Um orbe azul abriu-se rápido como um relâmpago e tão assustado quanto este é assustador, deparando-se com um fino fluxo d’água que escorria de uma torneira metálica entortada, caindo no chão sujo a toa. A esfera negra chamada pela maioria das pessoas de pupila contraiu-se assim que um raio acinzentado que provinha de uma pequena janela chocou-se com tal. Era um raio de um Sol mortificado. Uma estrela morta que ainda brilhava.

Ele levantou-se, sentando-se no já mencionado chão sujo. Olhando a sua volta, percebeu as cicatrizes outrora sanguinolentas que marcavam a pele alva de seus braços. Provavelmente seu abdome estaria no mesmo estado decrépito. Escombros jaziam no piso de cimento, outros pendiam no teto, atarracados a ele por fios de cobre rasgados, eletrizantes.

Destruição e tudo mais.

Um adolescente de catorze anos não pode fazer muita coisa quando seu corpo não passa longe de ser uma ferida aberta cicatrizada, ainda mais estando em uma caixa de pedra com tubulações de aço que agora pendiam do teto precariamente, mas quando se vê que uma porta de aço da grossura de um guarda-roupa a qual é a única saída para a caixa está meio aberta, com sua titânica tranca despedaçada, a coisa muda de figura. Que diabo poderia arrasar aquele tranca como se fosse feita de gelatina? Algo muito, muito grande. E bem potente, provavelmente.

“Meu Deus. Alexis! Onde está Alexis?!”, pensou o adolescente, subitamente desesperado.

Um corpo pequeno e inerte, enfraquecido, havia de ser jogado em um canto da caixa de pedra. Encolhido como um filhote de rato, em posição fetal. Uma posição ridícula, se não fosse a situação. Arrastando-se com um esforço monstruoso, o adolescente levou-se até o pequeno corpo colado a parede. Desejou que o pior não tivesse acontecido, porém, quando o virou de barriga para cima e pôs sua mão nas costelas esqueléticas, sentiu sua respiração fraca e, finalmente, relaxou.

Relaxou. Isso seria até uma grande blasfêmia, levando em consideração a situação em que se encontravam. Uma caixa de pedra com tubulações para a passagem do ar, agora aniquiladas. Uma pequena janela, do tamanho de uma simples caixa de sapatos, quebrada, estraçalhada. A porta colossal de aço puro arrasada, capenga. O adolescente tentou lembrar-se do que acontecera, mas havia apenas a escuridão, levemente quebrada por um tímido filete de luz, irritantemente farfalhante. Então um clarão. Vem depois o barulho e gritos humanos agoniados. Depois o silêncio putrefato, digno de uma tumba faraônica milenar. Junto com a mais pura e genuína escuridão.

Agora isso.

“Alexis”, sussurrou o adolescente, sacudiu o corpo levemente. “Alexis, acorde. Alexis?”

O pequeno corpo remexeu-se um pouco, gemendo, como uma criança mimada que quisesse dormir um pouco mais, mas a mãe não deixa. Ele era uma criança. Tinha apenas onze anos. O maior dali meneou o corpo mais forte, desejando muito acordá-lo. Não sabia por que, mas tinha que sair dali. Os olhos azuis do menor abriram-se num pulo. Idênticos aos de seu irmão. Alexis sentou-se no chão, olhando para os lados, tentando se estabilizar no lugar o qual estava, como todos faziam ao acordarem de manhã. Fitou os olhos de seu irmão mais velho.

“Hans?”, falou Alexis, com uma voz sonolenta. Parecia ter dormido um mês e contando. “O… o que aconteceu? Onde estamos?”

O mais velho abraçou seu irmão. Não queria responder isso porque nem ele fazia ideia. Olhou de esgueira para os braços desprotegidos dele. Feridas compridas e vermelhas estendiam-se desde o cotovelo até a base do pulso. Graças a Deus, já coaguladas. Não haveria modo de cicatrizá-las se o tal não houvesse acontecido. Graças a Deus. Assim como em si mesmo, Hans não tinha dúvidas de que o abdome de seu irmão caçula estaria do mesmo estado deplorável.

“Levante-se”, disse Hans, fazendo o cujo dito por si. “Vamos sair daqui.”

Alexis fez menção de obedecer a seu irmão. Porém, quando tentara fazê-lo, voltou ao chão, suas pernas tremendo de dor. O menor gritou, porém, Hans tapou-lhe a boca. Duvidava de que alguém ouviria aquilo, mas precaver nunca era demais. Nunca era demais. Nunca seria demais. E ele haveria de aprender isso mais cedo ou mais tarde.

Fitando os olhos lacrimejados de Alexis, Hans ergueu-o com os dois braços. Não pensou que doeria tanto, carregar Alexis sempre fora fácil. Ah, ainda bem. Disso ele se lembrava. Ao menos disso. Apesar da dor excruciante, Hans jogou os cabelos negros longos que cobriam-lhe a face para sua nuca, com apenas um movimento, sem usar as mãos. Era um talento que poucos tinham o dom de fazer com perfeição. O cabelo ia e não voltava mais.

O mais novo agarrou-se ao pescoço de seu irmão com os dois braços, ainda que fosse um esforço inútil, sentia-se mais seguro. Seguro para o que havia lá fora. Fora da caixa de pedra. No mundo exterior. Um Sol acinzentado não podia ser boa coisa. Hans respirou fundo, tentando recuperar o oxigênio queimado nesse esforço tão débil. Nesse débil esforço. Tão debilmente esforçado. Tão esforçadamente débil. Tanto faz. Tudo quer dizer a mesma coisa e é isso que importa.

“Feche os olhos”, disse Hans, com uma voz firme, porém calma.

Não queria que seu irmão menor visse o que estaria depois da pesada porta de aço. Na verdade, nem ele mesmo sabia o que se encontraria por lá. Mas tinha um forte pressentimento de que boa coisa não seria. Só não sabia o quanto estava certo.

Hans deu um passo em direção ao portal e pareceu que havia pisado em uma faca que lhe atravessara todo o corpo. Outro passo. E outro. E mais outro. Deu uma última olhadela para trás. Certificou-se de que Alexis estava com os olhos bem fechados. Seu rosto estava afundado em sua camisa, temeroso.

“Não tenha medo”, disse Hans, tranquilizando-o. “Apenas… deixe os olhos bem fechados. Não os abra. Nunca.”

Hans suspirou mais uma vez e seguiu em frente, saindo da caixa de pedra pela porta de aço que a lacrava como um dragão em sua toca. Na sala, um dos fios de cobre rasgados soltou um pequeno filete de eletricidade, o qual entrou em contato com a água e fez um pequeno curto-circuito, quase inaudível e certamente inofensivo. O filete d’água ainda vazando da torneira metálica ficou por lá.

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