No Name Yet
1 Penny Dreadful - The Unquiet Grave
Notas iniciais
ETHAN
“I'll sit and mourn along the grave for twelve months and a day”
Já era o fim do dia cinzento, a chuva caia gentilmente e o vento embalava a todos dentro da capela. Num canto, o jovem rapaz lamentava-se olhando para a foto da amada, agora falecida. Nem tivera a chance de vê-la uma última vez, já que por consequência do ataque brutal que sofrera, tiveram que a velar com o caixão fechado. Ainda tentava decidir-se se aquilo fora bom ou ruim. Por um lado, a lembrança que teria dela seria sempre com o sorriso misterioso, os cachos negros caindo em cascata parecendo formar um véu de luz divina ao redor de seu rosto com traços finos e sutis que o faziam pensar nos anjos. E a voz aveludada que lhe trouxe conforto tantas vezes, recitando os mais belos versos dos poetas mais melancólicos.
Se ao menos tivesse tido a chance de lhe dizer o que realmente sentia, o que realmente pensava quando a via descer as escadas da mansão com seus vestidos elegantes e os cabelos arrumados em penteados feitos habilmente por suas mãos delicadas. Se ele ao menos tivesse tido a chance de beijar seus lábios uma vez mais, se tivesse tido a chance de tomá-la para si nem que fosse apenas uma vez. Eram tantos arrependimentos, tantas angústias obscurecendo seus pensamentos e coração. Tantas mágoas o amargurando.
“Mr. Chandler,o senhor deveria ir para casa descansar um pouco.” Chamou Sir. Malcolm.
Olhou ao redor e percebeu que só ele, o senhor de cabelos grisalhos a sua frente e o Dr. Frankenstein ainda estavam velando o corpo sem vida de Vanessa. Os três estavam com olheiras terríveis, não dormiam direito há dois dias. Todos culpavam-se pela morte dela de maneiras diferentes, mas com a mesma intensidade. Todos também fariam qualquer coisa para trazê-la de volta.
“Podem ir, eu ainda quero ficar mais um pouco perto dela.” Disse Ethan, se aproximando do caixão e colocando a mão onde deveria estar rosto de sua querida.
Nem Victor, nem Malcolm tentaram argumentar. De todos os três, Ethan era o que mais vinha sofrendo com a perda de Vanessa. Era com ele que ela deveria se encontrar quando aquilo acontecera. Era por causa dele que aquilo havia acontecido.
VICTOR
“And in a cold grave she was slain”
Bateu a porta do quarto com força, sem pensar se iria incomodar algum dos outros inquilinos do estabelecimento. Precisava da morfina, precisava agora. Não podia mais suportar tanta dor. Não física, mas emocional.
Fora burro o suficiente para se deixar envolver, por se permitir afeiçoar a aquelas pessoas. Já estava de luto pela morte de Sembene e agora Vanessa também se fora. Se tivesse recusado fazer aquela maldita pesquisa, se tivesse contido sua curiosidade naquela noite em que eles trouxeram o corpo do vampiro até ele, se continuasse focado em seus experimentos apenas, essa dor que pesava em seu peito poderia ter sido evitada.
Conseguiu chegar aos tropeços até o armário onde guardava a agulha e a droga. Sentou-se na cama, amarrou o cinto no braço e procurou por uma veia sem sucesso. Elas estavam sumindo, era cada vez mais difícil de achá-las, como se seu próprio corpo recusasse o que estava pedindo. Mas ele não podia continuar naquela tormenta, já não aguentava mais. Pensou onde mais poderia espetar a agulha e acabou por escolher entre o dedo anelar e médio.
Deixou o alívio tomar conta de seu corpo lentamente. Deixou-se levar para além daquele quarto sujo e desarrumado para um lugar tranquilo, de pura paz, onde nada e ninguém o conseguia perturbar.
A primeira de muitas lágrimas rolou por seu rosto. Ele sabia que era sua culpa o que havia acontecido a Vanessa. Ethan e Malcolm não faziam ideia que o monstro que a atacou era sua criação. E por mais que quisesse, ele não podia contar. O que Ethan faria se descobrisse que ele havia matado Brona e a transformado em Lily? O que Malcolm pensaria?
Por um momento, desejou que John estivesse aqui. Ele poderia tentar conter Lily, uma vez que ambos eram o mesmo tipo de aberração. O tipo de aberração que Victor tinha criado.
MALCOLM
“The finest flower that ever I saw is withered to a stalk”
Passou a mão pelos cabelos outra vez, frustrado. Colocou mais uma dose de whisky no copo e bebeu num só gole. Irritado, jogou o copo na parede apenas para ouvi-lo se estilhaçar em milhões de pedacinhos. Gritou, deixando toda aquela dor extravasar pelo som. Agora sim, estava sozinho. Todos que amava haviam partido. Não havia mais ninguém com quem realmente se importasse para matar com sua negligência.
Se ele não tivesse sido egoísta em persistir na estúpida ideia de ir para África numa expedição novamente, poderia ter passado a tarde com ela como haviam planejado e ela não teria de ter ido se encontrar com Ethan. Se ele tivesse cumprido com sua palavra, se tivesse se importado mais com Vanessa, ela poderia ainda estar viva.
Subiu e foi até o quarto dela. Estava muito mudado desde que ele fora para África. Ela passou por maus bocados enquanto ele estava fora. Ethan tinha sido enviado de volta a América e ela e Victor sozinhos tiveram que ajudá-lo. Desde então, ela tinha sido mais leve. O quarto estava bem decorado, tinha até flores. Lindas tulipas negras, as mais belas que já havia visto, mesmo que agora estivessem mortas e frias, como Vanessa.
Há menos de dois anos, tivera que puxar o gatilho e matar Mina, pouco depois Gladys tirou a própria vida sob influência de Evelyn, a bruxa que desgraçou sua vida e que viria a ser seu maior arrependimento amoroso, e agora Vanessa fora brutalmente assassinada por algum louco. Tudo por conta de seu descaso para com a família. Se havia um culpado naquilo tudo, era ele.
Abriu o armário, pegou um dos vestidos preferidos dela e o segurou junto ao peito. Era impossível de conter as lágrimas. Sua última filha, a filha que havia amado mais, agora jazia numa cova fria do cemitério.
LILY
“The flower will never return”
Deliciava-se com a comida bem preparada por Dorian e bebericava um pouco do licor que o mesmo a servira. A vida luxuosa na mansão era maravilhosa, tudo aquilo que sempre sonhou. E ter Dorian como seu fiel companheiro era melhor ainda. O moreno não a cobrava tanto quanto Victor e John, que viviam enciumados de tudo e todos. Ele a dava espaço e liberdade para fazer o que queria e quando queria. Era isso o que mais gostava nele.
Na semana anterior, tinham saído para assistir a nova peça que estreava no teatro Grand Guignol e encontraram-se com Vanessa Ives, amiga de Victor, e seu acompanhante. Algo mudou completamente seu humor naquele momento. Era como se já tivesse vivido aquilo, mas de outra maneira, em outra vida. Parecia tudo tão distante, mas de repente, tudo ficou muito claro.
Ethan! Seu Ethan! Oh, seu amado americano! As memórias dos dias a seu lado vieram como tempestade e a encheram de alegria. As manhãs iniciadas com whisky e sexo, as noites maravilhosas e com direitos a sussurros apaixonados. Tudo a arrebatou com um sentimento que até agora, nessa nova vida, ainda não havia sentido.
Procurou nos olhos do loiro algum reconhecimento, algum vestígio do que uma vez tiveram, mas ele só tinha olhos para a morena a seu lado. Os dois emanavam uma alegria distinta, como se os sentimentos de sua própria bolha estivessem vazando e dando um gostinho aos que os observavam.
Olhou para Dorian, buscando algum conforto pela falta de reciprocidade da parte de Ethan, mas ele também parecia enfeitiçado por Vanessa. Um ódio foi crescendo em seu peito, menosprezando todos os sentimentos bons que surgiram minutos atrás. Antes de Vanessa, era a ela que eles desejavam. Se era assim, o problema era a mulher a sua frente. Precisava tirá-la do caminho.
Se passou uma semana até que conseguisse fazer o que queria . O ataque foi rápido. Um girar do pescoço esbelto da morena e a vida deixou seu corpo. Mas mesmo ali caída no chão, morta e com o calor se esvaindo de seu corpo, a mulher ainda superava sua beleza. Ela não podia suportar isso.
Arrastou-a até uma área mais isolada, onde sabia que ninguém viria e a surrou. Socou o rosto bonito e perfeito até os nós de seus próprios dedos sangrarem. Contemplou sua obra-prima. A mulher mais bonita e misteriosa de Londres jazia a seus pés, irreconhecível. Sorriu e a arrastou de volta para o lugar onde mais tarde seria encontrada.
Seu trabalho estava feito. Agora ela poderia ter Ethan e Dorian e quantos mais quisesse. Vanessa nunca mais iria atrapalha-la.
DORIAN
“I only had but one true love”
Deixou Lily adormecida na cama e foi até a sua sala preferida da mansão. Ele poderia adorar o sadismo de Lily, mas a figura no quadro a sua frente com certeza não o fazia. Vez ou outra se perguntava como era ser aquilo que estava na pintura. Como era receber todos os castigos, cicatrizes pelas ações que o outro praticava. Esperou até que todas as feridas se recuperassem, lançou um último olhar de desprezo para o seu próprio retrato e se retirou. Tinha outro lugar para ir.
Pegou um sobretudo, um cachecol, desceu as escadas e ousou aventurar-se na madrugada fria de Londres. Sabia que teria que andar até o cemitério, mas não se importava, afinal, era a sua Vanessa a quem estava indo visitar. A primeira mulher de sua vida eterna que partiu seu coração. A única que conseguiu realmente envolvê-lo e depois deixá-lo devastado por não poder tê-la. Seu primeiro e único amor.
Em sua caminhada, pensou nos momentos que tiveram juntos. Flagrou-se diversas vezes pensando no que poderia ter feito diferente, no que poderia ter feito para que ela estivesse no lugar que Lily estava agora. Frustrou-se em todas as tentativas, pois não conseguia entender. Tinha sido o perfeito cavalheiro, tinha dado-lhe o melhor de si, sem nunca acabar com o mistério que acreditava ser o que a encantava. Mesmo assim, ela pediu para pararem de encontrarem-se.
Chegando ao cemitério, foi ao túmulo que sabia pertencer a ela. Observara o enterro de longe, pois sabia que Lily também o assistia. Também sabia que a culpada pela tragédia era ela, mas não podia se desfazer. Se ele tivesse prestado mais atenção em como Lily ficara transtornada na noite do teatro, talvez, e só talvez, pudesse ter evitado aquilo. Ainda acreditava que aquilo ia além de uma crise de ciúmes. Era uma crise existencial.
Desde que “renascera”, Lily estava acostumada a ser desejada por todos aqueles ao seu redor. Victor Frankenstein e John Clare se certificaram de educá-la e mimá-la assim. Ela não suportara não ser o centro das atenções por mais de cinco minutos. Ela precisaria entender que nem sempre seria assim. Dorian se daria o trabalho de reeduca-la para que nenhuma outra tragédia como aquela acontecesse
Antes de iniciar seu caminho de volta a mansão, deixou uma tulipa, branca como leite, no túmulo. Aquela era sua despedida. Seu adeus a Vanessa Ives.
“Descanse em paz, minha bela amada.”
VANESSA
“When shall we meet again sweetheart?”
Já se passara um ano e ele continuava indo todas as tardes a seu túmulo deixa-lhe flores. Sempre as mesmas tulipas negras, as que ele costumava presenteá-la. Era admirável a dedicação dele a ela, mesmo após todo esse tempo, mas aquilo a machucava e a impedia de ir para onde quer que tivesse de ir. Ela precisava dizer adeus pra ele, mas não sabia como. Já havia tentado praticamente tudo, desde gritar até escrever mensagens na terra. Nada parecia funcionar.
Esperanças já quase não existiam quando ela apareceu. Nunca pensou que viria aquele rosto novamente, mas ainda sim, ali estava Hecate. O cabelo preso, roupas caras e várias joias a adornando. Vanessa se espantou ao vê-la, pensou que ela poderia fazer mal a seu amado que estava distraído.
“Fique tranquila.” A ouviu dizer. Ethan virou-se, já fazendo menção de puxar a arma, mas ao ver que Hecate não se dirigia a ele, hesitou. “Estou aqui para ajudar.”
“Com quem você está falando?” Ethan perguntou confuso.
“Com aquela que você anseia tanto para encontrar novamente. Eu estou aqui para promover esse encontro”. Respondeu calmamente e começou a tirar da bolsa vários itens e organiza-los em cima do túmulo.
Vanessa estava receosa, nunca confiara em Hecate, muito menos Ethan. Porém, maior que o receio era a vontade de ambos de se ver novamente. E se para aquilo acontecer era preciso que acreditassem em Hecate, então o fariam. Esperaram até que ela esvaziasse a bolsa e organizasse todos os itens. Esperaram ela dizer as palavras esquisitas que nem mesmo Vanessa reconheceu. E então algo mudou.
Ele a viu. Ele realmente a viu. Lá estava sua Vanessa.
O primeiro impulso foi o de beijar-lhe, mas Hecate os impediu.
“Ela não pertence mais a esse mundo. Se você a beijar, seu tempo aqui também não será longo.”
“Vanessa… Quem fez isso a você? Diga-me agora e eu irei matar quem quer que seja esse monstro!” A voz dele ecoava mágoa e dor profunda. Era angustiante apenas de escutar.
“Eu não fui capaz de ver quem me fez isso. Mas saiba que eu parti sem dor. O que quer que tenha sido feito a mim, foi depois.” A voz dela trazia um cheiro de terra molhada e parecia vir de debaixo deles. “Liberte-se, Ethan. Isso não foi sua culpa. Nem de Sir Malcolm, ou de Victor. Vocês devem se livrar desse peso no peito.”
“Eu sinto tanto a sua falta...” Ele estava a ponto de chorar. “Quando nos encontraremos novamente, querida?”
“Quando as folhas que caem deste carvalho forem verdes e for primavera outra vez.”
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