I was the shadow of the waxwing slain by the false azure in the windowpane;I was the smudge of ashen fluff—and I Lived on, flew on, in the reflected sky.

— Vladimir Nabokov (Fogo Pálido)


Era o dia mais perfeito da vida de Dipper Pines. O dia do seu casamento com o amor da sua vida: Stanford.

Ele nunca achou que esse dia chegaria, mas ali estava ele, diante do espelho de corpo inteiro do quarto no sótão, admirando-se no reflexo enquanto ajeitava a gravata borboleta do smoking pela centésima vez. Ele não sabia se o problema estava no tecido amarrotado ou na outra borboleta – aquela no estômago, que o fazia ver problemas onde não tinha.

O dia era o mais perfeito da sua vida, nada deveria estragá-lo. Já tinha feito a barba pela manhã, mas tinha passado a navalha novamente há alguns minutos. Mesmo com seus 26 anos, os hormônios ainda pareciam púberes.

Pelas frestas do telhado, fluía o burburinho de festa: risadas, gritinhos de surpresa, tilintar de taças de champanhe, Aretha Franklin sussurrando a letra de You Are All I Need To Get By numa caixa de som. Toda a família estava reunida.

Não havia o que temer, tudo estava perfeito, mas, ainda assim, havia aquele nervosismo, como se tivesse algo de errado, algo prestes a acontecer… Por que ele estava tão nervoso assim? Estava tudo bem, tudo perfeito.

Alguém bateu na porta. Ou melhor, no batente, já que ela estava aberta. Dipper se virou, esperando encontrar a sua madrinha, que iria acompanhá-lo até o altar. — Você acha que atei a gravata direito? Preciso da sua opinião sincera sobre o meu cabelo, não acha que…

Engoliu as palavras.

Não era a madrinha que o esperava.

Era o noivo.

Stanford estava de braços cruzados, apoiado com o corpo na quina da porta, um sorriso bobo no rosto.

— Eu não me preocuparia com isso. Você está perfeito.

Dipper sentiu um arrepio irresistível no estômago. Teve a sensação de estar num sonho. Ford caminhou para dentro do aposento, as bochechas coradas, a pele do rosto também lisa, o cabelo grisalho cortado e domado por gel.

— Quando te pedi em casamento tínhamos acabado de acordar, o seu cabelo parecia um ninho de guacho e você ainda estava com bafinho matinal. — Ford ajustou a gravata borboleta e deslizou as mãos pelos ombreiras aveludadas do garoto. — Acredite, não há nada que possa me fazer fugir daquele altar.

Pines não conseguiu evitar soltar um risinho aliviado. Subitamente se lembrou do porquê estava ali, casando justamente com aquele homem. O amor incondicional. Mesmo com a diferença de idade. Mesmo com os possíveis julgamentos e suas idas e vindas como casal, haviam permanecido – uma rocha submersa que, mesmo sob a correnteza, não se move.

Finais felizes eram reais. Que bom que tudo deu certo.

Não conseguiu responder nada de imediato. Permitiu que os dedos de Stanford descessem pelo seu braço até se entrelaçarem com os da sua mão. A outra palma dele se aninhou na nuca de Dipper. Os olhares se fundindo, ímãs que se atraíam.

— Tem coragem de subir aqui. Mabel vai te matar. Sabe que ela acredita naquela tradição de que os noivos não devem se ver.

Ford fez um muxoxo. — E desde quando somos um casal tradicional, Dip? — Finalmente quebrou o contato visual, o olhar pousando na boca de Pines. Ford lambeu os próprios lábios. — Beijar antes dos votos também não pode, né?

— É. Não pode… — murmurou Dipper, sentindo as pernas fraquejarem. Suas pálpebras já se fechando aos pouquinhos, ansiando.

— Ah, que pena. Quando é errado é tão mais gostoso… — Curvou-se e depositou um selinho no outro. O interior de Dipper amoleceu.

— Dá azar, dizem — sussurrou ele, ainda de olhos fechados, saboreando o champanhe transferido dos lábios de Stanford.

— Ah, é? — Ford passou a mão para as costas de Mason. — Nossa, que azar! — Beijou-o de novo, a língua atravessando de leve os lábios, ameaçando mais profundidade. Separou-se de novo e, com uma risada sardônica, disse: — Nossa, como sou azarado.

Dipper sorriu mesmo em meio ao beijo. Stanford insistiu com mais fôlego, uma mordiscada no lábio inferior ao final do beijo atiçando maior atrevimento. — Que azar o meu! — continuou, descendo para o queixo, sua mão pressionando o cônjuge para mais perto. O aroma da colônia de baunilha de Ford deixava Dipper inebriado, derretendo-se de prazer, quando a boca do mais velho foi parar no seu pescoço.

Aquilo era mesmo perfeito. E nada no mundo poderia estragar aquel…


DIPPER!!!


O grito estourou dentro do seu crânio. Dipper se afastou do noivo, com a cabeça latejando. O que havia sido aquilo?! Alguém havia gritado pelo seu nome? Lá fora? Havia sido tão alto… Era alguém testando o microfone? Isso explicaria o eco e o zunido dentro das suas orelhas, talvez microfonia.

— O que foi isso?! — Dipper grunhiu, segurando na moldura do espelho para não se curvar à súbita dor nas têmporas. Sua marca de nascença na testa formigava.

— Ei. O que foi? Está tudo bem?! — Ford o segurou pelo braço.

— S-Sim… — O desconforto havia passado tão rápido quanto havia chegado. — O que foi isso?

Ford franziu as sobrancelhas. — Isso o quê?

— Nossa, como assim “o quê”? — Deu um riso sem graça. — Essa pessoa berrando meu nome no alto-falante lá fora. Aliás, quem foi? Não consegui identificar a voz.

Ford manteve a expressão confusa, que agora começava a se contaminar com preocupação. Então, de repente, algo dentro dele mudou, como o girar de uma chave. Em Dipper também. Do que ele estava falando? Não houve grito nenhum.

— Não teve nada — disse Ford, sorridente.

— Não teve nada, mesmo — assentiu Dipper, sentindo-se maravilhoso. Aquele era o seu dia perfeito. Nada iria estragá-lo.

Os dois estavam prontos para continuar de onde pararam quando alguém pigarreou do outro lado do aposento. Os dois saltaram de susto, sendo pegos no flagra por Pacífica, parada na soleira, com um vestido de gala roxo, o cabelo num coque elegante e as mãos na cintura.

— Bonito, hein?

— Estamos adiantados, apenas — justificou Ford, mantendo o sarcasmo mesmo com um sorriso tímido. — Não gostamos de atraso.

Dipper secou a boca com as costas da mão e passou a mão sobre o cabelo por precaução. Seu rosto queimava e ele teve que se segurar para não rir.

— Ah, é? Não parece. Porque o senhor — apontou para Ford — já era para estar lá embaixo com o seu padrinho há dez minutos!

— Viu? — Dipper cutucou o noivo. — Já tá dando tudo errado!

— Ai, que horror! — dramatizou Stanford, dando um selinho veloz no garoto antes de voar para fora do sótão. — Te amo! — vibrou ele, de longe, os degraus de madeira da escadaria já rangendo sob seu peso.

— Também te amo! — gritou de volta.

Assim que ficaram sozinhos no quarto, a máscara de seriedade de Pacífica caiu. Seus braços relaxaram aos lados do corpo e ela admirou Dipper com um rubor nas bochechas.

— Vocês dois estão lindos.

— E você, maravilhosa! — Dipper se aproximou. Os dois se abraçaram. — A madrinha mais linda da cerimônia.

— Até porque sou a única — ela riu, com o queixo apoiado no ombro do amigo.

— Obrigado por aceitar o convite.

— Tá brincando? Como se eu já não me sentisse parte o suficiente dessa família… — Ela levantou a mão para mostrar a aliança dourada no anelar. — Primeiro, cunhada; agora, madrinha. Obrigada eu.

— Estamos mesmo muito atrasados?

— Nada. — Torceu o nariz e virou-se para o exterior do quarto. — Mas eu precisava que vocês se apressassem, já está quase na hora.Vamos? Vou te deixar no lugar certo.

Pacífica conduziu Dipper através da Cabana. Todas as cortinas estavam abertas, o laranja do verão enchendo a cozinha. Arranjos de tecido branco haviam sido pendurados nas janelas. Todo o espaço tinha o cheiro terroso e levemente químico de espuma floral, onde os arranjos de copo-de-leite estavam fincados sobre as mesas de refeição.

A madrinha o conduziu até a porta dos fundos. Antes de girar a maçaneta, deu um beijo na bochecha do noivo e disse: — Vou encontrar com Mabel. Seus pais já estão aqui, sua mãe vai receber um toque no celular quando for a hora de vocês entrarem. Mas acho que não será necessário, dá pra ouvir a cerimônia daqui.

— Okay. Obrigado por tudo, Pacífica.

Abraçaram-se de novo.

— Fica tranquilo. Está tudo sob controle. Você merece isso, Mason. Não se esqueça disso — cochichou no ouvido dele.

Separou o elo entre eles e alisou a aliança de casamento no dedo dela. — Nós merecemos.

— Claro. — Pacífica acariciou o ombro dele e saiu na direção oposta, a da porta da frente, direto para a festa.

Dipper suspirou e saiu no quintal dos fundos, vazio a não ser pelos seus genitores. Seu pai segurava uma taça de champanhe; a mãe, um buquê de margaridas.

— Aí está ele! — disse ela, empolgada, escaneando-o com o olhar de cima a baixo. — O noivo mais lindo da família!

Aretha Franklin parou de cantar e, como numa deixa dramática, iniciou-se uma nova canção assim que Dipper desceu os degraus para o pátio: Lolita Ya Ya, a música tema do filme de Stanley Kubrick de 1962.

O pai puxou o filho para um abraço de urso forte e brusco, como os pais geralmente fazem, dando tapinhas nas costas que por pouco não seriam considerados agressivos. — Casei meus dois filhos. Que realização!

— Aqui, meu querido. Eu mesma colhi — disse a mãe, passando o ramalhete de margaridas silvestres para as mãos do filho. — Elas ainda me lembram você.

— Você nunca vai esquecer daquela dança e daquela fantasia, né? — reclamou, mas com camaradagem, cumprimentando a mamãe com um beijinho.

Dipper admirou as flores, repousadas entre o seu braço dobrado, e teve uma estranha sensação no estômago. Nervosismo? Confusão? Lágrimas queimaram atrás dos seus olhos, emoção crua.

— Estranho… sempre achei que vocês nunca apoiaram Ford e a mim. Estou muito feliz de vocês estarem aqui e tão envolvidos em tudo.

O pai afagou a mão nas costas do garoto enquanto a mãe avançou para secar a lágrima do olho dele antes que ela escorresse e estragasse a base e o pó.

— Oohh, meu bem… — disse ela, baixinho. — Por que você achou uma coisa dessas?

— Bem, porque… porque… — Lá estava, o redemoinho no estômago e nos pensamentos. — Por quê?

Os pais se entreolharam e trocaram risinhos incrédulos.

A música foi cortada pela metade. Houve microfonia vindo do outro lado da casa. A cerimônia havia iniciado. Mabel pediu silêncio nos alto-falantes, todos os convidados já deviam estar sentados. Dipper teve um frio na barriga quando ouviu a próxima canção – era a música que Ford havia escolhido para subir até o altar com seu padrinho. Bye Bye Blackbird, de Gene Austin. Os violinos tristes riscavam o ar com as letras:


Blackbird, blackbird, cantando blues o dia inteiro

Bem do lado de fora da minha porta

Blackbird, blackbird, por que você fica aí dizendo

Que não há sol à vista?

Durante todo o inverno você ficou por perto

Agora começo a me sentir com saudade de casa

Blackbird, blackbird, tenho que seguir meu caminho

Pra onde há sol de sobra


Ele e seus pais aprumaram os corpos e se aproximaram de fininho, mas ainda mantendo distância. Espiavam a ala entre os bancos por meio do reflexo distorcido de uma janela da cabana. Stanford caminhava até o altar amparado pelo seu melhor amigo, Fiddleford McGucket.


Vou juntar todas as minhas mágoas e tristezas

Lá vou eu, cantando baixinho

Tchau, tchau, blackbird

Onde alguém me espera

Doce como açúcar — e ela também é

Tchau, tchau, blackbird


Antecipação mastigava as entranhas de Dipper. Era isso – o dia mais significativo da sua vida. Em dois minutos, seria a vez dele estar ali. Não conseguiu evitar as próximas lágrimas de cair. Droga, por que o noivo teve que escolher uma canção de entrada tão miserável?


Ninguém aqui consegue me amar e me entender

Ah, quanta história triste todos me contam

Arrume minha cama e acenda a luz

Vou chegar tarde esta noite

Blackbird, tchau, tchau



Dipper parou de olhar para a cerimônia. Precisava se distrair, senão ficaria em frangalhos. Encarou o telhado da cabana, procurando se distrair com o cata-vento que girava lá em ci…

“Onde está o cata-vento?”

— Querido? Tudo certo? — A mãe segurou sua cintura.

— Não tinha um cata-vento naquela parte do telhado? — Apontou. — E… quando foi que Stanley tirou a placa?

— Cata-vento? — A mãe enrugou a testa.

— Placa?

— Sim, quando… — “Quando o quê?” — Tinha um nome. Chamava…?


DIPPER, VOLTE!!!


Seu corpo ficou gelado. Tontura novamente. Uma dor se alastrou pelo seu sistema, como se tomasse um choque. O buquê foi ao chão assim que ele levou as mãos até as têmporas.

Ali estava. De novo.

Não era dos alto-falantes…

A voz estava dentro da sua cabeça.

— Mason?! — Os pais acudiram em uníssono. A mãe fechou os braços na cintura, o pai o sustentou pelos ombros.

— Que houve? — A mãe recolhia o ramalhete.

— Aguenta coração. — O pai folgou a gola do filho e começou a abaná-lo com a mão.

— Não é só emoção, vocês… vocês também escutaram isso?

— Isso o quê? — Ela voltou com as margaridas para o colo dele e ajeitou o paletó do smoking.

— Essa voz, me gritando, eu… Eu acho que sei quem é. É familiar. A voz de um garoto…

De repente, a copa dos pinheiros atrás deles farfalhou. De dentro da mata, uma ave deu um rasante em direção à cabana, cortando o ar acima dele. O pássaro se chocou contra a vidraça e caiu duro e sem vida no gramado, tirando sua atenção com um sobressalto. Dipper ficou paralisado, um grito ainda entalado na garganta enquanto assistia a penugem marrom ainda pairar pelo ar.

— Que foi isso?! — exclamou a mãe, com a mão cobrindo o peito.

— Foi um waxwing — respondeu uma voz masculina e sólida por detrás deles. Dipper se virou junto com sua família. Havia um homem alto, maduro, mas de idade imprecisa, careca, parado a poucos metros deles. “Quem…?” — Provavelmente confundiu o azul refletido com o céu verdadeiro e morreu iludido. — Sorriu, educadamente.

— Tio Frank! — jubilaram os pais ao mesmo tempo, sorrindo de orelha à orelha. — Você veio!

— Tio Frank? — perguntou Dipper. Não em surpresa, mas em confusão.

— Sim, seu tio Frank. — O homem perfurou seu espírito com o olhar assim que o encarou.

Ah. Sim, claro. Tio Frank. Como Dipper poderia ter se esquecido? Todos conhecem o tio Frank. Todos amam o tio Frank. Tio Frank faz parte da família. Tio Frank sempre fez parte da família.

Dipper sorriu. — Que bom que veio.

Bye, bye, Blackbird terminou e os convidados aplaudiram a entrada. Em seguida, começou a música escolhida por Dipper: Hey Good Lookin, de Blonde Tongues.

— Parece que é sua vez. — Tio Frank estendeu o braço para o garoto, convidando-o para a ala.

— Achei que meus pais ou Pacífica me levariam. — Mesmo confuso, Dipper entrelaçou o braço com o dele.

— Claro que não, estou aqui para te ajudar, Dipper. Sempre estive aqui para te ajudar. Para fazer seu dia perfeito. Como está se sentindo?

Era como se Dipper não tivesse tido nenhuma tontura há poucos segundos.

— Bem melhor. — Sorriu. Os dois caminhavam na direção da cerimônia.

— Que ótimo! — Tio Frank fez um carinho na mão dele. — Continue assim. Hoje é o seu dia, lembre-se disso. Deve continuar sendo perfeito.

— Tem razão, tio Frank.

Assim que dobraram a esquina da casa, Dipper perdeu o ritmo da respiração. Era a primeira vez vendo a festa montada pessoalmente. Uma coisa era vê-la em maquetes e croquis de arquitetura. Outra coisa era estar ali, tátil, presente.

Um suntuoso tapete branco se estendia, dividindo as cadeiras dos convidados em duas secções. Margaridas eram o tema. Elas estavam por toda a parte, em vasos longos fincados em linha reta pelo gramado, entrelaçadas nas grinaldas das mulheres, nas guirlandas ao redor da porta da frente, nas treliças brancas de jardinagem que compunham o altar ao final da ala.

Mabel era quem conduzia o rito – estava de pé no centro do altar, vestida de lantejoulas pérola que cintilavam quando o tecido tremulava sob o sol poente. Ela abriu um sorriso assim que o viu chegando. A trilha se encerrava à medida que chegavam mais perto…

Se eu fosse perfeito, mudaria o mundo e o faria servir para nós

Nos afogaríamos em banhos de pérola

Todas as canetas escreveriam palavras belas

Ao toque mais suave, nossa dor sumiria

Só diga pra mim que lá a gente moraria

Dipper sentia o sangue pulsar atrás das suas orelhas, mas não estava nervoso, tudo contribuía para sua calmaria: o cheiro de terra molhada, de grama recém-cortada, de seiva de pinheiro, e, claro, Stanford, ao lado da irmã de Dipper, com o rosto corado, os olhos marejados. Absorvia cada detalhe, como se tirasse uma fotografia mental. Nem notou o caminho que fez, nem notou quando Frank deixou o seu braço e foi se unir com Fiddleford e Pacífica ao lado do altar. Quando deu por si, já estava em cima do pequeno palanque, de frente para o noivo, com a irmã voltando ao microfone:

— Boa tarde novamente. Os noivos parecem incapazes de comentar algo, então vou fazer esse sacrifício. — Algumas risadinhas da plateia. — Sei o que todos pensaram. Eu mesma pensei. Vamos falar do elefante na sala: quando Dipper me apresentou o Ford a primeira coisa que eu pensei foi “O que um homem de 60 anos está fazendo com o meu gêmeo de 20 e poucos?!”.

Todos os convidados riram, bem humorados.

— Mas, depois, com o tempo, eu fui enxergando nele o que Dipper enxergou. O companheirismo, a escuta, o respeito, a nerdice, claro, cada assunto que nunca consegui acompanhar! — Mais risos. — Tenho a impressão de que nem todo mundo entendia os dois, que nenhum deles se encaixava num molde perfeito que o mundo criou, e tudo bem… porque os dois se entendem, os dois se encaixam. E, sinceramente, às vezes isso é tudo que nós precisamos na vida.

Dipper voltou a encará-la. Mabel o olhava com uma ternura que ele nunca havia sentido antes. O sentimento se espalhava por dentro do seu corpo, quentinho, como tomar uma bebida quente, num dia frio, mas aconchegante.

— Estou muito feliz por vocês, Dipper. Mais feliz ainda de ser a pessoa a oficializar. Obrigada.

Alguns falaram “owwn”, outros aplaudiram.

— Então, sem mais delongas, vamos aos votos. — Ela cruzou os dedos diante do próprio corpo. Seu olhar ia do irmão ao noivo, sem saber onde aterrizar. — Quem quer começar?

“Eu escrevi votos?” Dipper se perguntou em silêncio, confuso de novo.

— Está no bolso do paletó — respondeu Frank, prestativo, a poucos metros de distância.

— Ah, obrigado. — Dipper tateou a roupa até encontrar um volume na seda, no bolso interno. Retirou dali um papel de pauta dobrado.

Abrindo os votos, ele iniciou:

— Stanford… — Limpou a garganta, enquanto seus olhos acompanhavam as letras cursivas. Quando ele havia escrito aquilo mesmo? — Quando eu penso na gente, eu vejo duas peças raras, mas perfeitamente compatíveis. Tudo entre nós sempre se alinhou com tanta harmonia.


VOLTE PARA MIM!!!, dessa vez, por mais que tivesse uma urgência na voz, o chamado agiu suave nos seus neurônios. Não houve dor, apenas uma vibração, um arrepio.


Ignorou e continuou a leitura. — Gosto de pensar que nunca fomos como os outros casais… e que é justamente por isso que funcionamos tão bem. É como se estivéssemos imunes às imperfeições comuns, às discussões… Sempre soubemos manter o equilíbrio, mesmo quando o mundo tentava nos testar.


Eu entendo, Dipper. Eu imagino como deva ser se refugiar num mundo perfeito quando se tem a vida que você tem…


Dipper travou. Aquela voz… aos poucos ele via um nome atrelado a ela. Cabelos loiros… íris púrpuras…

Tio Frank pigarreou. Dipper endireitou a postura, desperto. Ford o olhava, suavemente preocupado e curioso. — P-Perdão. — Limpou a garganta e prosseguiu: — Desde o início, tudo se encaixou com uma precisão… quase impossível. E ainda assim, aqui estamos. Ao seu lado, aprendi que cada dia pode ser exatamente como o dia anterior – tão certo, tão previsível, tão perfeito – e que isso não é tédio, é segurança. Nós sempre soubemos o que dizer, quando dizer, como dizer. E isso… isso é raro. Ou talvez seja apenas nosso. Gosto de pensar que somos imunes aos erros que os outros cometem. Nunca tropeçamos, nunca esquecemos.

Respirou fundo, preparando-se para aquilo.

— Estou pronto para que continue assim pelo restante dos meus dias na Terra. Que essa felicidade se repita dia após dia, de novo e de novo, que seja eterna e perfeita. É como se algo, maior que nós dois, tivesse escrito essa história antes mesmo de nos conhecermos. Hoje, diante de todos, eu prometo seguir cada linha dessa história. Até o último ponto.

“Até o fim do mundo”, a voz interna, não aquela segunda voz. Era o pensamento de Dipper, mas, ao mesmo tempo, não parecia dele, mesmo sendo. Por que pensou naquilo agora? Era uma versão antiga do voto? Talvez ele devesse ter terminado o texto de uma forma diferent… Por que estava pensando naquilo?


VOCÊ PRECISA SEGUIR O FIO!


“Fio?!” A marca de nascença voltou a arder. “Eu o conheço. Eu conheço esse garoto!”

Os convidados terminaram de aplaudir, enquanto Ford começava.

— Dipper… Desde o dia em que te encontrei, soube que nada precisaria mudar. E desde então, nada mudou – a não ser para ficar ainda mais certo.

Aquela sensação dentro de Dipper parecia uma agulha de uma bússola, o magnetismo repuxando seu olhar para o meio da floresta, para aquela relva acima do ombro de Stanford… “Vem de lá… a voz…”

— Você é a ordem no meu caos, e o caos que nunca se manifesta. Com você, não existe imprevisto. Só existe o que já sabemos que virá – e isso, para mim, é amor.

Dipper sentia a vibração no ar, em ondas quase táteis, como batidas graves provenientes de uma caixa de som em volume alto. Invisível, mas presente. Semicerrou os olhos… não, não era invisível… havia algo… algo conectando ele, passando por Ford, e estendendo-se para o meio do bosque. Uma linha… o fio. Azulado, tremeluzente, bruxuleante em neon. Por algum motivo, só ele podia notá-lo.


LEMBRE-SE. VOLTE PARA MIM.


Ele conhecia aquele garoto porque ele era parte dele, parte de Stanford.

Charlie.

— O mundo lá fora é frágil, instável, mas o nosso não. Aqui nunca foi. Aqui nunca será. Aqui é… perfeito. E hoje, prometo manter tudo igual. Igual ao que foi ontem. Igual ao que será amanhã. Igual ao que sempre foi, desde… — Pausa. Ford também parecia confuso, o olhar se perdendo no papel. “Desde…?” Dipper suprimiu o espanto. Havia escutado os pensamentos do tio-av… Tio-avô?! — Desde quando nos encontramos. O nosso permanece igual, sempre igual, sempre perfeito. E é assim que deve ser. Às vezes penso que talvez não tenhamos criado isso sozinhos… que alguém, em algum lugar, nos tenha unido para que fôssemos exatamente assim, do jeito certo. Hoje, prometo não mudar nada. Porque nada precisa mudar. Diante de todos, prometo manter essa perfeição intacta, como sempre fizemos – porque é assim que nossa história deve ser.

Os aplausos tinham sumido. O discurso da sua gêmea também. Teve a mesma sensação de queda que se tem ao descer repentinamente num elevador. Dipper sentiu-se fora do corpo, pois, num piscar de olhos, não estava mais ali. Estava nas colinas ensolaradas, com Ford, aos seus catorze anos. Estava na frieza do sótão da Cabana do Mistério. Estava nos beijos calorosos de Bill Cipher, no cobertor aconchegante da infância que dividiram. Estava na briga que teve com Ford, na linha temporal anterior. No corpo dele ensanguentado sobre o gramado de margaridas. Em Piedmont, numa segunda vida, nas dúvidas que tinha dela, do relacionamento com Wirt, nas lágrimas, nas dores que ele tanto tentou fugir… Estava no Mindscape, treinando com Thomas Lucitor. No exílio, resgatando Charlie, em frangalhos. No deserto, seguindo as coordenadas que Pacífica tinha conseguido pelo satélite de Ford e os mapas da Guarda de Time Baby… eles tinham saído numa missão… uma missão para resgatar Ford e Mabel da bolha em que o Governador havia os aprisionado em Nightmare Realm.

Lembrava-se de tudo.

Tudo que era terrivelmente real.

Lembrava-se de terem encontrado a localização de Reino do Pesadelo, escondida numa parte do deserto do Mindscape, numa miragem de pedra, que servia de disfarce. Lembrava-se de ter atravessado a pedra e entrado na bolha. Primeiro, sozinho. O plano era pegar os dois e voltar, no entanto… quando entrou naquele lugar… era tudo tão bom, tão lindo, tão confortável, tão perfeito, que… a bolha de Ford também acabou virando a sua bolha. De repente, não era mais Ford revivendo o verão que passara com o Dipper pré-adolescente em Gravity Falls… de repente, a ilusão se transformara numa coisa nova, num sonho agradável para os dois… a vida que ambos queriam ter tido… que eles nunca poderiam ter fora dali.

De repente, ele queria ficar.

Queria morrer ali.

Para sempre.

Pacífica entrou em seguida. Provavelmente quando percebeu que Dipper estava demorando demais para voltar. E, coitada, também acabou sendo seduzida. Ela e Mabel se casaram. Ela e Mabel eram felizes aqui. Ela não tinha que se preocupar com os pais ou sua imagem, elas não tinham que se preocupar com nada.

Agora, só devia ter sobrado Bauer e Bill do lado de fora.

Bill provavelmente percebeu que, se entrasse, também seria contaminado pela arapuca de Baby. Aquele chamado, aquela voz desesperada, talvez fosse a sua única forma de ajudá-los, de despertá-los sem também cair na ratoeira.

— Você, Mason Pines — a voz da irmã gêmea o afixou de volta no presente —, aceita Stanford como seu legítimo esposo?

Dipper encarou o noivo. Ele estava preso. Todos estavam. Pacífica. Mabel. Ford.

E ele…

Ele queria tanto dizer “sim”.

Mas esse mundo era um túmulo florido.

Um veneno com gosto de tutti frutti.

O fio tremeluzente voltou a brilhar, atravessando o peito de Stanford, indo em direção à floresta. A marca de nascença em sua testa latejou uma última vez. Doeu. Queimou. Como se dissesse:


Você ainda pode escolher.


Mabel aguardava a resposta, sorrindo, confiante, reluzente como um anjo de vidro. Ford segurava sua mão com a ternura de quem vive um milagre.

Mas algo no olhar de Stanford vacilou.

Por um instante, só um – ele também lembrou.

Ou talvez sentiu Dipper lembrando.

Ou talvez foi a dor de Dipper que atravessou para ele, pela conexão que dividiam.

Mas estava lá. Nos olhos.

Medo.

Então Dipper falou. Sua voz não saiu como esperado. Não saiu firme. Nem feliz.

Mas saiu viva.

— Não.

Os convidados arquejaram, entreolhando-se. Mabel franziu as sobrancelhas. Um riso nervoso escapou da sua boca. Ford soltou a mão dele.

Tio Frank cruzou os braços e deu um passo à frente.

— Dipper… Você está cansado. Nervoso. Quer fazer uma pausa?

Mas Dipper já estava recuando. O papel dos votos escorregou de seus dedos, levado pelo vento. As margaridas pareciam olhar para ele agora. Esperando. Observando. Como olhos.

— Nós não somos perfeitos, Stanford. Nunca fomos — disse, quase para si. — E nós nunca iremos ser.

— Dipper — Mabel tentou, mas ele balançou a cabeça.

— Eu não… — Ford vasculhou os próprios pés com o olhar, como se procurasse por algo que tivesse caído.

— Você está percebendo também, não está? — disse Dipper, solene, desapontado. — O que eu sou seu? — Apontou para o público. — Cadê a sua família, Stanford? Quem é a sua mãe? Qual o seu sobrenome?

Silêncio de morte.

— Ok. Vamos tirar uma pausa, pessoal — anunciou tio Frank, mas não com compaixão. Com autoridade.

— Não — disse Dipper, firme. — Chega disso. Nada disso é real.

Frank parou próximo ao trio e deu um suspiro pesado. Seus ombros caíram, derrotados.

— É claro que não é real — disse ele, frio. — Em qual mundo uma família apoiaria um relacionamento tão nojento e deturpado quanto o de vocês?

Dipper teve um frio na boca do estômago. O buquê caiu do seus braços e, antes de tocar o chão, desintegrou-se no ar, como se nunca tivesse existido.

— Time Baby… — realizou Ford, encarando “Frank”, boquiaberto. Ele também estava entendendo tudo.

— Vocês querem ver como seria se fosse real? — sugeriu Time Baby, naquela fantasia de homem. Ele esticou a mão no ar e estalou os dedos.

Um grito contido de espanto trouxe a atenção dos noivos para Mabel. Ela tinha as mãos sobre a boca, subitamente consciente do que acontecia. Seus dedos tremiam e os olhos se enchiam de lágrimas.

Dipper sentiu um nó se fechar nas entranhas. “Não…”

— Seu pervertido — uma voz rouca e trêmula rasgou a calmaria do casamento. Dipper e Ford giraram suas cabeças para o outro extremo do palco. De trás de Time Baby, como num passe de mágica, saiu Stanley, de terno, com os punhos contraídos, o rosto tão vermelho que ficava roxo. — Como você pôde? Ele era uma criança!

Dipper se desequilibrou com um puxão no pulso. Sua mãe estava com os dedos espremidos ao redor do seu braço, arrastando-o para longe do altar com os olhos esbugalhados. — Chega, vamos embora!

— D-Dip…! — gemeu Ford, desorientado, esticando a mão para ele.

— Não encosta nele, seu cachorro nojento! — a mãe rugiu, gotículas de saliva atingindo o rosto de Ford.

— Não. Ford é quem eu quero — rebateu. — Eu o escolhi.

— O quê?! — O pai entrou na equação, ao lado de Stan. — O que vocês são? Cachorros?!

Dipper sentiu um buraco cavar fundo em seu peito. O corpo inteiro se arrepiava. De repente, ele foi lançado de volta no jardim de infância. Era apenas um garoto, sendo intimidado pelos colegas de classe por ser esquisito. Mas aquilo era ainda pior. Vinha da boca de quem devia amá-lo incondicionalmente.

— Eu amo ele. E-eu sei que é problemático, mas… — gaguejou Ford, recucando enquanto os homens se aproximavam cada vez mais.

— Mas?! — Mabel estourou. — Mas você decidiu insistir nisso mesmo assim!

Ford abriu a boca para contra argumentar, mas ela não pôde ficar muito tempo aberta. Foi atingida por um soco inglês ao redor dos dedos de Stanley. Sangue espirrou na lona branca do altar. Dipper saltou de susto no seu lugar. O pai chutou as pernas de Ford, que foi ao chão.

— Não! — Mason berrou, a voz saindo esganiçada. Sua mãe e Pacífica o seguraram. — Isso não, por favor. Eu o quero, mesmo com isso sendo errado!

— Você não pode ser normal. — Mabel sacudia a cabeça, incrédula. — Você não é normal mesmo. São dois doentes! — Sua voz arranhava o espírito de Dipper, um pouco mais de acidez e corroeria sua carne.

Ford grunhia e fechava o corpo dentro de si, tentando-se de proteger dos socos e chutes.

— Parem! — Tudo que ele trabalhara tão duro para evitar que acontecesse. Todos os segredos. Todas as mentiras. A viagem no tempo. Nada aquilo importava agora, estava se desenrolando diante dele. Matariam Ford. Ele nunca seria visto como normal, apenas como um monstros; e Dipper, a vítima sequelada. Era o fim. Tudo que ele mais temia era real.

— Assuma, Dipper — a voz de Time Baby retumbou dentro da sua cabeça, mesmo com ele usando os lábios para proferir —, é isso que te aguarda lá fora. — Aos poucos, ele caminhou até ficar frente a frente com o garoto. Seus olhos esverdeados faiscavam na mesma intensidade da sua marca de ampulheta na testa. — Aqui é o único lugar em que essa situação não aconteceria. Você e Ford podem ser felizes aqui. Um felizes para sempre é possível. Você só precisa parar de lutar e aceitar. Eu posso fazer as coisas voltarem ao normal e vocês se esquecerem dessa confusão. Só diga sim.

O verde da ampulheta de Baby começava a agir nele. Dipper sabia que sua Ursa Maior reluzia em azul. O fio de eletricidade que ligava ele e Ford a Cipher ainda vibrava para longe deles. E ficava mais intenso, o seu corpo vibrava em sintonia. Algo crescia dentro dele, preenchia todo milímetro cúbico dos seus pulmões. Sentiu os cabelos da nuca arrepiarem, ouviu os estalidos de estática crepitar. Sabia o que viria a seguir.

— Para o seu azar, Time Baby — abriu a mão —, eu já desisti de ter uma vida perfeita.

Rápido como um raio, Dipper invocou a sua katana mágica, o cabo se materializando na sua palma. A expressão de “Frank” ficou congelada em espanto – ele estava tão perto e de frente para o garoto que, assim que a arma surgiu, atravessou a sua barriga, a ponta saindo pelas costas.

Ele não ficou ferido. Claro. Era apenas uma projeção astral. O covarde nunca viria pessoalmente. Mas a surpresa foi o suficiente para desestabilizar o seu controle sob a bolha. O holograma de “tio Frank” se dissipou feito névoa diante dos olhos de Dipper. Alguns convidados também sumiram – seus pais, Stanley, Fiddleford e todos que estavam na plateia –, desintegrando-se em fumaça verde. As suas roupas também mudaram: o smoking derreteu pelo seus membros, metamoforseando-se na sua capa preta com capuz, pelos se encheram no seu queixo em timelapse e formaram uma barba cheia.

Ford se colocou de joelhos, sem ar, mas seguro. Ele tateava o próprio corpo, à procura de ferimentos, mas não havia nenhum. Seu smoking havia evaporado também, substituído pelas roupas que tinha quando fora sequestrado: o sobretudo marrom, os jeans surrados, aquelas galochas imundas e o suéter vermelho. Mesmo em meio ao caos, o coração de Dipper se aquietou. Teve que lutar contra o sorriso. Aquelas roupas combinavam bem mais com quem ele realmente era.

Mabel e Pacífica caíram sentadas no altar, desorientadas após terem sido arrancadas da influência de Time Baby. Pacífica estava com o traje militar camuflado, Mabel com o suéter tricotado por ela mesma, que usava desde o incêndio em Piedmont.

— Vamos — apressou Pacífica. Era como se tivessem virado um botão em seu cérebro. Subitamente ela estava recomeçando de onde parou, um personagem de videogame que havia resetado no checkpoint. Colocou-se de pé e correu para ajudar Mabel a se levantar. — Rápido. Precisamos sair daqui. Antes que ele volte!

Stanford se levantou. Dipper sentiu um aperto no estômago – suas bochechas estavam fundas. Meu Deus, como ele havia emagrecido estando há mais de um mês ali. Então, o semblante perdido dele encontrou sua casa: o rosto de Dipper. Os olhos do tivô se acenderam com um brilho que era ao mesmo tempo triste e feliz, um lampejo de percepção. — Lobinho — ele soprou, lânguido, a mão deslizando pelos pêlos faciais de Dipper. Um sorriso bobo começou a se abrir no rosto de Stanford.

Mason sentiu algo desabrochar dentro dele também, um alívio doce, quente… Sua mão se fechou por cima da de Ford, seus olhos ameaçaram se fechar juntos. O toque dele… quanto tempo, quanto tempo!

O chão tremeu, e todos eles foram sacudidos para a realidade.

Dipper afastou a mão do rosto e entrelaçou os dedos com os de Ford. — Precisamos ir. — Virou-se para Pacífica e Mabel, que se sustentavam abraçadas na treliça do altar. — Me sigam!

Os quatro correram floresta adentro, com Dipper liderando, o fio da conexão Índigo sendo a linha de segurança naquele mundo que desmoronava. Pinheiros se desmontavam em montículos de pó. A grama verde se acinzentava e murchava. O sol poente derretia, parecendo com uma mancha de tinta amarela escorrendo de uma parede. A luz se desfigurou junto, criando sombras quebradas e agourentas pelo bosque.

O caminho terminava nas colinas OVNI de Gravity Falls. Claro que terminava. A linha azul subia até o topo do morro e então se curvava para cima, sumindo em meio às nuvens como uma pipa. Dipper teve um flash do balão vermelho que perdeu quando criança. Era ali. A saída.

Pervertido.

Cachorros.

Doentes.

Eles subiram até o local mais alto da simulação, Dipper hesitou, com o fio enrolado nos seus dedos.

“Você nunca terá uma vida normal fora daqui.”

Prendendo o ar, como se estivesse prestes a mergulhar, ele olhou sobre o ombro, para o olhar ansioso, mas ainda lindo de Stanford.

“Que bom. Eu prefiro que seja essa loucura.”

— Charlie, puxa! — Dipper gritou para o alto, para as nuvens. O fio começou a se esticar.

Uma ventania começou. Folhas secas rodopiando. Lá ao longe, onde ficava a cabana, o cenário se retorcia como água indo pelo ralo, sugando toda a ilusão junto. Os pés deles começaram a deslizar para atrás… seriam tragados junto!

— Rápido! — gritou Dipper, o poder arrepiando todo o seu antebraço.

Houve um clarão, um puxão. O som de algo enorme pocando e entupindo suas orelhas por um segundo. Ele estava deslanchando para fora do monte, alcançando as nuvens como um foguete de quatro de julho e trazendo consigo os outros três, na cauda do cometa azul. De repente, seu corpo atravessou uma película gelatinosa. A realidade se espichou e encolheu ao seu redor, átomos se quebrando e se reagrupando. Borrões de branco e laranja foram se agrupando até virar nuvens, então marrom, terra. Dipper girava ao ar livre. Caiu de cara no deserto do Mindscape, grão de areia arranhando seu corpo.

Estavam fora.

Colocou-se de joelhos, tossindo.

— Funcionou! — Era Bill, que se sentou numa rocha, cansado e aliviado. Estava fraco de tanto manter a conexão.

— Estão de volta! — disse Baeur, espantado. Ajudando Mabel e os outros e se erguerem.

— Dippy! — Mabel correu para abraçá-lo, antes mesmo de Dipper se levantar. Dipper fechou os braços com força ao redor dela. Ela fedia, mas não tinha importância. Um peso de uma tonelada havia deixado o espírito de Mason naquele abraço. Ela estava viva, estava bem. Ele havia conseguido resgatar todo mundo. Ou quase. — Eu achei que nunca mais ia sair de lá.

— Tá tudo bem, estou aqui.

— O que está acontecendo? E-Eu… — De repente, ela se afastou. Os dois trocaram olhares. Ela pareceu consciente de algo a mais, e se envergonhou, desviando o olhar do dele. — Eu entendo agora. Eu me lembro.

A linha temporal passada. A que Dipper havia modificado.

Ela lembrava de tudo agora. E Stanford tamb…

Stanford.

— Ford! — Dipper se levantou num salto, buscando ele aos seus arredores. Atrás deles havia um grande rochedo, que era o lugar camuflado com a entrada do Nightmare Realm, uma miragem. Mas o que Dipper viu em seguida era real. Perfeitamente real.

Seu tio avô Stanford tinha terminado de se erguer com a ajuda de Bauer. Seu corpo estava contra o sol poente, criando uma silhueta dourada ao redor do seu corpo, um halo divino.

Mesmo com o semblante parcialmente sombreado, Dipper conseguiu identificar o brilho no olhar dele assim que os olhos se cruzaram.

Borboletas no estômago.

Palpitações.

E uma vontade enorme de chorar.

Ford.

Ford. Ford. Ford.

Correu ensandecido até ele. Foda-se se Pacífica estava olhando. Foda-se se Mabel sabia.

Aquela era a sua verdade.

Era bizarra, incômoda e tudo menos perfeita.

Mas era o que o fazia feliz.

Era o que tinha o impulsionado até o final.

Abraçou Ford.

Ford o abraçou de volta.

Deviam ter ficado assim por dois minutos inteiros, um chorando no ombro um do outro, incapazes de trocar uma única palavra.

Olharam-se, ainda entrelaçados um no outro, raios de sol atravessando seus corpos. Suas fisionomias pintadas à ouro e choro.

— Você ainda está comigo… — Ford soluçou.

Dipper secou as lágrimas dele com os dedões, ao mesmo tempo acariciando sua face áspera com a barba cheia e grisalha. — Até o fim do mundo.

Stanford descansou sua testa na dele. E ficaram assim por mais um instante, recuperando o ar, recuperando a si mesmos, o tempo perdido, a proximidade, tudo…

Quando se desprenderam um pouco, criando um pouco de coragem para encararem o mundo ao redor, encontraram Bill se aproximando. Orgulho, carência e incerteza triplamente estampadas no corpo dele.

Ainda sem dizer nada, Ford abriu um espaço entre ele e Dipper e esticou o braço.

Cipher entendeu.

Se uniu aos dois.

Os três, abraçados, na imensidão de um mundo hostil, que nunca os aceitaria, mas que os uniu mesmo assim.

Era eles contra o mundo. Literalmente.

Sempre foi. Sempre seria.

Então, um som sequenciado começou a subir do horizonte. Pesado. Opressor.

Passos.

— Desculpe interromper, mas acho que temos um problema — disse Bauer.

Todos olharam na direção do som.

É claro que aquela paz não duraria muito tempo.

É claro.

Aquela era a vida insana de Dipper Pines, afinal.

Há quilômetros de distância, uma formação de pessoas se aproximavam.

Guardas.

Como Dipper queria estar alucinando agora.

Era um batalhão inteiro.

E, acima deles, estava um garoto de roupas sociais e um suéter azul. Flutuando numa aura índigo de energia enquanto liderava a tropa.

Wirt… possuído por Time Baby.

Aquela história ainda não tinha acabado.

Estava longe de acabar.

— Acho que por Time Baby ter nos acessado na bolha, acabamos entregando por acidente nossa localização. — Pacífica correu para a porta da carruagem de Tom. — Precisamos voltar para o Refúgio, avisar Tom e reunir os monstros. Não temos chances contra todos sozinhos. Rápido, temos que correr!

Dipper ficou atônito por um segundo, as pernas ficando bambas. Sabia que era questão de tempo até aquilo acontecer, mas o pânico nunca havia o atingido até agora… porque era real, muito real.

A guerra havia começado.