Notas iniciais
Hum, Verita pode ser muito mais do que apenas Verdade...

Pov Cristal Hale

Enquanto os meninos (e Lúcia) trocavam elogios sobre masculinidade e calças, eu me afastei um pouco, sentando sob a sombra de uma árvore próxima. É muito engraçado ver eles conversando. Sei lá porque, gosto de observá-los.

– Aqui, meu rei, seu arco... — Verita entregou arcos para todos — Para Rainha Lúcia... Príncipe Caspi... desculpa, Rei Caspian... Lady Cristal, vai querer?

– Eu estou bem, obrigada! — eu respondi, e ele sorriu, saindo.

Pouco tempo depois, ele retornou, carregando uma única aljava com flechas comuns. E fixou-a no chão, de modo que todos pudessem pegar flechas dela.

– Se precisarem de mim, eu estarei perto dos estábulos. — ele disse, saindo. Tem alguma coisa nesse cara que me intriga...

– Verita! — eu chamei.

– Lady Cristal? — ele parou, e caminhou na minha direção.

– Eu...ahn... não estou muito a fim de ficar sozinha. Me faz companhia? — eu perguntei.

– Claro! — ele sorriu.

Ele se aproximou de mim, e sentou do meu lado. Ele é um rapaz jovem, mas aparenta ser levemente mais velho do que Pedro. Tem cabelos ruivos e olhos castanhos, e sardas suaves no nariz. Uma graça.

– É Verita, não é? — eu perguntei — Eu acho que estou pronunciando errado...

– Na verdade, Lady Cristal, é Richard Frederic Wood. — ele falou, fazendo eu me espantar.

– É do meu mundo?! — eu sorri, empolgada.

– Sou de Eastbourne, Sul da Inglaterra. — ele explicou — Mas meu pai era Embaixador Inglês nos Estados Unidos.

– Filho de embaixador? Que legal! — eu me empolgava, fascinada com a história desse cara — Olha, você vai me achar muito intrometida, mas adoraria se você me contasse um pouquinho de você. Pode? Eu queria muito saber... — eu pedi, quase implorando.

– Ah, o que o velho Verita pode te contar... — ele começou a falar — Eu nasci em 1920, sou o filho mais novo de cinco irmãos, eu estudei na escola St Eastbourne de Cipriano, Eton College e New College, Oxford. Eu me tornei adido honorário na embaixada britânica em Roma, em 1940, e em 1941 ganhei o posto de tenente do King's Royal Rifle Corps. Lutei no Oriente Médio entre 1941 e 1943 e fui gravemente ferido, perdendo as duas pernas em ação. Meu irmão mais velho, Peter Wood foi morto em ação no Egito em 1942.

– Nossa, parece uma história um tanto triste... — eu suspirei.

– Na verdade, eu era e sempre fui um intelectual, contanto que me tornei Adido Honorário aos 20 anos. Gostava muito de ler e era bom estrategista. — ele suspirou — Mas, depois que eu perdi as pernas, meu pai me mandou retornar para casa dele. Sabe, eu tinha acabado de perder as pernas, e meu irmão, estava muito triste, eles concordaram que era o melhor para mim ficar um pouco em casa, em Washington.

Ele contava, olhando atentamente para o pessoal. Lúcia atirara sua primeira flecha, e esta ficou a pouco centímetros do centro do alvo.

– Depois de uns meses em Washington, meu pai se encarregou de cuidar da família Pevensie, pois eram os últimos a conseguirem cruzar o Atlântico antes dos alemães fecharem o oceano. A princípio, vieram apenas Coronel Paul Pevensie, sua esposa Helena, o Pedro e uma moça. Pedro logo se tornou meu melhor amigo, nos meses que se seguiram. Eu adorava conversar com ele, a gente passava horas e horas discutindo e conversando, planejando estratégias sobre o estado atual da Guerra. Éramos quase a Comissão de Guerra, por assim dizer. — ele se riu — Alguns de nossos conselhos, aliás, foram bem úteis para meu pai e o verdadeiro conselho, que discutiam e às vezes até pediam nossa opinião. Imagine só, eu com 25 e Pedro com 18, duas crianças praticamente, dando conselhos para os maiorais do governo!

– Wow, isso deve ter sido divertido! — eu ri.

– Ah, e como era... Eu adorava o tempo que eu e Pedro passávamos juntos... Era como se eu esquecesse de tudo: meu irmão morto, estar em uma cadeira de rodas... Eu era um garoto normal, com um amigo tão inteligente quanto eu. Foi uma grande alegria para mim chegar em Nárnia e ver que eu podia andar denovo.... Mas como Aslan disse, quando lhe perguntei como isso era possível, aqui em Nárnia somos nossa alma verdadeira. Aquele corpo era só corpo. — ele falou — Depois que os alemães liberaram o Atlântico, o meu amigo retornou por pouco tempo para a Inglaterra, terminando assim a faculdade de Direito, em Cambrigde. Nesse período, fiquei sabendo que ele se hospedou na casa de um Historiador, conhecido como Professor Diggory Kirke. Meu pai e minha mãe meio que me empurraram para Srta Pevensie, que devo dizer, era uma graça. Cabelos negros, olhos brilhantes, pele alva, lábios vermelhos... Ela me encantava, com seu jeito sutil e suave, mas ao mesmo tempo, tão inteligente e culta. Adorava passar horas comigo na biblioteca da Embaixada, e tocava piano quase todas as noites... Nos tornamos tão próximos...

Eu podia observar seu rosto corar lentamente, à medida que ele falava dessa dama Pevensie misteriosa... Aposto que era Susana. Mas se ela era tão encantadora, o que será que fez com que ninguém fale dela abertamente?

– Bem, meu amigo retornou cerca de alguns meses depois, trazendo consigo dois adoráveis jovens, Edmundo e Lúcia, respectivamente. Eram muito divertidos, e logo Edmundo opinava em nosso Conselho de Guerra Particular, por assim dizer. — ele continuou — Eles também mencionavam discretamente palavras estranhas e aparentemente aleatórias, como guarda-roupa, castelo, mar, leão, navio, coisas assim. Até o dia em que resolveram me contar sobre Nárnia, este mundo pelo qual eu fiquei particularmente fascinado. Adorava ouvir os contos deles sobre terras longuínquas, batalhas épicas e seres mitológicos. A pessoa mais empolgada com tudo isso era Lúcia, claro, que sempre arrumava um jeitinho de meter Nárnia e Aslan em tudo. Mas a dama Pevensie.......

– Verita! — Pedro o chamou — Pode nos trazer mais flechas? Caspian acabou com todas!

– Sim senhor! — ele se levantou rapidamente.

Depois disso, eles ficaram chamando ele, e Verita foi obrigado a correr de um lado pro outro o tempo todo. Mas uma coisa ficou martelando na minha cabeça: como Verita veio parar aqui, e por que Susana não está aqui também?

– Oi minha Lua! — Pedro sentou do meu lado — Que está fazendo?

– Nada. Não vai jogar mais? — eu perguntei.

– Cansei, não é tão divertido sem você. E além do mais, Caspian consegue ser pior do que eu! — ele comentou, me fazendo rir. Mas depois de alguns minutos observando eles, contatei que era verdade: Caspian é péssimo mesmo!

– Pedro... posso fazer uma pergunta? — eu falei.

– Claro, Lua! Que foi? — ele respondeu.

– Verita me contou que o nome dele é Richard Wood. — eu comentei, e ele pareceu ficar um tanto nervoso... — E que era filho do Embaixador Inglês...

– Aonde quer chegar? — ele me cortou.

– Bem... é que eu não entendi qual é a do tal Verita...– eu disse, e pude ver um suspiro de alívio em seu rosto.

– Isso é porque ele era muito intelectual. Falava latim quase que o tempo todo. — ele comentou — Ele teve uma vida longa ao lado de... sua esposa, e morreu aos 82 anos. As últimas palavras dele foram Veritate probat ut sit Verita es. A verdade prova que é verdade.

– Bonito. — eu comentei — Vou estampar uma camiseta com essa frase.

– Ficaria mais bonito pintado na parede. — ele sugeriu — Se quiser, te ajudo a pintar...

– Hum, agradeço a oferta, mas hoje a agenda tá um pouco cheia... — eu disse, fazendo-o rir.

– Não tem como arrumar um horário? — ele me abraçou de lado.

– Não, segundo minha agenda, Lúcia vai me chamar para começarmos a nos arrumar para à noite em.... 3 .... 2 .... 1..... — eu contei.

– Cristal! — ela gritou, se aproximando — Tá na hora!

– Viu? Eu disse. — eu me levantei, fazendo-o rir.

– Vamos, eu já até sei o que você vai vestir hoje.... — ela falou, animada, me puxando para o castelo.

Notas finais
Hum... o filho do embaixador... Verita é mesmo mais do que aparenta!...