I. ELA SORRIU PRA MIM.

Riley sempre preferiu o frio.

Não pelo silêncio das manhãs de inverno ou pela maneira do vento queimando a pele, mas por algo mais pessoal, quase secreto. No frio, o corpo se lembrava de si. Cada movimento era calculado, cada respiração era um fio de vapor que provava que estava viva.

Na quadra gelada, onde o mundo se resumia a tacos, patins e respingos de gelo, tudo parecia simples. Ou você corre, ou escorrega. Ou defende, ou leva o gol. Ou finge que não sente ou sente tudo de uma vez.

Naquela tarde, porém, o frio não ajudava. O uniforme colava na pele com uma urgência que a deixava inquieta. O capacete pesava mais do que devia. O ar do vestiário, normalmente tão familiar, com seu cheiro de plástico, suor, e promessas, parecia suspenso, como se algo estivesse prestes a acontecer.

As vozes das colegas se espalhavam ao redor, risos ansiosos, piadas nervosas, a capitã gritando instruções. Mas tudo chegava até ela como através de um vidro.

Porque havia um nome ecoando mais alto na mente de Riley.

Sofi Ortega.

Era a nova atacante do Westside. A que todos diziam ser “o pesadelo das goleiras”. A garota das estatísticas absurdas e dos vídeos que viralizavam.

Riley sabia que era só mais uma jogadora. Uma adversária como tantas outras. Quando olhou para a quadra e a viu no aquecimento, o cabelo preso num coque alto, o taco girando com a leveza de quem dança, o chão pareceu ceder sob seus patins.

Havia algo em Sofi que era difícil de descrever. Não era só técnica. Era o modo como ocupava o espaço, como se o corpo dela soubesse exatamente onde estar, em cada segundo. Uma confiança silenciosa. Uma presença.

E Riley sentiu. Sentiu como se fosse um erro olhar. Parecia ter esbarrado em algo que não devia, mas não conseguiu parar.

Ela olhou.

E olhou de novo.

Até que Sofi virou o rosto, e sorriu. Não um sorriso genérico. Foi um sorriso direto, firme, quase íntimo. Para ela.

Riley congelou.

O coração bateu como um aviso, e não o tipo de batida que antecede um jogo difícil. Foi outra coisa. Uma onda morna subindo do peito, estourando atrás dos olhos, misturando nervoso com beleza, confusão com vontade.

Será que ela percebeu?

Será que aquele sorriso era só cortesia? Um gesto educado, inocente, que só pareceu mais por culpa de sua imaginação?

Ela desviou o olhar rápido demais. Tentou se esconder atrás do capacete, das joelheiras, das fitas que prendiam os punhos, mas era tarde. O estrago estava feito.

Havia um nó em seu estômago. Aquele tipo de sensação que ninguém te ensina o nome. Não era medo de perder. Nem medo de errar. Era o medo de sentir algo novo.

Riley já tinha enfrentado garotas rápidas, fortes, habilidosas. Já tinha vencido jogos, perdido finais, sofrido faltas duras. Já tinha chorado no vestiário e rido até perder o fôlego no ônibus da volta. Mas aquilo? Aquilo era outra coisa.

Ela prendeu o cabelo num rabo de cavalo que puxou forte demais.

Precisava se concentrar. Era a final regional. Seu último campeonato antes do último ano acabar.

Era tudo ou nada.

O técnico falou alguma coisa. Riley assentiu, mesmo sem escutar. Entrou em quadra com os patins deslizando sobre o gelo recém polido. O som das arquibancadas crescia, como o mar agitado. Ela assumiu sua posição no gol.

E então olhou de novo. Porque não conseguiu evitar.

Sofi ainda estava lá. Sorrindo. Parecendo saber de algo. Querendo dizer algo sem usar palavras. Quase como se, por um segundo, naquele campo dividido não houvesse time nenhum. Apenas elas.

Riley não entendeu, mas sentiu. Era algo entre o medo e a vertigem. Algo que começou naquele sorriso e que ainda não tinha terminado.

II. ENTRE O GOL E O OLHAR

O jogo começou e Riley fez o que sempre soube fazer. Segurou a linha de defesa, leu os movimentos, protegeu o gol como se o mundo coubesse ali. Ainda assim, alguma coisa estava fora de lugar.

Ou dentro demais.

Ela via Sofi com o canto dos olhos. Tentava não ver, mas era inútil. Sofi não se destacava, ela envolvia. O corpo leve, o giro certeiro com o taco, o modo como acelerava e parava de repente, parecendo que estava dançando com o gelo. Havia graça em cada passo dela. Uma beleza difícil de ignorar, e impossível de explicar.

Riley sentia a respiração presa sempre que Sofi se aproximava. E Sofi se aproximava muito.

Um ataque. Um passe. Outro. E então, o rosto dela vindo em direção ao gol, o disco deslizando como se soubesse o caminho. Riley defendeu. Um reflexo automático. Ela ouviu palmas da arquibancada, mas o que ficou foi o olhar de Sofi, firme e calmo, segundos antes da jogada.

Não havia provocação. Nem desafio. Só um convite que Riley não sabia decifrar.

___

No intervalo, ela se sentou sozinha no banco, os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos perdidos no brilho do gelo sob as luzes do ginásio.

Ela ouviu passos, mas não virou. Já sabia.

— Você é boa — disse Sofi, atrás dela.

A voz era baixa, sem pressa. As palavras pareciam estar ali só porque tinham vontade de estar.

— Você também — respondeu Riley. O coração batia forte demais para algo tão simples.

Sofi se sentou ao lado, sem pedir. Havia espaço suficiente entre elas, mas Riley sentiu cada centímetro.

— Eu gostei de jogar contra você — disse Sofi, depois de um tempo.

Riley olhou para frente. O vazio da quadra era mais fácil de encarar.

— Por quê?

— Porque você me olha como se soubesse o que eu vou fazer — ela fez uma pausa. — E mesmo assim, às vezes, erra.

Um sorriso escapou dos lábios, sem que ela percebesse.

— Talvez eu queira errar, às vezes.

Silêncio.

Era o tipo de silêncio que não pesa, que só existe para dar espaço ao que não pode ser dito com pressa.

— Você sente isso também? — perguntou Riley, quase em um sussurro.

Sofi não respondeu com palavras. Apenas virou o rosto devagar, os olhos escuros procurando os dela.

Assentiu, uma vez só, lentamente. E bastava.

O treinador gritou o fim do intervalo.

Ambas se levantaram, parecendo voltar de uma longa viagem. Antes de se afastar, Sofi tocou o braço de Riley de leve, em um lembrete.

— Me encontra depois. Perto do vestiário.

Riley apenas assentiu. A voz teria falhado, se tentasse usá-la.

___

Depois do empate de 2x2, as arquibancadas esvaziaram, mas a quadra ainda parecia cheia daquilo que não coube nas jogadas.

Riley esperou. Estava de costas para a parede, os dedos inquietos no bolso da jaqueta.

Sofi apareceu minutos depois, ainda com o uniforme, mas com o cabelo solto agora, os olhos calmos parecendo o fim de um vendaval.

— Achei que talvez você não viesse — disse ela.

— Eu quase não vim — Riley respondeu, sincera. — Mas alguma coisa me trouxe.

Sofi se aproximou. Não havia tensão. Só uma espécie de cuidado, mais como se o espaço entre elas fosse delicado demais para pressa.

— Eu não sei o que é isso — disse Riley, com a voz mais baixa do que pretendia.

— Tudo bem — respondeu Sofi. — Eu também não. A gente pode descobrir.

E então, bem ali, no canto frio da quadra vazia, onde antes só existia o barulho dos patins e o peso dos jogos, uma coisa nova nasceu.

Não um beijo.

Não ainda.

Apenas o toque leve, quase sem querer, de uma mão encostando na outra.

E por agora, isso bastava.

III. DEPOIS DO GELO

A final chegou mais cedo do que Riley queria.

Em outros tempos, o corpo estaria inquieto, com os dedos batendo no banco, a respiração contida entre mantras silenciosos. Ela sempre se preparava assim, decorando táticas como quem tenta domar o próprio medo.

Porém, naquela tarde, enquanto apertava os cadarços dos patins pela terceira vez, os pensamentos estavam em outro lugar.

Não no jogo.

Em depois do jogo.

Havia algo em esperar por Sofi que doía menos do que perder e mais do que vencer.

Riley não sabia o que fazer com isso.

Era um sentimento que ocupava espaço demais e, ainda assim, cabia quieto dentro do peito.

.

As luzes da quadra pareciam mais intensas naquela noite. A arquibancada vibrava. O ginásio inteiro pulsava ao redor, como se o mundo segurasse a respiração junto com elas.

Riley viu Sofi antes do apito. Ela estava aquecendo no lado oposto, as bochechas coradas do esforço, os olhos buscando algo entre o barulho.

Quando se cruzaram, não sorriram. No entanto, foi suficiente.

O jogo foi rápido. Feroz. Cada jogada um corte no tempo. Riley se manteve firme. Não por obrigação, mas porque, no fundo, queria ser lembrada por ela.

Sofi era um raio e Riley a parede onde ele batia.

Dois gols para cada lado. O terceiro veio nos segundos finais. Um desfecho escrito no gelo.

Westside, 3

Frostview, 2.

Quando o cronômetro zerou, Riley caiu de joelhos. Não em frustração, mas em rendição. Ela tinha dado tudo e, por alguma razão, isso bastava.

___

A comemoração explodia ao redor, abraços apertados, gritos, promessas de revanche, mas Riley parecia estar fora do próprio corpo. As pernas ainda tremiam do esforço, o rosto ainda ardia, mas a mente vagava por um ponto específico da quadra. Um ponto que se aproximava.

Ela a viu vindo. Sofi atravessava o caos com uma firmeza tranquila, desviando de atletas, repórteres e técnicos sem pressa, como quem tem algo guardado há tempo demais e decidiu, enfim, entregar. Parou diante dela, os ombros ainda subindo e descendo devagar, ofegante.

. — Você foi uma muralha hoje — disse, com uma voz limpa, baixa, íntima o bastante para silenciar todo o resto.

Riley tentou sorrir, o corpo ainda em recuperação, o coração desalinhado.

— E você quase me quebrou.

Sofi riu. Não como quem vence, mas como quem recebe a resposta que esperava.

— Vem comigo?

Riley assentiu com um gesto pequeno.

Caminharam juntas para fora do gelo, os patins já deixados para trás. O corredor lateral era mais calmo, abafado por luz morna e vozes distantes. Parecia um lugar suspenso no tempo, longe do barulho e das certezas de antes.

Sofi enfiou a mão no bolso do agasalho e tirou algo pequeno. Uma pulseira de tecido trançado, azul-marinho com um fio prateado no centro.

— Eu faço isso quando tô ansiosa. Fiz essa ontem, pensando em você.

Riley a pegou com cuidado, os dedos roçando os dela por um instante. Era um gesto simples, mas havia algo ali que fazia tudo desacelerar.

Sofi baixou os olhos, e por um momento, parecia procurar as palavras dentro do próprio casaco.

— Não sei. Talvez porque eu queria deixar alguma coisa com você. Um pedaço desses dias.

O silêncio que veio não pesava. Preenchia o ar de uma forma mansa, como quando a respiração se acomoda depois de uma corrida longa. Riley olhou para a pulseira, depois para ela. Sentia algo se organizando por dentro, mesmo sem conseguir nomear.

— Eu me senti diferente com você por perto — murmurou, com honestidade crua. — Não sei bem o que é, mas… eu gostei.

Sofi sorriu, os olhos brilhando de um jeito novo. Os dedos distraídos acariciavam a costura da manga do próprio casaco, e havia algo de bonito naquele gesto pequeno.

— Amanhã, depois da aula... tem um café perto do ginásio. É tranquilo e tem um chocolate quente ridiculamente bom.

Riley soltou uma risada curta, sem esforço. O corpo relaxou um pouco.

— Você tá me chamando pra sair?

Sofi deu de ombros, mas o olhar era firme.

— Tô te chamando pra continuar essa conversa. Sem patins. Sem torcida. E com açúcar.

Riley assentiu, os batimentos ainda dançando meio fora de ritmo. E mesmo assim, tudo dentro dela parecia calmo.

— Eu adoraria.

O corredor seguia silencioso, a festa lá fora virando só um eco. Entre as duas, a distância era mínima, e nenhuma delas parecia com pressa de atravessá-la. Sofi se aproximou, o olhar atento, as mãos quietas ao lado do corpo. Quando chegou perto o bastante, falou mais baixo.

— Posso?

Riley apenas fechou os olhos. A cabeça inclinou suavemente, e naquele gesto havia algo mais confiável que qualquer resposta falada.

O beijo foi calmo. Lento no começo, depois mais firme. As mãos de Riley tocaram de leve os punhos do casaco de Sofi, puxando só o suficiente para que o tempo se suspendesse ali. Os lábios se encontraram com cuidado, sem urgência, como se ambas soubessem que havia muito a ser descoberto e que podiam ir aprendendo juntas.

Quando se afastaram, continuaram perto, compartilhando da mesma respiração. Os olhos fechados só mais um pouco.

— Até amanhã? — sussurrou Sofi.

— Até amanhã — respondeu Riley, ainda sentindo o calor do toque na pele.

Elas ficaram mais um momento ali, com aquele gosto doce de começo. Porque o jogo tinha terminado, mas o que havia entre elas estava só começando.

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