No Matter What
3 Capítulo II
Notas iniciais

Andrew andava de um lado para o outro. Algumas de suas fãs já haviam o parado, fazendo com que o garoto mexesse nos cabelos de maneira nervosa enquanto as garotas o puxavam para que ele tirasse algumas fotos. Cécile observava tudo ao longe, um pouco incomodada com a situação. Via as meninas praticamente se jogando nos braços do loiro e como se não bastasse, uma delas era Amélie, que parecia determinada a ter a atenção do garoto para si. Cécile sentiu um aperto no coração, mas a única coisa que fez foi rir com sarcasmo.
— Você é a culpada, Cécile. Foi se apaixonar por um astro adolescente — sussurrou para si mesma, enquanto chacoalhava a cabeça em negativa.
Cécile nunca foi o tipo de garota que se apaixonava facilmente. Aliás, nunca havia se apaixonado. Sentia regularmente um aperto no estômago e um nó na garganta quando presenciava uma cena parecida com aquela que havia acabado de desenrolar segundos atrás. Era algo novo para Cécile e ela poderia afirmar que estava sendo uma experiência um tanto que... desagradável. Não havia contado para ele. Ora, e se não sentisse o mesmo? Se não gostasse dela como ela gosta dele? E se quando se declarasse ele desse risada? E se a sua paixão platônica estragasse a sua amizade? Não, não. Era definitivamente muito arriscado e Cécile sentia que não podia arcar com as consequências.
Enquanto estava perdida em seus pensamentos, Andrew se aproximou da garota a passos rápidos, feliz por ter avistado a amiga na entrada da escola.
— Cécile? — ele chamou, juntando as sobrancelhas ao perceber que a menina nem havia o ouvido.
Passou a mão direita na frente dos olhos castanhos da garota, não recebendo nenhuma resposta. Riu ao constatar o que estava acontecendo. Mais uma vez, Cécile estava sonhando acordada. Ele aproximou o seu rosto do ouvido da menina, gritando o mais alto que podia:
— Cécile!
Cécile deu um pulo, se assustando com o grito. Colocou a mão sobre o coração, o sentindo disparado. Ao ver o Andrew rindo da situação o seu sangue ferveu, e sem aviso prévio, desferiu um soco no ombro do garoto, que rapidamente trocou a sua expressão de divertimento por uma de dor.
— Por que você fez isso? — ele reclamou, enquanto passava a mão pela área que havia sido acertada.
— Por que você fez aquilo! Acho que eu vou ficar surda — rebateu.
— Você estava em um universo paralelo, Ceci. Eu precisava fazer algo para você voltar pra Terra — se defendeu, ao mesmo instante que começava a caminhar ao lado da amiga.
— Poderia simplesmente ter falado: Querida Cécile do meu coração, pode voltar para Terra e alegrar o meu dia?
Andrew pareceu pensar e Cécile revirou os olhos. Por que foi gostar justamente dele?
— Da próxima vez eu faço isso, combinado?
Cécile assentiu, sem muita fé de que isso realmente aconteceria. Os dois caminharam juntos até a sala de aula, subindo degrau por degrau para chegarem no segundo andar, onde as salas ficavam. Ao chegar, os dois se sentaram em seus respectivos lugares, um ao lado do outro enquanto esperavam Eloise e Breno.
Assim que os dois passaram pela porta, Cécile disse:
— Vieram montados de jegue, é?
— Fica na sua, Cécile — Breno reclamou, enquanto se sentava à frente da morena.
— Cécile, você fica tão bonita quando está quieta. Por que não continua assim?
A garota abriu a boca para responder, porém antes que pudesse fazer isso, a professora passou pela porta, fazendo com que a classe inteira se silenciasse.
— Bom dia, classe. Vamos começar com o capítulo oito do livro. Abram na página por favor.
[...]
— Mãe, cheguei!
A casa estava silenciosa como sempre e Cécile sabia que provavelmente a sua mãe estava desacordada. Fechou a porta com cuidado, a trancando logo em seguida. Jogou a sua mochila em qualquer canto e caminhou na direção do sofá, que ficava de costas para a porta da sala. Viu a sua mãe deitada no mesmo com uma garrafa vazia de uma bebida qualquer do seu lado. Cécile suspirou pesadamente. Aquilo estava acontecendo com muita frequência, mas mesmo assim, não conseguia se acostumar com aquela cena.
Se dirigiu para a cozinha, pensando em arrumar algo para comer antes que fosse trabalhar na livraria. Abriu os armários com esperança de encontrar algo, mas a única coisa que encontrou foram barras de cereal vencidas. Novamente, a sua mãe havia se esquecido de comprar comida.
Pegou o bloco de notas e uma caneta em cima do balcão da cozinha, escrevendo em letras grandes e desengonçadas:
Fui trabalhar. Trago comida pra você na volta.
Pegou um ímã na geladeira e prendeu o papel ao metal. Saiu da cozinha se dirigindo para fora da casa. Mesmo que estivesse cansada, ela teria que ir trabalhar, pois tinha certeza que a mãe não havia aberto a livraria naquela manhã. Fazia tempo que ela não trabalhava, e se não fosse por Cécile, provavelmente as duas já teriam falido, pois a pensão que recebiam do pai era pouco e não durava muito tempo.
O caminho até a livraria era felizmente curto e o dia estava bom para caminhar. Ao chegar no estabelecimento, Cécile observou a fachada da mesma. Uma grande janela de vidro do lado esquerdo dava uma visão ampla dos lançamentos do mês. Os livros arrumados de modo organizado eram expostos pela janela para o público que passava ali diariamente. O letreiro era da cor dourada, e o nome Blanc estava escrito em letras elegantes acima da janela de vidro. Tudo era pintado de azul claro, dando um ar simples e charmoso para o pequeno estabelecimento.
Cécile entrou na livraria, virando a placa para indicar que já estava aberta. Ligou as luzes de led colorias que iluminavam os livros, deixando tudo com um aspecto mais divertido e receptivo. Caminhou entre as prateleiras dos livros, vendo se tudo estava em ordem antes que os clientes começasse a chegar.
Depois de acertar tudo, Cécile encarou os uniformes que ela costumava usar. A camisa azul claro com um bordado escrito Blanc estava guardada dentro do balcão. Antigamente, a sua mãe obrigava que ela e o seu pai usassem a camiseta, mas como a senhora Blanc não trabalhava mais na livraria, Cécile aboliu o uso do uniforme, permanecendo sempre com a as suas roupas comuns.
Tirou o celular do bolso da calça jeans, vendo algumas mensagens aparecer em sua tela rapidamente. Alguma delas eram de Eloise, que estava no parque junto de Breno e Andrew. Sem hesitar, Cécile ligou para a loira a fim de explicar o porquê de não poder ir ao passeio junto dos amigos.
— Oi, Elo — Cécile falou, assim que a garota atendeu a sua chamada.
— Ceci, estamos aqui no parque. Vamos no cinema agora e queremos a sua presença.
— Eu não posso. Estou na livraria agora.
— Fale com a sua mãe para te substituir, ela vai entender.
Cécile engoliu em seco. Não havia contado para ninguém os problemas que tinha em casa. O fato da sua mãe passar mais tempo bêbada do que sóbria ainda eram mantidos em sigilo pela garota.
— Eu não... A minha mãe está doente. Não posso sair, sabe que precisamos do dinheiro — disse.
Eloise ficou em silêncio. Cécile estava mal por ter que mentir para os seus amigos, mas ela não se sentia preparada para contar. Torcia para que a amiga caísse mais uma vez em suas mentiras.
— Tudo bem, não se preocupe. Marcamos um outro dia aí vamos nós quatro, combinado?
— Parece ótimo, Eloise.
Cécile encerrou a chamada, devolvendo o seu celular de volta ao bolso da calça e só então percebeu que havia um garoto entre as prateleiras da loja. Arrumou a sua postura quando este se aproximou do caixa com um livro em mãos. Reconheceu-o da escola e tentou achar o seu nome na confusão de sua mente. Seria Louis?
— Problemas? — ele perguntou, se referindo a conversa no celular que ela tivera com Eloise.
— Você nem imagina — ela respondeu, enquanto se abaixava para pegar uma sacola.
Ao erguer-se novamente, Cécile pode observar melhor a imagem do garoto. Ele possuía cabelos escuros, semelhantes com o céu noturno. Os seus olhos eram cinzentos e chamativos. Cécile se lembrou que os dois estudavam na mesma classe, e se sentiu péssima por não ter notado isso antes.
— Bom, sei que nós não conversamos, mas se quiser conversar, podemos fazer isso um dia. Poderíamos ir a algum lugar — os seus olhos estavam esperançosos e um sorriso estava em seus lábios.
Cécile entregou a sacola na mão do menino depois que este lhe entregou o dinheiro. Os seus olhos demonstravam que ela estava surpresa com a atitude dele. Nunca tinha sido chamada para um encontro e não sabia como contornar a situação, já que gostava de Andrew, mas não queria que o garoto soubesse.
— Não sei se eu poderia. Tenho muito trabalho aqui. Como disse, a minha mãe está doente — respondeu, agradecendo mentalmente por não ter gaguejado.
— Tudo bem — disse sorrindo, mas os seus olhos não demonstravam a mesma felicidade — Nos vemos na escola, Cécile.
Ao ver que ele havia saído da livraria, Cécile suspirou aliviada, pousando as duas mãos em sua cabeça. Odiava mentir desse jeito, mas era melhor do que simplesmente fazê-lo passar por uma decepção. Afinal, ela gostava de outra pessoa.
Depois de se convencer que aquilo fora o mais digno a se fazer, Cécile voltou a arrumar alguns livros nas prateleiras. A livraria não estava muito movimentada naquele dia, e até que escurecesse, mais nenhum cliente apareceu.
A garota se dirigiu ao depósito para pegar uma escada. Apoiou a mesma em uma prateleira e subiu até que os degraus acabassem. Tirou a pequena camada de poeira que ali tinha com o espanador. Depois de já ter terminado, olhou no seu relógio de pulso, vendo que faltava apenas uma hora para que pudesse ir embora.
Neste mesmo instante, Cécile ouviu o sino da porta indicar que alguém havia entrado.
— Olá! Alguém aí?
— Estou aqui. Já estou descendo — disse Cécile.
Desceu as escadas rapidamente enquanto se voltava para o balcão. Observou o cliente que acabara de entrar. Era um senhor de idade avançada. Este vestia uma camiseta xadrez e uma calça social bege. Os seus cabelos brancos estavam bem penteados para trás, e um sorriso sereno estava presente em seus lábios.
— No que posso ajudar? — perguntou, retribuindo o sorriso.
— Bom, eu estou procurando alguns livros... Deixe-me ver os nomes — o homem buscou algo em seu bolso, logo revelando que se tratava de um papel amassado.
Entregou para Cécile o papel, que leu os nomes e sorriu, sendo levada para uma de suas lembranças.
— Você está bem, senhorita? — ele perguntou, pousando uma das mãos delicadamente no pulso de Cécile.
— Sim, sim, é só que... Eram os livros preferidos do meu pai — respondeu, se sentindo triste ao se lembrar do pai e de sua infância dourada.
— E o que aconteceu com ele? — perguntou, enquanto acompanhava Cécile que andava pelas prateleiras.
Cécile hesitou, pensando se deveria falar essas coisas a um estranho. Por fim, decidiu contar. Nunca se encontrariam novamente, certo? E além disso, ela precisava tirar um pouco do peso de seus ombros.
— Não, ele não morreu se é isso que está pensando. Ele só mudou muito. Não sei se ainda gosta de ler essas coisas.
O velhinho assentiu e continuou seguindo Cécile, que procurava os livros. Depois de achá-los, os dois voltaram para o balcão, e Cécile finalizou a compra. Vendo a dificuldade que o senhor tinha para segurar os livros, Cécile resolveu ajudá-lo a carregar até que chegasse em casa. Ele recusou de primeira, mas devido à insistência da garota, resolveu deixá-la ajudar.
Cécile fechou a loja alguns minutos mais cedo, porém, não se preocupou com isso. Enquanto os dois andavam pelas ruas de Paris, conversavam sobre várias coisas. O seu nome era Lorenzo, e Cécile descobriu pelas suas histórias que ele havia nascido na Itália, mas desde então, viajava para vários lugares do mundo. A caminhada foi tranquila e quando perceberam, já haviam chegado a pequena casa de Lorenzo.
— Obrigado pela ajuda, Cécile.
— Eu que agradeço. Nossa conversa foi tão boa que até me fez esquecer dos meus problemas — disse Cécile, enquanto sorria para o mais velho — Até mais!
Ao ver Cécile dar as costas, Lorenzo sorriu mais abertamente, sabendo que havia encontrado a escolhida.
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