almoçar.
Louis e Lólli se entreolharam antes de me cumprimentarem. Só faltou escreverem na testa “O que aconteceu? É verdade?”.
– Que foi?
Lólli ia me responder, mas Duran parou ao meu lado antes que ela começasse. Ele parecia triste, magoado.
– Posso conversar com você? Tipo, agora? – Ele apertava a alça da mochila, nervoso. Me apavorei.
– C-claro. – Me levantei e o segui.
Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Estávamos no telhado da escola, no prédio de convivência. Era um prédio mais alto entre os outros quatro. Era nele que ficavam o refeitório, biblioteca, laboratórios de aulas práticas, etc.
Observei a paisagem. Seria bonita se eu não estivesse tão tensa. Ele também não parecia tão bem.
– Eu confio em você. Tanto é que quero te perguntar antes.
– O que foi? – Ele se sentou com as costas contra a parede, me olhando de baixo. Me sentei de frente pra ele.
– Falaram... – Ele passou a mão no rosto. – Nem sei como começar, que merda.
– Vai direto ao ponto, então. Melhor.
– Ok. – Ele respirou fundo. – Já ouviu o que falaram de você?
– Não. O que? – Franzi o cenho.
– Acho que é aquele coreano que você me falou. Uma galera da turma de literatura disse que viu você brigando com Ali por ele.
– Ah, isso. – Relaxei na hora. – Foi drama de Ali.
– Bom, é um pouco pior. – Fiquei tensa de novo. – Andam falando que Ali ficou brava porque você dormiu com ele.
Não falei nada. Não consegui. Duran não me olhava. Aquele sentimento de culpa voltou. E tristeza também, pela expressão de Duran. Ele realmente achava que eu faria aquilo com ele?
– E você acreditou?
– Não. – Ele se mexeu, desconfortável.
– Então, por que tá magoado?
– Porque eu tenho uma imaginação muito fértil. Já vi como você fica vendo kpop.
– E...?
– Eu realmente tenho medo de ser trocado, ok? – Ele passou a mão no rosto. – O que eu tenho de especial? Nada. E por mais que eu saiba que não é verdade, não é legal ser chamado de corno.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Fiquei encarando o céu, respirando fundo. Aquela conversa não parecia estar tomando um bom rumo. Suspirei.
– Vai terminar comigo? – Olhei pro chão, mastigando a língua.
– Não quero. – Ele me olhava agora. – Mas talvez seja melhor pra você.
– Como? – Olhei pra ele de novo.
– Não quero fazer isso a cada vez que tiver medo de ser trocado.
– Duran, não vou fazer isso. – Peguei sua mão. – Não vou te trocar. Se você terminar comigo, vou ficar te seguindo o tempo inteiro, até você voltar.
– Vai me stalkear? – Ele deu um sorriso.
– Bem isso mesmo, é. – Continuei séria. – Ainda vai terminar comigo?
– Não. Você já acabou com a coragem que eu tinha juntado pra fazer isso. Agora não consigo mais. – Ele riu. Meu Deus, como ele ficava lindo rindo. – A gente devia descer, a aula vai começar agora.
– Alguém olha o telhado por fugitivos? – Deitei a cabeça no ombro dele, indo pro seu lado.
– Não. No que você tá pensando? – Ele sorria.
– Que eu não quero ver a aula de biologia e de história.
– Megs, cadê a boa aluna do início do ano?
– Foi pro telhado com o namorado e decidiu ficar por lá. Posso? – Sorri.
– Ai, Deus. – Ele passou o braço sobre meus ombros. – Então, isso virou algum tipo de encontro?
– Pode ser. – Peguei meu ipod no meu bolso e entreguei pra ele. – Toma. Escolhe uma música.
– Pra ser nossa? Que gay. – Pegou o ipod, rindo.
– Escolhe logo. – Ele passou algumas músicas e sorriu, satisfeito, colocando uma delas pra tocar.
Linger. Sorri.
– “You know I’m such a fool for you.” – Ele sussurrou no meu ouvido. Senti um arrepio em minha nuca.
Passei meus braços ao redor do seu pescoço e o beijei. Ficamos ali, até ouvirmos o último sinal, terminando a aula.
Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
O grupo que passava o almoço com a gente nos encarava quando entramos no corredor. Todos eles estavam perto do meu armário.
– Oi, gente. – Agi indiferente. – Tudo bem?
– Vivos, viu? – Shaun pareceu irritado quando falou com Lólli. – Posso ir agora? Ótimo. – Ele sequer a resposta e saiu, trombando em Duran.
– Onde se meteram? – Louis perguntou, calmamente. Lólli parecia nervosa, alternando olhares entre Duran e eu, e por onde Shaun tinha passado.
– O que interessa pra vocês? – Ali fuzilou os dois, com Kim parada ao seu lado. – Os dois namoram, gente, eles podem sumir assim quando quiserem.
– Valeu, Ali. – Duran acenou com a cabeça para ela. – Bom, preciso ir falar com meu pai. Te vejo amanhã? – Estava falando comigo agora.
– Claro. – Me deu um selinho e saiu.
– Vamos também, Lólli. Shaun ficou irritado. – Louis olhava para a porta. – Vou atrás dele, antes que ele faça merda.
– Vou com você. Tchau, gente. – Os dois saíram do prédio, apressados.
– Já vou também. – Kim deu um aceno e foi para outro corredor. Me virei para Ali.
– Vamos?
– Posso ir pra sua casa? – Ela segurou a mochila, pegando o fone do celular.
– Claro, não vou fazer nada mesmo. – Sorri, saindo do prédio com ela.
– Ah, meu Deus. – Ali paralisou no meio do estacionamento, esticando a mão para me impedir. – Ele é tããão lindo.
Olhei na direção que ela olhava. Kyu caminhava calmamente até nós, arrumando o terno, o mesmo que usara no primeiro dia que o vi.
– Ei, Kyu. – Acenei, cutucando Ali para tirá-la do transe. – Ah, Kyu, essa é Alice, minha melhor amiga.
– Prazer. – Ele deu um aceno tímido com a cabeça.
– Oi. – Era impressão minha ou Ali tinha ficado tímida? Logo agora.
– Kyu, o que veio fazer aqui?Assim, não que eu me importe, mas não preciso de carona.
– Kyle e sua mãe pediram para te levar até a empresa.
– Ah. – Olhei para Ali. – Ela pode vir também?
– Claro.
– Ok, então. Vem, Ali. – Ela me seguiu, se mantendo afastada de Kyu.
– Ain, que fofo.
– Você é louca, sabia? Por que não vai falar com ele?
– To como vergonha.
Revirei os olhos. Kyu destrancou o carro, um Jaguar preto. Ali correu e se sentou no banco de trás, fechando a porta. Parecia que Kyu ia matá-la se ela fosse na frente.
Ele abriu a porta da frente pra mim e foi para o lado do motorista.
Saímos do estacionamento, calados. Ele ligou o player, cantarolando Why So Serious? Do SHINee. Ali e eu acompanhamos o ritmo. Ele sabia coreano, a gente não.
Nunca tinha ido praquele lado da cidade. Kyu dirigia bem mais rápido do que eu o imaginaria fazendo.
– Coreano parece tão difícil. – Ali falou quando ele parou num semáforo.
– Nem tanto. Vocês provavelmente achariam difícil de escrever.
– Meu pai tem um colega que viaja para a Coréia, ele fica me fazendo raiva, falando em coreano. – Falei, só pra continuar o assunto. – Mas depois ele acaba me explicando.
– Fala tipo o que? – Kyu me olhava pelo retrovisor.
– Não sei se fala assim, então não ri. Ele falou que tem três jeitos pra se cumprimentar. Annyeong? É tipo, encontrar alguém na rua.
– Certo. Os outros dois?
– An-nyeong-ha-se-yo?O mais usado. An-nyeong-ha-sim-ni-kka? O mais formal.
– Bom professor. – Ele deu um sorriso.
– Ui, desculpa se eu só sei bonamana.
– Pela música? – Ele olhou para ela pelo retrovisor.
– É. E dorama também. – Ela tinha ficado sem graça.
– Se vocês procurarem letra na internet,dá pra aprender algumas coisas. – Ele estacionou em frente a um prédio enorme.
– Empresa de que? – Ali estudava o prédio pela janela do carro.
– Entretenimento. – Respondi.
– Bem, vamos. – Kyu pegou a chave. – Ah, Megs, me faz um favor?
– Fala. – Sai do carro.
– Fala o jeito mais formal de novo. – Trancou o carro depois que Ali saiu.
– Pra quê?
– Só fala.
– An-nyeong-ha-sim-ni-kka?
– Tenta Alice.
– An-nyeong? – Ela ficou sem graça. – Serve?
– Vocês ficam fofas, falando coreano. – Ele falava olhando pro chão.
– Valeu. – Entrei no prédio com Ali, sorrindo com o cenho franzido. Estranhei o jeito de Kyu, mas não falei nada.
Fale com o autor